domingo, 18 de agosto de 2024

Uma Introdução aos Princípios da Moral e Legislação - VI Das Circunstâncias influenciando a Sensibilidade

Uma Introdução aos Princípios da Moral e Legislação


Por Jeremy Bentham


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[43]VI Das Circunstâncias influenciando a Sensibilidade


I. Dor e prazer são produzidos nas mentes dos homens pela ação de certas causas. Mas a quantidade de dor e prazer não flui uniformemente em proporção à causa; em outras palavras, à quantidade de força exercida por uma tal causa. A verdade dessa observação não depende de nenhuma minúcia metafísica na importância concedida aos termos causa, quantidade e força: ela será igualmente verdadeiramente de qualquer maneira que tal força for mensurada.

II. A disposição que cada um tem para sentir uma tal ou tal quantidade de dor, em consequência da aplicação de uma causa ou força dada, é o que nós denominamos de grau ou quantum da sua sensibilidade. Esse pode ser ou geral, referindo-se à soma das causas que agem sobre ele durante um dado período; ou particular, referindo à ação de qualquer causa, ou tipo de causa.

III. Mas na mesma mente tais ou tais causas de dor ou prazer produzirão mais dor ou prazer que tais ou tais outras causas de dor ou prazer: e essa proporção será diferente em mentes diferentes. A disposição que cada um tem para ter a proporção na qual ele é afetado pois tais duas causas, diferentes daquela na qual outro homem é afetado pelas duas mesmas razões, pode ser denominada de qualidade ou viés da sensibilidade dele. Por exemplo, um homem pode ser mais afetado pelos prazeres do gosto; outro por aqueles do ouvido. Também assim se há uma diferença na natureza ou proporção de duas dores ou prazeres que eles respectivamente experienciam a partir da mesma causa; um caso não tão frequente quanto o anterior. Por exemplo, a partir da mesma injúria, um homem pode sentir a mesma quantidade [44]de tristeza e ressentimento junto com outro homem; mas um deles deverá sentir o maior quinhão de tristeza que de ressentimento; o outro, o maior quinhão de ressentimento que de tristeza.

IV. Qualquer incidente que sirva como uma causa, quer de prazer, quer de dor, pode ser denominado de causa excitante: se de prazer, uma causa prazerosa: se de for, um causa penosa (painful), aflitiva ou dolorosa (dolorific)1.

V. Agora, a quantidade de prazer ou de dor, à qual um homem é passível de experienciar em consequência da aplicação de uma causa excitante, uma vez que eles não dependem completamente daquela causa, dependerá em alguma medida de outra circunstância ou outras circunstâncias: essas circunstâncias, quaisquer que elas possam ser, podem ser denominadas de circunstâncias influenciando a sensibilidade2.

VI. Essas circunstâncias aplicar-se-ão diferentemente a diferentes causas excitantes; de tal maneira que, para uma certa causa existente, uma certa circunstância não deverá se aplicar de qualquer maneira, a qual deverá se aplicar com grande força a outra causa existente. Mas sem entrar nessas distinções no presente, pode ser útil resumir todas as circunstâncias que podem ser consideradas influenciar o efeito de qualquer causa excitante. Isso, como em uma ocasião anterior, pode ser tão bom primeiro resumir na maneira mais concisa possível e, depois, atribuir umas poucas palavras para a explicação separada de cada artigo. Elas parecem ser como se seguem: 1. Saúde. 2. Força. 4. Robustez. 4. Imperfeição corporal. 5. Quantidade e qualidade de conhecimento. 6. Força dos poderes intelectuais. 7. Firmeza de mente. 8. Estabilidade de mente. 9. Tendência de inclinação. 10. Sensibilidade moral. 11. Vieses morais. 12. Sensibilidade [45]religiosa. 13. Vieses religiosos. 14. Sensibilidade simpática. 15. Vieses simpáticos. 16. Sensibilidade antipática. 17. Vieses antipáticos. 18. Insanidade. 19. Ocupações habituais. 20. Circunstâncias pecuniárias. 21. Conexões similares à simpatia. 22. Conexões similares à antipatia. 23. Estrutura radical de corpo. 24. Estrutura radical de mente. 25. Sexo. 26. Idade. 27. Posição social. 28. Educação. 29. Clima. 30. Linhagem. 31. Governo. 32. Profissão religiosa3.

VII. 1. Saúde é a ausência de doença e, consequentemente, de todos aqueles tipos de dor que estão entre os sintomas de doença. Um homem pode ser dito estar em um estado de saúde quando ele não está consciente de nenhuma sensação desconfortável, o primeiro lugar da qual pode ser percebido em qualquer ponto do corpo dele4. Na questão de [46]sensibilidade geral, um homem que está sob a pressão de qualquer indisposição corporal, ou, como se diz, está em um mau estado de saúde, é menos sensível à influência de qualquer causa prazerosa, e tão mais assim quanto àquela de qualquer uma aflitiva, do se se ele estivesse bem.

VIII. 2. A circunstância de força, embora, no ponto de origem, rigorosamente conectada com aquela de saúde, é perfeitamente distinguível dela. De fato, o mesmo homem geralmente será mais forte em um bom estado de saúde do que em um mau. Mas um homem, mesmo em um mau estado de saúde, pode ser mais forte do que outro mesmo em um bom estado. Fraqueza é uma companheira comum de doença: mas, em consequência de sua estrutura radical de corpo, um homem pode ser fraco durante toda a vida dele sem experienciar nenhuma doença. A saúde, como nós temos observado, é principalmente uma circunstância negativa: a força é uma positiva. O grau da força de um homem pode ser medido com precisão tolerável5.

IX. 3. Robustez (Hardiness) é uma circunstância que, embora estritamente conectada com aquela da força, é distinguível dela. Robustez é a ausência de irritabilidade. Irritabilidade com respeito à dor, resultando a partir da ação de causas mecânicas; ou à doença, resultando a partir da ação de causas puramente fisiológicas. A irritabilidade, no primeiro sentido, é a disposição para passar por um grau maior [47]ou menor de dor em consequência da aplicação de uma causa mecânica; tal é a maior parte daquelas aplicações pelas quais simples punições aflitivas são infligidas, como chicoteamento, espancamento e semelhantes. No segundo sentido, é a disposição para contrair doença com maior ou menor facilidade, em consequência da aplicação de qualquer instrumento atuante sobre o corpo através das suas propriedades fisiológicas; como no caso das febres, dos resfriados, ou outras doenças inflamatórias, produzidas pela aplicação de ar úmido: ou para experienciar desconforto imediato, como no caso do relaxamento ou frieza produzidos por uma proporção superior ou inferior da matéria de calor.

Robustez, mesmo no sentido no qual ela é oposta à ação de causa mecânicas, é distinguível da força. As indicações externas de força são a abundância e firmeza das fibras musculares: aquelas da robustez, nesse sentido, são a firmeza das fibras musculares e a insensitividade da pele. A força é mais particularmente um dom da natureza: a robustez, da educação. De duas pessoas que tenham tido, um, a educação de um cavalheiro, o outro, aquela de um marinheiro comum, o primeiro será o mais forte, ao mesmo tempo que o outro será o mais robusto.

X. 4. Por imperfeição física pode ser entendida aquela condição na qual uma pessoa está, que, ou está distinguida por qualquer deformidade notável, ou carece de quaisquer daquelas partes ou faculdades que o padrão ordinário de pessoas de mesmo sexo e idade são dotados: por exemplo, quem tem um lábio leporino, é surdo, ou perdeu uma mão. No geral, essa circunstância, como a má saúde, tende a diminuir mais ou menos o efeito de qualquer circunstância prazerosa, e a aumentar aquele de qualquer uma aflitiva. Contudo, o efeito desta circunstância admite grande variedade: na medida que há uma grande variedade de maneiras nas quais um homem pode sofrer em sua aparência pessoal, e em seus órgãos corporais e faculdades: todas diferenças que será consideradas nos seus próprios lugares6.

XI. 5. É o suficiente para as circunstâncias pertencentes à condição do corpo: nós agora chegamos àquelas que dizem respeito à condição [48]da mente: a utilidade da menção dessas será visto depois. Em primeiro lugar, podem ser reconhecidas a quantidade e qualidade do conhecimento que a pessoa em questão acontece de possuir: quer dizer, das ideias que ela efetivamente tem amazenadas, prontas para se recordar ocasionalmente: significando aquelas ideias que são, de uma maneira ou de outra, de uma natureza interessante: quer dizer, de uma natureza, de uma maneira ou de outra, para influenciar a sua felicidade, ou aquela de outros homens. Quando essas ideias são muitas, e de importância, um homem é dito ser um homem de conhecimento; quando poucas, ou não de importância, ignorante.

XII. 6. Por força dos poderes intelectuais pode ser entendido o grau de facilidade que um homem experiencia em suas tentativas para se lembrar tanto daquelas ideias que já foram agregadas ao seu armazém de conhecimento, como de quaisquer outras, as quais, em consequência de qualquer ocasião que pode acontecer, ele pode conceber um desejo para colocar lá. Parece ser em alguma ocasião como esta que as palavras partes e talentos são comumente empregadas. A essa categoria podem ser referidas as várias qualidades de prontidão de apreensão, precisão e tenacidade de memória, força de atenção, clareza de discernimento, amplitude de compreensão, vividez e rapidez de imaginação. No geral, a força dos poderes intelectuais parece corresponder muito exatamente à força geral do corpo: visto que qualquer uma dessas qualidades em particular corresponde a força particular.

XIII. 7. Firmeza de mente, por um lado, e irritabilidade, pelo outro, diz respeito à proporção entre os graus de eficácia com os quais uma causa excitante age sobre um homem, o valor dos quais jaz principalmente na magnitude, e um valor dos quais jaz principalmente na proximidade7. Um homem pode ser dito ser de uma mente firme quando pequenos prazeres ou dores, os quais estão presentes ou próximos, não o afetam, em uma proporção maior ao valor deles, do que prazeres ou dores maiores, os quais são incertos ou remotos8; de uma mente irritável, quando o contrário for o caso.

[49]XIV. 8. Estabilidade diz respeito ao tempo durante o qual uma dada causa excitante de um dado valor continua a afetar um homem quase da mesma maneira e grau que inicialmente, sem evento ou mudança externos atribuíveis de circunstâncias intervenientes para produzir uma alteração em sua força9.

XV. 9. Pela tendência (bent) das inclinações de um homem pode ser entendido a propensão que ele tem para esperar prazer ou dor a partir de certos objetos em vez de outros. As inclinações de um homem podem ser ditas ter uma tendência tal e tal quando, em meio aos vários tipos de objetos que proporcionam prazer em algum grau para todos os homens, ele está inclinado a esperar mais prazer daquele tipo particular do que de qualquer outro tipo particular, ou mais a partir de um dado tipo particular do que outro homem esperaria a partir daquele tipo; ou quando, em meio aos vários tipos de objetos, os quais podem proporcionar prazer para um homem, enquanto que para outro eles não proporcionam nenhum, ele está inclinado a esperar, ou a não esperar, prazer a partir de um objeto de tal ou tal tipo: assim também com respeito às dores. Essa circunstância, embora intimamente conectada com aquela do viés da sensibilidade de um homem, é distinguível dela. A quantidade de prazer ou dor, a qual, em qualquer ocasião, um homem pode experienciar a partir de uma aplicação de qualquer tipo, pode ser grandemente influenciada pelas expectativas que ele tem estado acostumado a entreter de prazer e dor a partir daquele tópico; mas ela não será absolutamente determinada por elas: pois prazer e dor podem ocorrer a ele a partir de um tópico a partir do qual ele não estava acostumado a esperar.

XVI. 10. As circunstâncias da sensibilidade moral, religiosa, simpática e antipática, quando consideradas de perto, parecerão estar incluídas em algum tipo sob aquele da tendência de inclinação. Contudo, [50]por conta da importância particular delas, elas podem ser dignas de serem mencionadas separadamente. A sensibilidade moral de um homem pode ser dita ser forte quando as dores e prazeres da sanção moral10 mostram-se maiores aos olhos dele em comparação com outros prazeres e dores (e, consequentemente, exercem uma influência mais forte) do que aos olhos de pessoas com as quais ele é comparado; em outras palavras, quando se age sobre ele com eficácia maior do que a ordinária pelo senso de honra; ela pode ser dita ser fraca, quando o contrário é o caso.

XVII. 11. Sensibilidade moral parece dizer respeito ao efeito ou à influência médios das dores e dos prazeres da sanção moral, em todos os tipos de ocasiões às quais ela é aplicável, ou acontece de ser aplicada. Ela diz respeito à força ou quantidade média dos impulsos que a mente recebe a partir daquela fonte durante um dado período. O viés moral diz respeito aos atos sobre os quais, em tantas ocasiões particulares, a força dessa sanção é considerada como se agregando. Ele diz respeito à qualidade ou direção daqueles impulsos. Portanto, ela admite tantas variedades quanto há ditames que a sanção moral pode ser concebida promulgar. Um homem pode ser dito ter um viés moral tal ou tal, ou ter um viés moral em favor de uma ação tal ou tal, quando ele é considerado como sendo do número daqueles dos quais a performance é ditada pela sanção moral.

XVIII. 12. O que tem sido dito com respeito à sensibilidade moral pode ser aplicado, mutatis mutandis, à religiosa.

XIX. 13. O que tem sido dito com respeito aos vieses morais pode ser aplicado, mutatis mutandis, aos vieses religiosos.

XX. 14. Por sensibilidade simpática deve ser entendido a propensão que um homem tem para derivar prazer a partir da felicidade, e dor a partir da infelicidade, de outros seres sensitivos. Ela é mais forte quão maior a razão do prazer ou da dor que ele sente por causa deles está para aquela do prazer e da dor que (de acordo com o que parece para ele) eles sentem por si mesmos.

XXI. 15. O viés simpático diz respeito à descrição das partes que são os objetos da simpatia de um homem: e dos [51]atos ou outras circunstâncias de, ou pertencentes a, aquelas pessoas, pelas quais a simpatia é excitada. Essas partes podem ser, 1. Certos indivíduos. 2. Qualquer classe subordinada de indivíduos. 3. A nação inteira. 4. O gênero humano no geral. 5. A inteira criação sensitiva. De acordo com que esses objetos de simpatia sejam mais numerosos, a afeição, pela qual o homem é enviesado, pode ser dita ser a mais alargada.

XXII. 16,17. Sensibilidade antipática e vieses antipáticos são exatamente o inverso da sensibilidade simpática e dos vieses simpáticos. Por sensibilidade antipática deve ser entendido a propensão que um homem tem para derivar dor a partir da felicidade, e prazer a partir da infelicidade, de outros seres sensitivos.

XXIII. 18. A circunstância da insanidade de mente corresponde àquela da imperfeição corporal. Contudo, ela admite muito menos variedade, na medida que a alma é (pois nada nós podemos perceber) uma coisa invisível, não distinguível, como o corpo, em partes. A quais graus menores de imperfeição a mente pode ser suscetível, parece ser compreensível pelas categorias já mencionadas de ignorância, fraqueza de mente, irritabilidade ou instabilidade; ou sobre outras tais que são redutíveis a elas. Aquelas que estão aqui em vista são aqueles graus e espécies extraordinários de imperfeição mental, os quais, sempre que eles ocorrem, são tão perniciosos e inquestionáveis quanto à claudicação e cegueira no copro: operando parcialmente, deveria parecer, através da indução de um grau extraordinário das imperfeições acima mencionadas, parcialmente concedendo uma tendência extraordinária e preponderante às inclinações.

XXIV. 19. Sob a categoria das ocupações presentes de um homem devem ser entendidas, nesta ocasião, tanto aquelas que ele persegue em prol do lucro, como aquelas que ele persegue em prol do prazer presente. A consideração do lucro em si mesmo pertence à categoria das circunstâncias pecuniárias de um homem. É evidente que, se de qualquer maneira, uma punição, ou qualquer outra causa excitante, tem o efeito de colocar fora do poder dele continuar na busca de qualquer ocupação similar, ele deve ser, por causa disso, tão mais perturbador. As ocupações habituais de um homem, [52]embora intimamente conectadas no ponto de causalidade com a tendência das inclinações dele, não devem ser consideradas como precisamente a mesma circunstância. Um entretenimento, ou canal de lucro, pode ser o objeto das inclinações de um homem, o qual nunca foi o assunto das suas ocupações habituais: pois pode ser que, embora ele desejasse recorrer a ele, ele nunca o fez, não estando no poder dele: uma circunstância que pode fazer uma grande quantidade de diferença no efeito de qualquer incidente, pela qual ele acontece de ser excluído dele.

XXV. 20. Sob a categoria das circunstâncias pecuniárias, eu intenciono trazer à vista a proporção que os meios de um homem suporta da suas carências (wants): a soma total desses meios de cada tipo, para soma total das suas carências de cada tipo. Os meios de um homem dependem de três circunstâncias: 1. Sua propriedade. 2. O lucro do seu labor. 3. Suas conexões quanto à forma de suporte. Suas carências parecem depender de quatro circunstâncias. 1. Seus hábitos de despesa. 2. Suas conexões quanto à forma de fardo (burthen). 3. Qualquer demanda casual presente que ele possa ter. 4. A força da sua expectativa. Pela propriedade de um homem deve ser entendido o que quer que ele tenha armazenado independente do seu labor. Pelo lucro do seu labor deve ser entendido o lucro crescente. Quanto ao labor, ele pode ser ou principalmente do corpo, ou principalmente da mente, ou indiferentemente de ambos: nem importa de que maneira, nem em que assunto, ele seja aplicado, contato que ele produza lucro. Pelas conexões de um homem quanto à maneira de suporte, devem ser entendidas as assistências pecuniárias, de qualquer tipo, as quais ele de certa forma recebe de qualquer pessoa que, por qualquer razão que seja e em qualquer proporção que seja, ele tem razão para esperar que deveria ser contribuída gratis para a sua manutenção: tais como parentes, patronos e relações. Parece manifesto que um homem não pode ter nenhum outro meio além desses. O que ele usa, ele deve ter ou de si próprio, ou de outras pessoas: se de outras pessoas, ou gratis ou por um preço. Quanto aos hábitos de despesa, é bem conhecido que os desejos de um homem são governados em grande medida pelos seus hábitos. Muitos são os casos nos quais o desejo (e, consequentemente, a dor de privação conectada [53]com ele11) absolutamente nem mesmo subsistiria, senão por gozo prévio. Pelas conexões de um homem similares fardo, devem ser entendidas qualquer despesa que seja com a qual ele tenha razão para considerar a si mesmo obrigado no suporte daqueles quem, por lei ou por costumes do mundo, são autorizados a buscar obter assistência dele; tais como crianças, relações pobres, servos aposentados, e quaisquer outros dependentes que sejam. Quanto a presente demanda casual, é manifesto que há ocasiões nas quais uma dada soma valerá infinitamente mais para um homem do que a mesma soma em outro tempo: por exemplo, onde um homem está em necessidade de atenção médica extraordinária: ou falta de dinheiro para levar a cabo um processo, do qual tudo depende: ou tem uma subsistência esperando por ele em uma região distante, e quer dinheiro para os custos de transporte. Em tais casos, qualquer peça de boa ou má fortuna, na forma pecuniária, poderia ter um efeito muito diferente do que ela teria tido em qualquer outro tempo. Com respeito à força da expectativa; quando um homem espera ganhar ou manter uma coisa e outra não, é evidente que a circunstância de não a ter afetará a primeira muito diferentemente da segunda; quem, de fato, comumente absolutamente não será afetado por isso.

XXVI. 21. Sob a categoria das conexões de um homem relativas à simpatia, eu traria à vista o número e a descrição das pessoas no bem-estar nos quais ele tem um interesse tão grande, de modo que a ideia da felicidade delas deveria ser produtiva de prazer, e que a infelicidade delas, de dor para ele: por exemplo, a esposa de um homem, seus filhos, seus pais, suas relações e amigos íntimos. É óbvio que essa classe de pessoas incluirá pela maior parte as duas classes de pessoas pelas quais as circunstâncias pecuniárias dele são afetadas: a saber, aquelas a partir dos meios das quais ele pode esperar suporte, e aquelas cujas carências operam sobre ele como um fardo. Mas é óbvio que, além dessas, ela pode muito bem incluir outras, com quem ele não tem nenhuma conexão pecuniária semelhante: e mesmo com respeito àquelas, é evidente que a dependência pecuniária e a união de afeições, são circunstâncias perfeitamente [54]distinguíveis. Portanto, as conexões aqui em questão, independentemente de qualquer influência que elas possam ter sobre as circunstâncias pecuniárias de um homem, têm uma influência sobre o efeito de quaisquer causas excitantes que sejam. A tendência delas é intensificar a sensibilidade geral de um homem; intensificar, por um lado, o prazer produzido por todas as causas prazerosas; por outro lado, a dor produzida por todas as aflitivas. Quando algum incidente prazeroso acontece a um homem, no primeiro momento, ele naturalmente pensa no quê o prazer proporcionará imediatamente para ele mesmo: logo depois, contudo (exceto em uns poucos casos, os quais não são dignos de se insistir aqui) ele começa a pensar no prazer que os amigos deles sentirão ao chegarem a conhecer isso: e esse prazer secundário não é adição comumente mesquinha ao primeiro. Primeiro vem o prazer em relação a si mesmo; então vem a ideia do prazer de simpatia, a qual você supõe que o seu prazer dará origem no peito do seu amigo: e essa ideia excita novamente em você um novo prazer de simpatia, fundamentado no dele. O primeiro prazer, reverberando a partir do seu próprio peito, por assim dizer, um ponto radiante, ilumina o peito do seu amigo: reverberado a partir daí, ele é refletido com calor aumentado para o ponto a partir do qual ele inicialmente procedeu: e assim é com as dores12.

Nem esse efeito depende inteiramente de afeto (affection). Entre as relações próximas, embora não devesse haver nenhuma gentileza, os prazeres e as dores da sanção moral são rapidamente propagados através de um tipo peculiar de simpatia: nenhum artigo, quer de honra quer de desgraça, pode bem cair sobre um homem sem estender-se a uma certa distância dentro do círculo da família dele. O quê reflete honra sobre o pai, reflete honra sobre o filho: o quê reflete desgraça, desgraça. A causa dessa circunstância singular e aparentemente irracional (quer dizer, sua analogia para o resto [55]dos fenômenos da mente humana,) não pertence à discussão presente. É suficiente se o efeito está além de disputa.

XXVII. 22. Das conexões de um homem relativas à antipatia, não há necessidade de qualquer coisa muito particular ser observada. Afortunadamente não há nenhuma fonte primeva e constante de antipatia na natureza humana, como há de simpatia. Não há conjuntos permanentes de pessoas quem são natural e costumeiramente os objetos da antipatia de um homem, como há quem são os objetos do afeto contrário. Contudo, fontes demais de antipatia estão dispostas a brotarem em várias ocasiões durante o curso da vida de um homem; e sempre que elas o fazem, esta circunstância pode ter uma influência muito considerável sobre os efeitos das várias causas excitantes. Por lado, por exemplo, uma punição que tenda a separar um homem daqueles com quem ele está conectado no modo de simpatia, assim, por outro lado, uma que tenda a o forçar à companhia daqueles com quem ele está conectado no modo da antipatia, por causa disso, serão tão muito mais perturbadoras. Deve ser observado que a simpatia mesma multiplica as fontes de antipatia. Simpatia pelo nosso amigo dá origem a antipatia, da parte dele, contra todos aqueles que são objetos de antipatia, assim como simpatia por aqueles que são objetos de simpatia para ele. Da mesma maneira, a antipatia multiplica as fontes de simpatia; embora comumente, talvez, com um menor grau de eficácia. Antipatia contra o inimigo dele está inclinada a dar origem à simpatia, da parte dele, em relação aqueles que são objetos de antipatia, assim como a antipatia contra aqueles são objetos de simpatia, para ele.

XXVIII. 23. É o suficiente sobre as circunstâncias pelas quais o efeito de qualquer causa excitante pode ser influenciado, quando aplicado em qualquer ocasião, em qualquer período dado. Mas além desses incidentes supervenientes, há outras circunstâncias relativas a um homem que podem ter sua influência e que são contemporâneas ao nascimento dele. Em primeiro lugar, parece que na estrutura ou textura originais do corpo de cada homem há alguma coisa que, independentemente de todas as circunstâncias subsequentemente intervenientes, torna-o passível de ser [56]afetado por causas produzindo prazer ou dor corporal, de uma maneira diferente daquela na qual outro homem seria afetado pelas mesmas causas. Portanto, ao catálogo das circunstâncias influenciando a sensibilidade de um homem, nós podemos acrescentar a sua estrutura, textura, constituição ou temperamento originais ou radicais do corpo.

XXIX. 24. No próximo lugar, parece estar muito bem acordado que também há alguma coisa na estrutura ou textura original da mente de cada homem, a qual, independentemente de todas as circunstâncias exteriores e subsequentemente intervenientes, e mesmo da estrutura radical do corpo, tornam-no passível de ser diferentemente afetado pelas mesmas causas excitantes, do que outro homem seria. Portanto, ao catálogo de circunstâncias influenciando a sensibilidade original de um homem, nós podemos acrescentar adicionalmente estrutura, textura, constituição ou temperamento de mente originais ou radicais dele13.

XXX. Parece bastante certo, durante todo esse tempo, que a sensibilidade de um homem para causas produtoras de prazer ou dor, mesmo da mente, pode depender, em um grau considerável, da sua estrutura original e adquirida de corpo. Mas nós não temos razão para pensar que ela possa depender completamente dessa estrutura, uma vez que, por um lado, nós vemos pessoas cuja estrutura de corpo é tão semelhante quanto pode ser concebida, diferindo muito consideravelmente com respeito à sua estrutura mental: e, por outro lado, pessoas cuja estrutura de mente é tão semelhante quanto pode ser concebida, diferindo muito conspicuamente com respeito à sua estrutura corporal14.

[57]XXXI. Também parece indisputável que os diferentes conjuntos de ocorrências externas que podem ocorrer a um homem no curso da vida dele produzirão grandes diferenças na textura subsequente da mente dele em qualquer período dado: contudo, ainda essas diferenças não devem ser unicamente atribuídas a tais ocorrências. Igualmente muito longe da verdade parece estar aquela opinião (se qualquer uma semelhante for mantida) que atribui tudo à natureza, e que atribui tudo à educação. Portanto, as duas circunstâncias ainda permanecerão distintas, tanto uma da outra, quanto de todas as outras.

XXXII. Por mais distintas que elas possam ser, é manifesto que, em nenhum período na parte ativa da vida de um homem pode cada uma delas fazer sua aparência por si mesmas. Tudo que elas fazem é constituir o fundamento latente que as outras circunstâncias supervenientes têm para trabalhar: e qualquer influência que aqueles princípios originais possam ter está tão mudada e modificada e coberta, por assim dizer, por aquelas outras circunstâncias como a nunca serem separadamente discerníveis. Os efeitos de uma influência estão indistinguivelmente misturados com aqueles de outra.

XXXIII. As emoções do corpo são recebidas, e com razão, como indicações prováveis da temperatura da mente. Mas elas estão suficientemente longe de serem conclusivas. Por exemplo, um homem pode exibir as aparências exteriores de tristeza, sem realmente estar triste de qualquer maneira. Oliver Cromwell, cuja conduta indicava um coração mais do que ordinariamente insensível, era igualmente notoriamente profuso em lágrimas15. Muitos homens podem comandar as aparências externas de sensibilidade com muito pouco sentimento real16. O sexo [58]feminino comumente com facilidade maior do que o masculino: consequentemente, a expressão proverbial de lágrimas de uma mulher (a woman’s tears). Ter esse tipo de comando sobre si mesmo era a excelência característica do orador dos tempos antigos, e ainda é aquela do jogador no nosso próprio.

XXXIV. As circunstâncias restantes podem, com referência àquelas já mencionadas, ser denominadas de circunstâncias influenciadoras secundárias. É verdadeiro que essas têm uma influência sobre o quantum ou viés da sensibilidade de um homem, mas é apenas através das outras primárias. A maneira pela qual esses dois conjuntos de circunstâncias são interessadas é tal que as primárias executam a atividade, enquanto que as secundárias jazem mais abertas à observação. Portanto, as secundárias são aquelas das quais mais se ouve; em consideração do que será necessário ter atenção com elas: ao mesmo tempo, que é apenas através das primárias que a influência delas pode ser explicada; visto que a influência das primárias será suficientemente aparente sem nenhuma menção das secundárias.

XXXV. 25. Entre tais modificações primitivas da estrutura corporal que podem parecer influenciar o quantum e viés da sensibilidade, as mais óbvias e conspícuas são aquelas que constituem o sexo. No ponto da quantidade, a sensibilidade do sexo feminino parece no geral ser maior do que aquela do masculino. A saúde do feminino é mais delicada do que aquela do masculino: no ponto da força e robustez de corpo, no ponto da quantidade e qualidade do conhecimento, no ponto da força dos poderes intelectuais, e firmeza da mente, ela é comumente [59]inferior: sensibilidade moral, religiosa, simpática e antipática são comumente mais fortes nela do que no masculino. A qualidade do conhecimento dela, e a tendência das inclinações dela, são comumente, em muitos aspectos, diferentes. Os vieses morais dela também são, em certos aspectos, notavelmente diferentes: castidade, modéstia e delicadeza, por exemplo, são mais valorizados do que coragem em uma mulher; coragem, mais do que qualquer uma daquelas qualidades, em um homem. Os vieses religiosos nos dois sexos não são inclinados a serem notavelmente diferentes; exceto que o feminino é bastante mais inclinado que o masculino para a superstição; quer dizer, para observâncias não ditadas pelo princípio de utilidade; uma diferença que pode ser muito bem explicada por alguma das circunstâncias acima mencionadas. Os vieses simpáticos delas são diferentes em muitos aspectos; pela sua própria prole, durante toda a vida deles, e pelas crianças no geral, enquanto jovens, a afeição dela é comumente mais forte do que aquela do masculino. Os afetos dela estão inclinados a serem menos alargados: raramente se expandido tanto quanto a assumirem o bem-estar do país dela no geral, muito menos aquele do gênero humano, ou da inteira criação sensitiva: raramente englobando qualquer classe ou divisão extensa, mesmo do seus próprios concidadãos, a menos que seja em virtude da simpatia dela por alguns indivíduos particulares que pertençam àquela. No geral, os vieses antipáticos, assim como simpáticos, dela estão inclinados serem menos conformáveis com o princípio de utilidade do que aqueles do masculino; devendo-se principalmente a alguma deficiência no ponto de conhecimento, discernimento e compreensão. As ocupações habituais dela do tipo de diversão são aptas a serem em muitos aspectos diferentes daquelas do masculino. Com respeito às conexões dela em relação à simpatia, não pode haver diferença. No ponto de circunstâncias pecuniárias, de acordo com os costumes de talvez todos os países, ela é, no geral, menos independente.

XXXVI. 26. É claro, a idade está dividida em períodos diversos, o número e limite dos quais de maneira nenhuma estão uniformemente determinados. Para o presente propósito, alguém poderia distingui-la em 1. Infância. 2. Adolescência. 3. Juventude. 4. Maturidade. 5. Declínio. 6. Decrepitude. Seria perda de tempo parar na ocasião presente para examinarmos cada período, e para observarmos as [60]indicações que ele fornece, com respeito às várias circunstâncias primárias há pouco analisadas. Infância e decrepitude são comumente inferiores aos outros períodos, no ponto de saúde, força, dureza e assim por diante. Na infância, na parte do feminino, as imperfeições do sexo são intensificadas: na parte do masculino, as imperfeições ocorrem principalmente similares em qualidade, mas maiores em quantidade, do que aquelas acompanhando os estados da adolescência, juventude e maturidade no feminino. No estágio da decrepitude, ambos os sexos recaem em muitas das imperfeições da infância. A generalidade dessas observações pode ser facilmente corrigida em uma análise particular.

XXXVII. 27. Condição social, ou posição na vida, é uma circunstância que, entre as pessoas civilizadas, comumente passará por uma multiplicidade de variações. Caeteris paribus, o quantum de sensibilidade parece ser maior nas posições superiores de homens do que nas inferiores. As circunstâncias primárias com respeito às quais essa circunstância secundária está apta a induzir ou indicar uma diferença parecem ser principalmente as seguintes: 1. Quantidade e qualidade de conhecimento. 2. Força de mente. 3. Tendência de inclinação. 4. Sensibilidade moral. 5. Vieses morais. 6. Sensibilidade religiosa. 7. Vieses religiosas. 8. Sensibilidade simpática. 9. Vieses simpáticos. 10. Sensibilidade antipática. 11. Vieses antipática. 12. Ocupações habituais. 13. Natureza e produtividade dos meios de subsistência de um homem. 14. Conexões implicando lucro. 15. Hábito de gasto. 16. Conexões implicando fardo. Um homem de uma certa posição frequentemente terá um número de dependentes além daqueles cuja dependência é o resultado de relacionamento natural. Quanto à saúde, força e robustez, se a posição tem qualquer influência sobre essas circunstâncias é apenas de uma maneira remota, principalmente pela influência que ela pode ter sobre suas ocupações habituais.

XXXVIII. 28. A influência da educação é ainda mais extensa. A educação ergue-se sobre uma base uma pouco diferente daquela das circunstâncias de idade, sexo e posição social. Essas palavras, embora a influência das circunstâncias que elas respectivamente denotam exerça a si mesma principalmente, se não inteiramente, através do meio de certas circunstâncias primárias antes [61]mencionadas, presentes, contudo, cada uma delas uma circunstância que tem uma existência separada de si mesma. Isso não é o caso com a palavra educação: a qual não significa nada mais do que ela servir para convocar à visão uma ou outra daquelas circunstâncias primárias. A educação pode ser distinguida em física e mental; a educação do corpo e aquela da mente: a mental, novamente, em intelectual e moral; a cultura do entendimento e a cultura dos afetos. A educação que um homem recebe é dada a ele parcialmente por outros, parcialmente por ele mesmo. Portanto, por educação nada mais pode ser expresso do que a condição na qual um homem está com respeito àquelas circunstâncias primárias, enquanto resultando parcialmente do gerenciamento e artificio de outros, principalmente daqueles que, nos períodos inciais da vida dele, tiveram domínio sobre ele, parcialmente de si próprio. À parte física da educação dele, pertencem as circunstâncias da saúde, força e dureza; algumas vezes, por acidente, aquela da imperfeição corporal; como onde, por intemperança ou negligência, uma injúria irreparável acontece a pessoa dele. À parte intelectual, aquelas da quantidade e qualidade do conhecimento, e, em alguma medida, talvez, aquelas da firmeza de mente e estabilidade. À parte moral, a tendência das inclinações dele, a quantidade e qualidade da sua sensibilidade moral, religiosa, simpática e antipática: para todos os três ramos indiscriminadamente, mas sob o controle superior de ocorrências externas, suas recreações habituais, sua propriedade, seus meios de sobrevivência, suas conexões no modo de lucro e de fardo, e seus hábitos de despesa. De fato, com respeito a todos esses pontos, a influência da educação é modificada, de uma maneira mais ou menos aparente, por aquela de ocorrências exteriores; e de uma maneira escassamente de qualquer maneira aparente e completamente fora do alcance do cálculo, pela textura e constituição originais, tanto do corpo quanto da mente dele.

XXXIX. 29. Entre as circunstâncias externas pelas quais a influência da educação é modificada, as principais são aquelas que são classificadas como clima. Essa circunstância se coloca à frente, e demanda uma denominação separada, não [62]meramente por conta da magnitude da sua influência, mas também por conta dela ser conspícua para todos, e da sua aplicação indiscriminadamente a grandes números de uma vez. Essa circunstância depende para a essência dela da situação daquela parte da terra que está em questão, com respeito ao curso tomado pelo planeta inteiro em sua revolução ao redor do sol: mas, para a influência dela, ela depende da condição dos corpos que compõem a superfície da terra naquela parte, principalmente das quantidades de calor sensível em períodos diferentes, e da densidade, e pureza, e secura ou umidade do ar circundante. Das tão frequentemente mencionadas circunstâncias primárias, há poucas das quais a produção não é influenciada por esta secundária; parcialmente por seus efeitos manifestos sobre o corpo; parcialmente pelos seus efeitos menos perceptíveis sobre a mente. Em climas quentes, a saúde do homem é apta a ser mais precária do que no frio: sua força e dureza, menores: seu vigor, firmeza e estabilidade de mente, menores: e daí, indiretamente, sua quantidade de conhecimento: a tendência das suas inclinações, diferente: mais notavelmente assim na propensão superior deles para prazeres sexuais, e no aspecto da precocidade do período no qual essa propensão começa a manifestar-se: suas sensibilidades de todos os tipos, mais intensas: suas ocupações habituais tendo o sabor mais da preguiça do que da atividade; sua estrutura radical de corpo menos forte, provavelmente, e menos dura: sua estrutura radical de mente, menos vigorosa, menos firme e menos estável.

XL. 30. Outro artigo no catálogo das circunstâncias secundárias é aquele da raça ou linhagem: a raça ou linhagem nacional da qual um homem provêm. Essa circunstância, independentemente daquela do clima, comumente produzirá alguma diferença no ponto da estrutura radical de mente e corpo. Um homem da raça negra, nascido na França ou Inglaterra, é um ser muito diferente, em muitos aspectos de um homem da raça francesa ou inglesa. Um homem da raça espanhola, nascido no México ou Peru, é, na hora do seu nascimento, um tipo diferente de ser, em muitos aspectos, de um homem da raça original mexicana ou peruana. Essa circunstância, até onde é distinta do clima, posição e educação, e das outras duas [63]há pouco mencionadas, opera principalmente através do meio de vieses morais, religiosos, simpáticos e religiosos.

XLI. 31. A última circunstância exceto uma é aquela do governo: o governo sob o qual um homem vive no momento em questão; ou antes aquele sob o qual ele tem estado mais acostumado a viver. Esta circunstância opera principalmente através do meio da educação: o magistrado operando no caráter de um tutor sobre todos os membros do estado, através da direção que ele concede às suas esperanças e aos seus medos. De fato, sob um governo solicito e atento, o preceptor ordinário, ou melhor, até o pai mesmo, é apenas um representante, por assim dizer, para o magistrado: cuja influência controladora, diferente nesse aspecto daquela do preceptor ordinário, habita em um homem até o fim da vida dele. Os efeitos do poder peculiar do magistrado são vistos mais particularmente na influência que ele exerce sobre o quantum e o viés das sensibilidades moral, religiosa, simpática e antipática dos homens. Sob um governo bem constituído, ou até sob um bem administrado através de uma mal constituído, a sensibilidade moral dos homens é comumente mais forte, e seus vieses morais mais conformáveis aos ditames da utilidade: sua sensibilidade religiosa, frequentemente mais fraca, mas os seus vieses religiosos mais conformáveis aos ditames da utilidade: seus afetos simpáticos mais alargados, dirigidos para o magistrado mais do para partidos pequenos ou para indivíduos, e mais para o todo da comunidade do que para qualquer um: suas sensibilidades antipáticas, menos violentas, visto que sendo mais obsequiosas para a influência bem dirigida de vieses morais, e menos aptos a serem excitados por algumas religiosas mal dirigidas: seus vieses antipáticos mais conformáveis a alguns morais bem dirigidos, mas aptos (em proporção) a estarem fundamentados sobre afetos alargados e simpáticos do que sobre estreitos e autorreferenciais, e, portanto, no todo, mais conformáveis aos ditames da utilidade.

XLII. 32. A última circunstância é aquela da profissão religiosa: a profissão religiosa de um homem é a fraternidade religiosa da qual ele é um membro. Esta circunstância opera principalmente através do meio da sensibilidade e dos [64]vieses religiosos. Contudo, ela opera como uma indicação mais ou menos conclusiva com respeito a várias outras circunstâncias. Com respeito a algumas, escassamente, exceto através do meio das duas há pouco mencionados: esse é o caso com respeito ao quantum e viés da sensibilidade moral, simpática e antipática de um homem: talvez em alguns casos com respeito à quantidade e qualidade do conhecimento, força dos poderes intelectuais e tendência de inclinação. Com respeito a outras, ela pode operar imediatamente de si mesma: esse parece ser o caso com respeito às ocupações habituais, circunstâncias pecuniárias e conexões no modo de simpatia e antipatia de um homem. Um homem que concede muito pouca consideração aos ditames da religião que ele considera necessário professar pode considerar difícil evitar juntar-se às cerimônias dela e suportar uma parte nos fardos pecuniários que ela impõe17. Pela força do hábito e exemplo ele pode até ser levado a acolher uma parcialidade por pessoas da mesma profissão, e uma antipatia proporcional contra aquelas de uma rival. Em particular, a antipatia contra pessoas de persuasões diferentes é um dos últimos pontos dos quais os homens tomam parte. Por último, é óbvio que a profissão religiosa de um homem não pode senão ter uma influência considerável sobre a educação dele. Mas, considerando a importância do termo educação, dizer isso talvez não seja nada mais do que dizer em outras palavras o que já foi dito.

XLIII. Essas circunstâncias, todas ou muitas delas, terão de ser observadas tão frequentemente quando, em consequência de qualquer ocasião, qualquer conta é tomada de qualquer quantidade de dor ou prazer, como resultando a partir de qualquer causa. Alguma pessoa recebeu uma injúria? Elas terão de ser consideradas na estimativa do dano da ofensa. A reparação deve ser feita a ela? Elas deverão ser observadas para [65]o ajuste do quantum dessa reparação. Deve o injuriador ser punido? Elas terão de ser consideradas na estimativa da força da impressão que será produzida nele por qualquer punição.

XLIV. Deve ser observado que, embora todas elas pareçam, em uma ou outra consideração, merecer um lugar no catálogo, todas elas não são de uso igual na prática. Artigos diferentes entre elas são aplicáveis a diferentes causas existentes. Daquelas que podem influenciar o efeito da mesma causa excitante, algumas se aplicando indiscriminadamente a classes inteiras de pessoas juntas; sendo aplicáveis a todas, sem nenhuma diferença notável em grau: essas podem ser direta e bastante completamente ser fornecidas pelo legislador. Por exemplo, esse é o caso com as circunstâncias primária de imperfeição corporal e insanidade: com a circunstância secundária do sexo: talvez com aquela da idade: de qualquer maneira com aquelas da posição social, do clima, da linhagem e da profissão religiosa. Outras, por mais que elas possam aplicar-se a classes inteiras de pessoas, contudo, em sua aplicação a indivíduos diferentes, talvez, sejam suscetíveis a uma variedade indefinida de graus. Essas não podem ser completamente previstas pelo legislador; mas, como a existência delas, em todo tipo de caso, é capaz de ser determinada, e o grau no qual elas acontecem é capaz de ser medido, preparação pode ser realizada para elas pelo juiz, ou outros magistrados executivos, a quem os vários indivíduos que acontecem de estar interessados podem ser tornados conhecidos. Esse é o caso, 1. Com a circunstância da saúde. 2. em algum tipo com aquela da força. 3. Escassamente com aquela da dureza: ainda menos com aquelas da quantidade e qualidade do conhecimento, força dos poderes da inteligência, firmeza e estabilidade da mente; exceto até onde a condição de um homem, com respeito a essas circunstâncias, pode ser indicada pelas circunstâncias secundárias de sexo, idade ou posição social; dificilmente com aquela da sensibilidade ou vieses morais de um homem, exceto até onde eles podem ser indicados por sexo, idade, posição social e educação: de maneira nenhuma com a sensibilidade e [66]vieses religiosos dele, exceto até onde elas podem ser indicados pela profissão religiosa a qual ele pertence: de maneira nenhuma com a quantidade ou qualidade das sensibilidades simpáticas ou antipática, exceto até onde elas podem ser presumidas a partir do seu sexo, idade, posição social, educação, linhagem ou profissão religiosa. Contudo, esse é o caso com suas ocupações habituais, com suas circunstâncias pecuniárias e com suas conexões relativas à simpatia. De outras, novamente, quer a existência não pode ser determinada, quer o grau não pode ser medido. Portanto, essas não podem ser levadas em consideração, quer pelo legislador, quer pelo magistrado executivo. Portanto, elas não teriam reivindicação a serem observadas, não fossem aquelas circunstâncias secundárias pelas quais elas são indicadas, e cuja influência não poderia ser bem entendida sem elas. Quais são essas, já foi mencionado.

XLV. Já foi observado que diferentes artigos nesta lista de circunstâncias aplicam-se a diferentes causas existentes: por exemplo, a circunstância da força corporal, escassamente tem qualquer influência de si mesma (seja qual for que ela possa ter de uma maneira desviada e por acidente) sobre o efeito de um incidente que deveria aumentar ou diminuir o quantum da propriedade de um homem. Resta a ser considerado, quais causas excitantes estão com aquelas que o legislador tem a ver. Por um acidente ou outro, essas podem ser quaisquer que sejam: mas aquelas com as quais ele tem principalmente a ver são aquelas do tipo doloroso ou aflitivo. Com as prazerosas, ele tem pouco a ver, exceto agora e então por acidente: as razões do que podem ser facilmente percebidas de maneira suficiente, ao mesmo tempo que tomaria muito espaço desdobrá-las aqui. As causas excitantes com as quais ele tem principalmente a ver, são, por um lado, os atos perniciosos, o quê é a tarefa dele evitar; por outro lado, as punições, pelo terror dos quais é o empreendimento dele evitá-las. Agora, desses dois conjuntos de causas existentes, apenas o segundo é de produção dele, sendo produzido parcialmente pela sua própria indicação especial, parcialmente em conformidade com a sua indicação geral, pela indicação especial do juiz. Portanto, para o legislador, assim como [67]para o juiz, é necessário (se eles desejassem saber o quê eles estão fazendo quando eles estão indicando punição) ter um olho para todas essas circunstâncias. Pois o legislador, intencionando aplicar uma certa quantidade de punição a todas as pessoas que deverão se colocarem em uma dada condição, com receio de que ele deveria aplicar inconscientemente a algumas daquelas pessoas muito mais ou muito menos do que ele mesmo intencionava: pois o juiz, na aplicação a uma pessoa particular uma medida particular de punição, deveria aplicar muito mais ou muito menos do que era intencionada, talvez por ele mesmo, e, de qualquer maneira, pelo legislador. Portanto, eles deveriam ter diante de cada um deles, por um lado, uma lista das várias circunstâncias pelas quais a sensibilidade pode ser influenciada; por outro lado, uma lista das várias espécies e graus de punição que ele tem o propósito de fazer uso: e então, fazendo uma comparação entre as duas, formar uma estimativa detalhada da influência de cada uma das circunstâncias em questão, em consequência do efeito de cada espécie e grau de punição.

Há dois planos ou duas ordens de distribuição, cada um dos quais poderia ser buscado na extração dessa estimativa. Um é fazer o nome da circunstância tomar a liderança e, sob ele, representar as diferentes influências que ela exerce sobre os efeitos dos vários modos de punição: o outro é fazer o nome da punição tomar a liderança, e sob ele representar as diferentes influências que são exercidas sobre os efeitos dela pelas várias circunstâncias acima mencionadas. Agora, desses dois tipos de objetos, a punição é aquele para o qual a intenção do legislador está dirigida na primeira instância. Isso é da sua própria criação, e será seja o que for que ele considerar adequado produzir; a influência das circunstâncias existe independentemente dele e ela é o que ela é, queira ele ou não. O que ele tem ocasião para fazer é estabelecer uma certa espécie e grau de punição; e é apenas com referência a essa punição que ele tem ocasião de fazer qualquer investigação relativa à qualquer circunstância aqui em questão. Portanto, o último dos dois é o que parece de longe o mais útil e [68]cômodo. Mas nem sobre um nem sobre o outro pode qualquer tal estimativa ser entregue aqui18.

XLVI. Das várias circunstâncias contidas neste catálogo, pode ser útil fornecer algum tipo de visão analítica; a fim de que possa ser mais facilmente descoberto se qualquer uma que deveria ter siso inserida for omitida; e que, com respeito àquelas que são inseridas, possa ser visto como elas diferem e concordam.

Em primeiro lugar, elas podem ser distinguidas em primárias e secundárias: aquelas podem ser denominadas de primárias, as quais operam imediatamente de si mesmas: aquelas secundárias, as quais não operam exceto pelo meio da anterior. A essa última categoria pertencem as circunstâncias de sexo, idade, posição social na vida, educação, clima, linhagem, governo e profissão religiosa: o resto são primárias. Novamente, essas são ou inatas ou adventícias: aquelas que são inatas são a estrutura radical do corpo e a estrutura radical da mente. Aquelas que são adventícias são ou pessoais ou exteriores. As pessoais, novamente, dizem respeito ou à disposição ou às ações do homem. Aquelas que dizem respeito às suas disposições, dizem respeito ou ao corpo ou à mente dele. Aquelas que dizem respeito ao corpo dele são saúde, força, robustez e imperfeição corporal. Aquelas que dizem respeito a mente dele, novamente, dizem respeito ou ao seu entendimento ou às suas afeições. À primeira categoria pertencem as circunstâncias de quantidade e qualidade de conhecimento, força de entendimento e insanidade. À segunda pertencem as circunstâncias de firmeza de mente, estabilidade, tendência de inclinação, sensibilidade [69]moral, vieses morais, sensibilidade religiosa, vieses religiosos, sensibilidade simpática, vieses simpáticos, sensibilidade antipática e vieses antipáticos. Aquelas que dizem respeito às suas ações são suas ocupações habituais. Aquelas que são exteriores a ele, dizem respeito ou às coisas ou às pessoas nas quais ele está interessado; pertencem à primeira categorias suas circunstâncias pecuniárias19; à segunda, suas conexões em relação à simpatia e antipatia.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BENTHAM, J. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. Oxford: At the Clarendon Press, 1907. pp. 43-69. Disponível em: <https://archive.org/details/introductiontoth033476mbp/page/n80/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[44]A causa excitante, o prazer ou a dor produzidos por ela, e a intenção produzida por esse prazer ou essa dor no caráter de um motivo, são objetos tão intimamente conectados que, no que se segue, eu temo que eu não tenha, em toda ocasião, sido capaz de ter sido suficientemente distinto. Eu considero que é necessário fornecer esse aviso ao leitor; após o qual, devam ser encontrados quaisquer um de tais equívocos, deva ser esperado que eles não serão produtivos de muita confusão.

2Dessa maneira, nos corpos físicos, o momento de uma bola colocada em movimento por impulso, será influenciado pela circunstância da gravidade: sendo intensificado, em algumas direções, em outras, diminuído, por ele. Assim em um navio, colocado em movimento pelo vento, o momento e a direção serão influenciados não apenas pela atração da gravidade, mas pelo movimento e a resistência da água, e várias outras circunstâncias.

3[45]Uma visão analítica de todas essas circunstâncias será fornecida na conclusão do capítulo: lugar ao qual foi necessário a referir, visto que ela não poderia ter sido bem entendida até que algumas delas tivessem sido anteriormente explicadas.

Pesquisar a vasta variedade das causas excitantes ou moderadoras, pelas quais o grau ou viés da sensibilidade de um homem podem ser influenciados, definir as fronteiras de cada uma, extricá-las dos emaranhados nos quais elas estão envolvidas, estabelecer distintamente o efeito de cada artigo diante do olho do leitor é, talvez, se não absolutamente, a tarefa mais difícil, pelo menos uma tarefas das mais difíceis, dentro do escopo da fisiologia moral. Investigações sobre essa categoria nunca podem ser satisfatórias sem exemplos. Fornecer uma coleção suficiente de tais exemplos seria uma obra de grande labor assim como minúcia: história e biografia teria de ser saqueadas: um vasto curso de leitura teria de ser percorrido sobre o propósito. Sem dúvida, através de um processo tão grande, a presente obra teria se tornado mais divertida; mas, no detalhe do volume, tão enorme que um único capítulo teria sido inchado a um volume considerável. Casos simulados, embora eles possam ocasionalmente servir para tornar o assunto geral toleravelmente inteligível, nunca podem ser suficientes para o tornar palatável. Portanto, nesta, como em tantas ocasiões, eu tenho de me confinar à instrução seca e geral: descartando ilustração, embora ciente de que, sem ela, a instrução não pode manifestar metade da sua eficácia. Contudo, o assunto é tão difícil, e tão novo, que eu deverei considerar não ter mal sucedido se, sem pretender o esgotar, eu deverei ter sido capaz de marcar os pontos de vista principais, e colocar a matéria em um método tal que pode facilitar as pesquisas de investigadores mais felizes.

A grande dificuldade jaz na natureza das palavras: as quais não são, como dor e prazer, nomes de entidade reais homogêneas, mas nomes de várias entidades fictícias, para as quais nenhum senso comum deve ser encontrado: e as quais, portanto, sem uma cadeia vasta e desviada de investigação, nunca podem ser trazidas a nenhum plano exaustivo de arranjo, mas tem de ser catadas aqui e ali como elas acontecem de ocorrer.

4Pode ser considerado que, em um certo grau de saúde, essa consideração negativa da questão dificilmente venha ao caso. Em um certo degrau de [46]saúde, frequentemente há um tal tipo de sentimento difundido sobre o corpo inteiro, um sentimento tão confortável, ou fluxo de espíritos, como ele é chamado, que pode com propriedade entrar na categoria de prazer positivo. Mas, sem experienciar nenhum sentimento prazeroso semelhante, se um homem não experiencia nenhum doloroso, ele pode ser dito suficientemente bem estar com saúde.

5A medida mais precisa que pode ser fornecida da força de um homem parece ser aquela que é tomada do peso ou número de libras (pounds) e onças (ounces) que ele pode levantar com as mãos dele em uma dada atitude. De fato, isso se relaciona imediatamente apenas com os braços: mas esses são os órgãos de força que são mais empregados; dos quais a força corresponde com a maior exatidão ao estado geral do corpo com respeito à força; e nos quais o quantum de força é mais facilmente medido. Portanto, a força pode ser distinguida em geral e particular.

Fraqueza é um termo negativo, e significa a ausência de força. Além disso, ele é um termo negativo e, portanto, significa a ausência de uma tal quantidade de força que torna a porção, possuída pela pessoa em questão, menor do que aquela de alguma pessoa com a qual ela é comparada. A fraqueza, quando ela está em um grau tão grande quanto a tornar doloroso para um homem desempenhar os movimentos necessários para realizar as funções ordinárias da vida, tais como se levantar, caminhar, vestir-se e assim por diante, traz a circunstância da saúde em questão, e coloca o homem naquele tipo de condição na qual ele é dito estar com saúde ruim.

6[47]Ver B. I. Tit. [Irrep. Corp. Injuries].

7[48]Ver cap. iv. [Valor].

8Por exemplo, quando tendo sido determinado, pela perspectiva de alguma [49]inconveniência, não revelar um fato, embora ele deva ser colocado na cama de tortura (rack), ele persevera em tal resolução após a cama de tortura ter sido trazida à presença dele, e até aplicada a ele.

9A facilidade com a qual as crianças se cansam dos seus brinquedos (play-things), e jogam-nos fora, é um exemplo de instabilidade: a perseverança com a qual um mercador se aplica ao seu comércio (traffic), ou um autor ao seu livro, podem ser tomadas como um exemplo da contrário. É difícil julgar sobre a quantidade de prazer ou dor nesses casos, senão a partir dos efeitos que isso produz no caráter de um motivo: e mesmo então é difícil pronunciar, se a mudança de conduta acontece pela extinção de um prazer ou uma dor antigos, ou pela intervenção de novos.

10[50]Ver cap. v. [Prazeres e Dores].

11[53]Ver cap. v. [Prazeres e Dores].

12[54]É essa razão pela qual, no geral, os legisladores gostam mais de lidar com pessoas casadas do que com solteiras, e com pessoas que têm filhos mais do que com aquelas que não os têm. É manifesto que quão mais fortes e mais numerosas são as conexões de um homem no modo da simpatia, mas forte é o domínio que o direito tem sobre ele. Uma esposa e filhos são tantas promessas que um homem fornece ao mundo do seu bom comportamento.

13[56]As circunstâncias características pelas quais a estrutura do corpo ou da mente de um homem, considerada em um dado período, distingue-se daquela de outro, têm sido englobada por metafísicos e fisiologistas sobre o nome de idiossincrasia, de ιδις, peculiar, e συνκρασις, composição.

14Aqueles que defendem que a mente e o corpo são uma substância, podem objetar aqui que essa suposição da distinção entre estrutura da mente e estrutura do corpo é apenas nominal e, portanto, que não há tal coisa como uma estrutura da mente distinta daquela do corpo. Mas concedendo-se, pelo bem do argumento, o antecedente, nós podemos disputar a consequência. Pois se a mente for apenas uma parte do corpo, de qualquer maneira ela é de uma natureza muito diferente daquela das outras partes do corpo.

A estrutura do corpo de um homem não pode, em nenhuma parte dela, passar por nenhuma alteração considerável sem isso ser imediatamente indicado por fenômenos discerníveis pelos sentidos. A estrutura da mente de um homem pode passar por alterações muitos consideráveis, a sua estrutura de corpo permanecendo a mesma para toda aparência; quer dizer, [57]para qualquer coisa que é indicada ao contrário por fenômenos cognoscíveis para os sentidos: significando aqueles de outros homens.

15Hume’s Hist.

16A quantidade do tipo de dor, a qual é chamada de tristeza, de fato dificilmente deve ser medida por quaisquer indicações externas. Por exemplo, ela nem deve ser medida pela quantidade de lágrimas, nem pelo número de momentos despendidos chorando. Indicações bastante menos equívocas talvez possam ser proporcionadas pelo pulso. Um homem não tem os movimentos do seu coração ao comando como ele tem aqueles dos músculos do seu rosto. Mas a significância particular dessas indicações é ainda muito incerta. Tudo que elas expressam é que o homem é afetado; elas não podem expressar de qual maneira, nem a partir de qual causa. Para um afeto resultando na realidade a partir de uma causa tal ou tal, ele pode fornecer [58]uma coloração artificial, e atribuí-la a tal ou tal outra causa. Para um afeto dirigido a uma pessoa tal ou tal como o seu objeto, ele pode dar um viés artificial, e representá-lo como dirigido a tal ou tal outro objeto. Lágrimas de fúria podem ser atribuídas a contrição. A preocupação que ele sente diante dos pensamentos de uma punição que o espera, ele pode imputar a uma preocupação simpática pelo prejuízo produzido pela ofensa dele.

Contudo, um julgamento muito tolerável pode ser formado por uma mente discernidora, em consequência do estabelecimento de todas as indicações externas exibidas por um homem, juntas e, o mesmo tempo, comparando-as com as ações dele.

Um exemplo notável do poder da vontade sobre indicações externas de sensibilidade deve ser encontrado na história de Tácito do soldado romano, o qual causou um motim em um acampamento, fingindo ter perdido um irmão pela crueldade criminosa do general. A verdade era, ele nunca tinha tido um irmão.

17[64]As maneiras pelas quais uma religião pode diminuir os recursos financeiros (means) de um homem, ou aumentar suas carências (wants), são várias. Algumas vezes ela evitará que ele produza um lucro do seu dinheiro: algumas vezes que ele coloque sua mão para laborar. Algumas vezes ela o obrigará a comprar comida mais cara em vez de mais barata: algumas vezes a comprar trabalho inútil; algumas vezes a pagar homens para não trabalhar; algumas vezes a comprar bugigangas, das quais apenas a imaginações estabeleceu um valor: algumas vezes a comprar dispensas de punições, ou direitos à felicidade no mundo futuro.

18[68]Isso está longe de ser uma proposta visionária, não redutível à prática. Eu falo a partir de experiência, tendo efetivamente extraído uma tal estimativa, embora sobre o menos cômodo de dois planos, e antes que várias circunstâncias em questão tivessem sido reduzidas ao número e à ordem precisos nos quais eles estão enumerados aqui. Isso é parte da matéria destinada a outro trabalho. Ver cap. xiii [Casos impróprios], §2. Nota. Há algumas dessas circunstâncias que concedem denominações particulares sobre as pessoas que elas relacionam: dessa forma, a partir da circunstância de imperfeições corporais, as pessoas são denominadas de surdas, mudas, cegas e assim por diante: a partir da circunstância da insanidade, idiotas e maniacos: a partir da circunstância da idade, infantes: para todas essas classes de pessoas, provisão particular é feita no Código. Ver B. I. tit. [Exemptions]. Pessoas dessa maneira distinguidas formarão tantos artigos no catalogus personarum privilegiatarum. Ver Appendix. tit. [Composition].

19[69]Quanto às circunstâncias pecuniárias de um homem, as causas das quais essas circunstâncias dependem, não entram todas na mesma classe. De fato, o quantum absoluto da propriedade de um homem entra na mesma classe que as suas circunstâncias pecuniárias no geral: assim faz o lucro que ele produz a partir da ocupação que lhe fornece os meios de subsistência. Mas a ocupação mesma diz respeito à sua própria pessoa e entra na mesma categoria que as diversões habituais dele: da mesma maneira que os hábitos de despesa dele: a conexões dele modo de lucro e de fardo, na mesma categoria que as conexões dele no modo de simpatia: e as circunstâncias da sua presente demanda por dinheiro, e força de expectativa, entra na categoria daquelas circunstâncias relativas a pessoa dele com respeito aos seus afetos.

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