segunda-feira, 16 de maio de 2022

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano IX – Da Razão dos Animais

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano


Por David Hume


Parte anterior


[118]Seção IX – Da Razão dos Animais


Todos os nossos raciocínios a respeito de questão de fato são uma espécie de ANALOGIA, a qual nós conduz a esperar, a partir de qualquer causa, os mesmos eventos que nós observamos resultar a partir de causas similares. Onde as causas forem inteiramente similares, a analogia é perfeita, e a inferência extraída a partir dela é considerada como certa e conclusiva: nem homem algum nunca cogita uma dúvida, onde ele vê um pedaço de ferro, de que ele terá peso e coesão de partes, como em todas outras instâncias que alguma vez caíram sobre sua observação. Mas, onde os objetos não têm uma similaridade tão exata, a analogia é menos perfeita, e a inferência menos conclusiva; embora ela ainda tenha alguma força em proporção ao grau de similaridade e semelhança. As observações anatômicas formadas em consequência de um animal, são, através dessa espécie de raciocínio, estendidas para todos animais: e é certo que, por exemplo, quando a circulação do sangue foi claramente provada ocorrer em uma criatura, como um sapo ou peixe, ela forma uma presunção certa de que o mesmo princípio ocorre em todas. Essas observações analógicas podem ser conduzidas mais longe, até mesmo para esta ciência da qual nós agora estamos tratando; e qualquer teoria, através da qual [119]nós explicamos as operações do entendimento, ou a origem e conexão das paixões no homem, adquirirá autoridade adicional se nós descobrirmos que a mesma teoria é requisito para explicar os mesmos fenômenos em todos os outros animais. Nós devemos testar isso com respeito à hipótese através da qual, no discurso anterior, nós nos esforçamos para explicar todos raciocínios experimentais; é é esperado que esse novo ponto de vista servirá para confirmar todas as nossas observações anteriores.

Primeiro, parece evidente que os animais, assim como os homens, aprendem muitas coisas a partir da experiência, e inferem que os mesmos eventos sempre se seguirão a partir das mesmas causas. Através desse princípio eles tornam-se familiarizados com as propriedades mais óbvias dos objetos externos e, gradualmente, a partir de seu nascimento, entesouram um conhecimento da natureza do fogo, da água, das terras, das pedras, dos pesos, das profundezas, etc, e dos efeitos que resultam a partir da operação deles. Aqui, a ignorância e inexperiência dos jovens são evidentemente distinguíveis da destreza e sagacidade dos velhos, quem aprenderam, através de longa observação, a evitar o que os machuca e a buscar o que lhes concede conforto e prazer. Um cavalo que esteve acostumado com o campo torna-se familiarizado com a altura apropriada que ele pode saltar, e nunca tentará o que excede sua força e habilidade. Um velho galgo (greyhound) confiará a parte mais fatigante da caçada ao mais jovem, e posicionar-se-á para encontrar a lebre na astúcia dela (in her doubles); nem estão as conjecturas que ele forma nessa ocasião em qualquer coisa senão em sua observação e experiência.

Isso é ainda mais evidente a partir dos efeitos da disciplina e educação dos animais, quem, através da aplicação própria de recompensas e punições, podem ser ensinados qualquer curso de ação, o mais contrário aos seus instintos e [120]propensões naturais. Não é a experiência que torna um cão receoso da dor, quando você o ameça, ou ergue o chicote para bater nele? Não é a experiência mesma que faz ele responder ao nome dele, e inferir, a partir de um tal som arbitrário, que você significava ele antes que qualquer um de seus companheiros, e pretendia chamá-lo, quando você o pronuncia de uma certa maneira, e com um certo tom e ênfase?

Em todos esses casos nós podemos observar que o animal infere algum fato além do que imediatamente atinge seus sentidos; e que essa inferência está fundamentada, de modo geral, na experiência passada, enquanto a criatura espera, a partir do objeto presente, as mesmas consequências que ela sempre descobriu em sua observação resultarem a partir de objetos similares.

Segundo, é impossível que essa inferência do animal possa estar fundamentada sobre qualquer processo ou raciocínio, através do qual ele conclui que eventos semelhantes devem seguir-se a objetos semelhantes, e que o mesmo curso da natureza sempre será regular em suas operações. Pois, se há na realidade quaisquer argumentos dessa natureza, eles certamente também jazem abstrusos para a observação de entendimentos tão imperfeitos; uma vez que isso bem pode empregar o cuidado e a atenção máximas de um gênio filosófico para os descobrir e observar. Portanto, os animais não são guiados por essas inferências de raciocínio: nem são as crianças: nem é a generalidade do gênero humano em suas ações e conclusões ordinárias: nem são os filósofos mesmos, quem, em todas partes ativas da vida, estão, pela maior parte, no mesmo que o vulgo, e são governados pelas mesmas máximas. A natureza deve ter provido algum outro princípio, de uso e aplicação mais prontos e mais gerais; nem pode uma operação de consequências tão imensas para a vida, como aquela de inferir efeitos a partir [121]de causas, ser confiada ao processo incerto de raciocínio e argumentação. Fosse isso duvidoso com respeito ao homem, isso não parece admitir nenhuma questão com respeito à criação bruta; e a conclusão sendo firmemente estabelecida em um, nós temos uma presunção forte, a partir de todas as regras da analogia, de que ela deve ser universalmente admitida, sem qualquer exceção ou reserva. É apenas o costume que empenha os animais, a partir de cada objeto que atinge os sentidos deles, a inferir seu concomitante usual e a transportar sua imaginação, a partir do aparecimento de um para conceber o outro, daquela maneira particular que nós denominamos de crença (belief). Nenhuma outra explicação desta operação pode ser dada, em todas as classes mais altas, assim como nas mais baixas, de seres sensitivos que caem sob nossa atenção e observação.1

[122]Mas, embora os animais aprendam muitas partes de seu conhecimento a partir da observação, também há muitas partes dele que eles derivam a partir da mão original da Natureza, a qual em muito excede a quota de capacidade que eles possuem em ocasiões ordinárias, e na qual eles se aperfeiçoam, pouco ou nada, pela mais longa prática e experiência. Esses nós denominamos de INSTINTOS, e são tão aptos a serem admirados, como alguma coisa muito extraordinária e inexplicável, por todas investigações do entendimento humano. Mas talvez nossa admiração cessará ou diminuirá quando nós considerarmos que o raciocínio experimental mesmo, o qual nós possuímos em comum com as feras, e sobre o qual a inteira orientação da vida depende, nada é senão uma espécie de instinto ou poder mecânico, que age em nós, desconhecido por nós mesmos, e, em suas operações, não é dirigido por nenhuma das semelhantes relações ou comparações de ideias como são os objetos apropriados [123]de nossas faculdades intelectuais. Embora o instinto seja diferente, ainda assim ele é instinto, o qual ensina um homem a evitar o fogo, assim como aquele que ensina um pássaro, com tão grande exatidão, a arte da incubação, e a inteira economia e ordem de seu viveiro.


Próxima parte


ORIGINAL:

HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.118-123. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/118/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [121]Uma vez que todos os raciocínios relativos a fatos ou causas são derivados meramente a partir do costume, pode ser perguntado, como acontece que os homens excedam tanto os animais em raciocínio, e um homem exceda tanto a outro?

Aqui nós devemos tentar explicar brevemente a grande diferença nos entendimentos humanos: após a qual, a razão da diferença entre homens e animais facilmente poderá ser compreendida.

  1. Quando nós tivermos vívido por algum tempo, e estivermos acostumados com a uniformidade da natureza, nós adquirimos um hábito geral através do qual sempre transferimos o conhecido para o desconhecido, e concebemos o segundo assemelhar-se ao primeiro. Através desse princípio habitual geral, nós consideramos mesmo um experimento como o fundamento de raciocínio, e esperamos um evento similar com algum grau de certeza, onde o experimento foi feito com precisão, e livre de todas circunstâncias estrangeiras. Portanto, é considerada como uma questão de grande importância observar as consequências das coisas; e como um homem pode exceder muito outro em atenção, memória e observação, isso fará uma grande diferença no raciocínio deles.

  2. Onde há uma complicação de causas para produzir qualquer efeito, uma mente pode ser muito maior do que outra, e mais capaz de compreender o sistema todo de objetos, e inferir justamente suas consequências.

  3. Um homem é capaz de sustentar uma cadeia de consequências para uma extensão maior do que outro.

  4. Poucos homens podem pensar por muito tempo sem toparem com uma confusão de ideias, [122]e confundirem uma com outra; e há vários graus dessa debilidade.

  5. As circunstâncias sobre as quais o efeito depende frequentemente estão envolvidas em outras circunstâncias, as quais são estrangeiras e extrínsecas. A separação dessas frequentemente requer grande atenção, precisão e sutileza.

  6. A formação de máximas a partir de observação particular é uma operação muito delicada; e nada é mais usual, a partir de pressa ou uma estreiteza da mente, que não vê todos lados, do que cometer erros nesse particular.

  7. Quando nós raciocinamos a partir de analogias, o homem que tem uma experiência maior ou prontidão maior para sugerir analogias, será o raciocinador melhor.

  8. Vieses (Biases) a partir de preconceito, educação, paixão, partidarismo (party), etc, pendem mais sobre uma mente do que sobre outra.

  9. Após nós termos adquirido uma confiança no testemunho, nos livros e na conversa humanos, alarga-se muito mais a experiência e pensamento de um homem do que aqueles de outro.

Seria fácil descobrir muitas outras circunstâncias que fazem uma diferença nos entendimentos dos homens. [Esta nota apareceu primeiramente na Edição L.]

Nenhum comentário:

Postar um comentário