domingo, 14 de janeiro de 2024

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte II - Seções XIV-XIX

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


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Parte II


[156]Seção XIV Luz


Tendo considerado a extensão, enquanto ela é capaz de gerar ideias de grandeza; a cor vem em seguida sob consideração. Todas as cores dependem da luz. Portanto, a luz deveria ser previamente examinada; e com o seu oposto, a escuridão. Com respeito à luz, para a tornar uma causa capaz de produzir o sublime, ela deve ser acompanhada por algumas circunstâncias, além de sua simples faculdade de mostrar outros objetos. A mera luz é uma coisa comum demais para produzir uma impressão forte sobre a mente, e, sem uma impressão forte, nada pode ser sublime. Mas uma tal luz como aquela do sol, imediatamente exercida sobre o olho, enquanto ela subjuga o sentido, é uma ideia muito grande. Luz de uma força inferior a essa, se ela move-se com grande celeridade, tem o mesmo poder; pois o relâmpago é certamente produtivo de grandeza, a qual é devida principalmente à velocidade extrema do seu movimento. Uma transição rápida da luz para a escuridão, ou da escuridão para a luz, tem um efeito ainda maior. Mas a escuridão é mais produtiva de ideias sublimes do que a luz. Nosso grande poeta estava convencido disso; e de fato, tão cheio ele estava dessa ideia, tão inteiramente possuído com o poder da escuridão bem administrada, que, na descrição da aparência da Divindade, em meio àquela profusão de imagens magnificentes, a qual a grandeza do seu assunto provoca-o a [157]verter em cada lado, ele está longe de se esquecer da obscuridade que circunda o mais incompreensível de todos os seres, mas


Com majestade de escuridão cercado

Circula o trono dele.”


E o que não é menos notável, o nosso autor teve o segredo da preservação dessa ideia, quando ele parecia se afastar o mais distante dela, quando ele descreve a luz e a glória que fluem da presença divina; uma luz que, pelo seu próprio excesso, é convertida em uma espécie de escuridão: -


Escuras, com luz excessiva, tuas bordas aparecem.”


Aqui está uma ideia não apenas poética em um grau elevado, mas estrita e filosoficamente justa. Luz extrema, pela subjugação dos órgãos da vista, oblitera todos os objetos, de maneira que, em seus efeitos, assemelha-se à escuridão. Após olhar por algum tempo para o sol, dois pontos negros, a impressão que ele deixa, parecem dançar diante dos nossos olhos. Dessa forma, há duas ideias tão opostas que podem ser imaginadas reconciliadas nos extremos de ambas; e ambas, a despeito da sua natureza oposta, trazidas para concorrerem na produção do sublime. E essa não é a única instância onde os opostos extremos operam igualmente em favor do sublime, o qual, em todas as coisas, abomina a mediocridade.


Seção XV Luz em Construções


Como o gerenciamento da luz é uma questão de importância na arquitetura, vale a pena inquirir até onde essa observação é aplicável a construções. Portanto, eu considero [158]que todos os edifícios calculados para produzir uma ideia do sublime deveriam antes ser escuros e sombrios, e isso por duas razões; a primeira é que a escuridão mesma, em outras ocasiões, é conhecida pela experiência ter um efeito maior sobre as paixões do que a luz. A segunda é que, para tornar um objeto muito notável (striking), nós deveríamos torná-lo tão diferente quanto possível dos objetos com os quais nós temos estado imediatamente familiarizados; portanto, quando você entra em uma construção, você não pode passar para dentro de uma luz maior da que você tinha ao ar livre; entrar em alguns poucos graus menos luminosa, pode produzir apenas uma mudança insignificante; mas, para tornar a transição completamente notável, você deveria passar da maior luz, para tanta escuridão quanto é consistente com os usos da arquitetura. À noite, a regra contrária valerá, mas pela mesma razão; quanto mais altamente uma sala está então iluminada, maior será a paixão.


Seção XVI Cor considerada como Produtora do Sublime


Entre as cores, aquelas que são suaves ou alegres (exceto, talvez, um vermelho forte, o qual é alegre) são impróprias para produzir imagens grandiosas. A esse respeito, uma montanha coberta por grama verde brilhante não é nada para uma escura e sombria; o céu nublado é mais grandioso do que o azul; a noite mais sublime do que o dia. Portanto, em pinturas históricas, uma tapeçaria alegre ou espalhafatosa nunca pode ter um efeito feliz: e em construções, quando o mais elevado grau do sublime é intencionado, os materiais e ornamentos não deveriam nem ser brancos, nem verdes, nem amarelos, nem [159]azul, nem de um vermelho pálido, nem violeta, nem manchado, mas de cores tristes e sombrias, como preto, ou marrom, ou roxo profundo e semelhantes. Muito de decoração (gilding), mosaico, pintura, ou estátuas contribuem apenas pouco para o sublime. Essa regra não tem de ser posta em prática, exceto onde um grau uniforme da sublimidade mais notável deve ser produzida, e isso em cada particular; pois deveria ser observado que esse tipo melancólico de grandeza, embora ele certamente seja o mais elevado, não deveria ser levado em consideração em todos os tipos de edifícios, onde, contudo, a grandeza deve ser levada em consideração; em tais casos, a sublimidade deve ser extraída a partir de outras fontes; com uma cautela estrita, por mais que contra qualquer coisa leve (light) e ridente (riant); visto que nada amortece tão efetivamente o inteiro gosto do sublime.


Seção XVII Som e Sonoridade


O olho não é o único órgão da sensação pela qual uma paixão sublime pode ser produzida. Sons têm um grande poder nessas como na maioria das outras paixões. Eu não quero dizer palavras, porque as palavras não afetam simples através dos seus sons, mas através de meios completamente diferentes. Sonoridade (loudness) excessiva é suficiente para sobrepujar a alma, para suspender sua ação, e para a encher de terror. O barulho de vastas cataratas, tempestades furiosas, trovão ou artilharia, despertam uma sensação grande e terrível na mente, embora nós não possamos observar nenhuma delicadeza ou artifício nesses tipos de música. Os brados de multidões têm um efeito similar e, através da força única do som, maravilham e confundem de tal modo a imaginação, que, nessa vertigem (staggering) e inquietação (hurry) da mente, [160]os temperamentos melhor estabelecidos escassamente podem evitar antes de serem dominados e juntarem-se ao brado comum, e resolução comum da multidão.


Seção XVIII Subitaneidade


Um começo súbito, ou uma cessação súbita, de som de qualquer força considerável, têm o mesmo poder. A atenção é despertada por isso; e as faculdades impelidas a diante, por assim dizer, em guarda. Seja o que for que, quer nas visões ou sons, torna a transição de um extremo para o outro fácil, não causa terror e, consequentemente, não pode ser causa de grandeza. Em tudo súbito e inesperado, nós estamos aptos a começar; quer dizer, nós temos uma percepção de perigo, e a nossa natureza anima-nos a manter guarda contra isso. Pode ser observado que um único som de alguma força, embora apenas de curta direção, se repetido após vários intervalos, tem um efeito grandioso. Poucas coisas são mais terríveis do que a batida de uma grande relógio, quando o silêncio da noite impede a atenção de estar muito dissipada. O mesmo pode ser dito de uma única batida em um tambor, repetida com pausas; e de disparos sucessivos de um canhão à distância. Todos os efeitos mencionados nesta seção têm causas muito semelhantes.


Seção XIX Intermitência


Um som baixo, trêmulo, intermitente, embora ele pareça, em alguns aspectos, oposto àquele há pouco [161]mencionado, é produtivo do sublime. Vale a pena examinar isso um pouco. O fato mesmo deve ser determinado pela própria experiência e reflexão de cada homem. Eu já observei que a noite1 intensifica o nosso terror, mais do que qualquer outra coisa; é a nossa natureza, quando nós não sabemos o que pode nos acontecer, temer o pior que possa acontecer; e consequentemente, essa incerteza é tão terrível, que nós frequentemente buscamos nos ver livres dela, diante do risco de um dano certo. Agora, alguns sons baixos, confusos, incertos, deixam-nos na mesma ansiedade temerosa relativa às suas causas, que nenhuma luz, ou uma luz incerta, fá-lo relativo aos objetos que nos circundam.


Quale per incertam lunam sub luce maligna

Est iter in sylvis.


Uma fraca sombra de luz incerta,

Como uma lâmpada, cuja vida desvanece;

Ou como a lua, vestida com noite nublada

Revela-se para ele, quem caminha em medo e grande susto.”

Spenser.


Mas a luz, agora aparecendo, e agora nos deixando, e assim desligada e ligada, é ainda mais terrível do que a escuridão total; e um tipo de sons incertos são, quando as disposições necessárias concorrem, mais alarmantes do que um silêncio total.


Próxima seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 156-161. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/156/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[161]Seção 3.

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