quinta-feira, 7 de julho de 2022

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano X – Dos Milagres

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano


Por David Hume


Parte anterior


[124]Seção X – Dos Milagres


Parte I


Nos escritos do Dr. Tillotson há um argumento contra a presença real (real presence), o qual é tão conciso, e elegante, e forte, quanto qualquer argumento possivelmente pode ser considerado contra uma doutrina tão pouco digna de uma refutação séria. É reconhecido por todos os lados, diz o prelado instruído, que a autoridade, quer da Escritura, quer da tradição, está fundada meramente no testemunho dos Apóstolos, quem foram testemunhas oculares (eyewitnesses) de nosso Salvador, pelos quais ele provou sua missão divina. Então, nossa evidência pela verdade da religião Cristã é menor que a evidência pela verdade de nossos sentidos; porque, mesmo nos primeiros autores de nossa religião, ela não foi maior; e é evidente que ela deve diminuir na passagem deles para seus discípulos; nem podem ninguém amparar tal confiança no testemunho dele como no objeto imediato de seus sentidos. Mas uma evidência mais fraca nunca pode destruir uma mais forte; e portanto, estivesse a doutrina da presença real alguma vez tão claramente revelada na Escritura, seria diretamente contrária às regras do raciocínio correto conceder nosso assentimento a ela. Ela contradiz os sentidos, embora tanto a Escritura quando a tradição, sobre as quais se supõe que ela esteja [125]erigida, não portem evidência similar à dos sentidos com elas, quando elas são consideradas meramente como evidências externas, e não clarificadas para o peito de qualquer um através da operação imediata do Espirito Santo.

Nada é tão conveniente como um argumento decisivo desse tipo, o qual deve, pelo menos, silenciar a mais arrogante intolerância e superstição, e libertar-nos de suas solicitações impertinentes. Eu lisonjeio-me de que descobri um argumento de uma natureza semelhante, o qual, se justo, será, com o sábio e instruído, um exame eterno para todos os tipos de ilusão supersticiosa, e, consequentemente, será útil enquanto o mundo durar; por tanto tempo, eu presumo, os relatos de milagres e prodígios serão encontrados em toda a história, sagrada e profana.1

Embora a experiência seja nossa única guia no raciocínio a respeito de questões de fato, deve ser reconhecido que esse guia não é completamente infalível, mas, em alguns casos, está apto a conduzir-nos a erros. Alguém que, em nosso clima, devesse esperar clima melhor em qualquer semana de junho do que em uma de dezembro, raciocinaria justamente e de acordo com a experiência; mas é certo que ele pode acontecer de, no evento, descobrir-se enganado. Contudo, nós podemos observar que, em um tal caso, ele não teria causa para reclamar da experiência, porque ela comumente nos informa antecipadamente da incerteza, através daquela contrariedade de eventos que nós podemos aprender a partir de observação diligente. Todos os efeitos não se seguem com igual certeza a partir de suas supostas causas. Alguns eventos são descobertos, em todos os países e épocas, ter sido constantemente combinados juntos: outros são descobertos ter sido mais variáveis e, algumas vezes, desapontar nossas expectativas; de modo que, em nossos raciocínios relativos a questões de fato, [126]existem todos os graus imagináveis de garantia, da mais alta certeza a mais baixa espécie de evidência moral.

Portanto, um homem sábio coloca sua fé em proporção à evidência. Em conclusões tais que estão fundamentadas em uma experiência infalível, ele espera o evento com o último grau de certeza, e considera a experiência passada como uma prova completa da existência futura desse evento. Em outros casos ele procede com mais cautela: pesa os experimentos opostos: considera qual lado é suportado pelo maior número de experimentos: para esse lado ele inclina-se com dúvida e hesitação e, quando finalmente ele determina seu julgamento, a evidência não excede o que nós propriamente chamaríamos de probabilidade. Toda a probabilidade, então, supõe uma oposição de experimentos e observações, onde um lado é descoberto pesar mais do que o outro, e produzir um grau de evidência proporcionada maior. Uma centena de instâncias ou experimentos de um lado, e cinquenta do outro, proporcionam uma expectativa duvidosa de qualquer evento; embora uma centena de experimentos uniformes, com apenas um que e contraditório, razoavelmente geram um grau bastante forte de certeza. Em todos os casos, nos devemos balancear os experimentos opostos, onde eles são opostos, e deduzir o número menor do maior, a fim de conhecer a força exata da experiência superior.

Para aplicar esses princípios a uma instância particular; nós podemos observar que não há espécie de raciocínio mais comum, mais útil, e até necessário à vida humana, do que aquele que é derivado a partir do testemunho de homens, e dos relatos de testemunhas oculares e espectadores. Essa espécie de raciocínio, talvez, alguém possa negar ser encontrada na relação de causa e efeito. Eu não deverei disputar sobre uma palavra. Será suficiente [127]observar que nossa garantia em qualquer raciocínio desse tipo não é derivada a partir de nenhum outro princípio que não de nossa observação da veracidade do testemunho humano, e da conformidade usual dos fatos com os relatos de testemunhas. Sendo uma máxima geral que objetos não têm nenhuma conexão conjuntamente descobrível, e que todas as inferências que nós podemos extrair a partir de um para outro, são descobertas meramente em nossa experiência da conjunção constante e regular deles, é evidente que nós não devemos fazer uma exceção a essa regra em favor do testemunho humano, a conexão do qual com qualquer evento parece, em si mesma, tão pouco necessária quanto qualquer outra. Não houvesse na memória tenacidade a um certo grau; não houvesse nos homens comumente uma inclinação para a verdade e um princípio de probidade, não ficassem eles sensíveis à vergonha quando detectados em uma falsidade: eu digo, não fossem essas, descobertas pela experiência, ser qualidades inerentes à natureza humana, nós nunca deveríamos sustentar a menor confiança no testemunho humano. Um homem delirante, ou notado por falsidade e vilania, não têm modo de autoridade conosco.

E, como a evidência derivada a partir de testemunhas (witnesses), e o testemunho humano está fundamentado na experiência passada e é considerado quer como uma prova, quer como uma probabilidade, de acordo com a conjunção entre qualquer tipo particular de relato e qualquer tipo de objeto tem sido descoberta ser constante ou variável. Há um número de situações a serem levadas em consideração em todos os julgamentos desse tipo; e o padrão último pelo qual nós determinamos todas as disputas que surgem relativos a eles é sempre derivado a partir da experiência e observação. Onde essa experiência não é inteiramente uniforme em qualquer lado, ela é acompanhada com uma inevitável contrariedade em nossos julgamentos, e com a mesma oposição e destruição mútua de argumento que [128]em todo outro tipo de evidência. Nós frequentemente hesitamos a respeito dos relatos de outros. Nós ponderamos as circunstâncias opostas que causam qualquer dúvida ou incerteza; e, quando nós descobrimos uma superioridade de qualquer lado, nós inclinamo-nos para ele, mas ainda com uma diminuição de segurança, em proporção à força de seu antagonista.

Essa contrariedade da evidência, no caso presente, pode ser derivada a partir de vários casos diferentes; a partir da oposição de testemunho contrário; a partir do carácter ou número das testemunhas; a partir da maneira de sua maneira de transmissão de seu testemunho; ou a partir da união de todas essas circunstancias. Nós entretemos uma suspeita a respeito de qualquer questão de fato quando as testemunhas se contradizem umas às outras; quando elas são bastante poucas ou de carácter duvidoso; quando elas tem um interesse no que afirmam; quando elas transmitem seu testemunho com hesitação, ou, pelo contrário, com asseverações muito violentas. Há muitos outros particulares do mesmo tipo, os quais podem diminuir ou destruir a força de qualquer argumento derivado a partir de testemunho humano.

Suponha, por exemplo, que o fato que o testemunho tenta estabelecer participa do extraordinário e maravilhoso, nesse caso, a evidência resultante do testemunho admite uma diminuição, maior ou menor, em proporção a como o fato seja mais ou menos incomum. A razão pela qual nós colocamos tanto crédito em testemunhas e historiadores não é derivada a partir de qualquer conexão que nós percebamos a priori entre testemunho e realidade, mas porque nós estamos acostumados a encontrar uma conformidade entre elas. Mas, quando o fato atestado é um tão grande como a raramente ter caído sob nossa observação, aqui há uma disputa de duas experiências opostas, das quais uma destrói a outra até onde sua força vai, e a superior apenas pode operar sobre amente através da força [129]que resta. O exato mesmo princípio da experiência, o qual nos concede um certo grau de garantia no testemunho das testemunhas, também nos concede, nesse caso, outro grau de garantia contra o fato que eles tentam estabelecer; contradição a partir da qual ali necessariamente surge um contrapeso (counterpoise) e destruição mútua de crença e autoridade.

Eu não deveria acreditar em uma tal história que me foi contada por Cato, era um dito proverbial em Roma, mesmo durante a vida daquele filósofo patriota.2 A incredulidade de um fato, fosse ela admitida, poderia invalidar uma autoridade tão grande.

O príncipe indiano, quem se recusou a acreditar nos primeiros relatos a respeito dos efeitos do frio, raciocinou justamente; e naturalmente requereu testemunho muito forte para comprometer seu assentimento com fatos que surgiam a partir de um estado de natureza com o qual ele estava familiarizado, e o qual comportava tão pouca analogia com aqueles eventos dos quais ele tinha tido experiência constante e uniforme. Embora eles não fossem contrários a sua experiência, eles não eram compatíveis com ela.3

[130]Mas, a fim de aumentar a probabilidade contra o testemunho de testemunhas (witnesses), suponhamos que o fato que elas afirmam, em vez de ser apenas maravilhoso, é realmente miraculoso; e também suponhamos, que o testemunho, considerado à parte e em si mesmo, equivale a uma prova inteira, nesse caso há prova contra prova, do qual o mais forte deve prevalecer, mas ainda com uma diminuição de sua força, em proporção àquela de seu antagonista.

Um milagre é uma violação das leis da natureza; e como uma experiência firme e inalterável estabeleceu essas leis, a prova contra um milagre, a partir da natureza mesma do fato, é tão inteira quanto qualquer argumento a partir da experiência possivelmente pode ser imaginado. Por que é mais do que provável que todos os homens devam morrer; que o chumbo não possa, de si mesmo, permanecer suspenso no ar; que o fogo consuma madeira, e seja extinguido pela água; a menos que seja porque esses eventos sejam considerados de acordo com as leis da natureza, e ai é requerido uma violação dessas leis, ou, em outras palavras, um milagre para os evitar? Nada é considerado um milagre, se ele alguma vez aconteceu no curso comum da natureza. Não é milagre que um homem, aparentemente em boa saúde, deva morrer de repente; porque um tipo semelhante de morte, embora mais incomum do que qualquer outra, até agora tem sido observada acontecer. Mas é um milagre que um morto deva voltar à vida; porque isso nunca aconteceu em qualquer época ou país. Portanto, precisa haver uma experiência uniforme contra cada evento miraculoso, de outra forma o evento não seria digno dessa apelação. E como uma experiência uniforme equivale a uma prova, há aqui uma prova direta e completa, a partir da natureza do fato, contra a existência de qualquer milagre; [131]nem pode uma tal prova ser destruída, ou o milagre tornado mais crível, senão por uma prova oposta, a qual seja superior.4

A consequência evidente (e é uma máxima geral digna de nossa atenção) é Que nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que o testemunho seja de um tipo tal que sua falsidade seria mais miraculosa do que o fato que ele tenta estabelecer: e mesmo nesse caso há uma destruição natural de argumentos, e o superior apenas concede uma segurança adequada àquele grau que permanecer depois da dedução da inferior.Quando qualquer um me conta que ele viu um morto restaurado à vida, eu imediatamente considero comigo mesmo se seria mais provável que essa pessoa devesse enganar ou estar enganada, ou que o fato que ela relata devesse realmente ter acontecido. Eu peso um milagre contra o outro e, de acordo com a superioridade que descubro, pronuncio minha decisão, e sempre rejeito o milagre maior. Se a falsidade de seu [132]testemunho fosse mais miraculosa do que o evento que ele relata, então, e não até então, pode ele pretender comandar minha crença ou opinião.


Parte II


No raciocínio acima considerado nós supusemos que o testemunho sobre o qual um milagre está fundamentado, possivelmente, pode equivaler a uma prova inteira, e que a falsidade desse testemunho seria um prodígio real: mas é fácil mostrar que nos temos sido muitíssimos liberais em nossa concessão, e que nunca houve um evento miraculoso estalecido em uma evidência tão completa.

Pois, primeiro, em toda a história, não há para ser encontrado nenhum milagre atestado por um número suficiente de homens, de bom senso, educação e conhecimento tão inquestionáveis, quanto a assegurar-nos contra toda ilusão neles mesmos; de integridade tão indubitável, quanto a colocá-los além de toda suspeita de qualquer desígnio de enganar outros; de crédito e reputação tão grandes aos olhos do gênero humano, quanto a ter um grande montante a perder no caso de serem detectados em alguma falsidade; e, ao mesmo tempo, atestando fatos, realizados de uma maneira tão pública, e em uma parte tão celebrada do mundo, como a tornar a detecção inevitável: todas essas circunstâncias são necessárias para conceder-nos uma garantia completa do testemunho de homens.

Segundo, nós podemos observar na natureza humana um princípio, o qual, se estritamente examinado, será descoberto diminuir extremamente a segurança, a qual nós poderíamos, a partir do testemunho humano, ter em qualquer tipo de prodígio. A máxima, pela qual nós comumente nos conduzimos em nossos raciocínios é que os objetos, dos quais nós não temos experiência, assemelham-se àqueles dos quais nós temos; que o que nós [133]descobrimos ser o mais usual é sempre o mais provável; e que onde há uma oposição de argumentos, nós devemos dar a preferência à tais que devam ser encontrados no maior número de observações passadas. Mas embora, procedendo por essa regra, nós prontamente rejeitamos qualquer fato que seja incomum e incrível em um grau ordinário; todavia, ao avançar ulteriormente, a mente nem sempre observa a mesma regra; mas, quando qualquer coisa é afirmada completamente absurda e miraculosa, ela antes mais prontamente admite um tal fato, em consequência de um relato da circunstância mesma que deveria destruir toda a sua autoridade. A paixão da surpresa e admiração, surgindo a partir de milagres, sendo uma emoção agradável, concede uma tendência na direção da crença naqueles eventos a partir dos quais ela é derivada. E isso vai tão longe que, mesmo aqueles que não podem desfrutar imediatamente desse prazer, nem acreditar naqueles eventos miraculosos dos quais nós somos informados, todavia, amam participar, de segunda mão ou por rebote, da satisfação, e colocam um orgulho e deleite em excitar a admiração de outros.

Com que voracidade são os relatos de viajantes recebidos, suas descrições de monstros de mar e terra, suas narrações de aventuras maravilhosas, de homens estranhos, de modos grosseiros? Mas, se o espírito de religião junta-se ao amor à maravilha, há um fim do senso comum; e o testemunho humano, nessas circunstancias, perde todas as pretensões à autoridade. Um religioso (religionist) pode ser um entusiasta, e imaginar ver coisas que não têm realidade: ele pode conhecer sua narrativa ser falsa e, ainda assim, perseverar nela, com as melhores intenções do mundo, pelo bem de promover uma causa tão sagrada: ou mesmo onde sua desilusão não ocorrer, a vaidade, excitada por uma tentação tão forte, opera sobre ele mais poderosamente do que o resto do gênero humano em quaisquer outras [134]circunstâncias; e o interesse pessoal (self-interest) com força igual. Seus auditores podem não ter, e comumente não têm, julgamento suficiente para apurar sua evidencia: que julgamento eles têm, eles renunciam por princípio, nesses assuntos sublimes e misteriosos: ou, se alguma vez eles estivessem tão desejosos de o empregar, a paixão e uma imaginação aquecida perturbariam a regularidade de suas operações. A credulidade deles aumenta sua impudência; e sua impudência domina sua credulidade.

A eloquência, quando em seu tom mais alto, deixa pouco espaço para a razão ou reflexão; mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação ou às afeições, cativa os ouvintes disposto e domina seus entendimentos. Felizmente, esse tom raramente é alcançado. Mas o que um Túlio ou um Demóstenes escassamente podia efetuar sobre uma audiência romana ou ateniense, todo Capuchinho, todo professor itinerante ou fixo, pode realizar sobre a generalidade do gênero humano, e em um grau mais alto, tocando tais paixões grosseiras e vulgares.

As muitas instâncias de milagres,,profecias e eventos sobrenaturais forjados, os quais, em todas as épocas, têm, ou sido detectadas por evidência contrária, ou que se detectam por sua absurdidade, provam suficientemente a propensão forte do gênero humano para o extraordinário e maravilhoso, e razoavelmente devem causar uma suspeita com todas os relatos desse tipo. Essa é a nossa maneira de pensar, mesmo com respeito aos eventos mais comuns e mais críveis. Por exemplo, não há tipo de relato que surja tão facilmente, e espalhe-se tão rapidamente, especialmente em localidades de interior e cidades provinciais, quanto aqueles relativos a casamentos; de tal maneira que duas pessoas jovens de condição igual nunca veem uma a outra duas vezes, antes que a vizinhança inteira imediatamente as junte. O prazer de contar uma peça de [135]notícia tão interessante, de a propagar, e de serem os primeiros repórteres dela, espalha a inteligência; e isso é tão bem conhecido, que nenhum homem de bom senso concede atenção a esses relatos até que ele descubra-as confirmados por alguma evidência maior. As mesmas paixões, e outras ainda mais fortes, não inclinam a generalidade do gênero humano a acreditar e a relatar, com as maiores veemência e segurança, todos os milagres religiosos?

Terceiro, forma-se uma forte suposição contra todas as narrativas sobrenaturais e miraculosas, que elas são principalmente observadas abundarem em meio a nações ignorantes e bárbaras; ou, se um povo civilizado alguma vez deu admissão a qualquer uma dela, esse povo será descoberto tê-las recebido de ancestrais ignorantes e bárbaros, quem as transmitiram com aquela sanção e autoridade invioláveis que sempre acompanham opiniões recebidas. Quando nós examinamos cuidadosamente as primeiras historias de todas as nações, ficamos inclinados a imaginarmo-nos transportados para dentro de um novo mundo, onde a inteira estrutura da natureza está desconjuntada, e cada elemento realiza suas operações de uma maneira diferentes daquela que ele realiza no presente. Batalhas, revoluções, pestilência, fome e morte, nunca têm o efeito daquelas causas naturais que nós experienciamos. Prodígios, presságios, julgamentos, bastante obscuros os poucos eventos naturais que se misturam com eles. Mas, conforme os primeiros afinam-se à cada página, na proporção conforme nos avançamos para mais perto das épocas iluminadas, nós logo aprendemos que não há nada de misterioso ou sobrenatural no caso, mas que tudo procede a partir da propensão usual do gênero humano na direção do maravilhoso, e que, embora essa inclinação possa, em intervalos, receber uma restrição (check) a partir do sentido e conhecimento, ela nunca pode ser completamente extirpada da natureza humana.

É estranho, um leitor judicioso está inclinado a dizer, em consequência da [136]leitura cuidadosa desses historiadores maravilhosos, que tais eventos prodigiosos nunca acontecem em nossos dias! Mas não é nada estranho, eu espero, que os homens devam mentir em todas as épocas. Você certamente deve ter visto instâncias suficientes dessa fraqueza. Você mesmo ouviu muitos de semelhantes relatos iniciados, os quais, sendo tratados com desprezo por todos os sábios e judiciosos, finalmente, foram abandonados mesmo pelo vulgo. Tenha certeza de que aquelas mentiras renomadas, as quais se espalharam e floresceram a uma altura tão monstruosa, surgiram de inícios similares; mas, sendo semeadas em um solo mais apropriado, finalmente subiram vertiginosamente em prodígios quase iguais àqueles que elas relatam.

Foi uma política sábia que o falso profeta Alexandre, embora agora esquecido, foi uma vez famoso, para arranjar a primeira cena de suas imposturas na Paflagônia, onde, como Luciano conta-nos, o povo era extremamente ignorante e estúpido, e pronto a tolerar mesmo a mais grosseira ilusão. Povo a uma distância, quem eram suficientemente fracos para considerarem o assunto de qualquer maneira digno de investigação, não tiveram oportunidade de receber informação melhor. As histórias chegaram exageradas a eles por uma centena de circunstâncias. Tolos são industriosos na propagação da impostura; enquanto que os sábios e instruídos ficam contentes, no geral, para ridicularizarem sua absurdidade, sem se informarem dos fatos particulares pelos quais ela pode ser distintamente refutada. E assim o impostor acima mencionado foi possibilitado a prosseguir, a partir de sua ignorante Paflagônia, para o recrutamento de devotos, mesmo em meio aos filósofos gregos, e homens das mais eminentes posições sociais e distinções em Roma; ou melhor, pôde ocupar a atenção daquele sábio imperador Marco Aurélio, tão longe quanto a fazê-lo confiar o sucesso de uma expedição militar as suas profecias ilusórias.

As vantagens são tão grandes, de iniciar uma impostura [137]em meio a um povo ignorante, que mesmo embora a ilusão deva ser grande demais para impor sobre a generalidade deles, (o que, embora raramente, algumas vezes é o caso,) ela tem uma chance maior de ter sucesso em países remotos do que se a primeira cena tivesse sido estabelecida em uma cidade renomada por artes e conhecimento. Os mais ignorantes e bárbaros desses bárbaros transmitem o relato ao estrangeiro. Nenhum de seus compatriotas tem uma correspondência grande, ou crédito e autoridades suficientes para contradizer e derrotar a ilusão. A inclinação dos homens para o maravilhoso tem plena oportunidade para se revelar. E dessa forma, uma história, a qual está universalmente desmascarada no lugar onde ela primeiro apareceu, deve passar por certa a uma mil milhas de distância. Mas, houvesse Alexandre fixado sua residência em Atenas, os filósofos naquele renomado mercado (mart) de conhecimento imediatamente teriam espalhado, do começo ao fim do inteiro império romano, o seu sentido da questão; o qual, sendo suportado por uma autoridade tao grande, e revelado através de toda a força da razão e eloquência, teria aberto inteiramente os olhos do gênero humano. É verdadeiro, Luciano, passando por acaso através da Paflagônia, teve a oportunidade de realizar esse bom serviço. Mas, embora muito a desejar, nem sempre acontece que todo Alexandre deva encontrar-se com um Luciano, pronto a expor e detectar suas imposturas.5

Eu posso adicionar, como uma quarta razão, a qual diminui a [138]autoridade de prodígios, que não há testemunho para nenhum, mesmo para aqueles que não foram explicitamente detectados, que não são opostos por um número infinito de testemunhas; de modo que, não apenas o milagre destrói o crédito do testemunho, mas o testemunho destrói a si mesmo. Para tornar isso melhor entendido, consideremos que, em questões de religião, o que quer que seja diferente é contrário; e que é impossível para as religiões da antiga Roma, da Turquia, do Sião e da China, devam todas elas ser estabelecidas em qualquer fundamento sólido. Portanto, cada milagre, pretendido ter sido operado em qualquer dessas religiões, (e todas elas abundam em milagres,) visto que seu escopo direto é estabelecer o sistema particular para o qual é atribuído; tem assim a mesma força, embora mais indiretamente, para derrubar qualquer outro sistema. A destruição de um sistema rival, da mesma maneira, destrói o crédito daqueles milagres sobre os quais esse sistema foi estabelecido, de modo que todos os prodígios das religiões diferentes devem ser considerados como fatos contrários, e a evidência desses prodígios, se fortes ou fracas, como opostos umas às outras. De acordo com esse método de raciocínio, quando nós acreditamos em qualquer milagre de Maomé ou seus sucessores, nós temos para nossa garantia o testemunho de uns poucos árabes bárbaros: e, por outro lado, nós devemos considerar a autoridade de Tito Lívio, Plutarco, Tácito e, para resumir, de todos os autores e testemunhas, gregas, chineses e católico-romanas, quem relataram qualquer milagre em suas religiões particulares; eu digo, nós devemos considerar seus testemunhos sob a mesma luz que eles tinha mencionado o milagre maometano, e tinham, em termos expressos, contradito-o, com a mesma certeza que eles têm para o milagre que eles relatam. Esse argumento pode parecer sútil e refinado demais, mas, em realidade, não é diferente do raciocínio de um juiz, quem supõe que o crédito de duas testemunhas, [139]sustentando um crime contra qualquer um, seja destruído pelo testemunho de outros dois, quem lhe afirmam ter estado a duzentas léguas de distância no mesmo instante quando se diz que o crime foi cometido.

Um dos milagres melhor atestados em toda a história profana, é aquela que Tácito relata a Vespasiano, quem curou um cego em Alexandria através de seu cuspe (spittle), e um homem coxo através do mero toque de seu pé; em obediência a uma visão do deus Serápis, quem lhes beneficiou de ter recurso ao imperador para essas curas miraculosas. A história pode ser vista naquele fino historiador;6 onde cada circunstância parece adicionar peso para o testemunho, e poderia ser exibida no geral com toda a força de argumento e eloquência, se qualquer um estivesse agora preocupado em aplicar a evidência daquela superstição desmascarada e idólatra. A gravidade, solidez, idade e probidade de um imperador tão grande, quem, durante todo o curso de sua vida conversava de uma maneira familiar com seus amigos e cortesãos, e nunca simulou aqueles extraordinários ares de divindade assumidos por Alexandre e Demétrio; o historiador, um escritor contemporâneo, notado por sinceridade e veracidade e, além disso, o maior e mais penetrante gênio de toda a antiguidade; e tão livre de qualquer tendência à credulidade, que ele mesmo jaz sob a imputação contrária de ateísmo e profanação: as pessoas, a partir da autoridade das quais ele relatou o milagre, de temperamento estabelecido para julgamento e veracidade, como nós bem podemos presumir; testemunhas oculares do fato, e confirmando o testemunho deles, após a família flaviana ter sido despojada do império, e não podia mais conceder qualquer prêmio como o preço de uma mentira. Utrumque, qui interfuere, nunc quoque momorant, postquam nullum mendacio pretium. Ao [140]que, se nós adicionarmos a natureza pública dos fatos, como relatados, parecerá que nenhuma evidência bem pode ser suposta mais forte para uma falsidade tão grosseira e tão palpável.

Também há uma história memorável relatada pelo Cardeal De Retz, a qual bem pode merecer nossa consideração. Quando aquele político intrigante fugiu para a Espanha para escapar da perseguição de seus inimigos, ele atravessou a Saragoça, a capital de Aragão, onde a ele foi mostrado, na catedral, um homem quem servira por sete anos como um porteiro (door-keeper), e era bem conhecido por todos na cidade que ele sempre pagara suas devoções naquela igreja. Por muito tempo ele esteve carecendo de uma perna, mas recuperou esse membro ao friccionar o óleo sagrado sobre o toco (stump); mas o Cardeal assegura-nos de que ele o viu com duas pernas. O milagre foi confirmado por todos os cânones da igreja; e apelou-se a toda a companhia na cidade por uma confirmação do fato; a quem o Cardeal descobriu, pela devoção zelosa dele, ser de perfeitos crentes no milagre. Aqui o relator também foi contemporâneo do suposto prodígio, de carácter incrédulo e libertino, assim como de grande gênio; o milagre de uma natureza tão singular que escassamente poderia admitir uma falsificação, e as testemunhas muito numerosas, e todos eles, de uma maneira, espectadores do fato ao qual eles concedem seu testemunho. E o que acrescenta enormemente à força da evidência, e pode dobrar nossa surpresa sobre essa ocasião, é que o Cardeal mesmo, quem relata a história, parece não conceder nenhum crédito a ela e, consequentemente, não pode ser suspeito de nenhuma cooperação na fraude sagrada. Ele considerou justamente que isto não era necessário, a fim de rejeitar uma fraude dessa natureza, ser capaz precisamente refutar o testemunho, e de traçar sua falsidade através de todas as circunstancias de desonestidade e [141]credulidade que a produziram. Ele sabia que, como isso era completamente impossível a qualquer pequena distância de tempo e espaço, assim era extremamente difícil, mesmo onde alguém estava imediatamente presente, em razão do fanatismo (bigotry), ignorância, artimanha (cunning) e malandragem (roguery) de uma grande parte do gênero humano. Portanto ele concluiu, como um raciocinador justo, que uma semelhante evidência continha falsidade sobre sua face mesma, e que um milagre, suportado por qualquer testemunho humano era mais propriamente uma questão de escárnio (derision) do que de argumento.

Certamente nunca houve um número maior de milagres atribuídos a uma pessoa do que aqueles que recentemente foram ditos ter sido operados na França sob a tumba do Abade Paris, o famoso jansenista, com a santidade de quem as pessoas estiveram iludidas por tanto tempo. A cura do doente, a concessão de audição ao surdo, da visão ao cego, eram mencionados em toda parte como os efeitos usuais daqueles sepulcro sagrado. Mas o que é mais extraordinário, muitos dos milagres foram imediatamente provados no local, diante de juízes de integridade inquestionável integridade, atestados por testemunhas de crédito e distinção, em uma época instruída, e sobre o teatro mais eminente que agora existe no mundo. Nem isso é tudo: uma relação deles foi publicada e espalhada por todos os lugares; nem foram os Jesuítas, embora uma organização instruída, suportada pelo magistrado civil, e inimigos determinados daquelas opiniões em cujo o favor os milagres são ditos ter sido operados, alguma vez capazes de, distintamente, refutá-los.7 Onde nós deveríamos encontrar um [142]número de circunstâncias concordando para a corroboração de um fato? E o que nós temos para opor a um tal [143]nuvem de testemunhas, exceto a impossibilidade absoluta ou natureza miraculosa dos eventos que elas relatam? E [144]isso certamente, aos olhos de todas as pessoas razoáveis, será apenas considerado como uma refutação suficiente.

É a consequência justa, porque algum testemunho humano tem a força e autoridade extremas em alguns casos, onde ele relata as batalhas de Filipos ou Farsalos, por exemplo, que portanto todos os tipos de testemunho devam, em todos os casos, ter força e autoridade iguais? Suponha que as facções cesárea ou pompeana tivessem, cada uma delas, reivindicado a vitória nessas batalhas, e que os historiadores de cada partido uniformemente tivessem atribuído a vantagem a seu próprio lado, como poderia o gênero humano, à distância, ter sido capaz de se determinar entre elas? A contrariedade é igualmente forte entre os milagres relatados por Heródoto ou Plutarco, e aqueles transmitidos por Mariana, Beda, ou qualquer historiador monástico.

O sábio empresta uma fé muito acadêmica a cada relato que favorece a paixão do relator, quer ele exalte seu país, sua família, ou ele mesmo, ou, de qualquer outra maneira, atinge-lhe com suas inclinações e propensões naturais. Mas qual tentação maior do que parecer um mensageiro, um profeta, um embaixador do céu? Quem não encontraria muitos perigos e dificuldades a fim de alcançar um carácter tão sublime? Ou se, pela ajuda da vaidade e de uma imaginação aquecida, um homem primeiro fez de si mesmo um convertido, e entrou seriamente na ilusão, quem alguma vez tem escrúpulos de fazer [145]uso de fraudes piedosas em suporte de uma causa tão sagrada e meritosa?

Aqui, a menor centelha pode acender na maior chama, porque os materiais sempre estiveram preparados para isso. O avidum genus auricularum,8 o populacho encarante, recebendo avidamente, sem exame, o que quer que acalme a superstição e promova a maravilha.

Quantas histórias dessa natureza, em todas as épocas, têm sido encontradas e destruídas em suas infâncias? Quantos muito mais têm sido celebrados por um tempo, e, mais tarde, afundado-se em negligência e esquecimento? Portanto, onde tais relatos pairam de um lado para o outro, a solução do fenômeno é óbvia; e nós julgamos em conformidade com a experiência e observação regulares, quando nós o explicamos pelos princípios naturais da credulidade e ilusão. E devemos nós, antes de termos recorrido a uma solução tão natural, admitir uma violação miraculosa das mais estabelecidas leis da natureza?

Eu não preciso mencionar a dificuldade para encontrar uma falsidade em qualquer história pública ou mesmo privada, no lugar onde ela é dita ocorrer; muito mais quando a cena é removida para mesmo uma pequena distância. Mesmo um tribunal de justiça (court of judicature), com toda a sua autoridade, precisão e julgamento, os quais eles podem empregar, frequentemente se encontram perdidos para distinguirem entre verdade e falsidade nas ações mais recentes. Mas o assunto nunca chega a qualquer questão, se confiado ao método comum de altercação e debate, e rumores voadores, especialmente quando as paixões dos homens tomaram parte de cada lado.

Na infância de novas religiões, o sábio e o instruído [146]comumente consideram a questão muito insignificante para merecer sua atenção ou consideração. E, quando mais tarde, eles voluntariamente detectariam o engano (cheat), a fim de abrir os olhos da multidão iludida, a temporada está agora passada, e os registros e testemunhas, os quais poderiam clarear a questão, pereceram além de recuperação.

Nenhum meio de detecção permanece senão aquele que deve ser extraído a partir do testemunho mesmo dos relatores: e desses, embora sempre suficientes com o judicioso e conhecedor, são comumente sutis demais para cair sob a compreensão do vulgo.

No todo, então, parece que nenhum testemunho para qualquer tipo de milagre alguma vez equivaleu a uma probabilidade, muito menos a uma prova; e que, mesmo se supondo que ele equivalesse a uma prova, ele seria oposta a outra prova, derivada da natureza mesma do fato que ela tentaria estabelecer. É apenas a experiência que concede autoridade ao testemunho humano; e é a mesma experiência que nos assegura das leis da natureza. Portanto, quando esses dois tipos de experiência são contrários, nós nada temos a fazer senão subtrair uma da outra, e adotar uma opinião quer de um lado quer do outro, com aquela segurança que surge a partir do restante. Mas, de acordo com o princípio aqui explicado, essa subtração, com respeito a todas as religiões populares, equivale a uma aniquilação completa; e portanto nós podemos estabelecer como uma máxima, que nenhum testemunho humano pode ter uma força tão grande como para provar um milagre, e fazer dele uma fundação justa para qualquer sistema semelhante de religião.

Eu suplico que as limitações aqui feitas podem ser observadas, quando eu digo que um milagre nunca pode ser provado de modo a ser o fundamento de um sistema de religião. Pois eu [147]admito que, de outra maneira, possivelmente pode haver milagres, ou violações do curso usual da natureza, de um tipo tão grande quanto a admitir a prova do testemunho humano; embora talvez será impossível encontrar algo semelhante em todos os registros de história. Dessa forma, suponha que todos os autores, em todas as línguas, concordem que, a partir de 1 de janeiro de 1600, houve trevas totais através de toda a terra por oito dias: suponha que a tradição desse evento extraordinário ainda esteja forte e viva entre as pessoas; que todos os viajantes que retornam de países estrangeiros tragam-nos relatos da mesma tradição, sem a menor variação ou contradição: é evidente que nossos atuais filósofos, em vez de duvidarem do fato, deveriam recebê-lo como certo, e deveriam pesquisar as causas de onde ele poderia ter derivado. O decaimento, a corrupção e a dissolução da natureza é um evento tornado provável por tantas analogias que qualquer fenômeno, o qual parece ter uma tendência na direção da catástrofe, chega ao alcance do testemunho humano, se esse testemunho for extenso e uniforme.

Mas suponha-se que todos os historiadores que tratam da Inglaterra devam concordar que, em primeiro de janeiro de 1600, a Rainha Elizabeth morreu; que tanto antes quanto depois da morte dela, ela foi vista por seus médicos e a inteira corte, como é usual com pessoas da posição social dela; que o sucessor dela foi reconhecido e proclamado pelo Parlamento; e que, após ter estado enterrada por um mês, ela aparecesse novamente, retomasse o trono, e governasse a Inglaterra por três anos; eu preciso confessar que eu deveria ficar surpreso de tantas circunstâncias estranhas, mas não deveria ter a menor inclinação para acreditar em um evento tão miraculoso. Eu não deveria duvidar da morte simulada dela, e daquelas outras circunstâncias públicas que se seguiram a ela; eu apenas deveria declará-la ter sido [148]fingida, e que nem foi, nem possivelmente poderia ser, real. Em vão você me objetaria a dificuldade, e a quase impossibilidade de enganar o mundo em um caso de consequência tão grande; a sabedoria e o sólido julgamento da renomada Rainha; com a pouca ou nenhuma vantagem que ela poderia colher de um artifício tão pobre: tudo isso poderia surpreender-me; mas eu ainda responderia que a desonestidade (knavery) e loucura dos homens são fenômenos tão comuns que antes eu deveria acreditar nos mais extraordinários eventos surgirem a partir de sua concorrência, do que admitir uma violação tão notável das leis da natureza.

Mas devesse esse milagre ser atribuído a qualquer novo sistema de religião; os homens, em todas as épocas, tem sido tão enganados por histórias ridículas desse tipo, que essa circunstância mesma seria uma prova completa de uma fraude (cheat), e suficiente, com todos os homens de bom senso, não apenas para os fazer rejeitar o fato, mas mesmo rejeitá-lo sem exame adicional. Embora o ser a quem o milagre seja atribuído seja, nesse caso o Todo-poderoso, ele não se torna, nem por um mínimo, mais provável; uma vez que, para nos, é impossível conhecer os atributos ou as ações de um Ser tão grande, de outra maneira que a partir da experiência que nós temos de suas produções no curso usual da natureza. Isso ainda nos reduz à observação passada, e obriga-nos a comparar instâncias de violação da verdade no testemunho dos homens, com a violação das leis da natureza por milagres, a fim de julgar qual delas é mais plausível (likely) e provável. Como as violações da verdade são mais comuns no testemunho a respeito dos milagres religiosos do que naquele a respeito de outras questões de fato; isso deve diminuir muito a autoridade do testemunho antigo e fazer-nos formar uma resolução geral de nunca emprestar qualquer atenção a ele, com qualquer pretensão ilusória que ele esteja coberto.

[149]Lord Bacon parece ter adotado o mesmo princípio de raciocínio. “Nós devemos,” diz ele, “fazer uma coleção ou história particular de todos os monstros ou nascimentos ou produções prodigiosos; e, em uma palavra, de cada coisa nova, rara e extraordinária na natureza. Mas isso precisa ser feito com o mais severo escrutínio, com medo de que nos afastemos da verdade. Acima de tudo, cada relato deve ser considerado como suspeito, o qual depende, em qualquer grau da religião, como os prodígios de Lívio: e não menos assim cada coisa que deve ser encontrada nos escritores sobre mágica natural ou alquimia; ou tais autores quem parecem todos eles ter um apetite inconquistável por falsidade e fábula.”9

Eu fico mais satisfeito com o método de raciocínio aqui transmitido, visto que eu penso que ele pode servir para confundir aqueles amigos perigosos, ou inimigos disfarçados da Religião Cristã, quem empreenderam defendê-la através dos princípios da razão humana. Nossa mais sagrada religião está fundada sobre a , não sobre a razão; e é um método certo de a expor colocá-la em um tal teste que ela de maneira alguma está preparada para suportar. Para tornar isso mais evidente, examinemos aqueles milagres relatados na Escritura; e, para não nos perdermos em um campo tão grande, confinemo-nos a um tal como nós encontramos no Pentateuco, o qual nós devemos examinar, de acordo com os princípios desses cristãos fingidos, não como o testemunho mesmo de Deus, mas como a produção de um mero escritor e historiador humano. Então, aqui, nós primeiro consideramos um livro, apresentado a nós por um povo bárbaro e ignorante, escrito em uma época quando eles ainda eram mais bárbaros e, com toda probabilidade, muito depois dos eventos que ele relata, não corroborado por nenhum testemunho concorrente, e [150]assemelhando-se àqueles relatos com os quais toda nação fornece sua origem. Ao lermos esse livro, nós descobrimo-lo cheio de prodígios e milagres. Ele fornece-nos um relato de um estado do mundo e da natureza humana inteiramente diferentes do presente: de nossa queda a partir daquele estado: da idade do homem, estendida para quase um milênio: da destruição do mundo por um dilúvio; da escolha arbitrária de um povo como os favoritos do céu; e esse povo só concidadãos do autor: da liberação desse povo a partir da escravidão pelos prodígios mais imagináveis surpreendentes: eu desejo a qualquer um colocar sua mão sobre o coração e, após uma séria consideração, declarar se ele pensa que a falsidade de um tal livro, suportado por um tal testemunho, seria mais extraordinária e miraculosa do que todos só milagres que ele relata; contudo, isso é o que é necessário fazer ser recebido, de acordo com as medidas de probabilidade acima estabelecidas.

O que nós dissemos sobre milagres, pode ser aplicado, sem qualquer variação, às profecias; e de fato, todas as profecias são milagres reais, e como tais, somente podem ser admitidas como provas de qualquer revelação. Se ela não excedesse a capacidade humana para prever eventos futuros, seria absurdo empregar qualquer profecia como um argumento para uma missão ou autoridade divina a partir do céu. De maneira que, no todo, nós podemos concluir que a Religião Cristã, inicialmente, foi assistida por milagres, mas mesmo que, hoje em dia, ela não pode ser acreditada por qualquer pessoa razoável sem um. A mera razão é insuficiente para nos convencer da veracidade dela: e quem quer que seja movido por Fé para assentir a ela, esta consciente de um milagre continuado em sua própria pessoa, o qual subverte todos os princípios de seu entendimento, e concede-lhe uma determinação para acreditar no que é mais contrário ao costume e à experiência.


Próxima parte


ORIGINAL:

HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.124-150. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/124/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [125]Em toda a história profana.” - Edições K e L.

2 [129]Plutarco, em vita Catonis.

3 Na Índia, é evidente, [ele] poderia experienciar que a água não congela em climas frios. Isso é colocar a natureza em uma situação bastante desconhecida para ele; e é impossível para ele dizer a priori o que resultará a partir disso. É fazer um novo experimento, a consequência do qual é sempre incerta. Algumas vezes, alguém pode conjecturar a partir de analogia o que se seguirá; mas isso ainda é apenas conjectura. E deve ser confessado que, no presente caso de congelamento (freezing), o evento segue-se contrariamente às regras de analogia, e é como tal que um indiano racional não procuraria. As operações do frio sobre a água não são graduais, de acordo com os graus de frio; mas onde quer que se alcance o ponto de congelamento, a água passa em um momento, a partir da máxima liquidez para dureza perfeita. Portanto, um tal evento pode ser denominado de extraordinário, e requer um testemunho bastante forte para o tornar crível para pessoas em um clima quente; mas, ainda assim, ele não é miraculoso, nem contrário à experiência uniforme do curso da natureza em casos onde todas as circunstâncias são as mesmas. Os habitantes de Sumatra sempre viram água líquida em seu próprio clima, e [130]o congelamento de seus rios deve ter sido considerado um prodígio; mas eles nunca viram a água no Grão-ducado de Moscou (Muscovy) durante o inverno e, portanto, racionalmente, eles não podem ser positivos sobre qual seria a consequência.

4 [131]Algumas vezes um evento pode, em si mesmo, não parecer contrário às leis da natureza e, contudo, se ele fosse real, ele poderia, em razão de algumas circunstâncias, ser denominado um milagre; porque, de fato, ele é contrário a essas leis. Dessa forma, se uma pessoa, alegando uma autoridade divina, devesse comandar uma pessoa doente a ficar bem, um homem saudável a cair morto, as nuvens a derramarem-se em chuva, os ventos a soprarem; em resumo, devesse ordenar muito eventos eventos naturais, os quais imediatamente se seguiriam em consequência de seu comando; esses poderiam justamente ser considerados milagres, porque eles são realmente, nesse caso, contrários às leis da natureza. Pois, se restasse qualquer suspeita de que o evento e comando concorrerem por acidente, não há milagre e nenhuma transgressão das leis da natureza. Se essa suspeita for removida, há evidentemente um milagre, e uma transgressão dessas leis; porque nada pode ser mais contrário do que que a voz ou comando de um homem deva ter uma tal influência. Um milagre pode ser precisamente definido como uma transgressão de uma lei da natureza por uma volição particular da Divindade, por interposição de alguma agente invisível. Uma milagre pode ou não ser descoberto pelos homens. Isso não altera sua natureza e essência. A elevação de uma casa ou navio ao ar é um milagre visível. A elevação de uma pena, quando o vento alguma vez carece de uma força tão pouca como necessária para esse propósito, é um milagre tão real, embora não tão sensível com respeito a nós.

5 [137]Talvez possa ser objetado que eu prossigo precipitadamente, e forme minhas noções de Alexandre meramente a partir do relato sobre ele por Luciano, um inimigo professado. De fato, devia ser desejado que alguns relatos publicados por seus seguidores e cúmplices tivessem permanecido. A oposição e o contraste entre o personagem e a conduta do mesmo homem como desenhados por um amigo ou um inimigo é tão forte, até na vida comum, muito mais nessas questões religiosas, quanto aquele entre dois homens no mundo; entre Alexandre e São Paulo, por exemplo. Ver uma Letter for Gilbert West, Esq. on the Conversion and Apostleship of St. Paul. Nota nas primeiras Edições, anteriores à O.

6 [139]Hist. lib. v. cap. 8. Suetônio fornece quase o mesmo relato em vita Vesp.

7 [141]Esse livro foi escrito pelo Mons, Montgeron, conselheiro ou juiz do parlamento de Paris, um homem de figura e carácter, que também foi um mártir para a causa, e agora é dito estar em uma masmorra em consequência de seu livro.

Há outro livro em três volumes (chamado de Recueil des Miracles de l’Abbé Paris) fornecendo um relato de muitos desses milagres, e acompanhado por um discurso preliminar, os quais são muito bem escritos. Contudo, lá sumarizam [142]eles uma comparação ridícula entre os milagres de nosso Salvador e aqueles do Abade; no qual é afirmado que a evidência para os segundos é igual aquela para os primeiros: como se o testemunho de homens alguma vez pudesse ser colocado na balança com aqueles de Deus mesmo, quem conduziu a caneta dos escritores inspirados. De fato, se esses escritores devessem ser considerados meramente como testemunho humano, o escritor francês é muito moderado em sua comparação; uma vez que ele poderia, com alguma aparência de razão, simular que os milagres jansenistas superam em muitos os outros em evidência e autoridade. As circunstâncias seguintes foram extraídas de artigos autênticos, inseridos no livro supracitado.

Muitos dos milagres do Abade Paris foram provados imediatamente por testemunhas diante da oficialidade, ou corte do bispo, em Paris, sob o olho do Cardeal Noailles, cujo carácter por integridade e capacidade nunca foi contestado até por seus inimigos.

O sucessor dele no arcebispado era um inimigo para is jansenistas e, por essa razão, promovido para a Sé da Corte. Todavia, vinte e um reitores ou curas de Paris, com seriedade infinita, pressionaram-lhe para examinar aqueles milagres, os quais eles afirmavam serem conhecidos do mundo todo, e indisputavelmente certos: mas ele, sabiamente, absteve-se.

O partido molinista tinha tentado desacreditar esses milagres em um caso, aquele de Mademoiselle la Frane. Mas, além disso, os procedimentos deles eram, em muitos aspectos, os mais irregulares do mundo, particularmente ao citarem apenas umas poucas das testemunhas jansenistas, com as quais eles mexeram: além disso, eu digo, eles logo se encontraram sobrecarregados por uma nuvem de novas testemunhas, cento e vinte em número, a maioria delas pessoas de crédito e substância em Paris, quem deram juramento pelo milagre. Isso foi acompanhado por um apelo solene e sério ao parlamento, mas o parlamento foi proibido, pela autoridade, de se envolver na questão. Finalmente, foi observado que onde os homens estão aquecidos pelo zelo e entusiasmo, não há grau de testemunho humano tão forte quanto a não poder ser adquirido pela maior absurdidade: e aqueles que serão tão tolos quanto a examinarem o caso por esse meio, e procurar por falhas particulares no testemunho, estão quase certos de serem confundidos. De fato, deve ser uma impostura miserável a que não prevalece nessa disputa.

Todos os que estavam na França por volta dessa época ouviram da reputação do Mons. Herault, o Lieutenant de Police, cuja a vigilância, penetração, atividade e extensa inteligência tinham sido muito faladas. Esse magistrado, que, por natureza de seu cargo público, é quase absoluto, foi investido de plenos poderes, com o propósito de suprimir e desacreditar esses milagres, e ele frequentemente captava imediatamente, e examinava as testemunhas e pessoas delas; mas nunca pôde alcançar qualquer coisa satisfatória contra elas.

No caso de Madmoiselle Thibaut, ele enviou o famoso De Silva para a [143]examinar, cuja evidência é bastante curiosa. O médico declarou que era impossível que ela pudesse ter estado tão doente quanto era provado pelas testemunhas; porque era impossível que ela pudesse, em um período tão curto de tempo, ter recuperado-se tão perfeitamente quanto ele a encontrou. Ele raciocinava, como um homem de bom senso, a partir de causas naturais; mas o partido oposto contou-lhe, que o todo era o milagre, e que a evidência dele era mesmo a melhor prova dele.

Os molinistas ficaram em um triste dilema. Eles não se atreveram a afirmar a insuficiência absoluta da evidência humana para provar um milagre. Eles foram obrigados a dizer que esses milagres foram operados por bruxaria e pelo diabo. Mas foi dito a eles que esse era o recurso dos judeus de antigamente.

Nenhum jansenista alguma vez ficou embaraçado para explicar a cessação dos milagres, quando o adro da igreja foi fechado pelo edito do rei. Era o toque da tumba que produzia aqueles efeitos extraordinários: e quando ninguém podia aproximar-se da tumba, nenhum efeito podia ser esperado. De fato, Deus poderia ter derrubado todas as paredes em um momento; mas ele é mestre de suas próprias graças e obras, e não pertence a nós explicá-las. Ele não derrubou as paredes de cada cidade como aquelas de Jericó, ao soar de chifres de carneiro, nem rompeu a prisão de cada apóstolo, como aquela de São Paulo.

Não menos do que um homem como o Due de Chatillon, um duque e par de frança, da mais elevada posição social e família, forneceu evidência de uma cura miraculosa, realizada em um servo seu, quem vivia há vários anos em sua casa com uma enfermidade visível e palpável.

Eu devo concluir observando que nenhum clero é mais celebrado por seu rigor de vida e maneiras do que o clero secular da França, particularmente os reitores ou curas de Paris, quem portaram testemunho dessas imposturas.

O conhecimento, gênio e a probidade dos cavalheiros, e a austeridade das freiras (nuns) de Port-Royal, tinham sido muito celebrados por toda a Europa. Todavia, todos eles deram evidência por um milagre operado sobre a sobrinha do famoso Pascal, cuja santidade de vida, assim como capacidade extraordinária, é bem conhecida. O famoso Racine deu um relato desse milagre em sua famosa história de Port-Royal, e fortificou-o com todas as provas, as quais uma multidão de freiras, sacerdotes, médicos e homens do mundo, todos eles de crédito indubitável, poderia conceder a ela. Vários homens de letras, particularmente o bispo de Tournay, consideravam esse milagre tão certo, quanto a empregá-lo em sua refutação de ateus e livres-pensadores. A rainha-regente da França, quem tinha bastante preconceito contra Port-Royal, enviou seu próprio médico para examinar o milagre, quem retornou um convertido absoluto. Em resumo, a cura sobrenatural era tão incontestável, que ela salvou, por um tempo aquele famoso monastério da ruína com a qual ele era ameaçado pelos jesuítas. Houvesse isso sido uma fraude, certamente teria sido detectada por tais antagonistas sagazes e poderosos, e devia ter [144]apressado a ruína dos inventores. Nossos teólogos, quem podem construir um castelo formidável sobre tais materiais desprezíveis; que tecido prodigioso poderiam eles ter criado a partir dessas e muitas outras circunstâncias as quais eu não mencionei! Quão frequentemente os grandes nomes de Pascal, Racine, Arnaud, Nicole ressoaram em nossos ouvidos? Mas, se eles são sábios, eles fazem melhor em adotar o milagre, como sendo mil vezes mais valioso do que todo o resto de sua coleção. Além disso, ele pode servir muito para esse propósito. Pois aquele milagre foi realmente realizado foi realmente realizado pelo toque de uma autêntica ponta (prickle) sagrada do espinho sagrado, o qual compôs a coroa sagrada, a qual, etc. - Essa nota primeiro ocorre em L e a conclusão, com respeito ao milagre de Port-Royal, em N.

8 [145]Lucrécio.

9 [149]Nov. Org. lib. ii. Aph. 29.

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