segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Inferir e Explicar - Capítulo 1 Valorando a Verdade

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


Prefácio


[1]Capítulo 1

Valorando a Verdade


Dizer que democracia é um espaço de razões é dizer que a prática de política democrática requer o oferecimento de e a ação por razões. Quer dizer, em um estado democrático, desentendimentos entre cidadãos devem ser gerenciados apenas na arena da razão, e argumentos legitimando os usos do poder estatal precisam ser apoiados por razões. E crucialmente, as “razões” das quais se fala são razões para se acreditar no que é verdadeiro, enquanto opostas a razões para o que nos conquistará a eleição, far-nos-á ricos ou condenará nossos inimigos. Em resumo, pensar a democracia como um espaço de razões é ver os ideais da política democrática como requerendo um comprometimento com a busca racional da verdade.

Michael Lynch1


Um Objetivo Elevado e um Objetivo Prático


Este livro tem dois objetivos principais. Um é convidar você – não, realmente, implorar a você – para entrar no que Michal Lynch chamada da “arena da razão.” A citação de Lynch pode sugerir que a política é onde a razão e verdade são mais importantes. Eu concordo completamente com ele que a política democrática é uma área de nossas vidas que requer atenção para os ideais de verdade e boa razão. Mas eu acredito que ele concordaria comigo que muitos dos outros assuntos intelectuais – as buscas da ciência e medicina, as exigências de uma profissão, e os problemas imensamente complicados de uma vida pessoal com significado, para nomear apenas uns poucos – são igualmente dependentes dos padrões da arena da razão.

O outro objetivo é fornecer a você uma ferramenta para navegar no interior da arena da razão. Eu gostaria que pudesse dar a você uma bala mágica para a descoberta da verdade, mas eu penso que todos nós sabemos que isso é apenas um conto de fadas. O que eu acredito, contudo, é que há algumas técnicas muito úteis de abordagem, se não de descoberta, da verdade. Este livro enfatizará um desses métodos. Ele tem o nome técnico de inferência à explicação melhor (inference to the best explanation), mas mais sobre isso depois. Agora mesmo, eu simplesmente descrevê-la-ei [2]como um procedimento para distinguir a evidência boa da pobre, fraca, ou até inexistente.

Há algo quase paradoxal sobre meus dois objetivos. Eu estou para despender as próximas duas centenas de páginas estabelecendo essa abordagem para evidência e verdade e, felizmente, atraindo você para a arena da razão ao mostrar que ela é divertida, interessante, e valiosa. O paradoxo potencial jaz em minha convicção absoluta de que você já está escondido na arena da razão – que você já valoriza a verdade e de que você já é um avaliador talentoso de evidências.

Então, por que me importa com escrever meu livro? Considere uma analogia. Você é habilidoso em alguma coisa – tocar piano ou jogar golfe. Mas você também está frustrado. Você não é tão bom nisso quanto você gostaria de ser. Você decide ir a um professor de música ou profissional do golfe para aperfeiçoar seu toque do piano / jogo de golfe. Se você for sortudo o suficiente, encontrará alguém que pode pegar essa habilidade que você tem e afiá-la, ajudar você a romper com alguns maus hábitos, mostrar a você alguns novos truques, encorajar você a praticar, e voilà, melhorando significantemente o seu toque do piano / jogo de golfe. Eu seria uma piada como instrutor de golfe, e eu absolutamente não toco música, mas eu acredito que eu sou arrogante o suficiente para pensar que poderia ser um treinador muito bom de pensamento crítico.


As Habilidades e Valores que Você já tem


Talvez você abomine a política, pense que a história é enfadonha, ou acredite que a ciência contemporânea esteja além de você. Eu espero mudar seu entendimento sobre tudo isso. Mas, mesmo se eu falhar, você ainda está emperrado na arena da razão. Você importa-se com a verdade, ou em um jargão menos pretensioso, como o que é ou não verdadeiro. Alguém conta a você que seu (sua) namorado(a) é infiel. Ele está certo, mentindo maliciosamente, ou simplesmente interpretando mal comentários e ações bastante inocentes? Você certamente se importa com as respostas a essas questões. O seu médico diz a você para não se preocupar com os sintomas que você descreve e que você ficará bem. Você seria maluco de não se importar se ele é um especialista nessa área da medicina ou se ele está diagnosticando incorretamente a sua condição. Um amigo conta a você que a aula de hoje está cancelada, mas se uma nota boa importa para você, você se importará muito se ele sabe do que está falando.

Considere o caso da coitadinha da Connie. Ela pensa que o namorado dela está – no tipo de sentido inocente do ensino médio dos anos de 1950 – traindo-a. Ele afirma que é inocente. Ela importa-se muito se a teoria dela é verdadeira. Mas as suspeitas dela não são simples paranoia; ela acredita que tem uma boa evidência e está tão certa de que está correta que está prestes a romper com ele. Ela expõe sua situação em um poema (bem, realmente em uma canção pop cafona).


A letra de música para “Lipstick on Your Collar” pode ser encontrada aqui: https://www.azlyrics.com/lyrics/conniefrancis/lipstickonyourcollar.html. Connie Francis interpretando a canção dela pode ser encontrada aqui: https://youtu.be/YmlALAaEwfA.


Aqui está a história do namorado dela em poucas palavras. Ela e o namorado dela foram a um record hop. Ele desculpou-se, dizendo que queria conseguir uma soda. Mas ele ficou fora por meia hora. Quando ele retornou, Connie notou uma marca de batom no colarinho da camisa dele. Ele contou a ela que era do batom dela. Ela pensou sobre isso, mas percebeu que o batom dela era rosa bebê, enquanto que a marca na camisa dele era vermelho brilhante. Exatamente enquanto ela estava arranjando tudo isso, a melhor amiga dela, Mary Jane, entrou, e Connie viu que o batom de Mary Jane estava todo bagunçado. Connie conclui que o namorado dela e Mary Jane [3]estavam abraçando-se – beijando-se – durante a ausência de meia hora.

Connie não é advogada, nem cientista de foguetes, nem mesmo uma estudante de faculdade, mas tampouco ela é tola. Ela é esperta o suficiente para ler os sinais, reconhecer o que está acontecendo, e estabelecer um caso persuasivo. As habilidades de Connie são precisamente as habilidades que todos os seres humanos inteligentes possuem, são essas as habilidades que nós construiremos neste livro.


A Verdade e a Contemporânea Cultura Acadêmica


A comunidade acadêmica envia-nos muitos sinais de que nós não valorizamos a verdade ou, pelo menos, de que nós não deveríamos valorizá-la. Muito de pesquisa séria em filosofia, história da ciência, sociologia, crítica literária, e mais conta a acadêmicos como eu que toda a verdade e conhecimento são relativos a quem nós somos – nossa raça, sexo, idade, etnia, e circunstâncias históricas – e que não há tal coisa como a verdade “absoluta” (real?). Considere os pensamentos de Richard Rorty:


O que nós precisamos é fazer uma distinção entre a afirmação de que o mundo está lá fora e a afirmação de que a verdade está lá fora. Dizer que o mundo está lá fora, que não é nossa criação, é dizer, com bom senso, que a maioria das coisas no espaço e no tempo são efeitos de causas que não incluem estados mentais humanos. Dizer que a verdade não está lá fora simplesmente é dizer que, onde não haja sentenças, não há verdade, que sentenças são elementos de linguagens humanas, e que linguagens humanas são criações humanas.

A verdade não pode estar lá fora – não pode existir independentemente da mente humana – porque sentenças não podem existir dessa maneira, ou estar lá fora. O mundo está lá fora, mas as descrições do mundo não. Somente descrições do mundo podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo em si mesmo – sem a ajuda das atividades descritivas de seres humanos – não pode …

O mundo não fala. Apenas nós falamos. O mundo pode, uma vez que nós tenhamos programado a nós mesmos como uma linguagem, levar-nos a sustentar crenças. Mas ele não propõe uma linguagem para falarmos.”2


Eu acredito que Rorty tem alguma coisa muito importante aqui, mas que sua intuição está seriamente mal caracterizada – que ele está, se você desejar, dizendo alguma coisa que é tanto verdadeira quando falsa ao mesmo tempo.

Connie é um ser humano com um cérebro, sistema nervoso central, e órgãos dos sentidos. Ela vê coisas – a marca de batom, sua cor, e a cor de seu próprio batom. Ela ouve coisas – a desculpa esfarrapada do namorado dela. E ela forma uma teoria sobre o que está acontecendo. A teoria dela está, para uma alguma linguagem carregada, “na cabeça dela,” e os fatos que fazem com que a teoria dela seja verdadeira ou falsa “estão lá fora.” Como nós vinculamos a teoria (O que Rorty chama de “estados mentais,” “sentenças,” ou “descrições do mundo”) com os fatos? As coisas já seriam suficientemente ruins se o que nós tivéssemos de fazer fosse propor uma explicação de como cérebros e órgãos dos sentidos permitem-nos ver e ouvir coisas. Filósofos têm trabalhado nesses problemas por 2500 anos, e eu tenho de informar a você que ainda a muito trabalho a fazer.

Mas também há outros sérios problemas. Todas as ocorrências neurais de Connie dão origem a crenças – “sua mancha é vermelha, mas meu batom é rosa bebê.” Algumas das crenças dela são verdadeiras, mas outras são falsas. O cérebro e os órgãos dos sentidos de Connie desempenham um papel central para a ajudar a distinguir as crenças verdadeiras daquelas que são falsas. Até agora, a história é sobre natureza. Mas a [4]intuição central de Rorty é de que há toda uma outra história a ser contada em termos da criação (nurture) de Connie. Todas as tentativas dela de descobrir a verdade, de encontrar evidência para o que é verdadeiro, são coloridas pelo que ela é, e isso é tanto uma ajuda quanto um obstáculo. Nós não simplesmente vemos e ouvimos o mundo; nós aprendemos a ver e a ouvir o mundo. Nós somos dotados de um sistema nervoso central notavelmente poderoso pela seleção natural (ou talvez como um presente de Deus). Nós temos isso simplesmente em virtude de sermos seres humanos. Mas nós também somos produtos de nossos contextos, de nossa aprendizagem, de nossas experiências, e de nossos prejuízos. É triste mas ainda um fato, eu acho, que homens e mulheres, brancos e negros, e jovens e velhos estão condenados a pensar de maneiras um pouco diferentes. Como pode haver uma verdade sobre se a mudança climática é real ou se sistema de saúde universal é uma política sábia quando você e eu estamos fadados a ver as coisas diferentemente por causa de nossas diferenças em idade, etnia, e gênero – para não dizer nada quanto às afiliações políticas e convicções religiosas?

Embora uma vez promotor entusiasta, eu vim a rejeitar essa visão relativística por duas razões. Rorty persuasivamente nos conta sua história sobre criação (nurture), mas meio que esquece da história sobre natureza. O sistema nervoso central de Connie não está simplesmente ali; ele está lá por uma razão. Seu inteiro propósito é proporcionar a ela dados sobre o mundo lá fora. E sistemas nervosos centrais parecem fazer seu trabalho muito bem. Não é que nós apenas tenhamos sobrevivo como uma espécie, mas que nós temos sobrevivido tão exitosamente que nos tornamos a única espécie capaz de alterar o mundo inteiro. Assim, sim, nós temos um problema de relativismo cultural, e é um problema com o qual nós seremos forçados a lidar durante o restante deste livro. Mas nós também temos um aparato físico esquisitamente projetado que nos permite formar imagens do mundo lá fora (talvez como ele realmente é).

Toda a muita abstrata coisa acadêmica também tem um desfecho muito infeliz. É algumas vezes usada como um obstruidor de discussão, até entre os acadêmicos mesmos. Se as pessoas com as quais eu converso, das quais eu produtivamente discordo, e talvez até raciocine com alguma visão compartilhada fossem exatamente como eu, o mundo seria um lugar muito solitário. Certamente, Connie é um produto de quem ela é. A idade, o sexo, a raça e a classe socioeconômica dela inevitavelmente influenciam o que ela vê e o que ela pensa sobre. Eu tomo isso como um dado. Mas no que ela está pensando não está apenas “na cabeça dela,” mesmo se as sentenças, crenças e teorias dela estejam. Você e eu podemos pensar sobre a teoria dela, jazer julgamentos sobre sua irrefutabilidade, e frequentemente chegarmos ao acordo sobre tudo isso, independentemente das diferenças sem conta em quem nós somos, como e quando nós nascemos, e nossos únicos contextos sociais e educacionais. Uma vez que há um mundo “lá fora” com namorados, melhores amidas, e beijos (mesmo se aquelas diferenças forem os produtos de nossa cultura compartilhada), eu acho que faz muito sentido perguntar o que realmente aconteceu quando ele esteve fora por aquela meia hora ou mais. E isso é apenas outra maneira de perguntar se a teoria dela é verdadeira.


A Verdade e a Cultura Popular: A Necessidade de se respeitar as Diferenças


Você bem pode perguntar o que toda a filosofia, ciência social e biologia evolucionista abstratas têm a ver com nossas preocupações neste livro. Bem, eu já dei a você uma razão para incluí-las. O problema das expectativas e vieses culturais é real e infecta a valoração de evidências até [5]o seu centro. Além disso, muitos de nossos professores e outras figuras de autoridades intelectual são produtos dessa cultura acadêmica, e eu penso que você necessita saber de onde eles estão vindo. Finalmente, essas considerações teóricas encontraram seu caminho para a cultura epistemológica popular.

Muitos de meus estudantes são relativistas sem remorso de duas maneiras muito diferentes. Muitos de vocês abraçam a diversidade. Vocês admiram o fato de que nós trazemos diferentes perspectivas para discussões e investigações. Vocês são contrários a depreciar aqueles que pensam diferentemente sobre religião, política, ou outras coisas que importam profundamente para vocês e seus pares. Vocês reconhecem que muitas das pessoas pensativas e decentes veem as coisas muito diferentemente do que vocês quando se chega a direitos de aborto, à pena de morte, ou até mudança climática. Uma reação muito compreensível a isso é pensar que todos têm um direito às suas próprias crenças.

No sentido do direito da Primeira Emenda à liberdade de pensamento e fala, eu concordo completamente com esse sentimento. Contudo, é uma coisa ter o direito a pensar o que vocês pensam ou acreditar no que vocês acreditam; é bem outro ter o direito de estar correto sobre o que você pensa e acredita. Meus estudantes algumas vezes dizem coisas que eu considero paradoxais. Eles contam-me que as verdades deles são simplesmente diferentes da minha. Claro, eu acredito que a seleção natural está correta (spot-on), então ela é verdadeira para mim. Mas eles acreditam que é ímpio e estúpido pensar que “o homem veio de macacos,” assim a evolução é falsa para eles. Isso é apenas outro obstruidor de discussão. Ele impede qualquer diálogo e investigação compartilhados sobre qual de nós está certo. Nós não passaremos muito tempo neste livro (embora em outro livro que eu espero escrever, isso será central) em disputas puramente morais tais como a controvérsia pró-vida / pró-escolha ou o caso a favor ou contra direitos dos animais. Um pouco depois, nós passaremos algum tempo sobre a constitucionalidade, se não a moralidade, da pena de morte. E nós passaremos uma boa quantidade de tempo examinando a evidência para a descendência com modificação por seleção natural. Considere o desacordo sobre mudança climática. Há muita paixão em ambos os lados. Isso é óbvio. As pessoas certamente têm o direito de não ser perseguidas em questões como essas – não ser rebaixadas (downgraded) por seus professores. Mas esses direitos significam que não há resposta correta para a questão última de se práticas culturais e industriais humanas estão contribuindo para a mudança climática? Ou até se a mudança climática está realmente ocorrendo? Ser tolerante com as visões dos outros é uma boa coisa, mas ser relutante em buscar algum solo comum ou até encontrar uma resposta correta é preguiça ou covardia intelectual.


A Verdade e a Cultura Popular: “Notícias Falsas” e “Fatos Alternativos”


Isso leva à segunda razão para o relativismo, se não ceticismo completo, de meus estudantes. Nenhum de nós é cientista do clima, assim nós somos dependentes de fontes externas para a maior parte de nossa informação. Mas fontes externas parecem contar-nos coisas diferentes. A imprensa “liberal” conta-nos uma história sobre mudança climática, enquanto que a imprensa “conservadora” conta uma história muito diferente. O presidente dos Estados Unidos conta-nos que a mídia tradicional é culpada de nos alimentar com “notícias falas (fake news).” Eu acredito que ele está muito errado sobre isso. Mas em quem vocês deveriam acreditar – em seu professor de filosofia ou no presidente? Minha suposição é que a maneira como vocês respondem a essa questão tem pouco relativamente pouco a ver como quem eu sou, [6]minhas credenciais, ou até com o presidente e com quem ele é. É mais provável que sua confiança em qualquer um de nós seja formada pelas fontes de mídia que vocês acompanham, em quem vocês votaram na última eleição, e o que seus amigos e sua família contam a vocês. De uma maneira, isso é apenas o problema do relativismo cultural tudo de novo. Mas alguma coisa parece ter mudado exatamente no curto espaço de tempo entre a minha geração e a sua.

Eu estou muito nervoso sobre onde essa discussão deve prosseguir. Cada geração parece olhar para a geração mais nova não apenas com perplexidade mas com um tipo engraçado de julgamento. Eles estão dando-se mal rapidamente! Meus pais realmente não podiam entender a música que eu escutava ou porque eu opunha-me à guerra no Vietnã. Eu ainda estou tentando entender o hip-hop, e eu estou perplexo sobre porque a mudança climática é uma controvérsia real. Mas a mudança cultural na qual eu estou focando-me agora não é geracional.

Deixe-me ver se eu posso tornar isso mais claro ao contar a você como eu aprendi a entrar na arena da razão de Lynch. A escola desempenhou um papel imenso, é claro, mas houve outras importantes fontes compartilhadas que uniram a minha geração com aquela de meus pais. Meus amigos, meus pais, e meus professores todos liam o Los Angeles Times, assistiam às notícias noturnas em uma das três maiores redes, e basicamente compartilhavam um estoque comum de informação sobre o que estava acontecendo no mundo à nossa volta. Nós discordávamos bastante sobre como interpretar os dados, mas, pelo menos, todos tínhamos a mesma coleção básica de fatos sobre os quais discordar. É claro, havia bastante críticos e céticos sobre essas fontes. Alguns viam o Times e CBS News como lacaios da cultura corporativa capitalista. Outros afirmavam que eles não eram nada além de propaganda liberal, antirreligiosa. Mas essas queixas eram dirigidas mais à “politica editorial” – que histórias eram cobertas, quanto tempo e espaço de linha eram dedicados a elas, e semelhantes – e, sim, às visões políticas endossadas nas páginas editoriais. Agora, eu não quero exagerar a confiança que nós tínhamos sobre tudo isso. Nós nos preocupávamos de que não estávamos obtendo a história inteira sobre a guerra ou que a Comissão Warren mentiu para nós sobre o assassinato de Kennedy. Mas essas eram as exceções, não a regra.

A sua geração, contudo, frequentemente obtém sua informação sobre o que está acontecendo a partir de fontes muito idiossincráticas na web. E, sejam elas liberais ou conservadoras, elas frequentemente parecem discordar frequentemente não apenas sobre como interpretar os fatos, mas quanto ao que são fatos em primeiro lugar. Eu não posso permanecer neutro aqui. Algumas fontes são mais confiáveis do que outras! Algumas fontes são completamente não confiáveis! Se você é sério sobre a verdade, se você importa-se com a razão, você precisa encontrar algumas fontes confiáveis de informação sobre o que está acontecendo à sua volta – o mundo da ciência, da política e tudo o mais que importa. Eu estou perfeitamente feliz em compartilhar as fontes que informam a maior parte de minhas crenças sobre o que está acontecendo no país, no mundo, e em outras áreas sobre as quais eu importo-me, incluindo esportes, filmes, música, e até ciência. Sem dúvida elas são o New York Times e o National Public Radio, particularmente Morning Edition. Em parte isso é uma questão de hábito, preferência, e conveniência. Também é uma questão de confiança. Sem dúvida, alguns de vocês estão horrorizados. É claro que essas são as fontes dele! Ele é um liberal, e elas são fontes descaradamente liberais. Provavelmente isso é verdade, mas meus melhores amigos odeiam essas fontes porque eles acreditam que elas venderam a busca da verdade por uma falsa necessidade de aparecerem como justas [7]em sua cobertura. Mas minhas fontes não têm de ser as suas fontes. Eu seria genuinamente feliz se todos os meus estudantes viessem para meus cursos verdadeiramente informados sobre o que está acontecendo via informação que eles obtiveram de fontes igualmente conservadoras tais como o Wall Street Journal ou o Economist.


Um Apelo por Pensamento Crítico


Minha vida profissional inteira foi dominado por cursos em pensamento crítico. Quando eu comecei a escola de pós-graduação, eu tive o privilégio de trabalhar com o professor Larry Wright como um de seus professores-assistentes em seus cursos de pensamento crítico. Essa foi verdadeiramente uma experiência de mudança de vida. Foi no curso dele que primeiro eu aprendi sobre a inferência para a melhor explicação, e é o seu método de valoração que dá forma a muito de meu ensino e muito de minha pesquisa profissional. Eu recriei muito do que aprendi com o professo Wright em cursos sem conta de pensamento crítico que eu ensinei e, em alguns casos, criei. Tudo isso forma o coração e a alma deste livro.

Como eu penso sobre isso, contudo, talvez a mais importante lição que aprendi não foram os detalhes de uma abordagem particular de pensamento crítico, mas somente o valor de tomar um pouco de tempo de uma ocupada carreira de graduação focada nos detalhes de especializações (majors) e complementações (minors) acadêmicas, e treinamento de carreira, e parando para refletir sobre questões mais gerais de razão, verdade, e lógica. Eu obtenho uma grande gratificação de que alguns de meus mais satisfeitos consumidores de pensamento crítico não foram estudantes marginais que necessitavam ser ensinados sobre como pensar corretamente, o que quer que se supõe que isso quer dizer, mas verdadeiramente estudantes excelentes que já possuíam todos as habilidades e ferramentas necessárias para o sucesso acadêmico. Para retornar a uma analogia anterior, até grandes pianistas e jogadores de golfe beneficiam-se de prática dedicada e de uma pouco de treinamento de vez em quando.

Assim, bem-vindo à arena da razão, onde você já estava pela quase totalidade de sua vida. E bem-vindo ao pensamento crítico. Se você der-lhe uma meia chance, eu quase posso prometer a você que você encontrará as coisas que exploramos juntos neste livro interessante e divertidas. Eu também permaneço confiante de que a maioria de vocês considerará a abordagem central para evidência e descoberta da verdade que nós desenvolveremos aqui pessoal, acadêmica e profissionalmente úteis.


Exercícios


  1. Geralmente falando, você considera que Connie tem uma boa evidência para a teoria dela de que o namorado dela estava beijando Mary Jane durante a ausência dele no record hop? Por quê?

  2. Qual você pensa que é o argumento mais forte a favor da afirmação de que a verdade é sempre relativa a quem as pessoas são, seus contextos, suas experiências, sua idade, seu sexo, sua raça e assim por diante?

  3. Qual você pensa que é o argumento mais forte contra essa visão relativista?


[8]Questionário Um


Todos os outros questionários neste curso focar-se-ão no conteúdo do curso. A maior parte da nota do questionário será determinada por quão exitosamente você demonstra seu domínio do material apresentado nas leituras e preleções. Contudo, este primeiro questionário é um pouco diferente. Aqui, eu estou pedindo a você para refletir honestamente sobre você mesmo como um pensador. A nota neste questionário será determinada por quão sincero e autorreflexivo é o seu ensaio.

Eu estou pedindo um ensaio curto – não mais do que três páginas em espaço duplo – que trate das seguintes três questões:

  1. Quanto de seu pensamento sobre questões importantes – políticas, morais, religiosas, e assim por diante – você acredita que é determinado por seu contexto individual? Sua idade, sexo, raça, tendências políticas de família, e semelhantes?

  2. Na medida em que, pelo menos, parte de seu pensamento sobre esses tipos de questões é determinado parcialmente por fatos culturais sobre você mesmo, você acredita que pode “transcendê-los” e alcançar uma valoração mais objetiva da maneira como as coisas “realmente são”? Como você poderia fazer isso?

  3. Quais são as suas principais fontes de informação sobre política, controvérsias morais, esses tipos de coisas?

Eu completamente espero que as notas neste primeiro questionário sejam bastante altas. Tudo que você precisa fazer para receber crédito total é tomar apenas um pouco de tempo para refletir verdadeiramente sobre estas questões.


Primeiro capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., "Inferring and Explaining" (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 1-8. Disponível em :<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1Michael P. Lynch, “Democracy as a Space of Reasons,” em Truth in Politics, ed. J. Elkins e A. Norris (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2012), 158.

2Richard Rorty, Contingency, Irony and Solidarity (Cambridge: Cambridge University Press, 1989), 4–5, 6, 27, 51– 52.

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