domingo, 11 de agosto de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P2S3C1 Das Causas dessa Influência da Fortuna

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte II Do Mérito e Demérito; ou dos Objetos de Recompensa e Punição. Consistindo em Três Seções


Seção III Da Influência da Fortuna sobre os Sentimentos do Gênero Humano com respeito ao Mérito e ao Demérito


Capítulo anterior


[157]Introdução


Qualquer elogio ou culpa que possam ser devidos a qualquer ação têm de pertencer ou, primeiro, à intenção ou ao afeto do coração a partir dos quais ela procede, ou, segundo, à ação ou ao movimento externo do corpo, aos quais esse afeto dá ocasião; ou, por último, às consequências, as quais, efetivamente e de fato, procedem a partir dela. Esses três coisas diferentes constituem a natureza inteira ou as circunstâncias da ação, e têm de ser o fundamento de seja qual for a qualidade que possa pertencer a ela.

Que essas duas últimas das três circunstâncias não podem ser o fundamento de nenhum elogio ou nenhuma culpa, é abundantemente evidente; nem o contrário alguma vez foi afirmado por ninguém. Frequentemente, a ação e o movimento externos do corpo são o mesmo nas ações mais inocentes e nas mais culpáveis. Aquele que atira em um pássaro, e aquele quem atira em um homem, ambos realizam o mesmo movimento externo: cada um deles puxa o gatilho de uma arma. As consequências [158]que, efetivamente e de fato, acontecem de proceder a partir de cada ação são, se possíveis, ainda mais indiferentes a elogio ou culpa, do que até o movimento externo do corpo. Visto que elas dependem não do agente, mas da fortuna, elas não podem ser o fundamento apropriado para nenhum sentimento, do qual o caráter e a conduta dele são os objetos.

As únicas consequências pelas quais ele pode ser responsável, ou pelas quais ele merece ou aprovação ou desaprovação de qualquer tipo, são aquelas que, de uma ou outra maneira intencionadas, ou aquelas que, pelo menos, revelam algum qualidade concordável com a ou discordável da intenção do coração a partir da qual ele agiu. Portanto, à intenção ou ao afeto do coração, à propriedade ou impropriedade, à beneficência ou nocividade do desígnio, todo elogio ou culpa, toda aprovação ou desaprovação, de qualquer tipo, os quais podem ser justamente concedidos sobre qualquer ação, tem de por fim pertencer.

Quando essa máxima é proposta dessa maneira, em termos abstratos e gerais, não há ninguém que não concorde com ela. A sua justiça autoevidente é reconhecida por todo o mundo, e não há uma voz diferindo em meio a todo o gênero humano. Todo mundo admite que, por mais diferentes que sejam as consequências acidentais, não intencionadas, das diferentes ações, contudo, se as intenções ou os afetos a partir dos quais elas surgem forem, por um lado, igualmente apropriados e igualmente beneficentes, ou pelo outro lado, igualmente impróprios e igualmente malevolentes, o mérito ou demérito [159]das ações ainda é o mesmo, e o agente é objeto igualmente adequado ou de gratidão ou de ressentimento.

Mas quão bem que seja nós parecemos estar persuadidos da verdade dessa máxima equitativa, quando nós a consideramos dessa maneira, em abstrato, contudo, quando nós chegamos aos casos particulares, as consequências atuais que acontecem de proceder a partir de qualquer ação, têm um grande efeito sobre os sentimentos relativos ao mérito ou demérito dela, e quase sempre ou intensificam ou diminuem o nosso senso de ambos. Talvez escassamente, em uma instância, os nossos sentimentos serão considerados, após exame, serem inteiramente regulados por essa regra, a qual todos nós reconhecemos deveria regulá-los inteiramente.

Essa irregularidade de sentimento, a qual todos sentem, da qual escassamente ninguém está suficientemente ciente, e a qual ninguém está disposto a reconhecer, eu agora prossigo para explicar; e eu deverei considerar, primeiro, a causa que dá ocasião a ela, ou o mecanismo através do qual a natureza a produz; segundo, a extensão da sua influência; e, por último, o fim ao qual ela corresponde, ou o propósito que o Autor da natureza parece ter intencionado através dela.


[160]Capítulo I Das Causas dessa Influência da Fortuna


As causas de dor e prazer, quaisquer que elas sejam, ou seja como for que elas operem, parecem ser os objetos que, em todos os animais, excitam imediatamente aquelas paixões de gratidão de ressentimento. Elas são excitadas pelos objetos inanimados assim como pelos animados. Por um momento nós ficamos com raiva até da pedra que nos machucou. Uma criança bate nela, um cão late para ela, um homem colérico fica inclinado a amaldiçoá-la. De fato, a menor reflexão corrige esse sentimento, e nós logo nos tornamos cientes de que o quê não tem sentimento é um objeto muito impróprio de vingança. Contudo, quando a injúria é muito grande, o objeto que a causou torna-se desagradável para nós para sempre, e nós temos prazer em o queimar e destruir. Dessa maneira nós deveríamos tratar o instrumento que acidentalmente tinha sido a causa da morte de um amigo, e nós frequentemente deveríamos considerar a nós mesmos culpados de um tipo de desumanidade, se nós negligenciássemos dar vazão a esse tipo absurdo de vingança sobre ele.

De maneira similar, nós concebemos um tipo de gratidão por aqueles objetos inanimados que têm sido a causa de prazer grande ou frequente para nós. O navegador, quem, tão logo ele tenha vindo à terra, deveria emendar o seu fogo com a prancha sobre a qual ele há pouco escapou de um naufrágio, [161]pareceria ser culpado de uma ação não natural. Nós deveríamos pensar que ele antes desejasse a preservar, com carinho e afeto, como um monumento que foi, em alguma medida caro a ele. Um homem afeiçoa-se a uma caixa de rapé, a um canivete, a um bastão do qual ele há muito tempo tem feito uso, e concebe algo como um amor ou uma afeição reais por eles. Se ele quebra-os ou perde-os, ele fica irritado além de toda proporção com valor do dano. A casa, na qual nós temos vívido há muito tempo, a árvore, cujas verdura e sombra nós temos desfrutado há muito tempo, são ambas consideradas com um tipo de respeito que parece ser devido a benfeitores similares. A decadência de uma, ou a ruína da outra, afetam-nos com um tipo de melancolia, embora nós não devêssemos sofrer nenhuma perda por ela. As dríades e os lares dos antigos, um tipo de gênio das árvores e das casas, provavelmente foram inicialmente sugeridas por esse tipo de afeto, o qual os autores daquelas superstições sentiram por objetos similares, e o qual pareceu irracional, se não houvesse nada animado sobre ele.

Mas, antes de que qualquer coisa possa ser o objeto próprio de gratidão ou ressentimento, ela não tem apenas de ser a causa de prazer ou dor, ela tem de ser capaz de os sentir, da mesma maneira. Sem essa outra qualidade, aquelas paixões não podem expressar a si mesmas com qualquer tipo de satisfação em consequência disso. Como elas são excitadas pelas causas de prazer e dor, assim a gratificação delas consiste em pagar na mesma moeda aquelas sensações sobre o quê deu ocasião a elas; o quê não tem nenhum [162]propósito de tentar sobre o quê não tem nenhuma sensibilidade. Portanto, os animais são objetos menos impróprios de gratidão e ressentimentos do que os objetos inanimados. O cão que morde, o boi que escorna, são ambos eles punidos. Se eles foram causas da morte de qualquer pessoa, nem o público, nem os parentes do morto podem ficar satisfeitos a menos que, por sua vez, eles sejam colocados à morte: nem é isso meramente pela segurança do vivo, mas, em alguma medida, para vingar a injúria do morto. Pelo contrário, aqueles animais que tenham sido notavelmente uteis para os mestres deles, tornam-se os objetos de uma gratidão muito vívida. Nós ficamos chocados diante da brutalidade daquele oficial, mencionado no Espião Turco, quem esfaqueou o cavalo que o tinha carregado através de um braço de mar, com o receio de que depois o animal devesse distinguir alguma outra pessoa por uma aventura similar.

Mas, embora animais não apenas sejam as causas de prazer e dor, mas também sejam capazes de sentir essas sensações, eles ainda estão longe de serem objetos completos e perfeitos ou de gratidão ou de ressentimento; e daquelas paixões ainda se sente que há alguma coisa faltando para sua inteira gratificação. O que a gratidão deseja principalmente não é que o benfeitor sinta prazer por sua vez, mas torná-lo consciente de que ele encontra essa recompensa por conta da sua conduta passada, fazê-lo ficar agradado com essa conduta, e satisfazê-lo com aquela pessoa sobre quem ele concedeu bom serviços a ela não foi [163]indigno deles. O quê mais nos encanta no nosso benfeitor é a concórdia que há entre esses sentimentos e o nosso próprio, com respeito ao quê nos interessa tão de perto como o valor do nosso próprio caráter, e a estima que é devida a nós. Nós ficamos satisfeitos de encontrar uma pessoa que nos valoriza como nós valorizamos a nós mesmos, e distingue-nos do resto da humanidade, com uma atenção não diferente daquela com a qual nós distinguimos a nós mesmos. Manter nela esses sentimentos agradáveis e lisonjeadores é um dos fins principais propostos pelos retornos que nós estamos dispostos a produzir para ela. Uma mente generosa frequentemente desdenha do pensamento interessado de extorquir novos favores do seu benfeitor, pelo que pode ser chamado de importunidades da sua gratidão. Mas preservar e intensificar a estima dele, é um interesse que a maior mente não considera indigno da sua atenção. E esse é o fundamento do que foi anteriormente observado, que quando nós não podemos entrar nos motivos do nosso benfeitor, quando a sua conduta e o seu caráter parecem indignos da nossa aprovação, para que os serviços dele tenham sido alguma vez tão grandes, a nossa gratidão sempre fica sensivelmente diminuída. Nós ficamos menos lisonjeados pela distinção; e preservar a estima de um patrono tão fraco, ou tão sem valor, parece ser um objeto que não merece ser perseguido por si mesmo.

Pelo contrário, o objeto ao qual o ressentimento está principalmente intencionado não é tanto fazer o nosso inimigo sentir dor por sua vez, quanto a torná-lo consciente de que ele a sente por conta da sua conduta passada, para o fazer arrepender-se [164]dessa conduta e para o tornar sensível de que a pessoa a quem ele injuriou não merecia ser tratado daquela maneira. O quê principalmente nos enfurece contra o homem quem injuria ou insulta-nos, é a pouca consideração que ele parece fazer de nós, a preferência irracional que ele concede a si mesmo sobre nós, e aquele amor próprio absurdo, pelo qual ele parece imaginar que as outras pessoas podem ser sacrificadas em qualquer momento, à conveniência ou ao humor dele. A impropriedade flagrante dessa conduta, a insolência e injustiça grosseiras nas quais ela parece estar envolvida, frequentemente nos chocam e exasperam mais do que toda injúria que nós tenhamos sofrido. Trazê-lo de volta a um senso mais justo do quê é devido às outras pessoas, torná-lo mais sensível do quê ele nos deve, e do erro que ele cometeu conosco, é frequentemente o fim principal proposto na nossa vingança, a qual é sempre imperfeita quando não pode realizar isso. Quando o nosso inimigo parece ter-nos causado uma injúria, quando nós estamos cientes de que ele agiu bastante apropriadamente, que, na situação dele, nós deveríamos ter feito a mesma coisa, e que nós merecemos dele toda injúria que nós encontramos; nesse caso, se nós temos a menor centelha de candura ou justiça, nós não podemos entreter nenhum tipo de ressentimento.

Portanto, antes que qualquer coisa possa ser o objeto completo e próprio ou de gratidão ou de ressentimento, ela tem possuir três qualidades diferentes. Primeiro, ela tem de ser a causa de prazer, em um caso, e de dor, no outro. Segundo, ela tem de ser capaz de sentir essas [165]sensações. E terceiro, ela tem não apenas de ter produzido essas sensações, mas ela tem de ter produzido-as a partir de desígnios, e a partir de desígnio que é aprovado em um caso e desaprovado no outro. É através da primeira qualificação que qualquer objeto é capaz de excitar aquelas paixões: é através da segunda que ele é, em qualquer aspecto, capaz de as gratificar: a terceira qualificação não é apenas necessária para a sua satisfação completa, mas, considerando que ela concede um prazer ou uma dor que é tanto exótico(a) quanto peculiar, da mesma maneira, ela é uma causa adicional daquelas paixões.

Portanto, quanto a quê concede prazer ou dor, de uma maneira ou de outra, é a única causa excitante de gratidão ou de ressentimento; embora as intenções de qualquer pessoa devam alguma vez ser tão apropriadas e beneficentes, por um lado, ou alguma vez tão impróprias e malevolentes, pelo outro; todavia, se ela falhou na produção ou do bem ou do mal que ela intencionava, visto que uma das causas excitantes é deficiente em ambos os casos, menos gratidão parece ser devida no primeiro, e menos ressentimento no outro. E, pelo contrário, embora nas intenções de qualquer pessoa não houve ou nenhum grau louvável de benevolência, por um lado, ou nenhum grau culpável de malícia, pelo outro; todavia, se as ações dela deveriam produzir ou grande bem ou grande mal, visto que uma das causas excitantes ocorre em consequência de ambas essas ocasiões, alguma gratidão está apta a surgir em relação a ela em uma, e algum ressentimento na outra. Uma sombra de mérito parece cair sobre ele [166]na primeira, uma sombra de demérito na segunda. E, como as consequências das ações estão completamente sob império da Fortuna, consequentemente surge a influência dela sobre os sentimentos do gênero humano com respeito ao mérito e demérito.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 157-166. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/157/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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