A Teoria dos Sentimentos Morais
Por Adam Smith
Parte II Do Mérito e Demérito; ou dos Objetos de Recompensa e Punição. Consistindo em Três Seções
Seção II Da Justiça e Beneficência
[139]Capítulo II Do Senso de Justiça, de Remorso e da Consciência de Mérito
Não pode haver motivo apropriado para prejudicar o nosso vizinho, não pode haver incitação a fazer o mal para outro, os quais o gênero humano acompanhará, exceto a indignação justa pelo mal que aquele fez a nós. Perturbar a felicidade dele meramente porque ela está no caminho da nossa própria, tomar dele o quê é de uso real para ele meramente porque pode ser de uso igual ou maior para nós, ou satisfazermo-nos, dessa maneira, às custas de outras pessoas, a preferência natural que cada homem tem pela sua própria felicidade acima daquela de outras pessoas, é o quê o espectador imparcial não pode acompanhar. Sem dúvida, por natureza, cada homem é primeira e principalmente recomendado ao seu próprio cuidado; e, como ele é mais adequado para tomar conta de si mesmo do que de qualquer outra pessoa, é adequado e correto que ele deva fazer isso. Portanto, cada homem está muito mais interessado em seja o que for que imediatamente lhe diga respeito, do que que no que diz respeito a qualquer outro homem: e talvez ouvir da morte de outra pessoa, com quem nós não temos nenhuma conexão particular, dar-nos-á menos preocupação, estragará o nosso estômago, ou quebrará o nosso descanso muito menos do que um desastre muito insignificante que tenha [140]acontecido a nós mesmos. Mas, embora a ruína de nosso vizinho possa afetar-nos muito menos do que um infortúnio muito pequeno nosso próprio, nós não temos de o arruinar para impedir esse infortúnio pequeno, nem mesmo para evitar a nossa própria ruína. Aqui, como em todos os outros lugares, nós temos de ver a nós mesmos não tanto de acordo com aquela luz na qual nós podemos naturalmente aparecer para nós mesmos, como de acordo com aquela na qual nós naturalmente aparecemos para outros. Embora todo homem, de acordo com o provérbio, seja o mundo inteiro para si mesmo (be the whole world to himself), para o resto do gênero humano ele é a parte mais insignificante dele. Embora a sua própria felicidade possa ser de maior importância para ele do que aquela de todo o resto do mundo, para qualquer outra pessoa, ela não é de maior consequência do aquela de qualquer outro homem. Portanto, embora possa ser verdade que cada indivíduo, em seu próprio peito, naturalmente prefira a si mesmo a todo o gênero humano, todavia, ele não se atreve a olhar o gênero humano no rosto, e reconhece que ele age de acordo com esse princípio. Ele sente que nessa preferência eles nunca podem o acompanhar, e que por mais natural que isso possa parecer para ele, sempre tem de parecer excessivo e extravagante para eles. Quando ele vê a si mesmo sob a luz na qual ele está consciente que outros o verão, ele vê que para eles ele é apenas um da multidão, em nenhum aspecto melhor do que nenhum outro nela. Se ele deseja agir de modo que o espectador imparcial possa entrar nos princípios da conduta dele, que é o quê de todas as coisas ele tem o maior desejo de fazer, ele tem, nessa como nas outras ocasiões, humilhar a arrogância do seu amor próprio, e rebaixá-lo [141]a alguma coisa que os outros homens podem acompanhar. Eles irão satisfazer isso até onde o permitir ser mais ansioso sobre, e buscar com assiduidade mais firme, a sua própria felicidade do que aquela de qualquer outra pessoa. Até agora, sempre que eles colocarem a si mesmos na situação dele, eles prontamente o acompanharão. Na corrida por riqueza, e honras, e nomeações, ele pode correr tão intensamente quanto ele puder, e esforçar cada nervo e cada músculo, a fim de superar todos os competidores dele. Mas se ele devesse empurrar, ou derrubar qualquer um deles, a indulgência dos espectadores acabaria inteiramente. Isso é uma violação do jogo justo, a qual eles não podem admitir. Esse homem é para eles, em todo aspecto, tão bom quanto eles são; eles não entram naquele amor próprio pelo qual ele prefere tanto a si mesmo àqueles outros, e não podem acompanhar o motivo a partir do qual ele os prejudica. Portanto, eles prontamente simpatizam com o ressentimento natural do injuriado, e o ofensor torna-se o objeto do seu ódio e da sua indignação. Ele está ciente de que ele se torna isso, e ele sente que aqueles sentimentos estão pronto para irromper a partir de todos os lados contra ele.
Quão maior e mais irreparável o mal que é feito, mais intensamente o ressentimento do sofredor naturalmente corre; assim, da mesma maneira, a indignação simpática do espectador, bem como o senso de culpa do agente. A morte é o maior mal que um homem pode infligir a outro, e excita o mais alto grau de ressentimento naqueles que estão imediatamente conectados [142]com o morto. Portanto, o assassinato é o mais atroz de todos os crimes que afetam apenas indivíduos, na visão tanto do gênero humano quanto da pessoa quem o cometeu. Ser privado daquilo que nós possuímos é um mal maior do que ficar desapontado com o que nós apenas temos a expectativa. Portanto, infração de propriedade, furto e roubo, os quais tiram de nós o quê nós possuímos, são crimes maiores do que infração de contrato, a qual apenas nos desaponta quanto ao quê esperávamos. Portanto, as leis mais sagradas da justiça, aquelas cuja violação parece demandar mais alto por vingança e punição, são as leis que guardam a vida e pessoa do nosso vizinho; em seguida, estão aquelas que guardam sua propriedade e posse; e por último, vêm aquelas que guardam aquilo que é chamado de direitos pessoais, ou o quê é devido a ele a partir das promessas de outros.
O violador das leis mais sagradas da justiça nunca pode refletir sobre os sentimentos que o gênero humano tem de acolher com respeito a ele sem sentir todas as agonias da vergonha, e horror, e consternação. Quando a paixão dele é gratificada, e ele começa a refletir friamente sobre a sua conduta passada, ele não pode entrar em nenhum dos motivos que a influenciaram. Eles agora parece tão detestáveis para ele quanto eles sempre pareceram para as outras pessoas. Simpatizando com o ódio e a repugnância que os outros homens têm de acolher por ele, ele torna-se em alguma medida o objeto do seu próprio ódio e repugnância. A situação da pessoa que sofre pela injustiça dele [143]agora demanda sua piedade. Ele fica entristecido diante do pensamento disso; arrepende-se dos efeitos infelizes da sua própria conduta, e, ao mesmo tempo, sente que eles lhe tornaram o objeto apropriado do ressentimento e da indignação do gênero humano, e do quê é a consequência natural de ressentimento, vingança e punição. O pensamento disso perpetuamente o assombra, e enche-o de terror e espanto. Ele não mais se atreve a olhar a sociedade na cara, mas imagina a si mesmo rejeitado e rejeitado dos afetos de todo o gênero humano. Ele não pode ter esperança pela consolação da simpatia nesse sofrimento maior e mais terrível. A lembrança dos crimes dele excluiu toda simpatia com ele dos coração das suas criaturas companheiras. Os sentimentos que eles concebem com respeito a ele são a coisa mesma da qual ele mais tem medo. Toda coisa parece hostil, e ele ficaria feliz em voar para algum deserto inóspito, onde ele pudesse nunca mais contemplar o rosto de uma criatura humana, nem ler no semblante do gênero humano a condenação dos seus crimes. Mas a solidão é ainda mais terrível do que a sociedade. Os seus próprios pensamentos não podem apresentar a ele nada exceto o que seja escuro, infeliz e desastroso, os agouros melancólicos de miséria e ruína incompreensível. O horror da solidão o conduz de volta para a sociedade, e ele entra novamente na presença do gênero humano, atônito para aparecer diante deles, carregado com vergonha e distraído pelo medo, a fim de suplicar por alguma pequena proteção do [144]semblante daqueles mesmos juízes, quem ele sabe que todos eles já o condenaram de maneira unânime. Tal é a natureza desse sentimento, o qual é apropriadamente chamado de remorso; o mais terrível de todos os sentimentos que podem entrar no coração humano. Ele é formado pelo senso da impropriedade da conduta passada; do pesar pelos efeitos dela; da piedade por aqueles que sofrem por ela; e do temor e terror da punição a partir da consciência do ressentimentos justamente provocado de todas as criaturas racionais.
Naturalmente, o comportamento oposto inspira o sentimento oposto. O homem quem, não a partir de imaginação frívola, mas a partir de motivos apropriados, realizou uma ação generosa, quando ele olha adiante para aqueles a quem ele serviu, sente a si mesmo o objeto natural do amor e da gratidão deles, e, por simpatia com eles, da estima e aprovação de todo o gênero humano. E quando ele olha para trás, para o motivo a partir do qual ele agiu, e analisa-o sob a luz na qual o espectador indiferente analisá-lo-ia, ele continua a entrar nele, e aplaude a si mesmo pela simpatia com a aprovação desse suposto juiz imparcial. Em ambos esses pontos de vista, a sua própria conduta aparece para ele de toda maneira agradável. A mente dele, diante do pensamento dela, é preenchida com alegria, serenidade e compostura. Ele está em amizade e harmonia com todo o gênero humano, e olha suas criaturas companheiras com confiança e satisfação benevolente, seguro que ele tornou a si mesmo digno das suas considerações mas favoráveis. [145]Na combinação de todos esses sentimentos consiste a consciência do mérito ou da recompensa merecida.
ORIGINAL:
SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 139-145. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/139/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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