A Teoria dos Sentimentos Morais
Por Adam Smith
Parte I Da Propriedade da Ação
Seção III Dos Efeitos da Prosperidade e Adversidade sobre o Julgamento da Humanidade com respeito à Propriedade da Ação; e Porque é mais Fácil obter a Aprovação Deles em uma Situação do que na Outra.
[98]Capítulo III Da Corrupção dos Nossos Sentimentos Morais, a qual é ocasionada por essa Disposição para admirar o Rico e o Grande, e para desprezar ou negligenciar Pessoas de Condição Pobre e Mesquinha
Essa disposição para admirar, e quase adorar, o rico e o poderoso, e para desprezar, ou, pelo menor, negligenciar pessoas de condição [99]pobre ou mesquinha, embora necessária tanto para estabelecer quanto para manter a distinção de posições sociais e a ordem da sociedade, é, ao mesmo tempo, a causa grande e mais universal da corrupção dos nossos sentimentos morais. Que riqueza e grandeza sejam frequentemente consideradas com o respeito e a admiração que são devidos apenas à sabedoria e virtude; e que o desdém, do qual o vício e a loucura são os únicos objetos apropriados, seja mais frequentemente concedido injustamente à pobreza e fraqueza, têm sido a censura de moralistas de todas as épocas.
No desejamos igualmente ser respeitáveis e ser respeitados. Nós tememos tanto ser desprezíveis quanto ser condenados. Mas, em consequência de entrar no mundo, nós logo descobrimos que a sabedoria e virtude não são, de maneira nenhuma, os objetos únicos de respeito; nem vício e loucura, de desdém. Nós frequentemente vemos as atenções respeitosas do mundo mais fortemente dirigidas para o rico e o grande do que para o sábio e o virtuoso. Nós frequentemente vemos os vícios e as loucuras do poderoso muito menos despresados do que a pobreza do inocente. Merecer, adquirir e desfrutar do respeito e da admiração do gênero humano são os grandes objetos de ambição e emulação. Duas estradas diferentes são apresentadas diante de nós, igualmente levando à obtenção desse objeto tão muito desejado; uma, pelo estudo da sabedoria e a prática da virtude; a outro, pela aquisição de riqueza e grandeza. Dois grandes caráteres são apresentados para a nossa emulação; um, de ambição [100]orgulhosa e avidez ostentosa; o outro, de modéstia humilde e justiça equitativa. Dois modelos diferentes, dois retratos diferentes, são sustentados diante de nós, de acordo com os quais nós podemos dar forma ao nosso próprio caráter e comportamento; um mais ostentador e cintilante em sua coloração; o outro mais correto e mais exoticamente belo em seu contorno; um forçando-se sobre a atenção de qualquer olho errante; o outro, atraindo a atenção de escassamente ninguém, exceto o observador mais estudioso e cuidadoso. Eles são o sábio e o virtuoso, principalmente, um grupo seleto, embora, eu temo, mas pequeno, quem são os admiradores reais e firmes da sabedoria e virtude. A grande multidão do gênero humano são os admiradores e adoradores, e, o que pode parecer mais extraordinário, mais frequentemente os admiradores e adoradores da riqueza e grandeza.
O respeito que nós sentimos pela sabedoria e virtude, sem dúvida, é diferente daquele que nós concebemos pela riqueza e grandeza; e não se requer nenhum bom discernimento para distinguir a diferença. Mas, a despeito dessa diferença, aqueles sentimentos comportam uma semelhança muito considerável um com o outro. Sem dúvida, em algumas características particulares eles são diferentes, mas, no ar geral do semblante, eles parecem ser tão quase muito os mesmos, que observadores desatentos ficam inclinados a confundirem um com o outro.
Em graus iguais de mérito, escassamente há um homem quem não respeite mais o rico e [101]o grande do que o pobre e o humilde. Com a maioria dos homens, a presunção e vaidade dos primeiros são muito mais admiradas do que o mérito real e sólido do segundos. Escassamente está de acordo com a boa moral, ou até com a boa linguagem, talvez, dizer que meras riqueza e grandeza, abstraídas de mérito e virtude, merecem o nosso respeito. Contudo, nós temos de reconhecer que elas quase constantemente o obtêm; e que portanto, elas podem ser consideradas, em alguns aspectos, como os objetos naturais dele. Sem dúvida, aquelas condições sociais exaltadas podem ser completamente degradadas por vício e loucura. Mas o vício e a loucura têm de ser muito grandes antes que eles possam operar essa degradação completa. A libertinagem de um homem de moda é considerada com muito menos desdém e aversão do que aquela de um homem de condição mais mesquinha. No segundo, uma simples transgressão das regras da temperança e propriedade é comumente muito mais ressentida do que o desdém constante e declarado por elas alguma vez é no segundo.
Nas posições medíocres e inferiores de vida, a estrada para a virtude e aquela para a fortuna, pelo menos para uma fortuna tal como os homens em tais posições podem razoavelmente esperar adquirir, são, felizmente, na maior parte dos casos, a mesma. Em todas as profissões medíocres e inferiores, habilidades profissionais reais e sólidas, juntas com conduta prudente, justa, firme e temperada muito raramente falham em suceder. As habilidades algumas vezes até sucederão onde a conduta de maneira nenhuma é correta. Todavia, ou imprudência, ou injustiça, ou fraqueza, ou libertinagem habituais sempre [102]nublarão e algumas vezes deprimirão completamente as habilidades profissionais mais esplêndidas. Além disso, os homens em condições sociais medíocres e inferiores nunca podem ser grandes o suficiente para estarem acima da lei, o que geralmente tem de os intimidar em algum tipo de respeito por, pelo menos, as regras mais importantes da justiça. O sucesso de tais pessoas também quase sempre depende do favorecimento e da boa opinião dos seus vizinhos e iguais; e sem uma conduta toleravelmente regular essas muito raramente podem ser obtidas. Portanto, o bom antigo provérbio de Que a honestidade é a melhor política (That honesty is the best policy), continua quase perfeitamente verdadeiro em tais situações. Portanto, em tais situações, nós geralmente esperamos um grau considerável de virtude; e, felizmente para a boa moral da sociedades, essas situação são de longe a maior parte do gênero humano.
Infelizmente, nas posições superiores de vida, o caso nem sempre é o mesmo. Nas cortes dos príncipes, nos salões dos grandes, onde o sucesso e a proeminência dependem não da estima de iguais inteligente e bem informados, mas do favorecimento fantasioso e tolo de superiores ignorantes, pretensiosos e orgulhosos; a lisonja e falsidade prevalecem frequentemente demais sobre o mérito e a habilidade. Em tais companhias, as habilidades para agradar são mais consideradas do quê as habilidades para servir. Em tempos quietos e pacíficos, quando a tempestade está longe, o príncipe, ou o grande homem, deseja apenas ser entretido, e fica até inclinado a fantasiar que ele escassamente tenha qualquer ocasião para o serviço de alguém, ou que aqueles que o entretêm [103]sejam suficientemente hábeis para o servir. As graças externas, as realizações frívolas daquela coisa impertinente e tola chamada de um homem da moda, são comumente mais admiradas do que as virtudes sólidas e masculinas de um guerreiro, um estadista, um filósofo ou um legislador. Todas as virtudes grandes e terríveis, todas virtudes que podem se adequar, quer ao conselho, ao senado, ou ao campo, são, pelos lisonjeadores indolentes e insignificantes, quem comumente figuram em maioria em sociedades tão corruptas, consideradas com o desdém e desprezo máximos. Quando o duque de Sully foi convocado por Luiz XIII, para dar seu conselho em alguma grande emergência, ele observou os favoritos e cortesões sussurrando uns para os outros e sorrindo diante da sua aparência fora de moda. “Sempre que o pai de Vossa Majestade,” disse o velho guerreiro e estadista, “concedia a honra de me consultar, ele ordenava aos bufões da corte para se retirarem para a antecâmara.”
É a partir da nossa disposição para admirar, e, consequentemente, para imitar, o rico e o grande que eles são permitidos a estabelecer, ou conduzir a, o que é chamado de a moda. A vestimenta deles é a vestimenta elegante; a linguagem da sua conversação, o estilo elegante; o ar e a conduta deles, o comportamento elegante. Mesmo os seus vícios e loucuras são elegantes; e a maior parte dos homens fica orgulhosa ao imitar e assemelhar-se a eles nessas mesmas qualidades que os desonram e degradam. Homens vãos frequentemente dão a si mesmos ares de libertinagem elegante, a qual, nos corações deles, eles não aprovam, e da qual, talvez, eles [104]não sejam realmente culpados. Eles desejam ser elogiados pelo quê eles mesmos não consideram meritório, e ficam envergonhados daquelas virtudes sem elegância que eles às vezes praticam em segredo, e pelas quais eles secretamente têm algum grau de veneração real. Há hipócritas da riqueza e grandeza assim como da religião e virtude; e um homem vão fica inclinado a fingir ser o quê ele não é, de uma maneira, como um homem astuto é, de outra maneira. Ele assume os apetrechos e a esplêndida maneira de viver dos seus superiores, sem considerar que, seja o quê for que possa ser digno de elogio em qualquer desses, deriva o seu mérito e a sua propriedade inteiros a partir da sua adequação àquela situação e fortuna que tanto requer quanto facilmente pode suportar a despesa. Muitos homens pobres colocam a sua glória em serem considerados ricos, sem considerarem que os deveres (se alguém pode chamar loucuras similares por um nome tão venerável), os quais essa reputação impõe a ele, logo devem o reduzir à mendicância, e tornar a situação dele ainda mais diferente daquela daqueles a quem ele admira e imita, do que ela originalmente tinha sido.
Para alcançarem essa situação invejada, os candidatos à fortuna muito frequentemente abandonam os caminhos da virtude; pois, infelizmente, a estrada que conduz a uma e aquela que conduz a outra, algumas vezes, estendem-se em direções muito opostas. Mas o homem ambicioso lisonjeia a si mesmo que, na situação esplêndida para a qual ele progride, ele terá tantos meios de comandar o respeito e a admiração do gênero humano, e será permitido a agir com [105]propriedade e graça tão superiores, que o lustre da sua conduta futura cobrirá, ou apagará, a impureza dos passos pelos quais ele alcançou aquela elevação. Em muitos governos os candidatos aos cargos mais elevados estão acima da lei; e, se eles podem alcançar o objeto da sua ambição, eles não têm medo de serem convocados para explicar os meios através dos quais eles o adquiriram. Portanto, eles frequentemente tentam não apenas por fraude e falsidade, as artes ordinárias e vulgares da intriga e cabala; mas algumas vezes pela perpetração dos crimes mais enormes, através de assassinato e homicídio, por rebelião e guerra civil, suplantar e destruir aqueles que se opõem ou estão no caminho da grandeza deles. Eles mais frequentemente malogram do que têm sucesso; e comumente não ganham nada exceto a punição vergonhosa que é devida aos crimes deles. Mas, embora eles devam ser tão sortudos quanto a obterem aquela grandeza desejada, eles ficam sempre mais miseravelmente despontados na felicidade que eles esperam desfrutar nela. Não é conforto ou prazer, mas sempre honra, de um tipo ou de outro, embora frequentemente uma honra muito mal entendida, que o homem ambicioso realmente busca. Mas a honra da sua posição social exaltada parece, tanto para os seus próprios olhos quando para os olhos de outras pessoas, poluída e contaminada pela baixeza dos meios através do quais ele ascendeu a ela. Embora através da profusão de toda despesa liberal; embora através da indulgência excessiva em cada prazer libertino, o recurso miserável, mas usual, de caráteres arruinados; embora através da confusão dos [106]negócios públicos, ou através do tumulto mais orgulhoso e deslumbrante da guerra, ele possa tentar apagar, tanto da sua própria memória quanto daquela de outras pessoas, a lembrança do que ele fez; aquela lembrança nunca falha em o perseguir. Em vão ele invoca os poderes escuros e sombrios do esquecimento e oblívio. Ele mesmo lembra-se do quê ele fez, e essa lembrança diz a ele que, da mesma maneira, as outras pessoas têm lembrar. Em meio à toda pompa espalhafatosa da grandeza mais ostentosa; em meio à adulação venal e vil do grande e do instruído; em meio às aclamações mais inocentes, embora mais tolas do povo comum; em meio a todo o orgulho da conquista e ao triunfo da guerra exitosa, ele ainda é secretamente perseguido pelas fúrias vingativas da vergonha e do remorso; e embora a glória pareça cercá-lo por todos os lado, ele mesmo, em sua própria imaginação, vê a infâmia escura e maligna rapidamente o perseguindo, e a cada momento pronta para o sobrepujar por trás. Mesmo o grande César, embora ele tivesse a magnanimidade para dispensar os seus guardas, não poderia dispensar as suas suspeitas. A lembrança da Farsália ainda o assombrava e perseguia. Quando, diante da requisição do Senado, ele teve a generosidade de perdoar Marcelo, ele disse àquela assembleia que ele não estava ciente dos desígnios que eram levados a cabo contra a sua vida; mas que, como ele tinha vivido muito, tanto por natureza, quanto por glória, ele estava contende em morrer e, portanto, despresou todas as conspirações. Talvez ele tenha vivido muito por natureza. [107]Mas o homem quem sentia ele mesmo o objeto de ressentimento tão mortal, a partir daquele favor que ele desejasse obter, e a quem ainda desejava considerar como seus amigos, certamente tinha vivido demais para glória real; ou, para toda felicidade que ele alguma vez poderia ter esperança para desfrutar no amor e na estima dos seus iguais.
ORIGINAL:
SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 98-107. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/98/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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