segunda-feira, 9 de agosto de 2021

A Revolução Científica Revisitada Epílogo (FINAL)

Por Mikuláš Teich


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[119]Becher foi um polímata cujos interesses incluíam medicina humana e veterinária, matemática, física, química, educação, filologia, tecnologia, agricultura (husbandry), economia política, organização social, colonialismo e filosofia natural. É a pura extensão de suas inquirições que demanda uma abordagem interdisciplinar para a avaliação do lugar de Becher no mundo do saber no século XVII.

Como ilustrado acima, Becher tinha um entendimento muito bom do papel dominante da atividade mercantil na sociedade na qual ele viveu e esteve envolvido. Como um economista e químico, Becher foi superior a Leibniz, com quem ele é ocasionalmente justaposto;1 dito isso, Becher certamente era inferior, em matemática e física, os campos nos quais Leibniz esteve originaria e primariamente ativo, a seu grande polímata contemporâneo. Onde uma comparação útil pode ser tentada é nas maneiras pelas quais Becher e Leibniz leem a Bíblia e pensavam sobre Deus no contexto da investigação de fenômenos naturais.2

Removido tudo de inessencial, a filosofia da natureza de Becher pode ser resumida da seguinte maneira. Deus é o primeiro Ser, um Ser que não é criado mas que cria tudo. Como tal, ele criou a natureza como o veículo de movimento ordenado. A substância (stuff) primária ou matéria-prima da natureza é a terra, da qual, em última instância, tudo é composto e na qual, eventualmente, tudo é decomposto. Na opinião de Becher, Deus é um químico que criou [120]a natureza, a partir da criação do mundo para seu fim, um ciclo de transformação de um tipo de terra para outro.

Na especulação de Leibniz, o todo providente Deus ordenou que o mundo que ele trouxe à existência devia existir em harmonia. Uma vez criado, ele devia ser o melhor dos mundos possíveis, não necessitando de sua intervenção contínua para se manter funcionando como mecanismo de relojoaria (clockwork). Em última análise, essa harmonia era devida a múltiplas entidades primárias (‘monadas’) dotadas de ‘alma’ que se combinavam para formar toda a matéria.

No fim (Au fond), Becher e Leibniz foram confrontados com um problema impossível, como foram Boyle, Descartes, Newton, Linnaeus e vintenas de outros exploradores da natureza dos séculos XVII e XVIII. Eles tinham de harmonizar suas descobertas e explicações de fenômenos naturais com as palavras da Escritura. Ignorar essa máxima era perigoso, à luz da morte na fogueira (1600) de Giordano Bruno e do julgamento de Galileu (1633). Quando Descartes tomou conhecimento da condenação de Galileu pela Inquisição, ele suprimiu seu tratado sobre The World (1634).

A Cristandade protestante não podia ser mais tolerante do que o Santo Ofício Romano. Com efeito, a Reforma reforçara a Bíblia como autoridade indisputável. O médico espanhol Michael Servetus, cujas as noções sobre a circulação menor de sangue estavam contidos em seu não ortodoxo Restitutio Christianismi (negação da divindade de Cristo), foi queimado em Genebra sob o comando de Calvino (1553). Newton foi muito cuidado quando chegou à ocultação de seu arianismo herético. E o profundamente religioso Linnaeus, quem acreditava em Deus, confiava na Bíblia como a Palavra de Deus e via a si mesmo como intérprete de Deus para a natureza, não foi, por tudo isso, um cristão ortodoxo. Tanto que, após a morte de Linnaeus, o filho dele teve de o defender de acusações de ateísmo.3

A queima de heréticos, suspeitos ou reais, foi a reação inflexível de uma Cristandade que tornou-se a força intelectual e cultural dominante na Europa desde que foi instituído como a religião de estado do imperium Romanum no século IV. Paradoxalmente, como o eminente historiador da ciência Richard Westfall coloca-o, o resultado efetivo dos muitos tratados demonstrando a existência de Deus a partir de fenômenos naturais foi a separação da ciência da teologia revelada. Westfall comparou [121]dois incidentes suportando sua posição sobre a asserção da autonomia da ciência por volta do fim do século XVII:


No começo do século XVII, a Igreja Católica, sobre a liderança do Cardeal Bellarmino nesse respeito, condenou a astronomia copernicana porque ela conflitava com o significado manifesto de certas passagens da Escritura. Sessenta e cinco anos depois, Newton engajou-se em uma correspondência com Thomas Burnet sobre Sacred Theory of the Earth de Burnet. Burnet convencera-se que a explicação escritural da criação era uma ficção, composta por Moisés para propósitos políticos, a qual possivelmente poderia não ser verdadeira em um sentido filosófico. Na correspondência, Netwon defendeu a verdade do Gênese, argumentando que ciência (a química nesse caso) persuadir-nos-ia esperar. Onde Bellarmino empregara a Escritura para julgar uma opinião científica, tanto Burnet quanto Newton usaram a ciência para julgar a validade da Escritura. Falar meramente de autonomia da ciência parece não ser suficiente; nós necessitamos falar preferencialmente de sua autoridade, à qual a teologia agora se tornou subordinada. As posições das duas foram revertidas. Adicionalmente, essa mudança nunca fora revertida outra vez.4


O cristão Westfall viu na nova relação entre ciência e Cristandade ‘uma dimensão da nova ordem que a Revolução Científica deu início a existência … uma razão a mais porque eu não desistirei do conceito’. Ele estava convencido de que a Revolução Científica ‘é a chave não apenas para a história da ciência, mas também para a história moderna’. De fato, Westfall argumentava que a separação do mundo ocidental do resto do globo originou-se da crescente fundação científica que a tecnologia europeia adquirira desde o século XVII.

Westfall parece ter acreditado que ninguém endereçara seriamente a questão ‘de sobre o que era a nova ciência que a tornou adaptável ao uso tecnológico’. Ele identificou três características distintas: seu feitio quantitativo, o emprego de experimentação e o desenvolvimento de uma explicação mais satisfatória da natureza.

Em termos mais gerais, a questão de fato foi endereçada por Marx, ‘aquele mais astuto historiador da tecnologia do século XIX (e Manchester)’.5 Ele fez isso em um trabalho preparatório (1857-1858), publicado pela primeira vez sob o título de Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Rohentwurf) [122]em 1939-1941. Como é conhecido, ou deveria ser, o argumento principal do empreendimento teórico de Marx era descobrir as leis subjacentes à formação e desenvolvimento do capital e, dessa maneira, prover a chave para compreender o capitalismo como um sistema historicamente evoluído de produção social. É nessa conexão que Marx encontrou o problema do papel da ciência e tecnologia no desenvolvimento das forças produtivas sob o capitalismo.6

Nos Grundrisse Marx toca no problema, entre outros assuntos, quando ele analisa categorias tais como processo de trabalho, capital fixo, máquina, etc. Marx nota que


A natureza não constrói máquinas, nem locomotivas, estradas de ferros, telégrafos elétricos, mules de ação automática (self-acting mules), etc. Esses são produtos da indústria criada pelo homem … eles são órgãos do cérebro humano, criados pela mão humana, um poder de conhecimento objetificado. O desenvolvimento do capital fixo [aparecendo como uma máquina] revela a que grau o conhecimento social geral tornou-se uma força direta de produção.


Seguindo o pensamento posterior de Marx sobre esse assunto, no Capital (1867), seu principal trabalho publicado, nós descobrimos que à época ele considerava a ciência como um poder intelectual (gesitige Potenz) do processo de produção em vez de uma força direta de produção. Marx frequentemente se referia, no Capital, à Produktivkraft der Arbeit no sentido de produtividade e escreve que é ‘determinada por várias circunstâncias, entre outras, pela habilidade média do trabalhador, o estado da ciência e o grau de sua aplicação prática, a organização social da produção, a extensão e capacidades dos meios de produção e pelas condições físicas’.

Sem dúvida o que aconteceu foi que Marx, na reflexão madura, conclui que uma mais sútil relação entre ciência e produção existia do que aquela ponto a ponto que ele anteriormente estabeleceu. Tem sido minha concepção de que, tanto praticantes quanto teóricos preocupados com essa questão, poderiam beneficiar-se da abordagem posterior de Marx. Quer dizer, reconhecer que a relação entre ciência e produção é uma relação mediada, dependendo de fatores tais como necessidades militares, expectativas econômicas, viabilidade tecnológica, interesses políticos e outros. Visto dessa maneira, o conhecimento tecnológico representa um potencial em vez de uma força direta de produção.

Isso atribui à mediação uma função epistemológica centralmente importante, ajuda-nos a entender a parte desempenhada pela interação de uma pluralidade de [123]fatores em fases transitivas da história. É nesse contexto que recompensa retornar a reafirmação de Westfall do conceito da Revolução Científica, um com o qual eu concordo em princípio mas não considero adequado.

Tome-se a afirmação de Westfall de que a Revolução Científica trouxe à existência uma nova ordem e, além disso, que ela forneceu um guia não apenas para a história da ciência mas para a história moderna. Para começar, não está claro o que ele quer dizer com ‘nova ordem’ – é política, social, econômica, intelectual, conceitual, metodológica, epistêmica, etc.? Verdadeiro, Westfall aponta para a subordinação da teologia à ciência como uma de suas marcas, em adição à relação mais próxima da ciência e tecnologia. Mas sua falta de interesse em posicionar a Revolução Científica no interior da história mais ampla, plural, do período que ele discute (1543-1687) é evidente.

A indiferença comparativa de Westfall contrasta com a visão do editor de um volume sobre Galileu, quem enfatiza que o desenvolvimento da ciência é afetado por condições externas nas quais é perseguido:


o que não pode estar em dúvida é que, entre, digamos um pouco arbitrariamente, as datas de 1543 e 1687, muitas coisas mudaram radicalmente e o mundo era, e estava tornando-se ainda mais, um tipo largamente diferente de lugar. A ciência, como qualquer outro empreendimento humano, não existe em um vácuo. Não é um sistema isolado, independente, de pensamento e prática. O que acontece em outros domínios afeta como a ciência é praticada, percebida e recebida.7


Ai de mim, essa perspectiva não está refletida nas contribuições efetivas à valiosa, se tradicional, coleção – além da atenção que ela rende à Igreja e Escritura.

Como afirmado no começo deste livro, meu tema é a Revolução Científica como um movimento distinto de pensamento e ação que surgiu por si mesmo em certos países europeus por volta do século XVII. Nesse ponto, a ‘investigação concernente à natureza’ grega adquiriu a forma que desde então tem sido universalmente adotada.

Algumas maneiras de conhecer, como observação e experiência, retrocedem a tempos quando criaturas semelhantes a macacos começaram a emprega-las propositadamente e, no processo, tornaram-se reconhecidamente humanos. Outros – classificação, sistematização e teorização – foram desenvolvidos na antiguidade clássica. Experimentação e quantificação sistemáticas representaram procedimentos para [124]investigar e compreender a natureza que começaram a materializar-se na Europa durante o final da Idade Média e a Renascença.

Em geral, historiadores chegaram a identificar essa fase como a transição do período medieval tardio para o período moderno inicial na Europa. Alguns, influenciados pelo marxismo, viram isso como o estágio de abertura da transição do feudalismo ao capitalismo na Europa, com o capital mercantil ganhando controle do comércio e manufatura.

É nesse contexto intelectual que John Desmond Bernal escreveu sobre a ascensão do capitalismo e o nascimento da ciência moderna, aproximadamente no meio do século XV, como processos relacionados, argumentando em seu seminal The Social Function of Science (1939):


Embora o capitalismo fosse essencial para o desenvolvimento inicial da ciência, concedido isso, pela primeira vez, um valor prático, a importância humana das ciências transcende de todas as maneiras aquele do capitalismo, e, de fato, o desenvolvimento completo da ciência é incompatível com a continuação do capitalismo.8


A leitura desse trabalho em 1940 foi fundamental para excitar meu interesse na história e filosofia da ciência no geral e, na concepção materialista marxista de história, em particular. Ele levou a minha primeira publicação – na véspera de receber minha primeira graduação – em Nature (1944).9 Algumas sete décadas depois, eu ainda considero essa abordagem iluminante para a história, embora não dogmaticamente prescritiva.


ORIGINAL:

Teich, Mikuláš, The Scientific Revolution Revisited. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2015. p.119-124. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.11647/OBP.0054>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1H. Breger, ‘Becher, Leibniz und die Rationalität’, em G. Frühsorge e G. F. Strasser (eds.), Johann Joachim Becher (1635-1682) (Wiesbaden: Harrassowitz, 1993), pp. 69-84. Ver também a valiosa justaposição de Becher e Leibniz por Pamela Smith em The Business of Alchemy: Science and Culture in the Holy Roman Empire (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1994).

2H. Rudolph, ‘Kirchengeschichtliche Beobachtungen zu J. J. Becher’, Becher, pp. 173-96; M. Stewart, The Courtier and the Heretic: Leibniz, Spinoza, and the Fate of God in the Modern World (New Haven, CT and London: Yale University Press, 2005).

3Para as visões religiosas de Linnaeus, ver contribuições por Sten Lindroth e Tore Frängsmyr em T. Frängsmyr (ed.), Linnaeus: The Man and his Work (Berkeley, Los Angeles, CA and London: University of California Press, 1983). Carl Linnaues de K. Hagberg, trad. por Alan Blair (London: Cape, 1952), ainda fornece informação útil sobre as dimensões religiosas assim como econômicas e políticas das atividades do naturalista sueco. Para um tratamento mais recente, ver L. Koerner, Linnaeus: Nature and Nation (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1999).

4R. S. Westfall, ‘The Scientific Revolution Reasserted’, in M. J. Osler (ed.), Rethinking the Scientific Revolution (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), p. 50. Para as citações seguintes, ver pp. 50-1.

5Essa observação foi feita por um muito respeitado não marxista historiador da ciência. Ver a profunda síntese de J.V. Pickstone do estado de arte da erudição na história da ciência, tecnologia e medicina, Ways of Knowing: A New History of Science, Technology and Medicine (Manchester: Manchester University Press, 2000), p. 24.

6O que se segue desenvolve-se do meu ‘The Scientific-Technical Revolution: An Historical Event in the Twentieth Century?’, em R. Porter e M. Teich (eds.), Revolution in History (Cambridge: Cambridge University Press, 1986), pp. 317-30.

7‘Introduction’, em P. Machamer (ed.), The Cambridge Companion to Galileo (Cambridge: Cambridge University Press, 1998), p. 3.

8J. D. Bernal, The Social Function of Science, 3rd ed. (London: Routledge, 1942), pp. 408-09. Ver meu ‘J. D. Bernal: The Historian and the Scientific Technical Revolution’, Interdisciplinary Science Reviews, 33 (2008), 135-39.

9N. Teich, ‘Influence of Newton’s Work on Scientific Thought’, Nature, 153 (1944), 42-5.

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