A Teoria dos Sentimentos Morais
Por Adam Smith
Parte II Do Mérito e Demérito; ou dos Objetos de Recompensa e Punição. Consistindo em Três Seções
Seção I Do Senso de Mérito e Demérito
[108]Introdução
Há outro conjunto de qualidades atribuídas às ações e conduta do gênero humano, distintas da propriedade ou impropriedade delas, decência ou desgraciosidade delas, e as quais são objetos de uma espécie distinta de aprovação e desaprovação. Essas são mérito e demérito, as qualidades de merecer recompensa e merecer punição.
[109]Já foi observado que o sentimento ou afeto do coração, a partir do qual qualquer ação procede e em consequência do qual toda virtude ou todo vício dela dependem, pode ser considerado sob dois aspectos diferentes, ou em duas relações diferentes: primeiro, em relação à causa ou ao objeto que o excita; e segundo, em relação ao fim que ele se propõe, ou ao efeito que ele tende a produzir: que da adequação ou inadequação, da proporção ou desproporção, que o afeto parece comportar com a causa ou o objeto que o excita, depende a propriedade ou impropriedade, a decência ou indecência da ação consequente; e que dos efeitos benéficos ou prejudiciais que o afeto propõe ou tende a produzir dependem o mérito ou demérito, o merecimento bom ou mal da ação ao qual ela dá ocasião. Em que consiste o nosso senso da propriedade ou impropriedade das ações, foi explicado na parte anterior deste discurso. Nós agora chegamos a considerar no que consiste o merecimento bom ou mal delas.
[110]Capítulo I Que, seja o que for que pareça ser o Objeto Apropriado de Gratidão, parece merecer Recompensa; e que, da mesma forma, seja o que for que pareça ser o Objeto Apropriado de Ressentimento, parece merecer Punição
Portanto, para nós, essa ação tem de parecer merecer recompensa, a qual parece ser o objeto apropriado e aprovado desse sentimento, o qual mais imediata e diretamente nos incita a recompensar ou a fazer o bem para outro. E, da mesma maneira, essa ação tem de parecer merecer punição, a qual parece ser o objeto apropriado e aprovado daquele sentimento que mais direta e imediatamente nos incita a punir, ou a infligir o mal a outro.
O sentimento que mais imediata e diretamente nos incita a recompensar é a gratidão; aquele que mais imediata e diretamente nos incita a punir é o ressentimento.
Portanto, para nós, essa ação tem de parecer merecer recompensa, a qual parece ser o objeto apropriado e aprovado de gratidão; como, por outro lado, essa ação tem de parecer merecer punição, a qual parece ser o objeto apropriado e aprovado de ressentimento.
Recompensar é premiar, remunerar, retornar o bem pelo bem recebido. Punir, [111]também, é recompensar, remunera, embora de uma maneira diferente; é retornar o mal pelo mal que foi feito.
Há algumas outras paixões, além da gratidão e do ressentimento, as quais nos interessam na felicidade ou miséria dos outros; mas não há nenhuma que, tão diretamente, excita-nos a sermos os instrumentos de qualquer um deles. O amor e a estima que crescem a partir de familiaridade e aprovação mútua, necessariamente nos levam a ficarmos satisfeitos com a boa fortuna do homem que é objeto de emoções tão agradáveis, e, consequentemente, a ficarmos dispostos a dar uma mão para a promover. Por mais que o nosso amor esteja completamente satisfeito, contudo, a boa fortuna dele deveria ser causada sem a nossa assistência. Tudo que essa paixão deseja é vê-lo feliz, sem considerar quem foi o autor da prosperidade dele. Mas a gratidão não deve ser satisfeita dessa maneira. Se a pessoa a quem nós devemos muitas obrigações é tornada feliz sem a nossa assistência, por mais que isso agrade o nosso amor, não satisfaz a nossa gratidão. Até que nós a tenhamos recompensado, até que nós mesmos tenhamos sido instrumentais na promoção da felicidade dele, nós ainda nos sentimos carregados com aquele débito que os seus serviços passados colocaram sobre nós.
O ódio e o desgosto, de maneira similar, os quais crescem sobre a desaprovação habitual, frequentemente nos conduziriam a termos um prazer malicioso no infortúnio do homem cuja conduta e caráter excitam uma paixão tão dolorosa. Mas, embora desgosto e ódio endureçam-nos contra toda simpatia e, algumas vezes, disponham-nos até a [112]regozijarmos diante do sofrimento de outro, contudo, se não há ressentimento no caso, se nem nós nem nossos amigos receberem nenhuma grande provocação pessoal, essas paixões não naturalmente nos conduziriam a sermos instrumentos em o causar. Embora nós possamos não temer nenhuma punição em consequência de nós termos tido alguma mão nele, nós antes desejaríamos que ele devesse acontecer através de outros meios. Talvez, para alguém sob o domínio de ódio violento seria agradável ouvir que a pessoa a quem ele abominasse e detestasse fosse morta por algum acidente. Mas se ele tivesse a mínima centelha de justiça, a qual, embora essa paixão não seja muito favorável à virtude, ele ainda poderia ter, injuriá-lo-ia excessivamente ter sido a si mesmo, mesmo sem intenção, a ocasião desse infortúnio. Muito mais o pensamento mesmo de contribuição voluntária para isso iria chocá-lo além de toda medida. Ele rejeitaria com horror até a imaginação de um desígnio tão execrável; e se ele pudesse imaginar a si mesmo capaz de uma maldade tão grande, ele começaria a considerar a si mesmo sob a mesma odiosa na qual ele tinha considerado a pessoa quem foi objeto do seu desgosto. Mas é bastante de outra maneira com o ressentimento: se a pessoa quem nos causou alguma grande injúria, quem assassinou nosso pai ou irmão, por exemplo, devesse logo depois morrer de uma febre, ou mesmo ser trazido ao cadafalso por conta de algum outro crime, embora isso suavizasse o nosso ódio, isso não gratificaria o nosso ressentimento. O ressentimento incitar-nos-ia a desejar, não apenas que ele devesse ser [113]punido, mas que ele devesse ser punido pelos nossos meios e por conta daquela injúria particular que ele nos causou. O ressentimento não pode ser completamente gratificado a menos que o ofensor seja feito lamentar por sua vez, mas lamentar por aquele erro particular que nós sofremos por causa dele. Ele tem de ser feito arrepender-se e ficar triste por essa ação mesma, para que outros, através de medo da punição similar, possam ficar aterrorizados da ofensa similar. A gratificação natural dessa paixão tende, do seu próprio acordo, a produzir todos os fins políticos da punição; a correção do criminosos e o exemplo para o público.
Portanto, a gratidão e o ressentimento são os sentimentos que mais imediata e diretamente nos incitam a recompensar e a punir. Portanto, para nós aquele que parece ser o objeto apropriado e aprovado da gratidão, tem de parecer merecer recompensa; e quem parece ser aquele do ressentimento, tem de merecer punição.
ORIGINAL:
SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 108-113. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/108/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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