A Teoria dos Sentimentos Morais
Por Adam Smith
Parte II Do Mérito e Demérito; ou dos Objetos de Recompensa e Punição. Consistindo em Três Seções
Seção III Da Influência da Fortuna sobre os Sentimentos do Gênero Humano com respeito ao Mérito e ao Demérito
[181]Capítulo III Da Causa Final dessa Irregularidade de Sentimentos [Fim da Parte II]
Tão grande é o efeito da consequência boa ou má das ações sobre os sentimentos tanto da pessoa que as realiza quanto dos outros; e, dessa forma, a fortuna, a qual governa o mundo, tem alguma influência onde nós deveríamos estar menos dispostos a permitir-lha alguma e, em alguma medida, dirige os sentimentos do gênero humano com respeito ao caráter e à conduta tanto de si mesmos quando de outros. Que o mundo julga pelo evento, e não pelo desígnio, tem sido em todas as eras a reclamação, e é o grande desencorajamento à virtude. Todos concordam com a máxima geral de que, uma vez que o evento não depende do agente, ele não deveria ter nenhuma influência sobre os nossos sentimentos com respeito ao mérito ou à propriedade da conduta dele. Mas quando nós chegamos aos particulares, nós descobrimos que os nossos sentimentos escassamente estão, em qualquer instância, de acordo com o quê essa máxima equitativa dirigiria. O evento feliz ou pouco próspero de qualquer ação, não é apenas apto a conceder-nos uma boa ou má opinião da prudência com a qual ele foi conduzido, mas quase sempre também anima a nossa gratidão ou [182]ressentimento, o nosso senso do mérito ou demérito do desígnio.
Contudo, a natureza, quando ela implantou as sementes dessa irregularidade no peito humano, parece, como em todas as outras ocasiões, ter intencionado a felicidade e perfeição da espécie. Se a nocividade do desígnio, se a malevolência do afeto, fossem sozinhas as causas que excitassem o nosso ressentimento, nós deveríamos sentir todas as fúrias daquela paixão contra qualquer pessoa em cujo seio nós suspeitássemos ou acreditássemos que tais desígnios fossem abrigados, embora eles nunca tivessem irrompido em nenhuma ação. Sentimentos, pensamentos, intenções, tornar-se-iam os objetos de punição; e se a indignação do gênero humano corresse tão alta contra eles como contra ações; se a baixeza do pensamento que não tivesse dado origem a nenhuma ação, parecessem aos olhos do mundo tanto clamar por vingança quanto a baixeza da ação, cada corte de judicatura tornar-se-ia uma inquisição real. Não haveria nenhuma segurança para a conduta mais inocente e circunspecta. Desejos maus, visões más, desígnios maus, ainda poderiam ser suspeitados; e embora esses excitassem a mesma indignação que a má conduta, embora as más intenções fossem tão ressentidas quanto as más ações, elas igualmente expõem a pessoa a punição e ressentimento. Portanto, ações que ou produzem mal atual, ou tentam produzi-lo e, através disso, colocam-nos no temor imediato dele, são, pelo Autor da [183]natureza, tornadas os objetos apropriados e aprovados da punição e do ressentimento humanos. Sentimentos, desígnios, afetos, embora seja a partir desses que, de acordo com a fria razão humana, as ações derivam o seu mérito ou demérito inteiros, estão colocados pelo grande Juiz dos corações além dos limites de toda jurisdição humana e estão reservados para a jurisdição do seu próprio tribunal infalível. Portanto, que a necessária regra da justiça de que os homens nesta vida sejam passíveis de punição por suas ações apenas, não por seus desígnios e suas intenções, está fundamentado sobre essa irregularidade salutar e útil nos sentimentos humanos relativos ao mérito e demérito, a qual, à primeira vista parece tão absurda e inexplicável. Mas cada parte da natureza, quando analisada atentamente, demonstra igualmente o cuidado providencial do seu Autor, e nós podemos admirar a sabedoria e bondade de Deus mesmo na fraqueza e loucura dos homens.
Nem está essa irregularidade de sentimentos completamente sem a sua utilidade, pela qual o mérito de uma ação malsucedida para servir, e muito mais que meras boas intenções e desejos amáveis, parece ser imperfeito. O homem foi criado para ação, e para promover pelo exercício das suas faculdades tais mudanças nas circunstâncias externas tanto dele mesmos quanto de outros, que podem parecer mais favoráveis à felicidade de todos. Ele não tem de satisfazer a si mesmo com benevolência indolente, nem fantasiar a si mesmo o amigo do gênero humano, porque, em seu coração, ele deseja o bem para a prosperidade do mundo. Que ele possa convocar o inteiro vigor da sua alma, e esforçar cada nervo, [184]para produzir aqueles fins que é o propósito do ser dele promover, a natureza tem ensinado a ele que nem ele mesmo nem o gênero humano podem ficar inteiramente satisfeitos com a conduta dele, nem conceder sobre ele a medida completa de aplauso, a menos que ele efetivamente os produza. Ele é criado para conhecer que o elogio das boas intenções, sem o mérito dos bons serviços, será apenas de pequeno proveito para excitar ou as aclamações mais intensas do mundo ou até o grau mais elevado de autoaplauso. O homem que não tenha realizado nem uma única ação de importância, mas cuja conversa e conduta inteiras expressam os sentimentos mais justos, mais nobres e mais generosos, não pode ter direito a demandar nenhuma recompensa elevada, mesmo se a inutilidade dele devesse ser devida a nada exceto à falta de uma oportunidade para servir. Nós ainda podemos refutá-la sem culpa. Nós ainda podemos perguntar-lhe, O que você fez? Que serviço atual você produziu, para dar direito a você a uma grande recompensa? Nós estimamos você, e amamos você; mas nós não devemos nada a você. De fato, recompensar a virtude latente que tem sido inútil apenas por falta de uma oportunidade para servir, conceder sobre ela aquelas honras e nomeações, a qual, embora em alguma medida pode ser dita merecê-las, não se poderia com propriedade insistir, é o efeito da benevolência mais divina. Pelo contrário, punir apenas por causa dos afetos do coração, onde nenhum crime tenha sido cometido, é a tirania mais insolente e bárbara. Os afetos benevolentes parecem merecer mais elogios, quando eles [185]não esperam até que se torne quase um crime para eles não exercerem a si mesmos. Pelo contrário, o malevolente escassamente pode ser atrasado demais, lento demais ou deliberado.
É até importância considerável que o mal que é realizado sem desígnio deveria ser considerado como um infortúnio tanto para o realizador quanto para o sofredor. Através disso o homem é ensinado a reverenciar a felicidade dos seus irmãos, a tremer com o receio de que ele deva, mesmo inconscientemente, fazer qualquer coisa que os pudesse machucar, e temer que o ressentimento animal, o qual ele sente, esteja pronto para irromper contra ele, se ele devesse, sem desígnio, ser o instrumento infeliz da calamidade deles. Como, na antiga religião pagã, aquele solo sagrado que tinha sido consagrado a algum deus, não devia ser pisado, exceto em ocasiões solenes e necessárias, e o homem quem o tivesse violado ignorantemente, tornou-se piacular a partir desse momento, e, até que expiação apropriada devesse ser realizada, incorreu na vingança daquele ser poderoso e invisível para quem ele tinha sido separada; assim, pela sabedoria da natureza, da mesma maneira, a felicidade de cada homem inocente é tornada completamente sagrada, consagrada e cercada contra a aproximação de qualquer outro homem; para não ser pisoteada desenfreadamente, nem mesmo para ser, em qualquer aspecto, violada ignorante e involuntariamente, sem requer alguma expiação, alguma reparação em proporção à grandeza de um violação tão involuntária. Um homem de humanidade, quem, acidentalmente, e sem o menor grau de negligência culpável, tenha sido a causa da [186]morte de outro homem, sente a si mesmo piacular, embora não culpado. Durante toda a vida dele ele considera esse acidente como um dos maiores infortúnios que poderiam ter acontecido a ele. Se a família do morto é pobre, e ele mesmo está em situação tolerável, ele imediatamente os toma sob a proteção dele, e, sem nenhum outro mérito, considera-os com o direito a todo grau de favorecimento e gentileza. Se eles estão em circunstâncias melhores, ele tenta através de cada submissão, através de cada expressão de pesar, através da prestação de cada bom serviço que ele pode conceber ou eles podem aceitar, expiar pelo quê aconteceu, e propiciar, tanto quanto possível, o ressentimento deles, talvez natural embora, sem dúvida, muito injusto, pela ofensa grande, embora involuntária, que ele causou a eles.
O sofrimento que uma pessoa inocente sente, quem, por algum acidente, foi levada a fazer alguma coisa que, se tivesse feita com conhecimento e desígnio, teria justamente a exposto à repugnância mais profunda, tem dado ocasião a algumas das cenas mais belas e mais interessantes tanto do drama antigo quanto do moderno. É esse senso falacioso de culpa, se eu posso chamá-lo assim, que constitui o inteiro sofrimento de Édipo e Jocasta para o teatro grego, de Monimia e Isabella para o inglês. Todos eles são, no grau mais elevado, piaculares, embora nenhum deles seja, no menor grau, culpado.
Contudo, a despeito de todas essas aparentes irregularidades de sentimento, se o homem devesse, desafortunadamente, ou dar ocasião para aqueles males que [187]ele não intencionou, ou falhar na produção daquele bem que ele intencionou, a natureza não deixou a inocência dele completamente sem consolo, nem a virtude dele completamente sem recompensa. Ele então chama à sua assistência aquela máxima justa e equitativa, Que aqueles eventos que não dependeram da nossa conduta, não deveriam diminuir a estima que é devida a nós. Ele convoca toda a sua magnanimidade e firmeza de alma, e esforça-se para considerar a si mesmo, não sob a luz na qual no presente ele apresenta-se, mas naquela sob a qual ele deveria aparecer, na qual ele teria aparecido, houvesse seus desígnios generosos sido coroados com sucesso, e na quela ainda apareceria, a despeito do malogro deles, se os sentimentos do gênero humano fossem ou completamente cândidos e equitativos ou mesmo perfeitamente consistente com eles mesmos. A parte mais cândida e humana do gênero humano acompanha-o inteiramente nos esforços que, dessa maneira, ele faz para suportar a si mesmos em sua própria opinião. Eles exercem a sua inteira generosidade e grandeza de mente, para corrigirem em si mesmos essa irregularidade da natureza humana, e tentam considerar essa magnanimidade infeliz sob a mesma luz que, tivesse ela sido bem-sucedida, eles, sem nenhum esforço generoso, teriam ficado naturalmente dispostos a considerá-la assim.
[Fim da Parte II]
ORIGINAL:
SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 181-187. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/181/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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