sexta-feira, 2 de agosto de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S3C2 Da Origem da Ambição, e da Distinção de Posições Sociais

 A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção III Dos Efeitos da Prosperidade e Adversidade sobre o Julgamento da Humanidade com respeito à Propriedade da Ação; e Porque é mais Fácil obter a Aprovação Deles em uma Situação do que na Outra.


Capítulo anterior


[80]Capítulo II Da Origem da Ambição, e da Distinção de Posições Sociais


É porque a humanidade está disposta a simpatizar mais inteiramente com a nossa alegria do que com a nossa tristeza que nós fazemos desfile das nossas riquezas e ocultamos a nossa pobreza. Nada é tão mortificante quanto ser obrigado a expôr a sua aflição à visão do público, e sentir que, embora a nossa situação esteja aberta aos olhos de todo o gênero, nenhum mortal concebe por nós metade do quê nós [81]sofremos. Ou melhor, é principalmente a partir dessa consideração dos sentimentos do gênero humano que nós buscamos as riquezas e evitamos a pobreza. Para qual propósito é todo o labor e alvoroço deste mundo? Qual é o fim da avareza e ambição, da busca de riqueza, de poder e preeminência? É para suprir as necessidades da natureza? Os salários do trabalhador mais mesquinho podem supri-las. Nós vemos que eles propiciam-lhe comida e roupa, o conforto de uma casa e de uma família. Se nós examinarmos a economia dele com rigor, nós devemos descobrir que ele despende uma grande parte delas em conveniências, as quais podem ser consideradas como superfluidades, e que, em ocasiões extraordinárias, ele pode dar alguma coisa mesmo para a vaidade e distinção. Então, qual é a causa da nossa aversão à situação dele, e porque deveriam aqueles quem têm sido educados nas altas posições sociais de vida, considerar como pior do que a morte, serem reduzidos a viver, mesmo sem o labor, na mesma comida simples que ele, a habitar sob o mesmo teto humilde, e a ser vestidos com a mesma vestimenta simples? Eles imaginam que o estômago deles é melhor, ou que eles dormem melhor em um palácio do que em uma cabana? O contrário tem sido tão frequentemente observado, e, de fato, é tão muito óbvio, embora nunca tenha sido observado, que não há ninguém ignorante disso. A partir disso, então, surge aquela emulação que permeiam todas as diferentes posições sociais dos homens, e quais são as vantagens que nós propomos por aquele grande propósito da vida humana que nós chamamos de melhoramento da nossa condição? Ser observado, ser acompanhado, para ser observado com simpatia, [82]complacência e aprovação, são todas as vantagens que nós podemos propor derivar a partir dela. É a vaidade, não o conforto, ou o prazer, que nos interessa. Mas a vaidade está sempre fundamentada sobre a crença de nós sermos o objeto de atenção e aprovação. O homem rico glorifica-se nas riquezas, porque ele sente que elas naturalmente atraem para ele a atenção do mundo, e que o gênero humano fica disposto a acompanhá-lo em todas aquelas emoções agradáveis com as quais as vantagens da situação dele tão prontamente o inspiram. Diante do pensamento disso, o coração dele parece crescer e dilatar-se dentro dele, e ele fica mais afeiçoado à riqueza dele, por conta disso, do que por todas as outras vantagens que ela adquire para ele. O homem pobre, pelo contrário, fica envergonhado da sua pobreza. Ele sente que ela ou coloca-o fora da vista do gênero humano, ou que, se eles concedem qualquer atenção a ele, eles têm, contudo, escassamente qualquer simpatia com a miséria e o sofrimento que ele sofre. Ele fica mortificado em ambas considerações; pois, embora ser desconsiderado e ser desaprovado sejam coisas inteiramente diferentes, contudo, como a obscuridade encobre-nos da luz do dia da honra e da aprovação, sentir que não se presta atenção em nós necessariamente abafa a esperança mais agradável, e desaponta o desejo mais ardente, da natureza humana. O homem pobre sai e entra despercebido, e quando, no meio de uma multidão, fica na mesma obscuridade como se encerrado em seu próprio casebre. Aquelas preocupações humildes e atenções dolorosas que ocupam aqueles na situação dele não propiciam nenhum entretenimento para o dissoluto e [83]alegre. Elas afastam seus olhos dele, ou, se a extremidade do sofrimento dele força eles a olharem para ele, é apenas para rejeitar um objeto tão desagradável do meio deles. O afortunado e orgulhoso maravilha-se diante da insolência da miséria humana, que ela deveria ousar apresentar a si mesma diante deles, e com o aspecto repugnante da sua miséria presumir perturbar a serenidade da felicidade deles. O homem de posição social e distinção, pelo contrário, é observado por todo o mundo. Todo mundo fica ansioso para olhar para ele, e conceber, pelo menos por simpatia, aquela alegria e exultação com as quais as circunstâncias naturalmente o inspiram. As ações dele são os objetos da preocupação pública. Escassamente uma palavra, escassamente um gesto, podem cair dele que sejam completamente negligenciadas. Em uma grande reunião, ele é a pessoa para quem todos dirigem seus olhos; é sobre ele que as paixões deles parecem todas esperar com expectativa, a fim de receberem aquele movimento e direção que ele deve impressionar sobre elas; e se o comportamento dele não é completamente absurdo, ele tem, a cada momento, uma oportunidade para interessar ao gênero humano, e de se tornar o objeto da observação e simpatia de todo mundo ao redor dele. É isso que, a despeito da restrição que impõe, a despeito da perda de liberdade pela qual é acompanhada, torna a grandeza o objeto de inveja e compensa, na opinião do gênero humano, todo aquele labor, toda aquela ansiedade, e todas aquelas mortificações pelas quais se têm de passar em busca dela; e o quê de ainda maior consequência, toda aquele lazer, todo aquele conforto, todo aquele [84]descuido que são perdidos para sempre pela aquisição.

Quando nós consideramos a condição do grande, naquelas cores ilusórias nas quais a imaginação está inclinada a pintá-la, ela parece ser quase a ideia abstrata de um estado perfeito e feliz. É o estado mesmo que, em todos os nossos sonhos despertos e devaneios ociosos nós tínhamos esboçado para nós mesmos como o objeto final de todos os nossos desejos. Portanto, nós sentimos uma simpatia peculiar com a satisfação daqueles que já estão nele. Nós favorecemos todas as inclinações deles e fomentamos todos os desejos deles. Nós pensamos, Que pena que qualquer coisa devesse estragar e corromper uma situação tão agradável! Nós até poderíamos deseja-los imortais; e parece difícil para nós que, por fim, a morte devesse colocar um fim a um prazer tão perfeito. Nós pensamos, é cruel na natureza expulsá-los daquelas condições exaltadas para aquela casa humilde, mas hospitaleira que ela providenciou para todos os filhos dela. Grande rei, viva para sempre! É o comprimento que, segundo a maneira de adulação oriental, que nós deveríamos prontamente lhes fazer, se a experiência não nos ensinasse a absurdidade disso. Cada calamidade que lhes acontece, cada injúria que é feita a eles, excita no no peito do espectador dez vezes mais compaixão e ressentimento do que ele teria sentido, tivesse as mesmas coisas acontecido com outros homens. São apenas os infortúnios de reis que proporcionam os temas apropriados para tragédia. Nesse aspecto, elas assemelham-se aos infortúnios de amantes. Aquelas duas situações são as principais que nos interessam no teatro; porque, a despeito de toda que [85]razão e experiência podem dizer-nos do contrário, os preconceitos da imaginação vinculam àqueles dois estados uma felicidade superior a qualquer outra. Perturbar ou colocar um fim a prazer tão perfeito parece ser a mais atroz de todas as injúrias. O traidor que conspira contra a vida do monarca é considerado um monstro maior do que qualquer outro assassino. Todo sangue inocente que foi derramado nas guerras civis provocou menos indignação do que a morte de Carlos I. Um desconhecedor da natureza humana, quem visse a indiferença dos homens com a miséria dos seus inferiores, e o arrependimento e a indignação que eles sentem pelos infortúnios e sofrimentos daqueles acima deles, estaria inclinado a imaginar que a dor tem de ser mais agonizante, e as convulsões de morte mais terríveis para pessoas de condição social superior do que para aquelas de condições sociais mais desprezíveis.

Nessa disposição do gênero humano para acompanhar todas as paixões do rico e do poderoso é encontrada a distinção de posições sociais e a ordem da sociedade. A nossa obsequiosidade aos nossos superiores surge mais frequentemente a partir da nossa admiração pelas vantagens da situação deles do que a partir de quaisquer expectativas privadas de benefícios a partir da boa vontade deles. Os benefícios deles podem estender-se apenas a uns poucos; mas as fortunas deles interessam a quase todo mundo. Nós ficamos ansiosos para os auxiliar na completude de um sistema de felicidade que se aproxima tanto da perfeição; e nós desejamos servi-lhes para o próprio bem deles, sem qualquer outra recompensa exceto a vaidade ou a honra de os obrigar. Nem a nossa deferência às inclinações deles está [86]fundada principalmente, ou completamente, em uma consideração da utilidade de semelhante submissão, e para a ordem da sociedade, a qual é melhor suportada por ela. Mesmo quando a ordem da sociedade parece requerer que nós devamos nos opor a eles, nós dificilmente podemos trazer a nós mesmos a fazê-lo. Que os reis são os servos do povo, a serem obedecidos, resistidos, depostos ou punidos, conforme a conveniência pública possa requerer, é a doutrina da razão e filosofia; mas não é a doutrina da natureza. A natureza ensinar-nos-ia a submetermo-nos a eles pelo próprio bem deles, a tremermos e curvarmo-nos diante da condição exaltada deles, a consideramos o sorriso deles como uma recompensa suficiente para compensar quaisquer serviços, e para temer o descontentamento deles, embora nenhum mal devesse seguir-se a partir dele, como a mais severa de todas as mortificações. Tratá-los de qualquer maneira como homens, raciocinar e disputar com ele em consequência de ocasiões ordinárias, requer resolução tão grande que há poucos homens cuja magnanimidade pode suportá-los nisso, a menos que da mesma forma eles sejam auxiliados por intimidade e familiaridade. Os motivos mais estranhos, as paixões mais furiosas, medo, ódio e ressentimento, escassamente são suficientes para equilibrar essa disposição natural para os respeitar: e a conduta deles deve, quer justamente quer injustamente, ter excitado os graus mais altos de todas aquela paixões, antes que o agregado das pessoas possa ser trazido para se opor a eles com violência, ou para desejar vê-los ou punidos ou depostos. Mesmo quando as pessoas tenham sido trazidas tão longe, ele são inclinadas a abrandarem a cada momento e facilmente retrocederem ao seu estado habitual de deferência para aqueles para quem elas [87]têm estado acostumadas a olharem como os seus superiores naturais. Elas não podem suportar a mortificação do seu monarca. A compaixão logo toma o lugar do ressentimento, elas esquecem todas as provocações passadas, seus antigos princípios de lealdade revivem, e elas correm para reestabelecer a autoridade arruinada dos seus antigos mestres, com a mesma violência com a qual eles tinham se oposto a ela. A morte de Carlos I causou a restauração da família real. A compaixão por James II, quando ele foi capturado pelo populacho ao fazer sua escapada a bordo de navio, quase evitou a revolução, e fez ela progredir mais intensamente do que antes.

Os grandes parecem insensíveis ao preço fácil com o qual eles adquirem a admiração pública; ou eles parecem imaginar que para eles, como para os outros homens, ela tem de ser comprada ou com suor ou com sangue? Por quais realizações importantes o jovem nobre é instruído a suportar a dignidade da sua posição social, e a tornar a si mesmo digno daquela superioridade sobre seus companheiros cidadãos, a qual a virtude dos seus ancestrais ergueu-o: é por conhecimento, por indústria, por paciência, por abnegação, ou por virtude qualquer tipo? Como toda as suas palavras, todos os seus movimentos são acompanhados, ele aprende uma consideração habitual por todo circunstância de comportamento ordinário, e estuda para desempenhar todos esses pequenos deveres com a propriedade mais exata. Como ele está consciente de quanto ele é observado, e quanto o gênero humano está disposto a favorecer todas as suas inclinações, com [88]aquela liberdade e elevação que o pensamento disso naturalmente inspira. O ar, as maneiras, a conduta dele, todos marcam aquele senso elegante e gracioso da sua própria superioridade, a qual aqueles nascidos em condições inferiores dificilmente podem alguma vez alcançar. Essas são as artes através das quais ele propõe fazer o gênero humano submeter-se mais facilmente à autoridade dele, e governar as inclinações dele de acordo com o seu próprio prazer: e nisso ele raramente fica desapontado. Essas artes, suportadas por posição social e proeminência, são, em ocasiões ordinárias, suficientes para governar o mundo. Luís XIV, durante a maior parte do seu reino, era considerado, não apenas na França, mas através de toda a Europa, como o modelo mais perfeito de um grande príncipe. Mas quais eram os talentos e as virtudes pelos quais ele adquiriu essa grande reputação? Foi pela justiça escrupulosa e inflexível de todos os seus empreendimentos, pelos perigos e dificuldades imensos pelos quais eles foram acompanhados, ou pela aplicação incansável e implacável com a qual ele os perseguia? Foi pelo seu conhecimento extenso, por seu julgamento exótico, ou por seu valor heroico? Não foi por nenhuma dessas qualidades. Mas ele foi, primeiro de tudo, o mais poderoso príncipe na Europa e, consequentemente, ele manteve a posição mais elevada em meio aos reis; e então diz o seu historiador, “ele superava todos os seus cortesões na graciosidade da sua forma, e na beleza majestática das suas características. O som da voz dele, nobre e comovente, ganhava aqueles corações que a presença dele intimidava. Ele tinha um passo e uma conduta que apenas poderiam ser adequadas a ele e a posição social dele, e [89]que teriam sido ridículos em qualquer outra pessoa. O embaraço que ele ocasionava para aqueles que falavam com ele, lisonjeava aquela satisfação secreta com a qual ele sentia a sua própria superioridade. O velho oficial, quem estava confuso e hesitante ao pedir-lhe um favor, e não sendo capaz de concluir o seu discurso, disse-lhe: Sir, vossa majestade, eu espero que você acreditará que eu não tremo desta maneira diante dos vossos inimigos: não teve dificuldade para obter o quê ele demandava.” Essas realizações frívolas, suportadas pela posição social dele, e, também, sem dúvida, por um grau de outros talentos e outras virtudes, que, contudo, parecem não ter sido muito acima da mediocridade, estabeleceram esse príncipe na estima da sua própria época, e têm atraído, mesmo a partir da posteridade, um grande montante de respeito pela memória dele. Comparados com esses, em sua própria época, e em sua própria presença, nenhuma outra virtude, parece, parecia ter nenhum mérito. Conhecimento, indústria, valor e beneficência tremiam, eram envergonhadas, e perdiam toda dignidade diante deles.

Mas não é por realizações desse tipo que o homem de posição social inferior tem de ter esperança de se distinguir. A polidez é tanto uma virtude do grande que ela será de pouca honra para qualquer um exceto eles mesmos. O janota, quem imita as maneiras deles, e finge ser eminente através da propriedade superior do seu comportamento ordinário, é recompensado com uma parte dupla de desdém por causa de sua loucura e presunção. Por que deveria o homem, quem ninguém considera digno de ser olhado, [90]ficar muito ansioso sobre a maneira na qual ele ergue sua cabeça ou dispõe seus braços enquanto ele caminha através de uma sala? Ele certamente está ocupado com uma atenção muito supérflua, e com uma atenção que também marca um senso da sua própria importância, o qual nenhum outro mortal pode acompanhar. A mais perfeita modéstia e simplicidade, juntas com tanta negligência quanto é consistente com o respeito devido à companhia, deveriam ser as características principais do comportamento de um homem privado. Se ele alguma vez tem esperança para distinguir a si mesmo, isso tem de ser através de virtudes mais importantes. Ele tem de adquirir subordinados para contrabalançar os subordinados do grande, e ele não tem outro fundo a partir do qual os pagar exceto o labor do seu corpo e a atividade da sua mente. Portanto, ele tem de cultivar estes: ele tem de adquirir conhecimento superior na sua profissão e indústria superior no exercício dela. Ele tem de ser paciente no labor, resoluto no perigo, e firmes na dificuldade. Esses talentos ele tem de trazer à visão pública, através da dificuldade, importância e, ao mesmo tempo, bom julgamento dos seus empreendimentos, e pela aplicação severa e incansável com a qual ele os persegue. Probidade e prudência, generosidade e franqueza, têm de caracterizar o seu comportamento em todas as ocasiões ordinárias; e, ao mesmo tempo, ele tem de fomentar engajar-se em todas aquelas situações nas quais são requeridos os maiores talentos e virtudes para agir com propriedade, mas nas quais o maior aplauso deve ser adquirido por aqueles que podem se desobrigar com honra. Com qual [91]impaciência o homem de espírito e ambição, quem fica deprimido pela sua situação, procura em volta por alguma grande oportunidade para distinguir a si mesmo? Nenhuma circunstância que possa proporcionar isso parece indesejável para ele. Ele até espera com satisfação a possibilidade de guerra estrangeira ou dissensão civil; e com qual êxtase e deleite secretos ele enxerga através de toda a confusão e derramamento de sangue que as acompanham, a probabilidade daquelas ocasiões desejadas apresentarem a si mesmas, na qual ele pode atrair para si mesmo a atenção e admiração do gênero humano. Pelo contrário, o homem de posição social e distinção, cuja glória inteira consiste na propriedade do seu comportamento ordinário, quem está contente com o renome humilde que esse pode lhe proporcionar, e não tem talentos para adquirir nenhum outro, fica relutante para embaraçar a si mesmo com o quê pode ser acompanhado por dificuldade ou sofrimento. Figurar em um baile é o seu grande triunfo, e ter sucesso em uma intriga de galanteria, sua façanha mais elevada. Ele tem uma aversão a todas as confusões públicas, não por causa de amor pelo gênero humano, mas pelo grande nunca considerar os seus inferiores como criaturas companheiras; nem ainda por causa de falta de coragem, pois nisso ele raramente é deficiente; mas por causa de uma consciência de que ele não possui nenhuma das virtudes que são requeridas em tais situações, e que a atenção pública será atraída para longe por outros. Ele pode ficar disposto a expôr a si mesmo a algum pequeno perigo, e a promover uma campanha quando acontece de estar na moda. Mas ele estremece com horror diante do pensamento de qualquer situação que [92]demande o exercício contínuo e longo de paciência, indústria, fortidão e aplicação de pensamento. Essas virtudes devem dificilmente alguma vez ser encontradas em homens que nascem nessas condições sociais elevadas. Consequentemente, em todos os governos, mesmo nas monarquias, os cargos mais elevados geralmente são possuídos, e o inteiro detalhe da administração conduzido, por homens quem foram educados nas posições sociais média e inferior de vida, quem têm sido levados adiante pela sua própria indústria e habilidades, embora sobrecarregados com os ciúmes, e opostos pelo ressentimento, de todos aquelas que nasceram seus superiores, e a quem o grande, depois de primeiro os ter considerado com desdém e, depois, com inveja, por fim ficam contentes em ceder com a mesma mesquinharia abjeta com a qual eles desejam que o resto do gênero humano deveria comportar-se com eles mesmos.

É a perda desse império fácil sobre as afeições do gênero humano que torna a queda da grandeza tão insuportável. Quando a família do rei da Macedônia foi levada em triunfo por Paulo Emílio, os infortúnios deles, é dito, fizeram com que eles dividissem com o conquistador deles a atenção do povo romano.A visão das crianças reais, cuja idade imatura tornava-lhes insensíveis a situação delas mesmas, impressionou os espectadores, em meio aos regozijos e à prosperidade públicos, com o sofrimento e a compaixão mais tenros. O rei apareceu em seguida na procissão; e parecia como alguém confuso e espantado, e desolado de todo sentimento, pela grandeza das calamidades [93]dele. Seus amigos e ministros seguiram depois dele. Conforme ele moviam-se adiante, eles lançavam seus olhos sobre o seu soberano caído, e sempre irrompiam em lágrimas diante da visão; o inteiro comportamento deles demonstrando que eles não pensavam nos seus próprios infortúnios, mas estavam inteiramente ocupados pela grandeza superior do dele. Pelo contrário, os generosos romanos observavam-no com desdém e indignação, e consideravam como indigno de toda compaixão o homem que poderia ser tão mesquinho quanto a suportar viver sob tais calamidades. Contudo, ao quê aquelas calamidades equivaliam? De acordo com a maior parte dos historiadores, ele teve de despender o restante dos seus dias sob a proteção de um povo poderoso e humano, em um estado no qual, em si mesmo, deveria parecer digno de inveja, um estado de plenitude, conforto, lazer e segurança, do qual era impossível para ele, mesmo por sua própria loucura, cair. Mas ele não mais devia estar cercado por aquela multidão admiradora de tolos, lisonjeadores e subordinados, quem anteriormente tinham estado acostumados a acompanhá-lo em todos os movimentos eles. Ele não devia mais ser observado por multidões, nem ter em seu poder tornar-se o objeto do respeito, da gratidão, do amor, da admiração deles. As paixões das nações não mais deviam moldarem a si mesmas em consequência das inclinações dele. Essa foi a calamidade insuperável que desolou o rei de todo sentimento; a qual fez os amigos dele esquecerem-se dos seus próprios infortúnios; e a qual a magnanimidade romana escassamente poderia conceber como qualquer homem poderia ser tão mesquinho quanto a suportar sobreviver.

[94]“O amor,” diz milorde Rochefaucault, é “comumente seguido pela ambição; mas a ambição, dificilmente, é alguma vez seguida pelo amor.” Essa paixão, uma vez que ela tenha tomado posse inteira do peito, não admitirá nem um rival, nem um sucessor. Para aqueles que têm estado acostumados com a posse, ou mesmo com a esperança, da admiração pública, todos os outros prazeres adoecem e decaem. De todos os estadistas descartados que, para o seu próprio conforto, têm estudado para tirar proveito da ambição e desprezar aquelas honras que eles não mais poderiam alcançar, quão poucos têm sido capazes de ter sucesso? A maior parte tem despendido seu tempo na indolência mais desatenta e insípida, afligidos pelos pensamentos da sua própria insignificância, incapazes de estarem interessadas nas ocupações da vida privada, sem prazer, exceto quando eles falam da sua grandeza antiga, e sem satisfação, exceto quando eles foram empregados em algum vão projeto para a recuperar. Você está resolvido a sério a nunca trocar a sua liberdade pela servidão senhorial de uma corte, mas a viver livre, destemido e independente? Parece haver um caminho para continuar nessa resolução virtuosa, e talvez apenas um. Nunca entre no lugar a partir de onde tão poucos têm sido capazes de retornar; nem entre no círculo da ambição; nem nunca traga a si mesmo em comparação com aqueles mestres da terra que já engrossaram a atenção de metade do gênero humano antes de você.

De importância tão poderosa parece ser, nas imaginações dos homens, estar naquela [95]situação que os coloca a maioria na visão da simpatia e atenção gerais. E, dessa maneira, o lugar, aquele grande objeto que divide as esposas de vereadores, é o fim de metade dos labores da vida humana; e a causa de todo o tumulto e alvoroço, de toda a rapina e injustiça, as quais a avareza e ambição têm introduzido dentro deste mundo. Diz-se que as pessoas de bom senso desprezam o lugar; quer dizer, elas desprezam ajustar-se à cabeceira da mesa, e são indiferentes a quem da companhia é que é indicado por aquela circunstância frívola, a qual a menor vantagem é capaz de pesar mais. Mas posição social, distinção, proeminência, nenhum homem despreza, a menos que ele seja erguido muito acima, ou muito abaixo, do padrão ordinário da natureza humana; a menos que ele esteja, ou tão confirmado em sabedoria e filosofia real, quando a ficar satisfeito com que, enquanto a propriedade da sua conduta torne-o o objeto justo de aprovação, isso é de pouca consequência, embora ele não seja nem acompanhado, nem aprovado; ou tão habituado à ideia da sua própria mesquinharia, tão afundado em indiferença preguiçosa e idiota, quanto a inteiramente ter esquecido o desejo, e quase o desejo mesmo por superioridade.

Quanto a se tornar o objeto natural das congratulações invejosas e atenções simpáticas do gênero humano é, dessa maneira, a circunstância que concede à prosperidade todo o seu esplendor deslumbrante; assim nada obscurece tanto quanto o melancolia da adversidade como sentir que os nossos infortúnios são os objetos não da simpatia, mas do desdém e da aversão dos nossos irmãos. É [96]por conta disso que as calamidades mais terríveis não sempre aquelas que é mais difícil de suportar. Frequentemente é mais mortificador aparecer em público sob pequenos desastres do que sobre grandes infortúnios. O primeiro caso não excita nenhuma simpatia; mas o segundo, embora ele não possa excitar nada que se aproxima da angústia do sofredor, contudo, demanda uma companhia muito vívida. Os sentimentos dos espectadores são, no último caso, menos amplos do que aqueles do sofredor, e a simpatia imperfeita deles empresta-lhe alguma assistência para suportar a miséria dele. Diante de uma assembleia alegre, um cavalheiro ficaria mais mortificado aparecer coberto com sujeira e trapos do que com sangue e ferimentos. Essa última situação interessaria à piedade deles; a outra provocaria o riso deles. O juiz que ordena um criminoso a ser colocado no pelourinho desonra-o mais do que se ele o tivesse condenado ao cadafalso. O grande príncipe quem, há alguns anos, bateu com uma bengala um oficial general na liderança do seu exército, desgraçou-o irrevogavelmente. A punição teria sido muito menor se ele tivesse atirado através do corpo. Pelas leis da honra, golpear com um bengala desonra, golpear com uma espada, não, por razão óbvia. Aquelas punições mais leves, quando infligidas a um cavalheiro, para quem a desonra é o maior de todos os males, vem a ser consideradas, entre pessoas humanas e generosas, como as mais terríveis. Portanto, com respeito às pessoas de posição social, elas são universalmente colocadas de lado, e a lei, embora ela tome a vida delas em [97]muitas ocasiões, respeita a honra delas em quase todas. Desprezar uma pessoa de qualidade, ou colocá-lo no pelourinho, em consequência de qualquer crime que seja é uma brutalidade da qual nenhum governo europeu, exceto aquele da Rússia, é capaz.

Um homem corajoso não é tornado desprezível pelo pensamento de ser trazido ao cadafalso; ele é ao ser colocado no pelourinho. O seu comportamento no primeiro é uma situação que pode obter para ele estima e admiração universais. Nenhum comportamento no outro pode tornar-lhe agradável. A simpatia dos espectadores suportam-no em um caso, e salvam-no daquela vergonha, daquela consciência de que miséria seja sentida apenas por ele mesmo, a qual é, de todos os sentimentos, o mais insuportável. Não há simpatia no outro; ou, se há qualquer uma, não é com a dor dele, qual é uma ninharia, mas com a consciência da falta simpatia com a qual essa dor é acompanhada. É com a vergonha dele, não com o sofrimento dele. Aqueles que se apiedam dele, ruborizam e baixam suas cabeças por causa dele. Ele cai na mesma maneira, e sente a si mesmo irrevogavelmente degrado pela punição, embora não pelo crime. Pelo contrário, o homem que morre com resolução, como ele é naturalmente considerado com o aspecto ereto de estima e aprovação, assim ele mesmo usa o mesmo semblante destemido; e, se os crimes não o privam do respeito dos outros, a punição nunca o fará. Ele não tem suspeita de que a situação dele seja o objeto de desdém ou escárnio para nenhum, e ele pode, com [98]propriedade, assumir o ar, não apenas de serenidade perfeita, mas de triunfo e exultação.

Os grandes perigos,” diz o Cardeal de Retz, “têm os seus encantos porque há alguma glória a ser obtida, mesmo quando malogram. Mas os perigos moderados não têm nada senão o quê seja horrível, porque a perda de reputação sempre acompanha a falta de sucesso.” A máxima dele tem o mesmo fundamento que nós agora há pouco estivemos observando com respeito às punições.

A virtude humana é superior à dor, à pobreza, ao perigo e à morte; nem ela requer mesmo os seus esforços máximos para as desprezar. Mas ter a sua miséria exposta ao insulto e escárnio, ser conduzido em triunfo, ser colocado pela mão do desprezo para apontar, é uma situação na qual a sua constância é muito mais apta a falhar. Comparado com o desdém do gênero humano, todos os outros males externos são facilmente suportados.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 80-98. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/80/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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