quarta-feira, 1 de maio de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S1C2 Do Prazer da Simpatia Natural

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção I Do Senso de Propriedade


Capítulo anterior


[10]Capítulo II Do Prazer da Simpatia Natural


Mas qualquer que possa ser a causa da simpatia, ou de qualquer maneira que ela possa ser excitada, nada nos agrada mais do que observar em outros homens uma simpatia com todas as emoções do nosso próprio peito; nem ficamos nós alguma vez tão chocados quanto pelo aparência do contrário. Aqueles que estão inclinados a deduzir todos os nossos sentimentos a partir de certos refinamentos do amor-próprio (self-love), não se consideram em dificuldades para explicar, de acordo com os seus próprios princípios, tanto esse prazer quanto essa dor. O homem, dizem eles, consciente da sua própria fraqueza, [11]e da necessidade que ele tem da assistência de outros, regojiza-se sempre que ele observa que eles adotam suas próprias paixões, porque ele então está assegurado da sua assistência; e lamenta-se sempre que ele observa o contrário, porque ele então está seguro da oposição deles. Mas tanto o prazer quanto a dor são sempre sentidos tão instantaneamente, e frequentemente, em consequência de ocasiões tão frívolas, que parece evidente que nenhum deles pode ser derivado a partir de qualquer consideração tão interesseira (self-interested). Um homem fica mortificado quando, após ter tentado distrair a companhia, ele olha em volta e vê que ninguém ri diante das suas piadas, exceto ele mesmo. Pelo contrário, a alegria da companhia é altamente agradável para ele, e ele considera essa correspondência com seus sentimentos com os seus próprios como o maior aplauso.

Nem o prazer dele parece surgir completamente a partir da vivacidade adicional que a alegria dele pode receber a partir da simpatia com a deles, nem a dor dele a partir do desapontamento com o qual ele se depara quando ele perde esse prazer; embora tanto um quanto o outro, sem dúvida, fazem-no em alguma medida. Quando nós temos lido um livro ou poema tão frequentemente que nós não mais podemos encontrar nenhum entretenimento ao lê-lo por nós mesmos, nós ainda podemos ter prazer em o ler para uma companhia. Para ele, ele tem todas as graças da novidade; nós entramos na surpresa e admiração que naturalmente o excitam, mas que não é mais capaz de excitar em nós; nós consideramos todas as ideias que ele apresenta antes à luz sob a qual [12]elas aparecem para ele, do naquela sob a qual elas aparecem para nós mesmos, e nós ficamos entretidos pela simpatia com o entretenimento dele, o qual, dessa maneira, animam o nosso próprio. Pelo contrário, nós deveríamos ficar vexados se ele não parecesse ficar entretido com ele e nós poderíamos não ter mais nenhum prazer na leitura dela. É o mesmo caso aqui. Sem dúvida, a alegria da companhia anima a nossa própria alegria e, sem dúvida, o silêncio deles desaponta-nos. Mas embora isso possa contribuir tanto para o prazer que nós derivamos a partir de um, e para a dor que nós sentimos a partir do outro, de maneira alguma, é a causa única de qualquer um; e essa correspondência dos sentimentos de outros com o nosso próprio parece ser uma causa de prazer, e falta dela uma causa de dor, a qual não pode ser explicada dessa maneira. A simpatia, que meus amigos expressam com minha alegria, poderia, de fato, conceder-me prazer para animar essa alegria: mas aquilo que eles expressam com seu pesar não poderia me conceder nenhum, se ele servisse apenas para animar esse pesar. Contudo, a simpatia anima a alegria e alivia o pesar. Ela anima a alegria apresentando outra fonte de satisfação; e ela alivia o pesar insinuando dentro do coração quase a única sensação agradável que, nesse momento, ele é capaz de receber.

Portanto, deve ser observado que nós ficamos ainda mais ansiosos para comunicar aos nossos amigos as paixões desagradáveis do que as agradáveis, que nós derivamos ainda mais satisfação a partir da [13]simpatia deles com as primeiras do que com as segundas, e que nós ficamos ainda mais chocados pela falta dela.

Como os desafortunados ficam aliviados quando eles encontraram uma pessoa a quem eles podem comunicar a causa do seu sofrimento? Em consequência da simpatia dela eles parecem aliviarem a si mesmos de uma parte do seu sofrimento: não é impróprio dizer que ela o compartilha com eles. Ela não apenas sente um sofrimento do mesmo tipo que aquele que eles sentem, mas, como se ela tivesse derivado uma parte dele para si mesma, o que ela sente parece aliviar o peso do que ele sentem. Contudo, ao relatarem seus infortúnios, de alguma forma, eles renovam seu pesar. Eles despertam em sua memória a lembrança daquelas circunstâncias que ocasionaram a sua aflição. Portanto, suas lágrimas correm mais rápidas do que antes, e eles ficam inclinados a abandonarem a si mesmos à toda fraqueza de sofrimento. Contudo, eles têm prazer em tudo isso e, é evidente, ficam sensivelmente aliviados por isso; porque a doçura da simpatia dela mais do que compensa a amargura daquele sofrimento, o qual, para excitar essa simpatia, eles têm dessa maneira animado e renovado. Por outro lado, o insulto mais cruel que pode ser oferecido ao infeliz, é parecer minimizar as calamidades deles. Parecer não ser afetado pela alegria dos nossos companheiros é apenas falta de polidez; mas não usar um semblante sério quando eles nos contam suas aflições, é desumanidade real e grosseira.

O amor é uma paixão agradável; o ressentimento, uma desagradável; [14]e, portanto, nós não ficamos metade tão ansiosos para que os nossos amigos devam adotar as nossas amizades, quanto que eles deveriam entrar em nossos ressentimentos. Nós podemos perdoá-los embora eles pareçam ficar pouco afetados pelos favores que nós podemos ter recebidos, mas perder toda a paciência se eles parecem indiferentes às injúrias que podem ser causados a nós: nem nós ficamos metade tão irados com eles por não entrarem em nossa gratidão, quanto por não simpatizarem com o nosso ressentimento. Eles podem facilmente ser amigos para nossos amigos, mas dificilmente podem evitar ser inimigos daqueles com quem nós estamos em discordância. Nós raramente nos ressentimos deles serem inimigos dos primeiros, embora, em consequência dessa consideração, nós algumas vezes podemos simular criar uma contenda estranha com eles; mas nós contendemos com eles com boa seriedade se eles vivem em amizade com o último. As paixões agradáveis do amor e da alegria podem satisfazer e suportar o coração sem nenhum prazer auxiliar. As emoções dolorosas de pesar e ressentimento mais fortemente requerem o conforto curador da simpatia.

Quando a pessoa que está principalmente interessada em qualquer evento fica agradada com a nossa simpatia, e magoada pela falta dela, assim nós, também, parecemos ficar agradados quando nós somos capazes de simpatizar com ela, e ficamos magoados quando nós somos incapazes de o fazer. Nós corremos não apenas para congratularmos o exitoso, mas para consolar o afligido; e o prazer que nós encontramos na conversação de alguém com quem em todas as paixões do seu coração nós podemos simpatizar inteiramente, parece fazer [15]mais do que compensar as dores daquele sofrimento com o qual a visão da sua situação afeta-nos. Pelo contrário, é sempre desagradável sentir que nós não podemos simpatizar com ele, e, em vez de ficarmos satisfeitos com essa exceção da dor simpática, magoa-nos descobrir que nós não podemos compartilhar o seu desconforto. Se nós pudermos ouvir uma pessoa lamentando-se intensamente dos seus infortúnios, os quais contudo, após nos familiarizamos, nós sentimos, não pode produzir efeito tão violento sobre nós, nós ficamos chocados diante da sua dor; e, porque nós não conseguimos entrar nela, chamamo-la de pusilanimidade e fraqueza. Por outro lado, dá-nos má disposição ver outro feliz demais ou elevado dela, como nós dissemos, com qualquer pequena parte de boa fortuna. Nós estamos desobrigados com a sua alegria; e, porque nós não podemos acompanhá-la, chamamo-la leviandade e loucura. Nós até podemos ser colocados fora de humor se a nossa companhia ri mais alto ou por mais tempo de uma piada do que nós consideramos que ela merece; quer dizer, do que nós sentimos que nós mesmos poderíamos rir dela.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 10-15. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/10/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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