domingo, 5 de maio de 2024

Misticismo e Lógica e Outros Ensaios II O Lugar da Ciência em uma Educação Liberal

Misticismo e Lógica e Outros Ensaios


Por Bertrand Russell


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[33]II O Lugar da Ciência em uma Educação Liberal


I


A ciência, para o leitor ordinário de jornais, é representada por uma seleção variante de triunfos sensacionais, tais como telégrafos sem fio e aviões, radioatividade e as maravilhas de alquimia moderna. Não é esse aspecto da ciência do qual eu desejo falar. A ciência, nesse aspecto, consiste em destacados fragmentos atualizados (up-to-date), interessantes apenas até que eles sejam substituídos por alguma coisa mais nova e mais atualizada, não revelando nada dos sistemas de conhecimento pacientemente construídos a partir dos quais, quase como um incidente casual, têm surgido os resultados praticamente uteis que interessam ao homem na rua. O comando intensificado sobre as forças da natureza que é derivado a partir da ciência é indubitavelmente uma razão amplamente suficiente para encorajar a pesquisa científica, mas essa razão tem sido tão frequentemente insistida e é tão facilmente apreciada que as outras razões, para a mente igualmente tão importantes, está aptas a serem menosprezadas. É com essas outras razões, especialmente com o valor intrínseco de um hábito científico de mente na formação da nossa perspectiva (outlook) do mundo, que eu deveria estar interessado no que se segue.

O exemplo do telégrafo sem fio servirá para ilustrar a diferença entre os dois pontos de vista. Quase todo o labor intelectual sério requerido para a [34]possibilidade dessa invenção é devido a três homens – Faraday, Maxwell e Hertz. Em camadas alternativas de experimento e teoria, esses três homens construíram a moderna teoria do eletromagnetismo, e demonstraram a identidade da luz com as ondas eletromagnéticas. O sistema que eles descobriram é algo de profundo interesse intelectual, combinando e unificando uma variedade sem fim de fenômenos aparentemente destacados, e exibindo um poder mental cumulativo que não pode senão propiciar deleite para todo espírito generoso. Os detalhes mecânicos que restaram para ser ajustados em ordem de utilizar as descobertas deles em um sistema prático de telégrafo demandaram, sem dúvida, ingenuidade muito considerável, mas não tinham nada daquele alcance amplo e daquela universalidade que poderiam conceder interesse intrínseco como um objeto de contemplação desinteressada.

A partir do ponto de vista do treinamento da mente, de fornecer aquela perspectiva bem informada, impessoal, a qual constitui cultura no bom sentido dessa palavra muito mal usada, parece ser geralmente considerado indisputável que uma educação literária seja superior a uma baseada em ciência. Mesmo os mais calorosos defensores da ciência ficam inclinados a descansarem suas alegações sobre a disputa de que a cultura deveria ser sacrificada à utilidade. Aqueles homens de ciência, quando eles se associam com homens instruídos nos clássicos, ficam inclinados a admitirem, não de maneira meramente polida, mas sinceramente, uma certa inferioridade do seu lado, indubitavelmente compensada pelos serviços que a ciência rende à humanidade, mas mesmo assim real. E, enquanto essa atitude existir em meio aos homens de ciência, ela tende a confirmar a si mesma: os aspectos intrinsecamente valiosos da ciência tendem a ser sacrificados ao meramente útil, e pouca tentativa é feita para preservar aquela análise vagarosa, sistemática, pela qual as qualidades mas finas da mente são formadas e nutridas.

[35]Mas mesmo se há, no fato presente, qualquer semelhante inferioridade como é suposta no valor educacional da ciência, isso, eu acredito, não é a falta da ciência mesma, mas a falta to espírito no qual a ciência é ensinada. Se as suas possibilidades completas fossem compreendidas por aqueles que a ensinam, eu acredito que a sua capacidade de produção daqueles hábitos da mente que constituem a mais elevada excelência mental seria, pelo menos, tão grande quanto aquela da literatura e, mais particularmente, da literatura grega e latina. Ao dizer isso eu não tenho qualquer desejo que seja de desprezar uma educação clássica. Eu mesmo não desfrutei dos seus benefícios, e o meu conhecimento de autores gregos e latinos é derivado quase inteiramente a partir de traduções. Mas eu estou firmemente persuadido de que os gregos merecem toda a admiração que é concedida a eles, e que é uma perda grande e séria não estar familiarizado com os escritos deles. Não é para os atacar, mas para chamar atenção para as excelências negligenciadas na ciência, que eu desejo conduzir o meu argumento.

Contudo, um defeito parece inerente a uma educação puramente clássica – a saber, uma ênfase exclusiva demais sobre o passado. Através do estudo do que absolutamente acabou, e nunca pode ser renovado, um hábito de crítica em relação ao presente e ao futuro pode ser engendrado. As qualidades nas quais o presente se sobressai são qualidades para as quais o estudo do passado não dirige atenção, e para as quais, portanto, o estudante da civilização grega pode facilmente se tornar cego. No que é novo e crescente há aptidão para ser alguma coisa crua, insolente, mesmo um pouco vulgar, o que é chocante para o homem de gosto sensível; trêmulo por causa do contato grosseiro, ele retira-se para os jardins podados de um passado polido, esquecendo-se de que eles foram reclamados do selvagem por homens tão grosseiros e sujo de terra como aqueles a partir dos quais ele recua em seu dia presente. O hábito de ser incapaz de reconhecer o mérito [36]até que ele esteja morto é também apto a ser o resultado de uma vida puramente livresca, e uma cultura baseada inteiramente no passado raramente será capaz de penetrar através das redondezas cotidianas para o esplendor essencial das coisas contemporâneas, ou para a esperança de esplendor ainda maior no futuro.


Meus olhos não viram os homens de outrora;

E agora a época deles passou.

Eu choro – ao pensar que eu não deverei ver

Os heróis da posteridade.”


Assim fala o poeta chinês; mas semelhante imparcialidade é rara na atmosfera mais pugnaz do Ocidente, onde os campeões do passado e futuro lutam uma batalha sem fim, em vez de se combinarem para buscar os méritos de ambos.

Essa consideração, a qual milita não apenas contra o estudo exclusivo dos clássicos, mas contra toda forma de cultura que se tornou estática, tradicional e acadêmica, leva inevitavelmente à questão fundamental: Qual é o objetivo (end) verdadeiro da educação? Mas antes de tentar responder a essa questão, será bom definir o sentido no qual nós devemos usar a palavra “educação.” Para esse propósito, eu deverei distinguir o sentido no qual eu pretendo usá-la a partir de outros dois, ambos perfeitamente legítimos, um mais amplo e outro mais limitado do que o sentido que eu intenciono usar a palavra.

Em sentido mais amplo, a educação incluirá não apenas o que nós aprendemos através de instrução, mas tudo que nós aprendemos através de experiência pessoal – a formação do caráter através da educação de vida. Sobre esse aspecto da educação, vitalmente importante como ele é, eu não direi nada, uma vez que a consideração dele introduziria tópicos bastante entrangeiros à questão com a qual nós estamos preocupados.

Em sentido mais limitado, a educação pode ser confinada à instrução, à comunicação de informação definida sobre [37]vários assuntos, porque tal informação, em e por si mesma, é útil na vida diária. A educação elementar – leitura, escrita e aritmética – é quase inteiramente desse tipo. Mas a instrução, necessária como ela é, per se não se constitui educação no sentido no qual eu desejo considerá-la.

Educação, no sentido no qual eu quero dizer, pode ser definido como a formação, através de instrução, de certos hábitos mentais e de uma certa perspectiva (outlook) sobre a vida e o mundo. Resta perguntar a nós mesmos, quais hábitos mentais e que tipo de perspectiva, podem ser esperados como o resultado de instrução? Quando nós tivermos respondido a essa questão, nós podemos tentar decidir o que a ciência tem para contribuir para a formação dos hábitos e da perspectiva que nós desejamos.

A nossa vida inteira é construída sobre um certo número – não um número muito pequeno – de instintos e impulsos primários. Apenas o que, de alguma maneira, está conectado com esses instintos e impulsos parece-nos desejável ou importante; não há faculdade, quer “razão” ou “virtude” ou seja do que for que ela possa ser chamada, que possa levar a nossa vida ativa e as nossas esperanças para fora da região controlada por esses primeiros motores de todo desejo. Cada um deles é como uma abela rainha, auxiliada por uma colmeia de trabalhadores coletando mel; mas quando a rainha se foi, os trabalhadores definham e morrem, e a células de mel permanecem vazias da doçura esperada. Assim com cada impulso primário no homem civilizado: ele é cercado e protegido por um enxame ocupado de desejos auxiliares derivados, os quais armazenam em seus serviços qualquer mel que o mundo circundante proporciona. Mas se o impulso-rainha morre, a influência mortífera (death-dealing), embora retardada um pouco pelo hábito, espalha-se lentamente através de todos os impulsos subsidiários, e uma inteira extensão de vida torna-se inexplicavelmente incolor. O que anteriormente estava cheio de entusiasmo (zest) e assim, tão obviamente digno de ser feito para que não levantasse [38]questões, agora se tornou aborrecido (dreary) e sem propósito: como um senso de desilusão, nós investigamos o sentido da vida, e decidimos, talvez, que tudo é vaidade. A busca por um significado externo que possa compelir uma resposta interior sempre deve ser desapontada: todo “significado” precisa estar, na base, relacionado com os nossos desejos primários, e quando eles estão extintos, nenhum milagre por restaurar ao mundo o valor que eles refletiam sobre ele.

Portanto, o propósito da educação não pode ser criar nenhum impulso primário que esteja faltando no não educado; o propósito apenas pode ser alargar o escopo daqueles que a natureza humana fornece, aumentando o número e a variedade de pensamentos auxiliares, e mostrando onde a satisfação mais permanente deve ser encontrada. Sob o impulso de um horror calvinista do “homem natural,” essa verdade óbvia tem sido frequentemente demais mal concebida no treinamento dos jovens; a “natureza” tem sido falsamente considerada como excluindo tudo que é melhor naquilo que é natural, e a tentativa de ensinar virtudes tem conduzido à produção de hipócritas atrofiados e deformados em vez de seres humanos crescidos. A partir de semelhantes equívocos em educação, uma psicologia melhor ou um coração mais amável é o começo para preservar a geração presente; portanto, nós temos de não desperdiçar mais palavras sobre a teoria de que o propósito da educação é impedir ou erradicar a natureza.

Mas embora a natureza tenha de suprir a força inicial de desejo, a natureza não é, no homem civilizado, o conjunto espasmódico, fragmentário e, contudo, violento de impulsos que é no selvagem. Cada impulso tem o seu ministro constitucional de pensamento e conhecimento e reflexão, através do qual possíveis conflitos de impulsos são previstos, e impulsos temporários são controlados pelo impulso unificador que pode ser chamado de sabedoria. Dessa maneira, [39]a educação destrói a crueza do instinto e intensifica, através de conhecimento, a riqueza e variedade dos contatos do indivíduo com o mundo exterior, tornando-o não mais uma unidade de luta isolada, mas um cidadão do universo, englobando países distantes, regiões remotas do espaço e vastas extensões do passado e futuro dentro do círculo dos seus interesses. É essa simultânea suavização da insistência do desejo e alargamento do seu escopo que é o principal fim moral da educação.

Estritamente conectado com esse fim moral está o objetivo mais puramente intelectual da educação, o empreendimento para nos fazer ver e imaginar o mundo de uma maneira objetiva, como ele é em si mesmo, até onde for possível, e não meramente através do meio distorcido do desejo pessoal. Sem dúvida, a obtenção completa de uma visão tão objetiva é um ideal, indefinidamente aproximável, mas não efetiva e completamente realizável. A educação, considerada como um processo de formação dos nossos hábitos mentais e da nossa visão sobre o mundo, deve ser julgada exitosa na proporção que os seus resultados aproximam-se desse ideal; quer dizer, na proporção que ela nos concede uma visão verdadeira do nosso lugar na sociedade, da relação da inteira sociedade humana com o seu ambiente não humano, e da natureza do mundo não humano como ela é em si mesma, além dos nossos desejos e interesses. Se esse padrão for admitido, nós podemos retornar à consideração da ciência, investigando até onde a ciência pode contribuir um tal objetivo, e se, de qualquer maneira, ela é superior ao seus rivais na prática educacional.


II


Dois méritos opostos e, à primeira vista, conflitantes pertencem à ciência enquanto em comparação com a literatura e arte. Um, o qual não é inerentemente necessário, mas certamente é verdadeiro [40]no dia presente, é a utilidade quanto ao futuro da realização humana e, em particular, quanto ao trabalho útil que pode ser realizado por qualquer estudante inteligente. Esse mérito, e a perspectiva alegre que ele engendra, impede o que, de outra maneira, poderia ser o efeito deprimente de outro aspecto da ciência, para minha mente também um mérito, e talvez o seu maior mérito – eu quero dizer a irrelevância das paixões humanas e do inteiro aparato subjetivo onde se diz respeito à verdade científica. Cada uma dessas razões para preferir o estudo da ciência requer alguma amplificação, Comecemos com a primeira.

No estudo da literatura ou arte, a nossa atenção está fixado no o passado: os homens da Grécia e da Renascença realizaram mais do que qualquer homem realiza agora; os triunfos das épocas antigas, longe de facilitarem triunfos novos na nossa época, realmente intensificaram a dificuldade de triunfos novos ao tornarem a originalidade de difícil obtenção: não apenas a realização artística não é cumulativa, mas ela até parece depender de um certo frescor e naïvete de impulso e visão que a civilização tende a destruir. Consequentemente, chega-se a que, para aqueles que têm sido nutridos com produções literárias e artísticas de épocas antigas, uma certa rabugice e meticulosidade indevida em relação ao presente, a partir do qual parece não haver fuga, exceto para dentro de vandalismo deliberado que ignora a tradição e a busca por originalidade que alcança apenas o excêntrico. Mas em tal vandalismo não há nada da simplicidade e espontaneidade a partir das quais brota a grande arte: a teoria ainda é a gangrena no seu centro, e a insinceridade destrói as vantagens de uma ignorância meramente pretendida.

O desespero dessa maneira surgindo de uma educação que não sugere nenhuma atividade mental preeminente exceto aquela da criação artística está inteiramente ausente de uma educação [41]que fornece o conhecimento do método científico. A descoberta do método científico, exceto na matemática pura, é uma coisa de ontem; falando de maneira geral, nós podemos dizer que ela data de Galileu. Contudo ele já transformou o mundo, e os seus sucessos prosseguem com velocidade sempre crescente. Na ciência, os homens têm descoberto uma atividade do mais elevado valor, na qual eles não mais são, como na arte, dependentes para o progresso do aparecimento de um gênio cada vez maior, pois na ciência os sucessores erguem-se sobre os ombros dos seus predecessores; onde um homem de gênio supremo inventou um método, mil homens inferiores podem aplicá-lo. Nenhuma habilidade transcendente é requerida para realizar descobertas uteis na ciência; o edifício da ciência necessita dos seus pedreiros, assentadores de tijolos e trabalhadores comuns, assim como os seus capatazes, empreiteiros e arquitetos. Na arte, nada digno de se realizar pode ser realizado sem gênio; na ciência, mesmo uma capacidade muito moderada por contribuir para uma realização suprema.

Em ciência, o homem de gênio real é o homem que inventa um novo método. As descobertas notáveis frequentemente são realizadas pelos sucessores dele, quem podem aplicar o método com vigor renovado, desimpedidos pelo labor anterior de o aperfeiçoar; mas o calibre mental do pensamento requerido para o trabalho deles, por mais que brilhante, não é tão grande quanto aquele requerido pelo primeiro inventor do método. Na ciência, há números imensos de métodos diferentes, apropriados para classes diferentes de problemas; mas acima e além de todos eles, há alguma coisa não facilmente definível, a qual pode ser chamada de o método da ciência. Antigamente, era costumeiro identificá-lo com o método científico e associá-lo com o nome de Bacon. Mas o verdadeiro método indutivo não foi descoberto por Bacon, e o verdadeiro método da ciência [42]é alguma coisa que inclui a dedução tanto quanto a indução, lógica e matemática tanto quanto botânica e geologia. Eu não deverei tentar a tarefa difícil de formular o que é o método científico, mas eu tentarei indicar o temperamento de mente a partir do qual o método científico cresce, o qual é o segundo dos dois méritos que foram mencionados acima como pertencentes à educação científica.

O núcleo da perspectiva científica é uma coisa tão simples, tão óbvia, tão aparentemente trivial, que a menção dela quase excita escárnio. O núcleo da perspectiva científica é a recusa para considerar os nossos próprios desejos, gostos e interesses como propiciando uma chave para o entendimento do mundo. Expresso dessa maneira ousada, isso pode parece nada mais do que um truísmo trivial. Mas lembrá-lo consistentemente, em questões surgindo a partir do nosso partidarismo apaixonado, não é de maneira nenhuma fácil, especialmente onde a evidência disponível é incerta e inconclusiva. Umas poucas ilustrações tornarão isso claro.

Eu entendo que Aristóteles considerava que as estrelas têm de se mover em círculos porque o círculo é a curva mais perfeita. Na ausência de evidência em favor do contrário, ele permitiu-se decidir uma questão de fato através de um apelo a considerações estético-morais. Em um tal caso, está imediatamente óbvio para nós que esse apelo era injustificável. Nós agora sabemos como determinar como um fato a forma na qual os corpos celestes movem-se, e nós agora sabemos que eles não se movem em círculos, ou mesmo em elipses precisas, ou em qualquer outro tipo simples de curvas descritível. Isso pode ser doloroso para um certo anseio por simplicidade de padrão no universo, mas nós sabemos que, na astronomia, tais sentimentos são irrelevantes. Fácil como esse conhecimento agora parece ser, nós o devemos à coragem e intuição dos primeiros inventores do método científico e, mais especialmente, a Galileu.

[43]Nós podemos tomar como outra ilustração a doutrina de Malthus sobre a população. Essa ilustração é muito melhor pelo fato de que a sua doutrina real agora é conhecida ser largamente errônea. Não são suas conclusões que são valiosas, mas o temperamento e método da investigação dele. Como todos sabem, foi a ele que Darwin deveu uma parte essencial da sua teoria da seleção natural, e isso apenas foi possível porque a perspectiva de Malthus era verdadeiramente científica. O seu grande mérito está em considerar o homem não como um objeto de elogio ou culpa, mas como uma parte da natureza, uma coisa com um certo comportamento a partir do qual certas consequências têm de se seguir. Se o comportamento não é bem aquele que Malthus supôs, se as consequências não são bem o que é inferido, que se pode falsificar as conclusões dele, mas isso não prejudica o valor do método. As objeções que foram feitas quando a doutrina dele era nova – que ela era horrível e deprimente, que as pessoas não deveriam agir como ele disse que elas agiam, e assim por diante – foram todas tais como implicadas por uma atitude não científica de mente; como contra todas elas, a calma determinação dele de tratar o homem como um fenômeno natural marca um avanço importante sobre os reformadores do século XVIII e a Revolução.

Sob a influência do darwinismo, a atitude científica em relação ao homem agora se tornou bastante comum, e, para algumas pessoas, é bastante natural, embora, para a maioria, ainda seja uma contorção intelectual difícil e artificial. Contudo, há um estudo que está quase inteiramente intocado pelo espírito científico – eu quero dizer, o estudo da filosofia. Os filósofos e o público imaginam que o espírito científico tem de permear as páginas que abundam com alusões a íons, citoplasmas (germ-plasms) e os olhos de marisco (shell-fish). Mas o demônio pode citar a Escritura, assim o filósofo pode citar a ciência. O espírito científico não é um caso de [44]citação, de externamente adquirir informação, não mais do que as maneiras são um caso do livro de etiqueta. A atitude científica da mente envolve um varrer para longe dos interesses do desejo de conhecer todos os outros desejos – ela envolve a supressão de esperanças e medos, amores e ódios, e a inteira vida emocional subjetiva, até que nós nos tornemos subjugados pelo material, capazes de o enxergar francamente, sem preconcepções, sem vieses, sem nenhum desejo exceto de o enxergar como ele é, e sem qualquer crença de que ele tem de ser determinado por alguma relação, positiva ou negativa, com o que nós desejaríamos que ele fosse, ou com o que nós podemos facilmente imaginar que ele seja.

Agora, em filosofia, essa atitude de mente ainda não tem sido alcançada. Um certo egoísmo (self-absorption), não pessoal, mas humana, marcou todas as tentativas de conceber o universo como um todo. A mente, ou algum aspecto dela – pensamento ou vontade ou senciência – tem sido considerada como o padrão segundo o qual o universo deve ser concebido, por nenhuma razão melhor, na base, do que um tal universo não pareceria estranho, e não nos daria o sentimento aconchegante de cada lugar é como a casa. Conceber o universo como essencialmente progressivo ou essencialmente se deteriorando, por exemplo, é conceder às nossas esperanças e aos nossos medos uma importância cósmica que, é claro, pode ser justificada, mas que nós ainda não temos razão para a supor justificada. Até que nós tenhamos aprendido a pensa nisso em termos eticamente neutros, nós não chegamos a uma atitude científica em filosofia; e até que nós tenhamos chegada a uma semelhante atitude, dificilmente se deve esperar que a filosofia alcançara quaisquer resultados sólidos.

Até agora eu tenho falado largamente do aspecto negativo do espírito científico, mas é a partir do aspecto positivo que o valor dele é derivado. O instinto de construtividade, o que é um dos incentivos principais da criação artística, pode encontrar [45]em sistemas científicos uma satisfação mais massiva do que em qualquer poema épico. Curiosidade desinteressada, a qual é a fonte de quase todo esforço intelectual, descobre com extraordinário deleite que a ciência pode revelar segredos que bem poderiam ter parecido para sempre indescobríveis. O desejo por uma vida maior e interesses mais amplos, por uma fuga de circunstâncias privadas, e até do inteiro ciclo humano recorrente de vida e morte, é satisfeito pela perspectiva cósmica impessoal da ciência como nada mais. A tudo isso têm de ser acrescentadas, como contribuindo para a felicidade do homem de ciência, a admiração da realização esplêndida e a consciência da utilidade inestimável para a raça humana. Portanto, uma vida dedicada à ciência é uma vida feliz, e a felicidade dela é derivada a partir da fontes muito melhores que estão abertas aos habitantes desse planeta dificultoso e apaixonado.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

RUSSELL, B. The Place of Science in a Liberal Education. IN:______. Mysticism and Logic and Other Essays. London; Longmans, Green and Co. 1918. pp. 33-45. Disponível em: <https://archive.org/details/mysticismlogicot00russuoft/page/33/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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