sábado, 8 de junho de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C2 Daquelas Paixões que derivam sua Origem de uma Modificação ou Hábito da Imaginação

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


Capítulo anterior


[44]Capítulo II Daquelas Paixões que derivam sua Origem de uma Modificação ou Hábito da Imaginação


Mesmo das paixões derivadas a partir da imaginação, aquelas que derivam sua origem a partir de uma modificação peculiar ou hábito que foi adquirido, embora elas possam ser reconhecidas como perfeitamente naturais, são, contudo, muito pouco simpatizadas. As imaginações do gênero humano, não tendo adquirido essa modificação particular, não podem entra nelas; e tais paixões, embora elas possam ser admitidas ser quase inevitáveis em alguma parte da vida, são sempre, em alguma medida, ridículas. Esse é o caso com aquele forte [45]apego que naturalmente cresce entre duas pessoas de sexos diferentes, quem há muito têm seus pensamentos fixos uma sobre a outra. A nossa imaginação, não tendo corrido no mesmo canal que aquele do amante, não pode entrar na ansiedade das suas emoções. Se nosso amigo foi injuriado, nós prontamente simpatizamos com o ressentimento dele, e tornamo-nos irados com a mesma pessoa com quem ele está irado. Se ele recebeu um benefício, nós prontamente entramos na gratidão dele, e temos um senso muito alto do mérito do benfeitor dele. Mas se ele está apaixonado, embora nós possamos considerar a paixão dele exatamente tão razoável quanto qualquer uma do tipo, contudo, nós nunca podemos considerar nós mesmos obrigados a conceber uma paixão do mesmo tipo, e pela mesma pessoa por quem ele a tem concebida. A paixão aparece para todo mundo, mas o homem quem a sente, inteiramente desproporcionada para o valor do objeto; e o amor, embora ele seja perdoado em uma certa idade, porque nós o conhecemos natural, sempre se ri dele, porque nós não podemos entrar nele. Todas as expressões sérias e fortes dele parece ridículas para uma terceira pessoa; e embora um amante possa ser boa companhia para a sua amante, ele não é assim para mais ninguém. Ele mesmo está ciente disso; e enquanto ele continuar em seus sentidos sóbrios, tenta tratar sua própria paixão com zombaria e ridículo. É o único estilo no qual nos importamos em ouvir dela; porque é o único estilo no qual nós mesmos estamos dispostos a falar dela. Nós cansamos do amor grave, pedante, e de longas sentenças de Cowley e Petraca, quem nunca tinham realizado com exagero a violência [46]dos seus apegos, mas a alegria de Ovídio, e a galanteria de Horácio, são sempre agradáveis.

Mas embora nós não sintamos nenhuma simpatia apropriada com um apego desse tipo, embora nós nunca cheguemos perto, mesmo na imaginação, de conceber uma paixão por essa pessoa particular, contudo, como nós ou temos concebido, ou podemos estar dispostos a conceber, paixões do mesmo tipo, nós prontamente entramos naquelas elevadas esperanças de felicidades que são propostas a partir da sua gratificação, assim como no sofrimento intenso que é temido a partir do seu desapontamento. Isso não nos interessa como uma paixão, mas como uma situação que nos dá ocasião para outras paixões que nos interessam; para esperança, para medo e para sofrimento de todo tipo: da mesma maneira que, na descrição de uma viagem marítima, não é a fome que nos interessa, mas o sofrimento que a fome ocasiona. Embora nós não entremos propriamente no apego do amante, nós prontamente acompanhamos aquelas expectativas de felicidade romântica que ele deriva a partir dele. Nós sentimos quão natural é para a mente, em uma certa situação, relaxada com indolência, e fatigada com a violência do desejo, ansiar por serenidade e quietude, esperar encontrá-las na gratificação daquela paixão que a distrai, e estruturar para si mesma a ideia de que a vida de tranquilidade e retiro pastorais que o elegante, o tenro e o apaixonado Tibulo tem tanto prazer em descrever; uma vida como a que os poetas descrevem nas Ilhas Afortunadas, uma vida de amizade, liberdade e [47]repouso; livre de trabalho e de cuidado, e de todas as paixões violentas que os acompanham. Mesmo cenas desse tipo interessam-nos mais quando elas são pintadas antes como o que é esperado, do que como o que é desfrutado. A grosseria dessa paixão, que se mistura com, e é, talvez, o fundamento do amor, desaparece quando a sua gratificação está muito longe e à distância; mas torna o todo ofensivo, quando descrito como o que é imediatamente possuído. A paixão feliz, nessa consideração, interessa-nos muito menos do que a terrível e a melancólica. Nós trememos pelo que quer que possa desapontar esperanças tão naturais e agradáveis: e, dessa maneira, nós entramos em toda a ansiedade, o interesse, e o sofrimento do amante.

Consequentemente é que, em algumas tragédias e alguns romances modernos, essa paixão parece tão maravilhosamente interessante. Não é tanto o amor de Castalio e Monimia que nos apega ao Órfão, como o sofrimento que aquele amor ocasiona. O autor que devesse introduzir dois amantes, em uma cena de perfeita segurança, expressando sua tristeza mútua um pelo outro, provocaria riso e não simpatia. Se uma cena desse tipo alguma vez é admitida em uma tragédia, ela é sempre, em alguma medida, impropria, e é suportada não a partir de qualquer simpatia pela paixão que é expressa nela, mas a partir da preocupação pelos perigos e dificuldades pelos quais a audiência prevê que a sua gratificação é provável de ser acompanhada.

A reserva que as leis da sociedade impõem sobre o belo sexo, com respeito a essa fraqueza, tornar-a mais peculiarmente angustiante nelas, [48]e, em consequência do relato mesmo, mais profundamente interessante. Nós ficamos encantados com o amor de Fedra, como ele está expresso na tragédia francesa desse nome, a despeito de toda a extravagância e culpa que o acompanha. Pode-se dizer que essas mesmas extravagância e culpa, em alguma medida, recomendam-no a nós. Por esse meio, o amor, a vergonha, o remorso, o horror, o desespero dela tornam-se mais naturais e interessantes. Todas as paixões secundárias, se eu posso ser permitido a chamá-las assim, as quais surgem a partir da situação do amor, tornam-se necessariamente mais furiosas e violentas; e é apenas com essas paixões secundárias que nós propriamente podemos dizer que simpatizamos.

Contudo, de todas as paixões que são tão extravagantemente desproporcionadas para o valor dos seus objetos, o amor é a única que parece, mesmo para as mentes mais fracas, ter qualquer coisa nela que é ou graciosa ou agradável. Primeiro de tudo, em si mesmo, embora ele possa ser ridículo, ele não é naturalmente odioso; e embora as suas consequências sejam frequentemente fatais e terríveis, as suas intenções raramente são perniciosas. E então, embora haja pouca propriedade na paixão mesma, há uma grande quantidade em alguma daquelas que sempre o acompanham. Há no amor uma forte mistura de humanidade, generosidade, gentileza, amizade, estima, paixões com as quais, pelas razões que deverão ser explicadas imediatamente, nós temos a maior propensão para simpatizar, mesmo a despeito de que nós estamos cientes de que elas são, em alguma medida, excessivas. A simpatia que nós sentimos por elas torna a paixão [49]que elas acompanham menos desagradável, e suporta-a na nossa imaginação, a despeito de todos os vícios que comumente a acompanham; embora em um sexo ela necessariamente leve a ruína e infâmia; e embora no outro, onde ela é apreendida ser menos fatal, ela sempre seja acompanhada por uma incapacidade para o labor, um negligência do dever, um desdém pela fama, e mesmo pela reputação comum. A despeito de tudo isso, o grau de sensibilidade e generosidade com o qual ela é suposta de ser acompanhada, torna-a para muitos o objeto de vaidade; e eles estão inclinados a parecerem capazes de sentimento que os fariam não honrar se eles realmente o sentissem.

É por uma razão do mesmo tipo que uma certa reserva é necessária quando nós falamos dos nossos próprios amigos, nossos próprios estudos, nossas próprias profissões. Todos esses são objetos que nós não podemos esperar que devam interessar a nossas companhias no mesmo grau que eles nos interessam. E é por falta dessa reserva que uma metade do gênero humano faz má companhia para a outra. Um filósofo é companhia apenas para um filósofo; o membro de um clube, para o seu próprio pequeno grupo de companhias.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 44-49. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/44/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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