A Teoria dos Sentimentos Morais
Por Adam Smith
[xv]Anúncio da Sexta Edição
Desde a primeira publicação da Teoria dos Sentimentos Morais, a qual foi há tanto tempo quanto o começo do ano de 1759, várias correções e muitas boas ilustrações das doutrinas contidas nela têm me ocorrido. Mas as várias ocupações nas quais os diferentes acidentes da minha vida necessariamente me envolveram, até agora, impediram-me de revisar esta obra com o cuidado e a atenção que eu sempre pretendi. O leitor encontrará as principais alterações que eu fiz nesta nova edição no último capítulo da terceira seção da quinta parte; e nos quatro primeiros capítulos da terceira parte. A sexta parte, como ela está nesta nova edição, é completamente nova. Na sétima parte eu combinei a maior parte das diferentes passagens relativas à filosofia estoica, as quais, nas edições anteriores, tinham ficado espalhadas aqui e li em diferentes partes da obra. Da mesma maneira, eu tentei explicar mais completamente, e examinar mais distintamente, algumas das doutrinas daquele [xvi]secto famoso. Na quarta e última seção da mesma parte, eu juntei umas poucas observações adicionais relativas ao dever e ao princípio de veracidade. Além disso, há em outras partes da obra algumas poucas outras alterações e correções de não grande importância.
No último parágrafo da quinta edição da obra presente, eu disse que, em outro discurso, eu deveria tentar dar uma explicação dos princípios gerais do direito e governo, e das diferentes revoluções pelas quais eles passaram nas diferentes eras e períodos de sociedade; não apenas no que concerne à justiça, mas no que diz respeito à polícia, renda, armas e qualquer outro objeto do direito. Na Enquiry concerning the Nature and Causes of the Wealth of Nations, eu executei essa promessa parcialmente; pelo menos enquanto se diz respeito à polícia, rendas e armas. O que resta, a teoria da jurisprudência, a qual eu há muito tenho projetado, eu até aqui tenho sido impedido de executar, pelas mesmas ocupações que até agora tinham me impedido de revisar a presente obra. Embora, eu reconheço, minha idade muito avançada me deixe muito pouca expectativa de alguma vez ser capaz de executar [xvii]essa grande obra para minha própria satisfação; contudo, visto que eu não abandonei completamente o desígnio, e visto que eu ainda continuo sob a obrigação de fazer o que eu posso, eu permiti o parágrafo permanecer como ele estava publicado há mais de trinta anos, quando eu não concebia dúvida de ser capaz de executar tudo que eu tinha anunciado.
Parte I Da Propriedade da Ação
Seção I Do Senso de Propriedade
[1]Capítulo I Da Simpatia
Por mais egoísta que se possa supor o homem, evidentemente há alguns princípios na natureza dele que lhe interessam na fortuna de outros e tornam a felicidade deles necessária para ele, embora ele não derive nada dela, exceto o prazer de a ver. Desse tipo é a pena (pity) ou compaixão (compassion), a emoção que nós sentimos pela miséria de outros, quando nós a sentimos, ou somos feitos concebê-la de uma maneira [2]muito vívida. Que nós frequentemente derivamos sofrimento a partir do sofrimento de outros, é uma questão de fato óbvia demais para requerer quaisquer instâncias para a provar; pois esse sentimento, como todas as paixões originais da natureza humana, não está, de maneira nenhuma, confinado ao virtuoso e humano, embora eles também possam senti-la com a sensibilidade mais intensa. O maior rufião, o mais endurecido violador das leis da sociedade, não está completamente sem ele.
Como nós não temos experiência imediata do que os outros homens sentem, nós não podemos formar ideia da maneira pela qual eles são afetados, exceto através da concepção do que nós mesmos deveríamos sentir em situação semelhante. Embora o nosso irmão esteja sobre a mesa de tortura (rack), enquanto nós mesmos estivermos tranquilos, os nossos sentidos nunca nos informarão do que ele sofre. Eles nunca nos levam, nem podem nos levar, além da nossa própria pessoa, e é apenas através da imaginação que nós podemos formar qualquer concepção de quais são as sensações dele. Nem essa faculdade pode nos ajudar de qualquer outra maneira com isso, do que representando para nós qual seria a nossa própria, se nós estivéssemos no lugar dele. São as impressões dos nossos próprios sentidos apenas, não aquelas dos dele, que as nossas imaginações copiam. Através da imaginação, nós nos posicionamos na situação dele, nós concebemos a nós mesmos suportando todos os mesmos tormentos, nós entramos, por assim dizer, no próprio corpo dele, e, em alguma medida, tornamo-nos a mesma pessoa que ele, e, a partir daí, formamos a mesma ideia das sensações dele, e até sentimos alguma coisa que, embora mais fraca em grau, não é completamente diferente dele. As agonias dele, quando elas são [3]esclarecidas dessa maneira para nós mesmos, quando dessa maneira nós adotamo-las e tornamo-las nossas próprias, começam finalmente a afetar-nos, e então nós trememos e estremecemos diante do pensamento do que ele sente. Pois como a estar em dor ou dificuldade de qualquer tipo excita o sofrimento mais excessivo, assim conceber ou imaginar que nós estamos nisso, excita algum grau da mesma emoção, em proporção à vivacidade ou ao embotamento da concepção.
Que essa é a fonte da nossa simpatia (fellow-feeling) pela miséria de outros, que é ao mudar de lugar na imaginação com o sofredor, que nós chegamos ou a conceber ou a sermos afetados pelo que ele sente, pode ser demonstrado por muitas observações óbvias, se ela não devesse ser considerada suficientemente evidente em si mesma. Quando nós vemos um golpe direcionado e pronto para cair sobre a perna ou o braço de outra pessoa, nós naturalmente nos encolhemos e puxamos para trás a nossa própria perna ou nosso próprio braço; e quando ele cai, nós o sentimos em alguma medida, e somos machucados por ele assim como o sofredor. A multidão, quando eles estão observando um dançarino sobre a corda folgada (slack rope), naturalmente se contorcem e torcem-se e balançam seus próprios corpos, como eles veem ele fazer, e como eles sentem que eles mesmos têm de fazer se na situação dele. Pessoas de fibras delicadas e de uma fraca constituição de corpo, reclamam que, ao olharem para as feridas e úlceras que são expostas por pedintes nas ruas, elas ficam inclinados a sentirem a coceira ou sensação desconfortável na parte correspondente dos seus próprios corpos. O horror que elas concebem diante da miséria daqueles miseráveis afeta aquela parte particular nelas mesmas mais do que qualquer [4]outra; porque esse horror surge a partir de conceberem o que elas mesmas sofreriam, se fossem elas mesmas os miseráveis para quem elas estão olhando, e se essa parte particular nelas mesmas fosse realmente afetada da mesma maneira miserável. A força mesma dessa concepção é suficiente, em seus corpos debeis, para produzir aquela coceira ou sensação desconfortável da qual reclamam. Homens da constituição mais robustas observam que, ao olharem para olhos feridos eles frequentemente sente um ferimento muito sensível nos deles mesmos, o que procede a partir da mesma razão; aquele órgão sendo no homem mais forte mais delicado do que qualquer parte do corpo é no mais fraco.
Nem são apenas essas circunstâncias que criam dor e sofrimento, que nós chamamos de simpatia (fellow-feeling). Qualquer que seja a paixão que surja a partir de qualquer objeto na pessoa principalmente interessada, uma emoção análoga surge, diante do pensamento dessa situação, no peito de cada espectador atento. A nossa alegria pela libertação (deliverance) daqueles heróis de tragédia ou romance que nos interessam, é tão sincera quanto o nosso pesar (grief) pelos sofrimento (distress) deles, e a nossa simpatia com a miséria deles não é menos real do que com a felicidade deles. Nós entramos na gratidão deles em relação àqueles amigos fieis que não os abandonaram em suas dificuldades; e nós pesadamente acompanhamos aquele ressentimento deles contra aqueles traidores pérfidos que os prejudicaram, abandonaram ou enganaram. Em cada paixão à qual a mente do homem está suscetível, as emoções do espectador (by-stander) sempre correspondem ao que, esclarecendo o caso [5]para si mesmo, ele imagina deveria ser os sentimentos do sofredor.
Pena e compaixão são palavras apropriadas para significar a nossa simpatia (fellow-feeling) com o sofrimento de outros. Simpatia (Sympathy), embora o seu significado fosse, talvez, originalmente o mesmo, pode agora, contudo, sem muita impropriedade, ser usada para denotar a nossa simpatia (fellow-feeling) com qualquer paixão que seja.
Em consequência de algumas ocasiões, a simpatia pode parecer surgir a partir da visão de uma certa emoção em outra pessoa. As paixões, em consequência de algumas ocasiões, podem ser transmitidas de um homem para outro, instantaneamente, e anteriormente a qualquer conhecimento do que as excitou na pessoa principalmente interessada. O pesar (grief) e a alegria (joy), por exemplo, fortemente expressos na aparência e gesto de qualquer um, imediatamente afetam o espectador com algum grau de uma emoção dolorosa ou agradável semelhante. Um rosto sorridente é, para todos que o veem, um objeto alegre (cheerful); como um semblante sofredor (sorrowful), por outro lado, é um melancólico.
Contudo, isso não vale universalmente, ou com respeito a toda paixão. Há algumas paixões das quais as expressões não excitam nenhum tipo de simpatia, mas, antes que nós estejamos familiarizados com elas, antes servem para nos desgostar e provocar-nos contra elas. Um comportamento furioso de um homem irado é mais provável de nos exasperar contra ele mesmo do que contra seus inimigos. Como nós não estamos familiarizados com a provocação a ele, nós não podemos esclarecer o caso para nós [6]mesmos, nem conceber coisa nenhuma com as paixões que ela excita. Mas nós claramente vemos qual é a situação daqueles com quem ele está irado, e a que violência eles podem ser expostos a partir de um adversário tão irado. Portanto, nós prontamente simpatizamos com o medo ou ressentimento deles, e ficamos imediatamente dispostos a tomar parte contra o homem a partir de quem eles parecem estar em tanto perigo.
Se as aparências mesmas de pesar e alegria inspiram-nos algum grau de emoções semelhantes, é porque elas sugerem para nós a ideia geral de alguma boa ou má fortuna que ocorreu àquela pessoa na qual nós as observamos; e nessas paixões há suficiente para ter alguma pouca influência sobre nós. Os efeitos do pesar e da alegria terminam na pessoa que sente essas emoções, as quais as expressões não sugerem para nós, como aquelas do ressentimento, a ideia de qualquer outra pessoa por quem elas estão interessadas, e cujos sentimentos são opostos aos dela. Portanto, a ideia geral de boa ou má fortuna cria algum interesse pela pessoa que se se familiarizou com ela, mas a ideia geral de provocação não excita simpatia com a ira do homem que a recebeu. Parece que a natureza nos ensina a sermos mas avessos a entrar nessa paixão, e até informar-nos a causa, para ser dispostos antes a tomar parte contra ela.
Mesmo a nossa simpatia com o pesar ou alegria de outro, antes que nós sejamos informados da causa de qualquer um deles, é sempre extremamente imperfeita. Lamentações gerais, as quais não expressam nada exceto a [7]angústia do sofredor criam antes uma curiosidade para investigar a situação dele, junto com alguma disposição para simpatizar com ele, do que qualquer simpatia que seja muito sensível. A primeira questão que nós perguntamos é, o que aconteceu a você? Até que essa seja respondida, embora nós fiquemos desconfortáveis, tanto a partir da ideia vaga do seu infortúnio, quanto ainda mais a partir de torturar a nós mesmos com conjecturas sobre o que pode ser, contudo, a nossa simpatia é muito pouco considerável.
Portanto, a simpatia não surge tanto a partir da visão da paixão, quanto a partir daquela situação que a excita. Algumas vezes nós sentimos por outro uma paixão da qual ele mesmo parece ser completamente incapaz; porque, nós colocamos a nós mesmos na situação (case) dele, essa paixão surge no nosso peito a partir da imaginação, embora ela não o faça nele a partir da realidade. Nós ruborizamos pela imprudência e rudeza (rudeness) de outro, embora ele mesmo não pareça ter nenhum sentido da impropriedade do seu próprio comportamento; porque nós não podemos evitar de sentir com que confusão nós mesmos deveríamos ser cobertos, tivéssemos nós nos comportado de uma maneira tão absurda.
De todas as calamidades às quais a condição de mortalidade expõe a humanidade, muitas razões aparecem para aqueles que tenham a menor centelha de humanidade, de longe a mais terrível, e aqueles que contemplam o mínimo estágio de miséria (wretchedness) humana, com comiseração mais profunda do que qualquer um. Mas o pobre miserável, quem está nela ri e canta, talvez, e está completamente insensível a sua própria miséria. Portanto, a angústia que a humanidade sente, [8]à vista de um semelhante objeto, não pode ser a reflexão de nenhum sentimento do sofredor. A compaixão do espectador tem de surgir completamente a partir do que ele mesmo sentiria se ele fosse reduzido à mesma situação infeliz, e, que talvez seja impossível, fosse ao mesmo tempo capaz de a considerar com sua razão e seu julgamento presentes.
Quais são as aflições (pangs) de uma mãe, quando ela ouve os gemidos do seu infante que, durante a agonia da doença, não pode expressar o que sente? Na ideia dela do que ele sofre, ela junta, ao seu desamparo (helplessness) real, a sua própria consciência daquele desamparo, e os seus próprios temores pelas consequências desconhecidas da sua desordem; e a partir de todos esses forma, para o seu próprio sofrimento, a imagem mais completa de miséria e sofrimento. Contudo, o infante sente apenas o desconforto do instante presente, o qual nunca pode ser grande. Com respeito ao futuro, está perfeitamente seguro, e em sua ausência de pensamento e a carência de previsão, possui um antídoto contra medo e ansiedade, os grandes tormentos do peito humano, dos quais, razão e filosofia, em vão, tentarão defendê-lo quando ele crescer até um homem.
Nós simpatizamos até com os mortos e, desconsiderando o que é de real importância na situação deles, aquela terrível futuridade que os espera, nós somos principalmente afetados por aquelas circunstâncias que atingem os nossos sentidos, mas que não podem ter influência sobre a felicidade deles. É miserável, nós pensamos, estar privado da luz do sol; estar [9]excluído de vida e conversação; estar deitado no túmulo frio, uma presa para a corrupção e os répteis da terra; para não mais ser do pensamento deste mundo, mas para ser obliterado, em um pouco tempo, das afeições, e quase da memória dos amigos mais queridos e parentes. Certamente, nós imaginamos, nós nunca podemos sentir demais por aqueles que têm sofrido uma calamidade tão terrível. O tributo da nossa simpatia parece ser devido a eles em duplo agora, quando eles estão em perigo de serem esquecidos por todos; e, pelas honras vãs que nós concedemos à memória deles, nós tentamos, para a nossa própria miséria, artificialmente manter viva a memória melancólica do infortúnio deles. Que a nossa simpatia não lhes pode proporcionar nenhum consolo parece ser uma adição à calamidade deles; e pensar que tudo que nós poder fazer é inútil, e que, o que alivia todos os outros sofrimentos, o arrependimento, o amor, e as lamentações dos amigos deles, não pode produzir nenhum conforto para ele, serve apenas para exasperar a nossa sensação da miséria deles. Contudo, muito seguramente, a felicidade dos mortos não é afetada por nenhuma dessas circunstâncias; nem é o pensamento dessas circunstâncias que alguma vez pode perturbar a segurança profunda do repouso deles. A ideia de melancolia sombria e sem fim, a qual a imaginação atribui naturalmente à condição deles, origina-se completamente a partir de nós juntarmos à mudança que tem sido produzida sobre eles a nossa própria consciência dessa mudança, a partir de nós colocarmos a nós mesmos na situação deles, e a partir do nosso alojamento, se eu posso ser permitido dizer isso, das nossas próprias almas [10]vivas em seus corpos inanimados, e, a partir daí, conceber quais seriam as nossas emoções nesse caso. É a partir dessa mesma ilusão da imaginação que a previsão (foresight) da nossa própria dissolução é tão terrível para nós, e que a ideia daquelas circunstâncias, que indubitavelmente não podem nos conceder dor nenhuma quando nós estamos mortos, torna-nos miseráveis enquanto nós estamos vivos. E a partir daí surge um dos princípios mais importantes na natureza humana, o temor dos mortos, o grande veneno para a felicidade, mas a grande restrição sobre a injustiça do gênero humano, o qual, enquanto ele aflige e mortifica o indivíduo, guarda e protege a sociedade.
ORIGINAL:
SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. xv-10. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/xiii/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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