domingo, 4 de agosto de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P2S1C5 A Análise do Senso de Mérito e Demérito

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte II Do Mérito e Demérito; ou dos Objetos de Recompensa e Punição. Consistindo em Três Seções


Seção I Do Senso de Mérito e Demérito


Capítulo anterior


[123]Capítulo V A Análise do Senso de Mérito e Demérito


1 Portanto, como o nosso senso de propriedade de conduta surge a partir do que eu deverei chamar de uma simpatia direta com os afetos e motivos [124]da pessoa que age, assim o nosso senso do mérito dela surge a partir do que eu deverei chamar de simpatia indireta com a gratidão da pessoa que, se eu posso dizer assim, sofre a ação.

De fato, como nós não podemos entrar completamente na gratidão da pessoa que recebe o benefício, a menos que, antecipadamente aprovemos os motivos do benfeitor, assim, por conta disso, o senso de mérito parece ser um sentimento composto e ser formado por duas emoções distintas; uma simpatia direta com os sentimentos do agente, e uma simpatia indireta com a gratidão daqueles que recebem o benefício das ações dele.

Em muitas ocasiões diferentes, nós evidentemente podemos distinguir aquelas duas emoções diferentes combinando-se e unindo-se no nosso senso do bom merecimento de um caráter ou ação particulares. Quando nós lemos na história a respeito da grandeza apropriada e beneficente da mente, quão ansiosamente nós entramos em tais desígnios? Quanto nós ficamos animados por aquela generosidade destemida que as dirige? Quão ansiosos nós ficamos pelo sucesso delas? Quão entristecidos diante do seu desapontamento? Na imaginação nós tornamo-nos as pessoas mesmas cujas ações são representadas para nós: nós transportamos a nós mesmos na fantasia para as cenas daquelas aventuras distantes e distintas, e imaginamos a nós mesmos interpretando o papel (acting the part) de um Cipião ou um Camilo, um Timoleon ou um Aristides. Tão longe os nossos sentimentos estão fundamentados sobre a simpatia direta com a pessoa que age. Nem a simpatia indireta com aqueles que recebem [125]o benefício daquelas ações é menos sensivelmente sentida. Sempre que nós colocamos a nós mesmos na situação desse últimos, com que simpatia calorosa e afetuosa nós entramos na gratidão deles com relação àqueles que os serviram tão essencialmente? Nós abraçamos, por assim disser, com eles o benfeitor deles. O nosso coração prontamente simpatiza com os êxtases mais elevados do seu afeto grato. Nós consideramos que nenhuma honra, nenhuma recompensa, pode ser grande demais para aqueles concederem sobre ele. Quando eles produzem o retorno apropriado pelos serviços dele, nós de coração os aplaudimos e acompanhamos; mas ficamos chocados além de toda medida se, pela conduta deles, eles parecem ter pouco senso das obrigações conferidas sobre eles. Em resumo, o nosso inteiro senso do mérito e do bom merecimento de tais ações, da propriedade e adequação de as recompensar, e fazer com a pessoa quem as realizou regozijar-se por sua vez, surge a partir das emoções simpáticas de gratidão e amor, com as quais, quando nós familiarizamos nosso próprios peito com a situação daqueles principalmente interessados, nós sentimos nós mesmos naturalmente transportados na direção do homem quem poderia agir com beneficência tão apropriada e nobre.

2 Da mesma maneira como o nosso senso da impropriedade da conduta surge a partir de uma falta de simpatia, ou a partir de uma antipatia direta pelas afeições e motivos do agente, assim o nosso senso do seu demérito surge a partir do que eu deverei aqui também chamar de uma simpatia indireta com o ressentimento do sofredor.

[126]De fato, como nós não podemos entrar no ressentimento do sofredor, a menos que, antecipadamente, o nosso coração desaprove os motivos do agente e renuncie a toda simpatia com eles; assim, em consequência dessa consideração do senso de demérito, assim como daquela do mérito, parece ser um sentimento composto, e ser formado por duas emoções distintas; uma antipatia direta com os sentimentos do agente, e uma simpatia indireta com o ressentimento do sofredor.

Em muitas ocasiões diferentes, aqui também nós evidentemente podemos distinguir aquelas duas emoções diferentes combinando-se e unindo-se no nosso sentido do mau merecimento de uma caráter ou ação particular. Quando nós lemos em um história sobre a perfídia e crueldade de um Bórgia ou um Nero, o nosso coração levanta-se contra os sentimentos detestáveis que influenciaram a conduta deles, e renuncia com horror e abominação a toda simpatia com tais motivos execráveis. Tão longe os nossos sentimentos estão fundamentados sobre a antipatia direta com os afetos do agente: e a simpatia direta com o ressentimento dos sofredores é ainda mais sensivelmente sentida. Quando nós familiarizamos a nós mesmos com a situação das pessoas a quem aqueles flagelos da humanidade insultaram, assassinaram ou traíram, que indignação nós não sentimos contra opressores tão insolentes e inumanos da terra? A nossa simpatia com os sofrimentos inevitáveis dos sofredores inocentes não é mais real, nem mais vívida, do que a nossa simpatia com o ressentimento justo e natural deles. [127]O primeiro sentimento apenas intensifica o segundo, e a ideia dos sofrimentos deles apenas serve para inflamar e enraivecer a nossa animosidade contra aqueles que os ocasionaram. Quando nós pensamos na angústia dos sofredores, nós tomamos parte mais sinceramente com eles contra os seus opressores; nós entramos com mais ansiedade em todos os esquemas de vingança deles, e sentimos a nós mesmos, a cada momento, causando, na imaginação, sobre tais violadores das leis de sociedade, aquela punição que a nossa indignação simpática diz-nos que é devida aos crimes deles. O nosso senso do horror e da atrocidade terrível de tal conduta, o deleite que nós temos ao ouvir que eles foram apropriadamente punidos, a indignação que nós sentimos quando eles escapam da sua devida retaliação, em resumo, o nosso senso e sentimento inteiros do seu mau merecimento, da propriedade e adequação de infligir o mal sobre a pessoa que é culpada disso, e de a tornar triste por sua vez, surge a partir da indignação simpática que naturalmente ferve no peito do espectador, sempre que ele se familiariza completamente com o caso do sofredor1.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 123-130. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/123/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1Atribuir dessa maneira o nosso senso natural do mau merecimento das ações humanas a uma simpatia com o ressentimento do sofredor pode parecer, para uma grande parte das pessoas, ser uma degradação desse sentimento. O ressentimento é comumente considerado como uma paixão tão odiosa, que eles ficarão inclinados a considerar impossível que um princípio tão louvável quanto o senso do mau merecimento do vício deveria, em qualquer aspecto, estar fundamentado nele. Talvez eles estariam mais dispostos a admitir que o nosso senso do mérito das boas ações esteja fundado sobre uma simpatia com a gratidão das pessoas quem recebem o benefício delas; porque a gratidão, assim como as outras paixões benevolentes, é considerada como um princípio amigável, o qual não poderia retirar nada do valor de seja o quê for que está fundamentado sobre ele. Contudo, em cada aspecto, é evidente que gratidão e ressentimento são contrapartes um para o outro; e, se nosso [128]senso de mérito surge a partir de um, o nosso sentido de demérito escassamente pode deixar de proceder a partir de uma simpatia com o outro.

Contudo, seja considerado também que o ressentimento, nos graus nos quais nós muito frequentemente o sentimos, talvez a mais odiosa de todas as paixões, não é desaprovado quando propriamente humilhado e rebaixado ao nível da indignação simpática do espectador. Quando nós, quem somos espectadores, sentimos que a nossa animosidade corresponde inteiramente àquela do sofredor, quando o ressentimento desse último em nenhum aspecto vai além do nosso próprio, quando nenhuma palavra, nenhum gesto lhe escapa denota uma emoção mais violenta do que a quê nós podemos acompanhar, e quando ele nunca objetiva a infligir nenhuma punição além daquela que nós deveríamos nos regozijar vermos infligida, ou que nós mesmos, nessa consideração, até desejaríamos ser os instrumentos de punição, é impossível que nós mesmos não deveríamos aprovar inteiramente os sentimentos dele. Nesse caso, a nossa própria emoção indubitavelmente tem de justificar a dele aos nossos olhos. E como a experiência ensina-nos como a maior parte do gênero humano é incapaz dessa moderação, e quão grande esforço tem de ser realizado para rebaixar o impulso rude e indisciplinado do ressentimento ao seu temperamento adequado, nós não podemos evitar de conceber um grau considerável de estima e admiração por alguém que parece capaz de exercer tando autocontrole sobre uma das paixões mais desgovernadas da sua natureza. De fato, quando a animosidade do sofredor excede, como quase sempre ela o faz, o quê nós podemos acompanhar, como nós não conseguimos entrar nela, nós necessariamente a desaprovamos. Nós até a desaprovamos mas que nós deveríamos de um excesso igual de quase qualquer outra paixão derivada a partir da imaginação. E esse ressentimento violento demais, em vez de nos levar com ele, torna-se objeto do nosso ressentimento e da nossa indignação. Nós entramos no ressentimento oposto da pessoa quem é o objeto de emoção injusta, e quem está em perigo de sofrer a partir dela. Portanto, a vingança, o excesso de ressentimento, parece ser a mais detestável de todas as paixões, e é o objeto do horror e da indignação de todos. E como no caminho no qual essa paixão comumente descobre a si mesma em meio ao gênero humano, ela é excessiva cem vezes para uma que é imoderada, nós estamos muito aptos a considerá-la completamente odiosa e detestável, porque, em suas aparências mais ordinárias, ela é assim. Contudo, a natureza, mesmo no presente estado depravado do gênero humano, não parece ter lidado tão indelicadamente conosco para nos ter dotado de qualquer princípio que seja inteiramente e em cada aspecto ruim. Ou que, sem nenhum grau e nenhuma direção, possa ser o objeto apropriado de elogio e aprovação. Em algumas ocasiões nós ficamos sensíveis a essa paixão, a qual é geralmente tão forte, pode, da mesma maneira, ser fraca demais. Nós algumas vezes reclamamos de que uma pessoa particular revela muito pouco espírito, e tem muito pouco senso das injúrias que tenham sido realizadas com ela: e nós estamos tão prontos a desprezá-la pelo defeito quanto a adiá-la pelo excesso dessa paixão.

Certamente os escritores inspirados não teriam falado tão frequentemente ou tão fortemente da ira e raiva de Deus se eles tivessem considerado cada [129]grau dessas paixões tão viciosas e más, mesmo em uma criatura tão fraca e imperfeita como o homem.

Também seja considerado que a investigação presente não diz respeito a uma questão de direito, se eu posso falar assim, mas a uma questão de fato. No presente nós não estamos examinando sobre quais princípios um ser perfeito aprovaria a punição de ações más; mas sobre quais princípios uma criatura tão fraca e imperfeita quanto o homem efetivamente e de fato as aprova. É evidente que os princípios que eu há pouco mencionei têm um efeito muito grande sobre os sentimentos dele; e parece sabiamente ordenado que deveria ser assim. A existência mesma da sociedade requer que malícia não merecida e não provocada deva ser restringida por punições apropriadas; e, consequentemente, que infligir essas punições deveria ser considerado como uma ação apropriada e louvável. Portanto, embora o homem seja naturalmente dotado de um desejo pelo bem-estar e pela preservação da sociedade, contudo, o Autor da natureza não confiou à razão dele descobrir que uma certa aplicação de punições é o meio apropriado de alcançar esse fim; mas confiou a ele uma aprovação imediata e instintiva daquela aplicação mesma que é a mais apropriada para a alcançar. Nesse aspecto, a economia da natureza é exatamente uma peça com o quê ela é em muitas outras ocasiões. Com respeito a todos aqueles fins que, por conta da importância peculiar deles, podem ser considerados, se uma semelhante expressão é admissível, como os fins favoritos da natureza, ela tem constantemente dessa maneira não apenas dotado o gênero humano de um apetite pelos meios que apenas esse fim pode ser causado, para os seus próprios bens e independente da tendência deles para o produzir. Dessa maneira, autopreservação e a propagação da espécie são os grandes fins que a natureza parece ter proposto na formação de todos os animais. O gênero humano está dotado de um desejo por aqueles fins, e uma aversão pelo contrário; com um amor pela vida, e um pavor pela dissolução; com um desejo pela continuação e perpetuação da espécie, e com uma aversão aos pensamentos da sua inteira extinção. Mas embora nós estejamos dessa maneira dotados de um desejo muito forte por esses fins, não foi confiado ao fluxo e às determinações incertas da nossa razão descobrir os meios apropriados de os causar. A natureza tem nos dirigido para a maior parte desse através de instintos originais e imediatos. Fome, sede, a paixão que une os dois sexos, o amor ao prazer e pavor da dor, incitam-nos a aplicar aqueles meios por eles mesmos, e sem nenhuma consideração da tendência deles para aqueles fins beneficentes que o grande Diretor da natureza intencionava produzir através deles.

Antes que eu conclua esta nota, eu devo observar a diferença entre a aprovação da propriedade e aquela do mérito ou beneficência. Antes que nós aprovemos os sentimentos de qualquer pessoa como apropriados e adequados para os seus objetos, nós temos não apenas de ser afetados da mesma maneira que ela é, mas nós temos de perceber essa harmonia e correspondência de sentimentos entre ela e nós mesmos. Dessa maneira, [130]embora ao ouvir um infortúnio que tenha acontecido a meu amigo, eu deva conceber precisamente aquele grau de preocupação ao qual ele abre caminho; contudo, até que eu seja informado da maneira na qual ele se comporta, até que eu perceba a harmonia entre as emoções dele e as minhas, não se pode dizer que eu aprove os sentimentos que influenciam o comportamento dele. Portanto, a aprovação da propriedade requer apenas que nós devamos simpatizar inteiramente com a pessoa que age, mas que nós devamos perceber essa concordância perfeita entre os sentimentos dela e os nossos próprios. Pelo contrário, quando eu ouço de um benefício que tenha sido concedido a outra pessoa, que ela quem o tenha recebido seja afetada de uma maneira que a agrade, se, familiarizando-me com o caso dela, eu sinto a gratidão surgir no meu próprio peito, eu necessariamente aprovo a conduta do seu benfeitor, e considero-a meritória, e o objeto apropriado de recompensar. É evidente, se a pessoa quem recebeu o benefício concebe ou não gratidão, não pode, em qualquer grau, alterar os nossos sentimentos com respeito ao mérito daquele quem o concedeu. Portanto, nenhuma correspondência efetiva de sentimentos é requerida aqui. É suficiente que, se ela fosse grata, eles corresponderiam; e o nosso senso de mérito frequentemente está fundamentado em uma daquelas simpatias ilusórias pelas quais, quando nós familiarizamos a nós mesmos com o caso de outro, nós frequentemente somos afetados de uma maneira na qual a pessoa principalmente interessada é incapaz de ser afetada. Há uma diferença similar entre a nossa desaprovação do demérito e aquela da impropriedade.

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