Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Por Edmund Burke
Parte II
[138]Seção V Poder
Além daquelas coisas que sugerem diretamente a ideia de perigo, e daquelas que produzem um efeito similar a partir de uma causa mecânica, eu não conheço nada de sublime que não seja alguma modificação de poder. E esse ramo surge, tão naturalmente quanto os outros dois, a partir do terror, a reserva comum de tudo que é sublime. À primeira vista, a ideia de poder parece da classe daquelas indiferentes, as quais podem pertencer igualmente à dor ou ao prazer. Mas na realidade o afeto surgindo a partir da ideia de vasto poder está extremamente distante do caráter neutro. Pois primeiro, nós temos de lembrar 1que a ideia de dor, em seu grau mais elevado, é muito mais forte do que o grau mais elevado de prazer; e que ela preserva a mesma superioridade através de todas as gradações subordinadas. A partir disso é que, onde as chances de graus iguais de sofrimento e satisfação são em qualquer tipo iguais, a ideia de sofrimento sempre deve ser prevalente. E de fato, as ideias de dor, e, acima de todas, a de morte, são tão muito afetantes que, enquanto nós permanecermos na presença de seja o que for que se suponha ter o poder de infligir qualquer uma, é impossível estar perfeitamente livre do terror. Novamente, nós conhecemos por experiência que, para a satisfação do [139]prazer nenhum grande esforço de poder é de qualquer forma necessário; ou melhor, nós sabemos que tais esforços seriam bem sucedidos para destruir a satisfação: pois o prazer tem de ser roubado, e não forçado sobre nós; o prazer segue a vontade; e, portanto, nós geralmente somos afetados por ele com muitas coisas de uma força muito inferior à nossa própria. Mas a dor é sempre infligida por um poder de alguma forma superior, porque nós nunca nos submetemos voluntariamente à dor. De maneira que, força, violência, dor e terror são ideias que agem rapidamente juntas sobre a mente. Examine um homem, ou qualquer outro animal de força prodigiosa, e qual é a sua ideia antes da reflexão? É que a a sua força será subserviente a você, ao seu caso, ao seu prazer, ao seu interesse em qualquer caso? Não; a emoção que você sente é menor de que essa força enorme deva estar empregada para os propósitos de 2rapinagem e destruição. Que o poder deriva toda a sua sublimidade a partir do terror pelo qual ele geralmente é acompanhado, afigurar-se-á evidentemente a partir do seu efeito nos casos muito poucos nos quais é possível despir um grau considerável de força da sua habilidade para prejudicar. Quando você faz isso, você arruína-a de tudo o que é sublime, e ela torna-se imediatamente desprezível. Um boi (ox) é uma criatura de vasta força; mas ele é uma criatura inocente, extremamente servil, e não perigoso de maneira alguma; razão pela qual a ideia de um boi de maneira alguma é grande. Um touro (bull) também é forte; mas a força dele é de outro tipo; frequentemente destrutiva, raramente (pelo menos entre nós) de algum uso em nossas atividades; portanto, a ideia de um touro é grande, e frequentemente tem sido uma passagem em descrições sublimes e comparações exaltadoras. Examinemos outro forte animal, sob duas luzes distintas sob as quais nós o podemos considerar. O cavalo, sob [140]a luz de uma besta útil, adequada para o arado, a estrada, a carga; sob toda luz social útil, o cavalo não tem nada de sublime; mas é desta maneira que nós somos afetados por aquele, cujo o pescoço está trajado com trovão, a glória das narinas do qual é terrível, quem engole o chão com ferocidade e fúria, nem acredita que é o som da trombeta? Nessa descrição, o caráter útil do cavalo desaparece inteiramente, e o terrível e o sublime resplandecem juntos. Continuamente nós temos à nossa volta animais de uma força que é considerável, mas não perniciosa. Entre esses nós nunca procuramos pelo sublime; ele acontece-nos na floresta sombria, no deserto uivante, na forma do leão, do tigre, da pantera ou do rinoceronte. Sempre que a força é apenas útil, e empregada para o nosso benefício ou prazer, então ela nunca é sublime; pois nada pode agir de acordo conosco que não aja em conformidade com a nossa vontade; mas, para agir de acordo com a nossa vontade, ela deve estar sujeita a nós e, portanto, nunca pode ser a causa de uma concepção grande e dominadora. A descrição do asno selvagem, em Jó, é trabalhada a uma sublimidade não pequena, meramente através da insistência na sua liberdade, e estabelecendo o gênero humano em desafio; de outra forma, a descrição de um semelhante animal não poderia ter nada de nobre nela. Quem afrouxou (diz ele) a amarras do asno selvagem? Cuja casa eu tornei o deserto e a terra desolada suas habitações. Ele despreza a multidão da cidade, nem considera a voz do condutor. A cordilheira de montanhas é o seu pasto. A descrição magnificente do unicórnio e do leviatã, no mesmo livro, está cheia das mesmas circunstâncias intensificadoras: Desejará o unicórnio servir-te? Consegues tu amarrar o unicórnio com sua faixa na esteira? Tu confiarás [141]nele porque a força dele é grande? - Podes tu arrastar o leviatã com um gancho? Ele fará um pacto contigo? Tu o tomarás como um servo para sempre? Não deverá alguém ser derrubado até pela visão dele? Em resumo, em qualquer lugar que encontremos poder, e sob qualquer luz que seja que nós olhemos para o poder, nós deveremos observar durante todo esse tempo o sublime, o companheiro do terror, e desdenhar do companheiro de uma força que é subserviente e inócua. A raça dos cães, em muitos dos seus tipos, geralmente tem um grau competente de força e velocidade; e eles exercem essas e outras qualidades valiosas que eles possuem grandemente para a nossa conveniência e o nosso prazer. De fato, os cães são os animais mais sociais, afeiçoados e amigáveis da inteira criação bruta; mas o amor aproxima-se muito mais do desdém do que comumente se imagina; e portanto, embora nós acariciemos os cães, nós tomamos emprestados deles uma alcunha do tipo mais desprezível, quando nós empregamos termos de censura; e essa alcunha é a marca comum de vileza e desdém últimos em todas as linguagens. Os lobos não têm mais força do que várias espécies de cães; mas, por causa de sua inimaginável ferocidade, a ideia de um lobo não é desprezível; ela não está excluída grandes descrições e similitudes. Dessa forma, nós somos afetados pela força, a qual é poder natural. O poder que surge a partir da instituição de reis e comandos tem a mesma conexão com o terror. Frequentemente, dirige-se a soberanos com o título de majestade terrível (dread majesty). E pode ser observado que os jovens, pouco familiarizados com o mundo, e quem não estão acostumados a dirigirem-se a homens no poder, ficam comumente impressionados com um temor (awe) que retira o uso livre das suas faculdades. Quando eu preparo meu assento na rua, [142](diz Jó,) os jovens veem-me e ocultam a si mesmos. De fato, tão natural é essa timidez com respeito ao poder, e ela é tão fortemente inerente à nossa constituição, que muitos poucos são capazes de a conquistar, senão se misturando muito nos negócios do grande mundo ou usando de não pouca violência com as suas disposições naturais. Eu conheço algumas pessoas que são da opinião de que nenhum temor, nem grau de terror, acompanha a ideia de poder; e tem se arriscado a afirmar que nós podemos contemplar a ideia de Deus mesmo sem qualquer emoção semelhante. Eu propositalmente evitei, quando inicialmente considerei esse assunto, introduzir a ideia daquele Ser grande e tremendo como um exemplo em um argumento tão leve quanto esse; embora ela frequentemente tenha me ocorrido, não como uma objeção às, mas como uma confirmação forte das, minhas noções nesse assunto. No que estou prestes a dizer, eu tenho esperança de que tenha evitado presunção, onde é quase impossível para qualquer mortal falar com propriedade estrita. Portanto, eu digo que, enquanto nós consideramos a Divindade (Godhead) como ela é um objeto do entendimento, o qual forma uma ideia complexa de poder, sabedoria, justiça, bondade, todos estendidos a um grau que excede em muito os limites da nossa compreensão, enquanto nós consideramos a divindade sob essa luz abstrata e refinada, a imaginação e as paixões são pouco ou nada afetadas. Mas porque nós somos limitados, pela condição da nossa natureza, a ascender a essas ideias puras e intelectuais, através do meio das imagens sensíveis, e a julgar essas qualidades divinas através dos seus atos e usos evidentes, torna-se extremamente difícil desenredar a nossa ideia da causa daquela do efeito pelo qual nós somos levados a conhecê-la. Dessa forma, quando nós contemplamos a Divindade, seus atributos e a operação deles, unindo-se sobre a mente, formam um tipo de [143]imagem sensível e, como tal, são capazes de afetar a imaginação. Agora, embora em uma ideia justa de Deus, talvez nenhum dos seus atributos sejam predominantes, todavia, para a nossa imaginação, o seu poder é de longe o mais impressionante. Alguma reflexão, alguma comparação, é necessária para nos satisfazer de sua sabedoria, sua justiça e sua bondade. Para ficarmos impressionados com o seu poder, é apenas necessário que nós devamos abrir os nossos olhos. Mas enquanto nós contemplamos um objeto tão vasto, debaixo do braço, por assim dizer, do poder todo-poderoso, e investido sobre cada lado com onipresença, nós recuamos para dentro da minusculidade da nossa própria natureza e somos, de uma maneira, aniquilados diante dele. E embora uma consideração dos seus outros atributos possa aliviar-nos, em alguma medida das nossas apreensões; contudo, nenhuma convicção da justiça com a qual ele é exercido, nem da misericórdia com a qual ele é temperado, pode remover inteiramente o terror que naturalmente surge a partir de uma força que nada pode suportar. Se nos alegramos, alegramo-nos com tremor; e, até enquanto nós estamos recebendo benefícios, nós não podemos senão estremecer diante de um poder que pode conferir benefícios de importância poderosa. Quando o profeta Davi contemplou as maravilhas de sabedoria e poder que são exibidas na economia do homem, ele parece ter ficado chocado com um tipo de terror divino, e exclama, medrosa e maravilhosamente eu fui criado! Um poeta pagão teve um sentimento de natureza similar; Horácio olha para isso como o esforço último de fortitude filosófica, contemplar, sem terror e espanto, essa fábrica imensa e gloriosa do universo:
Hunc solem, et stellas, et decedentia certis
Tempora momentis, sunt qui formidine nulla
Imbuti spectent.
Lucrécio é um poeta que não deve ser suspeito de dar o braço a torcer [144]para terrores supersticiosos; contudo, quando ele supõe o inteiro mecanismo da natureza revelado pelo mestre da sua filosofia, seu transporte a essa visão magnífica, o qual ele representou nas cores de poesia tão ousada e vívida, ele fica toldado com uma sombra de temor e horror:
His ibi me rebus quædam divina voluptas
Percipit, atque horror; quod sic natura, tua vi
Tam manifesta patens, ex omni parte retecta est.
Mas apenas a Escritura pode suprir ideias respondíveis à majestade desse assunto. Na Escritura, sempre que Deus é representado como aparecendo ou falando, tudo de terrível na natureza é convocado para intensificar o temor (awe) e solenidade da presença Divina. Os Salmos, e os livros proféticos, estão apinhados de instâncias desse tipo. A terra tremeu, (diz o Salmista,) os céus também caíram diante da presença do Senhor. E o que é notável, a pintura preserva a mesma característica, não apenas quando se supõe que Ele desça para se vingar do perverso (wicked), mas até quando ele exerce a plenitude semelhante de poder em atos de beneficência para o gênero humano. Trema tu, terra! Diante da presença do Senhor; diante da presença do Deus de Jacó; o qual tornou a rocha em água parada, o sílex em uma fonte de águas! Seria sem fim enumerar todas as passagens, tanto por escritores sagrados quanto profanos, as quais estabelecem o sentimento geral do gênero humano, relativo à união inseparável de um temor sagrado e reverencial, com as nossas ideias da divindade. Consequentemente, a máxima comum, Primus in orbe deos fecit timor. Essa máxima pode ser, como eu acredito que ela é, falsa com respeito à origem da religião. O criador da máxima disse quão inseparáveis eram essas duas ideias, sem considerar [145]que a noção de grande poder sempre deve ser precedente ao nosso temor (dread) dele. Mas esse temor tem de necessariamente se seguir à ideia de um poder tão grande, uma vez que ela foi excitada na mente. É sobre esse princípio que a verdadeira religião tem, e tem de ter, uma mistura tão grande de medo salutar; e que as falsas religiões geralmente não têm nada exceto o medo para as suportar. Antes que a religião cristã tivesse, por assim dizer, humanizado a ideia da divindade, e trouxesse-a um pouco mais perto de nós, havia muito pouco a ser dito do amor de Deus. Os seguidores de Platão têm alguma coisa disso, e apenas alguma coisa; os outros escritores pagão da antiguidade, ou poetas ou filósofos, absolutamente nada. E aqueles que considerar com que atenção infinita, e por qual desprezo de todas as coisas perecíveis, embora que longos hábitos de piedade e contemplação é que qualquer homem é capaz de alcançar um amor e devoção inteiros da divindade, facilmente perceberão que esse não é o primeiro, o mais natural e o mais impressionante efeito que procede a partir daquela ideia. Dessa forma nós traçamos o poder através de suas várias gradações até a mais elevada de todas, onde a nossa imaginação finalmente se perde; e nós encontramos o terror, bastante do começo ao fim do processo, seu companheiro inseparável, e crescendo junto com ele, tão longe quanto nós possivelmente podemos os traçar. Agora, visto que o poder é indubitavelmente uma fonte capital do sublime, isso evidentemente apontará para onde a sua energia é derivada, e para com qual classe de ideias nós devemos uni-lo.
[146]Seção VI Privação
Todas as privações gerais são grandes, porque todas elas são terríveis; vacuidade, escuridão, solidão e silêncio. Contudo, com que fogo de imaginação, com que severidade de julgamento, Virgílio acumulou todas essas circunstâncias onde ele sabe que todas as imagens de uma dignidade tremenda deveriam ser unidas na boca do inferno! Onde, antes que ele abra os segredos da grande profundeza, ele parece ser capturado por um horror religioso, e retirar-se, espantado, diante da ousadia do seu próprio desígnio:
Dii, quibus imperium est animarum, umbræque silentes!
Et Chaos, et Phlegethon! Loca nocte silentia late!
Sit mihi fas audita loqui! Sit numine vestro
Pandere res alta terra et caligine mersas!
Ibant obscuri, sola sub nocte, per umbram,
Perque domos Ditis vacuas, et inania regna.
“Vós deuses subterrâneos! Cujo domínio terrível
Os espectros planantes, e sombras silentes obedecem:
Oh rugido do Caos! E Flegeton profundo!
Cujo império solene estende-se amplo em volta;
Concedei-me, vós grandes, tremendos, poderes, contar
De cenas e maravilhas nas profundezas do inferno;
Concedei-me vossos poderosos segredos para revelar
Daqueles reinos escuros da escuridão do dia.”
Pitt.
“Obscuros eles atravessaram de sombras lúgubres que conduziam
Adiante nos domínios desperdiçados dos mortos.”
Dryden.
[147]Seção VII Vastidão
Grandeza3 de dimensão é um causa poderosa do sublime. Isso é evidente demais, e a observação, comum demais, para necessitar de qualquer ilustração; não é tão comum considerar em quais maneiras a grandeza de dimensão, a vastidão de extensão ou quantidade, tem o efeito mais notável. Pois, certamente, há maneiras ou modos nos quais a mesma quantidade de extensão deverá produzir efeitos maiores do que são descobertos produzirem em outros. A extensão é em comprimento (length), altura (height) ou profundidade (depth). Desses, o comprimento impressiona menos; uma centena de jardas de solo plano nunca produzirá um efeito tão grande como uma torre de centenas de jardas de altura, ou uma rocha ou montanha dessa altitude. Da mesma maneira, eu estou apto a imaginar que a altura é menos grandiosa do que a profundidade; e que nós somos mais impressionados olhando para baixo a partir de um precipício, do que olhando para um objeto de altura igual; mas disso eu não estou muito certo. Uma perpendicular tem mais força na formação do sublime do que um plano inclinado, e os efeitos de uma superfície acidentada (rugged) e quebrada parecem mais fortes do que onde ela é lisa e polida. Tirar-nos-ia do nosso caminho entrar nesse motivo, dentro da causa dessas aparências, mas é certo que ele proporciona um campo grande e frutífero de especulação. Contudo, pode não ser erro acrescentar a essas observações sobre a magnitude que, como o grande extremo de dimensão é sublime, assim o último extremo de pequeneza (littleness) é, em alguma medida, da mesma maneira, sublime; quando nós prestamos atenção à divisibilidade infinita da matéria, quando nós investigamos a vida animal desses seres excessivamente pequenos e, [148]contudo, organizados, que escapam à inquisição mais delicada do sentido; quando nós impulsionamos ainda mais as nossas descobertas, e consideramos aquelas criaturas tantos graus ainda menores, e a escala ainda diminuindo de existência, ao rastrear o que a imaginação assim como o sentido perderam; nós nos tornamos espantados e confusos diante das maravilhas da minusculidade (minuteness); nem nós podemos distinguir em seu efeito esse extremo de pequeneza (littleness) do vasto mesmo. Pois a divisão tem de ser infinita a assim como a adição; porque não se pode chegar mais à ideia de uma unidade perfeita do que àquela de um todo completo, ao qual nada pode ser acrescentado.
ORIGINAL:
BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 138-148. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/138/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[138]Parte I, seção 7.
2[139]Vide parte III, seção 21.
3[147]Parte IV, seção 9.
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