domingo, 12 de maio de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S1C4 O Mesmo Assunto Continuado

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção I Do Senso de Propriedade


Capítulo anterior


[21]Capítulo IV O mesmo assunto continuado


Nós podemos julgar sobre a propriedade ou impropriedade dos sentimentos de outra pessoa pela correspondência ou desacordo com os nossos próprios em duas ocasiões diferentes; ou, primeiro, quando os objetos que os excitam são considerados sem nenhuma relação particular, quer conosco, quer com a pessoa cujo sentimento nós julgamos; ou, segundo, quando eles [22]são considerados como afetando peculiarmente um ou outro de nós.

I. Com respeito àqueles objetos que são considerados sem nenhuma relação peculiar quer conosco mesmos quer com a pessoa cujos sentimentos nós julgamos; sempre que os sentimentos dela corresponderem inteiramente aos nossos próprios, nós atribuímos a ela as qualidades de gosto (taste) e bom julgamento. A beleza de uma planície, a grandeza de uma montanha, os ornamentos de uma construção, a expressão de um retrato, a composição de um discurso, a conduta de uma terceira pessoa, as proporções de quantidades e números diferentes, as várias aparências que a grande máquina do universo está perpetuamente exibindo, com as rodas e molas secretas que as produzem; todos os assuntos gerais da ciência e do gosto são o que nós e nossos companheiros consideramos como não tendo nenhuma relação peculiar com nenhum de nós. Nós dois olhamos para eles a partir do mesmo ponto de vista, e nós não temos ocasião para simpatia, ou para aquela mudança imaginária de situações a partir da qual ela surge, a fim de produzir, com respeito a eles, a mais perfeita harmonia de sentimentos e afeições. Se, a despeito disso, nós somos frequentemente afetados diferentemente, isso surge ou a partir de graus variados de atenção, os quais nossos hábitos diferentes de vida permitem-nos conceder facilmente às várias partes daqueles objetos complexos, ou a partir de graus variados de acuidade natural na faculdade da mente à qual eles são dirigidos.

Quando os sentimentos da nossa companhia correspondem com os nossos próprios em coisas desse tipo, as quais [23]são óbvias e fáceis, e nas quais, talvez, nós nunca encontremos uma única pessoa que diferiu de nos, embora nós, sem dúvida, tenhamos de as aprovar, contudo, ela parece não merecer nem elogio nem admiração por conta deles. Mas quando eles não apenas coincidem com os nossos próprios, mas conduzem e dirigem os nossos próprios; na formação deles ela parece ter prestado atenção a muitas coisas que nós deixamos passar, e tê-los ajustado para todas as várias circunstâncias dos seus objetos; nós não apenas os aprovamos, mas maravilhamo-nos e ficamos surpresos diante da agudeza e compreensibilidade, e ela parece merecer um grau muito elevado de admiração e aplauso. Pois a aprovação intensificada por maravilha e surpresa constitui o sentimento que é apropriadamente chamado de admiração, e do qual o aplauso é a expressão natural. A decisão do homem que julga essa beleza exótica é preferível à maior deformidade, ou que duas vezes dois é igual a quatro, certamente tem de ser aprovado pelo mundo todo, mas certamente não será admirado. É o discernimento agudo e delicado do homem de gosto, quem distingue as diferenças minúsculas e escassamente perceptíveis entre beleza e deformidade; é a precisão compreensiva do matemático experiente que desvenda, com facilidade, as proporções mais intrincadas e perplexas; é o grande líder em ciência e gosto, o homem quem dirige e conduz os seus próprios sentimentos, a extensão e justeza superior cujos talentos surpreendem-nos com maravilha e surpresa, que [24]excitam a nossa admiração e parece merecer o nosso aplauso; e sobre esse fundamento está fundado a maior parte do elogio que é concedido ao que é chamado de virtudes intelectuais.

A utilidade dessas qualidades, pode ser pensado, é que primeiramente as recomenda a nós; e, sem dúvida, a consideração disso, quando se chega a prestar atenção a ela, concede-lhes um novo valor. Contudo, originalmente nós aprovamos o julgamento de outro homem não como alguma coisa útil, mas como correto, como preciso, como concordável com a verdade e realidade: e é evidente que nós atribuímos essas qualidades a ele por nenhuma outra razão exceto porque nós consideramos que ele concorda com o nosso próprio. Dessa maneria, o gosto foi originalmente aprovado não como útil, mas como justo, como delicado, e como precisamente adequado para o seu objeto. A ideia da utilidade de todas as qualidades desse tipo é evidentemente uma reflexão tardia (afterthought), e não o que as recomenda para nossa aprovação.

2. Com respeito àqueles objetos que afetam de uma maneira particular, quer a nós mesmos quer a pessoa cujos sentimentos nós julgamos, é imediatamente mais difícil preservar essa harmonia e correspondência, e, ao mesmo tempo, vastamente mais importante. Minha companhia não naturalmente procura pelo infortúnio que me aconteceu, ou a injúria que foi feita a mim, a partir do mesmo ponto de vista no qual eu as considero. Elas afetam-me muito mais de perto. Nós não as vemos a partir da mesma condição, como nós vemos um retrato, ou um poema, ou um sistema de filosofia, [25]e, portanto, estamos aptos a sermos afetados muito diferentemente por elas. Mas eu posso negligenciar muito mais facilmente a falta dessa correspondência de sentimentos com respeito àqueles objetos indiferentes que não interessam nem a mim nem à minha companhia, do que com respeito aos que me interessam tanto quanto o infortúnio que me ocorreu, ou a injúria que foi feita a mim. Embora você despreze aquele retrato, ou aquele poema, ou mesmo aquele sistema de filosofia, o qual eu admiro, há pouco perigo de brigarmos em consequência dessa consideração. Nenhum de nós pode estar razoavelmente muito interessado neles. Eles todos deveriam ser questões de grande indiferença para ambos nós; de modo que, embora as nossas opiniões possam ser opostas, as nossas afeições ainda podem ser muito quase as mesmas. Mas é bastante de outra maneira com respeito àqueles objetos pelos quais ou você ou eu somos particularmente afetados. A despeito dos seus julgamentos em questões de especulação, a despeito dos seus sentimentos em questões de gosto, serem bastante opostos aos meus, eu posso facilmente deixar passar essa oposição; e se eu tiver algum grau de temperamento, eu ainda posso encontrar algum entretenimento em nossa conversação, mesmo sobre aqueles assuntos mesmos. Mas se você não tem nenhuma simpatia pelos infortúnios com os quais eu me deparei, nenhuma que comporte nenhuma proporção com o pesar que me distrai; ou se você não tem nenhuma indignação diante das injúrias que eu tenho sofrido, ou nenhuma que comporte nenhuma proporção com o ressentimento que me arrebata, nós não mais podemos conversar sobre esses assuntos. Nós nos tornamos intoleráveis um para o outro. Eu não mais posso suportar a sua companhia, nem você [26]a minha. Você fica confuso diante da minha violência e paixão, e eu enfurecido diante da sua indiferença fria e falta de sentimento.

Em todos esses casos, para que pode haver alguma correspondência de sentimentos entre o espectador e a pessoa principalmente interessada, o espectador precisa, primeiro de tudo, tentar, tanto quanto ele puder, colocar-se na situação do outro, e compreender cada pequena circunstância de aflição que possivelmente pode ocorrer ao sofredor. Ele tem de adotar o caso inteiro da sua companhia com todos os seus incidentes minúsculos; e esforçar-se para tornar tão perfeita quanto possível aquela mudança imaginária de situação em consequência da qual a simpatia dele está fundamentada.

Contudo, depois de tudo isso, as emoções do espectador ainda serão muito inclinadas a falharem em alcançar a violência do que é sentido pelo sofredor. A humanidade, embora naturalmente simpática, nunca concebe pelo que aconteceu a outro aquele grau de paixão que naturalmente anima a pessoa principalmente interessada. Aquela mudança imaginária, sobre a qual a simpatia deles é fundada, é apenas momentânea. O pensamento da sua própria segurança, o pensamento de que eles mesmos não são os sofredores, continuamente se intromete sobre eles; e embora isso não os impeça de conceber uma paixão um pouco análoga àquela que é sentida pelo sofredor, impede-os de conceberem qualquer coisa que se aproxime do mesmo grau de violência. A pessoa principalmente interessada é sensível a isso, e, ao mesmo tempo, pateticamente deseja uma simpatia mais [27]completa. Ela anseia por aquele alívio que nada pode lha propiciar senão a inteira concordância das afeições dos espectadores com a sua própria. Ver as emoções dos corações delas, em cada aspecto, regularem-se pelas suas próprias, nas paixões violentas e desagradáveis, constitui a sua única consolação. Mas ela apenas pode ter a esperança de obter isso baixando a sua paixão àquele tom no qual os espectadores são capazes de a acompanhar. Ela tem de achatar, se eu posso ser permitido falar assim, a agudeza do seu tom natural a fim de a reduzir à harmonia e concórdia com as emoções daqueles que estão ao redor dele. De fato, o que eles sentem sempre será, em alguns aspectos, diferente do que ela sente, e a compaixão nunca pode ser exatamente a mesma que o sofrimento original; porque a consciência secreta de que a mudança de situações, a partir da qual o sentimento simpático surge, é apenas imaginária, não apenas a rebaixa em grau, mas, em alguma medida, varia-a em tipo, e concede-lha uma modificação bastante diferente. Contudo, esses dois sentimentos podem, é evidente, ter uma correspondência tão grande um com o outro, como é suficiente para a harmonia da sociedade. Embora eles nunca serão uniformes, eles podem ser concordantes, e isso é tudo que é desejado ou requerido.

Para produzir esse acordo, como a natureza ensina aos espectadores a assumirem as circunstâncias da pessoa principalmente interessada, assim ela ensina essa última a assumir aquelas dos espectadores. Como eles estão continuamente se colocando na situação dela, e, a partir dai, [28]concebendo emoções similares às que ela sente; assim ela está constantemente se colocando na deles, e, a partir dai, concebendo algum grau daquela frieza sobre a sua própria fortuna, com a qual ele é sensível que eles a verão. Como eles estão constantemente considerando o que eles mesmos sentiriam, se eles efetivamente fossem os sofredores, assim ela é como constantemente levada a imaginar de que maneira ela seria afetado se ela fosse apenas um dos espectadores da sua própria situação. Como a simpatia deles faz eles olharem para essa, em alguma medida, com os olhos dela, assim a simpatia dela faz ela olhar para essa, em alguma medida, com os deles, especialmente quando em sua presença e agindo sob a sua observação; e como a paixão refletida, a qual ela dessa forma concebe, é muito mais fraca do que a original, ela necessariamente diminui a violência daquela que ela sentia antes que chegasse à presença deles, antes que ela começasse a lembrar-se de que maneira eles seriam afetados por ela, e a ver a sua situação sob essa luz cândida e imparcial.

Portanto, raramente a mente é tão perturbada, exceto que a companhia de um amigo restaurá-la-a a algum grau de tranquilidade e sedação. Em alguma medida, o peito é acalmado e resolvido (composed) no momento em que nós chegamos à presença dele. Nós somos imediatamente colocados na mente à luz na qual ele verá a nossa situação, e nós começamos a vê-la nós mesmos sob a mesma luz; pois o efeito da simpatia é instantâneo. Nós esperamos menos simpatia a partir de um conhecido comum do que a partir de um amigo: nós não conseguimos revelar para o primeiro todas aquelas pequenas circunstâncias que nós podemos mostrar [29]para o segundo: portanto, nós assumimos mais tranquilidade diante dele, e tentamos fixar nossos pensamentos sobre aqueles contornos gerais da nossa situação que ele está disposto a considerar. Nós esperamos ainda menos simpatia a partir de uma assembleia de estranhos, portanto, nós assumimos ainda maior tranquilidade diante deles, e sempre tentamos rebaixar a nossa paixão àquele tom que, na companhia particular que nós estamos, pode ser esperada acompanhar. Nem isso é apenas uma aparência assumida: pois se nós somos absolutamente mestres de nós mesmos, a presença de um mero conhecido realmente nos resolverá, ainda mais do que aquela de um amigo; e aquela de uma assembleia de estranhos, ainda mais do que aquela de um conhecido.

Portanto, sociedade e conversação são os remédios mais poderosos para restaurar a mente à sua tranquilidade, se, em qualquer momento, ela perdeu-a; assim como os melhores preservadores daquele temperamento igual e feliz, o qual é tão necessário para autossatisfação e prazer. Homens de retiro e especulação, quem estão aptos a permanecerem meditativos em casa em vez de sofrimento ou ressentimento, embora eles possam ter mais humanidade, mais generosidade e um sentimento mais belo de honra, contudo, geralmente possuem aquela igualdade de temperamento que é tão comum em meio aos homens do mundo.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 21-29. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/21/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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