segunda-feira, 11 de julho de 2022

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano XII – Da Filosofia Acadêmica ou Cética (FINAL)

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano


Por David Hume


Parte anterior


[170]Seção XII – Da Filosofia Acadêmica ou Cética (FINAL)


Parte I


Não há um número maior de raciocínios filosóficos exibidos sobre qualquer assunto do que aqueles que provam a existência de uma Divindade e refutam as falácias de Ateus; e contudo, os filósofos mais religiosos ainda disputam se qualquer homem pode ser tão cego quanto a ser um ateu especulativo. Como nós reconciliamos essas contradições? Os cavaleiros errantes, quem perambulavam de um lado para outro para limpar o mundo de dragões e gigantes, nunca entretiveram a menor dúvida com respeito à existência desses monstros.

O Cético é outro inimigo da religião, quem naturalmente provoca indignação de todos os teólogos e filósofos mais graves; embora seja certo que nenhum homem alguma vez se encontrou com nenhuma criatura absurda semelhante, ou conversou com um homem que não tivesse nenhuma opinião ou nenhum princípio a respeito de qualquer assunto, quer de ação, quer de especulação. Isso causa uma questão muito natural. O que se quis dizer por um cético? E, quão longe se podem empurrar esses princípios filosóficos de dúvida e incerteza?

Há uma outra espécie de ceticismo, anterior a todo estudo e filosofia, a qual é muito inculcada por Des Cartes [171]e outros, como um preservativo soberano contra o erro e julgamento precipitado. Ela recomenda uma dúvida universal, não apenas de todas as nossas antigas opiniões e princípios, mas também de nossas faculdades mesmas; a veracidade das quais, dizem eles, nós mesmos precisamos assegurar, através de uma cadeia de raciocínio deduzida a partir de algum princípio original, o qual possivelmente não pode ser falacioso ou enganador. Mas nem há nenhum princípio original semelhante, o qual tenha uma prerrogativa sobre outros que são autoevidentes e convincentes: nem, se houvesse, poderíamos nós avançar um passo além dele senão pelo uso daquelas faculdades mesmas das quais se supõe que nós já devamos estar desconfiados? Portanto, a dúvida cartesiana, fosse ela alguma vez possível de ser atingida por qualquer criatura humana (como evidentemente não é), seria inteiramente incurável; e nenhum raciocínio alguma vez poderia trazer-nos a um estado de certeza e convicção sobre qualquer tema.

Contudo, deve ser confessado que, essa espécie de ceticismo, quando mais moderada, pode ser entendida em um sentido muito razoável, e é um preparativo necessário para o estudo da filosofia, ao preservar uma imparcialidade adequada em nossos julgamentos e desabituando nossa mente de todos aqueles prejuízos com os quais nós fomos impregnados a partir da educação ou opinião apressadas. Começar com princípios claros e autoevidentes, avançar através de passos tímidos e seguros, frequentemente analisar nossas conclusões e examinar precisamente todas as consequências delas; embora por esse meio nós devamos fazer um progresso tanto lento quanto curto em nossos sistemas; são os únicos métodos pelos quais alguma vez nós podemos ter esperança de alcançar a verdade e obter uma estabilidade e certeza adequadas em nossas determinações.

Há outra espécie de ceticismo, posterior a ciência e investigação, quando se supõe que os homens descobriram, quer a absoluta falaciosidade de suas faculdades mentais, quer a inaptidão absoluta delas para alcançar qualquer determinação fixa [172]em todos aqueles assuntos curiosos de especulação, sobre os quais elas são comumente aplicadas. Até nossos sentidos mesmos são colocados em disputa, por uma certa espécie de filósofos; e as máximas da vida comum são sujeitadas a mesma dúvida que os mais profundos princípios e conclusões da metafísica e teologia. Como esses dogmas (tenets) paradoxais (se eles podem ser chamados de dogmas) devem ser recebidos em alguns filósofos, e a refutação deles a vários, eles naturalmente excitam nossa curiosidade e fazem-se inquirir os argumentos nos quais eles podem ser encontrados.

Eu não preciso insistir nos tópicos banais empregados pelos céticos, em todas as épocas, contra a evidencia do sentido; como aqueles que são derivados a partir da imperfeição e falaciosidade de nossos órgãos, em ocasiões sem número; a aparência distorcida de um remo na água; os vários aspectos de objetos, de acordo com suas diferentes distâncias; as imagens duplas que surgem a partir da pressão sobre um olho; com muitas outras aparências de uma natureza semelhante. Esses tópicos céticos, de fato, são suficiente apenas para provar que não se deve depender de nossos sentidos sozinhos; mas que nós precisamos corrigir a evidência deles pela razão, e por considerações derivadas a partir da natureza do meio, distância do objeto e disposição do órgão, para os tornar, dentro da esfera deles, os critérios apropriados de verdade e falsidade. Há outros argumentos mais profundos contra os sentidos, os quais não admitem solução fácil.

Parece evidente que os homens são conduzidos, por um instinto ou propensão naturais, a reporem a fé em seus sentidos; e que, sem qualquer raciocínio, ou até antes do uso da razão, nós sempre supomos um universo externo, o qual não depende de nossa percepção, mas existiria, embora nós e toda criatura sensível, [173]desaparecesse ou fosse aniquilada. Até a criação animal é governada por uma opinião semelhantes, e preserva essa crença nos objetos externos em todos os seus pensamentos, desígnios e ações.

Também parece evidente que, quando os homens seguem esse poderoso e cego instinto da natureza, eles sempre supõem as imagens mesmas apresentadas pelos sentidos serem de objetos externos, e nunca entretém nenhuma suspeita de que um nada seja senão representações do outro. Esta mesa mesmo que nós vemos branca, e a qual nós sentimos dura, é acreditada existir, independentemente de nossa percepção, e ser alguma coisa externa a nossa mente, a qual a perceber. Nossa presença não concede existência a ela: nossa ausência não a aniquila. Ela preserva sua existência uniforme e inteira, independentemente da situação dos seres inteligentes, quem a percebem ou contemplam.

Mas essa opinião primária e universal de todos os homens logo é destruída pela mais leve filosofia, a qual nos ensina que nada, alguma vez, pode estar presente na mente, senão uma imagem ou percepção, e que os sentidos são as únicas entradas (inlets) através das quais essas imagens são transmitidas, sem serem capazes de produzir nenhuma relação imediata entre a mente e o objeto. A mesa, a qual nós vemos, parece diminuir, enquanto nos removemos para mais além dela: mas a mesa real, a qual existe independentemente de nós, não sofre alteração: portanto, não era nada, senão sua imagem, que estava presente à mente. Esses são ditames óbvios da razão; e nenhum homem que reflete alguma vez duvidou de que as existências que nós consideramos, quando nós dizemos, esta casa e essa árvore, nada são senão percepções na mente, e cópias ou representações fugazes que permanecem uniformes e independentes.

[174]Até agora, então, nos fomos necessitados pelo raciocínio, a contradizer ou afastar-nos dos instintos primários da natureza, e adotar um novo sistema com respeito à evidência de nossos sentidos. Mas aqui a filosofia encontra-se extremamente embaraçada, quando ela gostaria de justificar esse novo sistema e afastar os sofismas (cavils) e objeções dos céticos. Ela não mais pode alegar o infalível e irresistível instinto da natureza: pois isso leva-nos a um sistema bastante diferente, o qual é reconhecido falível e mesmo errôneo. E justificar esse pretenso sistema filosófico por uma cadeia de argumento claro e convincente, ou até qualquer aparência de argumento, excede o poder de toda a capacidade humana.

Por qual argumento pode ser provado que as percepções da mente devem ser causadas por objetos externos, inteiramente diferentes delas, embora assemelhando-se a elas (se isso for possível), e não poderiam originar-se, quer a partir da energia da mente mesma, quer a partir da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, quer a partir de alguma outra causa ainda mais desconhecida para nós? É reconhecido que, de fato, muitas dessas percepções não surgem a partir de qualquer coisa externa, como nos sonhos, na loucura, ou em outras doenças. E nada pode ser mais inexplicável do que o modo pelo qual o corpo deva assim operar sobre a mente, como alguma vez a transmitir uma imagem de si mesmo para uma substância, suposta de uma natureza tão diferente e mesmo contrária.

É uma questão de fato, se as percepções dos sentidos são produzidas por objetos assemelhando-se a ela: como deve essa questão ser determinada? Pela experiência, certamente, como todas as outras questões de uma natureza semelhante. Mas aqui, aqui a experiência está, e deve estar, inteiramente silente. A mente nunca tem nenhuma coisa presente nela senão percepções e, possivelmente, não pode alcançar qualquer experiência da conexão delas com objetos. Portanto, a suposição de uma tal [175]conexão está sem qualquer fundamento no raciocínio.

Certamente, recorrer à veracidade do Ser Supremo a fim de provar a verdade de nossos sentidos é fazer um desvio inesperado. Se a veracidade dele estivesse, de qualquer maneira, interessada nesse assunto, nossos sentidos seriam inteiramente infalíveis; porque não é possível que ele, alguma vez, possa enganar. Para não mencionar que, se o mundo externo for de uma vez colocado em questão, nós deveremos ficar perdidos para encontrar argumentos através dos quais nós podemos provar a existência daquele Ser, ou qualquer de seus atributos.

Portanto, esse é um tópico no qual os mais profundos e mais filosóficos céticos sempre triunfarão, quando eles tentarem introduzir uma dúvida universal em todos os assuntos de conhecimento e investigação humanos. Você segue os instintos e as propensões da natureza, podem eles dizer, em assentir à veracidade do sentido? Mas esses conduzem-no a acreditar que a percepção mesma ou imagem sensível é o objeto externo. Você nega esse princípio, a fim de abraçar uma opinião mais racional de que as percepções são apenas representações de alguma coisa externa? Aqui você se afasta de suas propensões naturais e sentimentos mais óbvios; e, todavia, não é capaz de satisfazer sua razão, a qual nunca pode encontrar nenhum argumento convincente a partir da experiência para provar que as percepções estão conectadas com quaisquer objetos externos.

Há um outro tópico cético de uma natureza semelhante, derivado a partir da mais profunda filosofia; o qual poderia ser digno de nossa atenção, fosse ele necessário para mergulhar tão profundamente, a fim de descobrir argumentos e raciocínios, os quais podem servir tão pouco a qualquer propósito sério. É universalmente admitido por investigadores modernos que todas as qualidades sensíveis de objetos, tais como duro, macio, quente, frio, [176]branco, negro, etc, são meramente secundárias e não existem nos objetos em si mesmos, mas são percepções da mente, sem qualquer arquétipo ou modelo externo o qual elas representam. Se isso deve ser admitido com respeito às qualidades secundárias, também deve seguir-se com respeito às supostas qualidades primárias de extensão e solidez; nem podem as últimas serem mais qualificadas dessa denominação do que as primeiras. A ideia de extensão é inteiramente adquirida a partir dos sentidos da visão e do tato (feeling); e se todas as qualidades, percebidas pelos sentidos, estão na mente, não no objeto, a mesma conclusão precisa alcançar a ideia de extensão, a qual é inteiramente dependente de ideias sensíveis, ou ideias de qualidades secundárias. Nada pode nos salvar dessa conclusão, senão afirmar que as ideias daquelas qualidades primárias são obtidas através de Abstração; uma opinião a qual, se nós examinarmos precisamente, deveremos descobrir ser ininteligível e até absurda. Uma extensão, que não é nem tangível nem visível, não pode possivelmente ser concebida: e uma extensão tangível e visível, que não é nem dura nem macia, negra nem branca, igualmente está além do limite da concepção humana. Que qualquer homem tente conceber um triângulo em geral, o qual não é nem Isóceles, nem Escaleno, nem tem qualquer extensão ou proporção de lados particulares; e logo ele perceberá a absurdidade todas as noções escolásticas com respeito à abstração e ideias gerais.1

[177]Dessa forma, a primeira objeção filosófica à evidência do sentido, ou à opinião da existência externa consiste nisto, que uma tal opinião, se amparada sobre o instinto natural, é contrária à razão e, se referida à razão, é contrária ao instinto natural, e, ao mesmo tempo, não leva nenhuma evidência racional consigo para convencer um investigador imparcial. A segunda objeção vai além, e representa essa opinião como contrária à razão; pelo menos, se for um princípio da razão que todas as qualidades sensíveis estão na mente, não no objeto. A matéria despojada de todas as suas qualidades sensíveis, tanto primárias quanto secundárias, você, de uma maneira, aniquila-a e deixa apenas uma certa alguma coisa, desconhecida, inexplicável, como a causa de nossas percepções; uma noção tão imperfeita que nenhum cético pensará que vale a pena lutar contra ela.


Parte II


Pode parecer uma tentativa muito extravagante dos céticos, destruir a razão por argumento e raciocínio; todavia, esse é o grande escopo de todas as suas investigações e disputas. Eles tentam encontrar objeções, tanto para nossos raciocínios abstratos, quanto para aqueles a respeito de questões de fato e existência.

A objeção principal contra todos os raciocínios abstratos é derivada a partir das ideias de espaço e tempo; ideias que, na vida comum e para uma visão descuidada, são muito claras e inteligíveis, mas, quando elas passam através do escrutínio das ciências profundas (e elas são o objeto principal dessas ciências), proporcionam princípios que parecem cheios de absurdidade e contradição. Nenhum dogma sacerdotal, inventado com o propósito de domar e subjugar a razão rebelde do gênero humano, alguma vez chocou o senso comum mais [178]do que a doutrina da divisibilidade infinita da extensão, com todas as suas consequências; visto que elas são pomposamente exibidas por todos os geômetras e metafísicos, com um tipo de triunfo e exultação. Uma quantidade real, infinitamente menor do que qualquer quantidade finita, contendo qualidades infinitamente menores do que ela mesma, e assim in infinitum; esse é um edifício tão audaz e prodigioso, que ele é pesado demais para qualquer pretensa demonstração de suporte, porque ele chocas os princípios mais claros e naturais da razão humana.2 Mas, o que torna o assunto mais extraordinário é que, essas opiniões aparentemente absurdas são suportadas por uma cadeia de raciocínios dos mais claros e naturais; nem é possível para nós admitir as premissas sem admitir as consequências. Nada pode ser mais convincente e satisfatório do que todas as conclusões a respeito das propriedades de círculos e triângulos; e todavia, quando essas são uma vez recebidas, como nós podemos negar que o ângulo de contato entre um círculo e sua tangente é infinitamente menor do que qualquer ângulo retilíneo; que, conforme você pode aumentar o diâmetro do círculo in infinitum, esse ângulo de contato torna-se ainda menor, mesmo in infinitum, e que o ângulo de contato entre outras curvas e as tangentes delas podem ser infinitamente menores do que aqueles entre qualquer círculo e sua tangente, e assim por diante, in infinitum? A demonstração desses princípios parece tão irrepreensível quanto aquela que prova que os três ângulos de um triângulo [179]são iguais a dois retos, embora essa seja natural e fácil, e aquela, grande com contradição e absurdidade. Aqui a razão parece estar jogada dentro de um tipo de espanto e suspense, os quais, sem as sugestões de nenhum cético, concedem-na uma desconfiança de si mesma, e do chão no qual ela pisa. Ela vê uma luz plena, a qual ilumina certos lugares; mas que a luz faz fronteiras com a mais profunda escuridão. E entre essas, ela fica tão deslumbrada e confusa, que escassamente ela pode pronunciar com certeza e segurança a respeito de qualquer objeto.

A absurdidade desas determinações ousadas das ciências abstratas parece tornar-se, se possível, ainda mais palpável com respeito ao tempo que com respeito a extensão. Um número infinito de partes reais de tempo, passando em sucessão, e exaurindo-se um após o outro, parece uma contradição tão evidente que, nenhum homem, alguém deveria pensar, cujo julgamento não está corrompido, em vez de ser aperfeiçoado pelas ciências, nunca seria capaz de admiti-lo.

Ainda assim a razão deve permanecer sem descanso e inquieta, mesmo como respeito àquele ceticismo ao qual ela é conduzida por essas absurdidades e contradições aparentes. Como qualquer ideia clara, distinta, pode conter circunstâncias contraditórias a si mesma, ou a qualquer outra ideia clara, distinta, é absolutamente incompreensível, e é, talvez tão absurdo quanto qualquer proposição que pode ser formada. De modo que nada pode ser mais cético, ou mais cheio de dúvida e hesitação, do que esse ceticismo mesmo, o qual surge a partir de algumas conclusões paradoxais da geometria ou da ciência da quantidade.3

[180]As objeções céticas à evidencia moral, ou aos raciocínios a respeito de questão de fato, são, ou populares, ou filosóficas. As objeções populares são derivadas a partir da fraqueza natural do entendimento humano; as opiniões contraditórias que têm sido entretidas em épocas e nações diferentes; as varições de nosso julgamento na saúde e doença, juventude e velhice, prosperidade e adversidade; a contradição perpétua das opiniões e sentimentos de cada homem particular, com muitos outros tópicos desse tipo. É desnecessário insistir mais nessa categoria. Essas objeções são apenas fracas. Pois como, na vida comum, nós raciocinamos a cada momento a respeito de questões de fato e existência, e, possivelmente, não podemos subsistir sem empregar essa espécie de argumento, quaisquer objeções populares, derivadas a partir daí, precisam ser insuficientes para destruir essa evidência. O grande subvertedor do [181]Pirronismo, ou dos princípios excessivos do ceticismo é a ação, e o emprego, e as ocupações da vida comum. Esses princípios podem florescer e triunfar nas escolas, onde é de fato difícil, senão impossível, refutá-los. Mas, tão logo eles deixam a sombra, e pela presença dos objetos reais, os quais impulsiona nossas paixões e sentimentos, são colocados em oposição aos princípios mais poderosos de nossa natureza, eles desaparecem como fumaça, e deixam o cético mais determinado na mesma condição que outros mortais.

Portanto, o cético faz melhor em se manter em sua própria esfera, e revelar aquelas objeções filosóficas que surgem a partir de pesquisas mais profundas. Aqui ele parece ter ampla matéria de triunfo, enquanto ele justamente insiste que toda a nossa evidência para qualquer questão de fato que se estenda além do testemunho de sentido e memória, é derivada inteiramente a partir da relação de causa e efeito; que nós não temos outra ideia dessa relação do que aquela de que dois objetos, os quais frenquentemente têm sido combinados juntos; que nós não temos argumento para nós de que os objetos que têm, em nossa experiência, sido frequentemente combinados, serão, da mesma forma, combinados da mesma maneira em outras instâncias; e que nada conduz-nos a essa inferência, senão o costume, ou um certo instinto de nossa natureza, o qual, de fato, é difícil de resistir, mas o qual, como outros instintos, pode ser falacioso e enganador. Enquanto o cético insiste sobre esses tópicos, ele mostra sua força, ou antes, de fato, a fraqueza sua e a nossa; e parecer pelo tempo, pelo menos, destruir toda segurança e convicção. Esses argumentos poderiam ser dispostos em extensão maior, se qualquer bem ou benefício para a sociedade alguma vez pudesse ser esperado resultar deles.

Pois aqui está a objeção principal e mais confusa ao ceticismo excessivo, que nenhum bem durável, alguma vez, [182]resultar a partir dele, enquanto ele permanecer em sua força e seu vigor plenos. Nós apenas precisamos perguntar um cético assim, Qual é a sua intenção? E o que ele propõe através de todas essas pesquisas curiosas? Ele fica imediatamente perdido e não sabe o que responder. Um copernicano ou ptolomaico, quem suportam cada um seu sistema diferente de astronomia, pode esperar produzir uma convicção que permanecerá constante e durável com sua audiência. Um estoico e epicurista exibem princípios que não apenas são duráveis, mas que têm um efeito sobre a conduta e o comportamento. Mas um pirrônico não pode esperar que sua filosofia terá qualquer influência constante sobre a mente, ou, se ela tivesse, que essa influência seria benéfica para a sociedade. Pelo contrário, ele precisa reconhecer, se ele reconhecerá qualquer coisa, que toda vida humana precisa perecer, devessem seus princípios prevalecerem universal e firmemente. Todo discurso, toda ação, cessariam imediatamente; e os homens permaneceriam em uma letargia total, até que as necessidades da natureza, não satisfeitas, colocassem um fim a suas existências miseráveis. É verdadeiro, um evento tão fatal é muito pouco para ser temido. A natureza sempre é mais forte por princípio. E, embora um pirrônico possa jogar a si mesmo ou a outros em um assombro ou confusão momentâneos através de seus raciocínios profundos, o primeiro e mais trivial evento da vida colocaria em fuga todas as suas dúvidas e escrúpulos, e deixariam-no o mesmo, em cada por ponto de ação e especulação, com os filósofos de cada outro secto, ou com aqueles que nunca se preocuparam com nenhuma pesquisa filosófica. Quando ele desperta desse sonho, ele será o primeiro a junta-se à risada contra si próprio, e confessar que todas as suas objeções, são mero entretenimento, e não podem ter outra tendência do que mostrar a condição extravagante do gênero humano, quem precisa agir, e raciocinar e acreditar; embora eles não sejam capazes, através da investigação mais diligente, de se satisfazerem [183]a respeito do fundamento dessas operações, ou de removerem as objeções que podem ser levantadas contra elas.


Parte III


De fato, há um ceticismo mais mitigado ou filosofia acadêmica, o qual pode ser tanto durável quanto útil, e o qual pode, em parte, ser o resultado desse Pirronismo, ou ceticismo excessivo, quando suas dúvidas indistintas são, em alguma medida, corrigidas pelo senso comum e reflexão. A maior parte do gênero humano está naturalmente inclinada a ser afirmativa e dogmática em suas opiniões; e, enquanto eles veem objetos somente de um lado, e não têm ideia de nenhum argumento servindo de antidoto (counterpoisoning), eles jogam-se precipitadamente nos princípios para os quais eles estão inclinados; nem têm nenhuma indulgência por aqueles que entretêm sentimentos opostos. Hesitar ou ponderar deixa o entendimento deles perplexo, reprime sua paixão e suspende sua ação. Portanto, eles ficam impacientes até que eles escapem de um estado que para eles é tão inquieto; e eles pensam que nunca podem se remover suficientemente para longe a partir dele, pela violência de suas afirmações e obstinação de sua crença. Mas, poderiam tais raciocinadores dogmáticos, tornarem-se sensíveis das enfermidades do entendimento humano, mesmo em seu mais perfeito estado, e quando mais preciso e cauteloso em suas determinações; uma tal reflexão naturalmente os inspiraria mais modéstia e reserva, e diminuiria suas opiniões apaixonadas de si mesmos, e o prejuízo deles contra antagonistas. O iletrado poderia refletir sobre a disposição do instruído, quem, em meio a todas as vantagens do estudo e reflexão, ainda está comumente desconfiado em suas determinações: e se qualquer um dos instruídos estiver inclinado, a partir de [184]seu temperamento natural, para arrogância e obstinação, uma pequena tintura de Pirronismo poderia abater o orgulho deles, ao mostra-lhes que as poucas vantagens que eles obtiveram sobre seus companheiros são, todavia, insignificantes, se comparadas à perplexidade e confusão universais, as quais são inerentes à vida humana. No geral, há um grau de dúvida, e cuidado, e modéstia, o qual, em todos os tipos de escrutínio e decisão, deve acompanhar para sempre um raciocinador justo.

Outra espécie de ceticismo mitigado, o qual pode ser uma vantagem para o gênero humano, e o qual pode ser o resultado natural das dúvidas e dos escrúpulos pirrônicos, na limitação de nossas investigações a assuntos tais como são melhor adaptados à estreita capacidade do entendimento humano. A imaginação do homem é naturalmente sublime, encantada com o que quer que seja remoto e extraordinário, e correndo, sem controle, para as partes mais distantes do espaço e tempo, a fim evitar os objetos que o costume tornou familiar demais para ele. Um julgamento correto observa um método contrário, e, evitando todas as investigações distantes e elevadas, confina-se à vida comum, e com assuntos tais como caem sob a prática e experiência diárias; deixando os tópicos mais sublimes para o embelezamento de poetas e oradores, ou para as artes dos sacerdotes e políticos. Para nos conduzir a uma determinação tão salutar, nada pode ser mais aproveitável do que, de uma vez, ficarmos completamente convencidos da força da dúvida pirrônica e da impossibilidade de que qualquer coisa, senão o poder forte do instinto natural, poderia livrar-nos dela. Aqueles que têm uma propensão para filosofia, continuarão suas pesquisas; porque elas refletem que, além do prazer imediato acompanhando uma tal ocupação, as decisões filosóficas nada são senão as reflexões da vida comum, metodizadas e corrigidas. Mas eles nunca ficarão [185]tentados a ir além da vida comum, enquanto eles considerarem a imperfeição daquelas faculdades que eles empregam, o estreito alcance delas e suas operações imprecisas. Embora nós não possamos dar uma razão satisfatória de porque nós acreditamos, após mil experimentos, que uma pedra cairá, ou o fogo queimará; podemos nós, alguma vez, satisfazer-nos a respeito de qualquer determinação que nós podemos formar com respeito à origem dos mundos, e à situação da natureza a partir da, e para a, eternidade?

De fato, essa limitação estreita de nossas investigações é, em todo aspecto, tão razoável que ela é suficiente para fazer o mais leve exame dos poderes naturais da mente humana e compará-los com os objetos deles, a fim de recomendá-la a nós. Então, nós devemos descobrir quais são os objetos apropriados da ciência e investigação.

Parece-me que os únicos objetos das ciências abstratas são a quantidade e o número, e que todas as tentativas de estender essa espécie mais perfeita de conhecimento além desses limites são mera sofística e ilusão. Como as partes componentes da quantidade e do número são inteiramente similares, as relações delas tornam-se intricadas e baralhadas; e nada pode ser mais curioso, assim como útil, do que traçar através de uma variedade de meios, a igualdade e desigualdade deles através de suas aparências diferentes. Mas todas as outras ideias são claramente distintas e diferentes umas das outras, nós nunca podemos avançar ulteriormente, através de nosso máximo escrutínio, do que para observar essa diversidade, e, através de uma reflexão óbvia, pronunciar uma coisa não ser a outra. Ou, se há alguma dificuldade nessas decisões, ela procede inteiramente a partir do significado subdeterminado das palavras, o qual é corrigido por definições mais justas. Que o quadrado da hipotenusa é igual aos quadrados dos outros dois lados, não pode ser conhecido, sejam os termos alguma vez tão exatamente definidos, sem uma cadeia de [186]raciocínio e investigação. Mas para nos convencer desta proposição, que, onde não há propriedade não pode haver injustiça, é apenas necessário definir os termos e explicar a injustiça como sendo uma violação de propriedade. De fato, essa proposição nada é senão uma definição mais imperfeita. É o mesmo caso com todas aqueles pretensos raciocínios silogísticos, os quais podem ser encontrados em todo outro ramo do conhecimento, exceto nas ciências da quantidade e do número; e essas podem seguramente, eu penso, ser pronunciadas os únicos objetos apropriados de conhecimento e demonstração.

Todas as outras investigações dos homens dizem respeito apenas a questão de fato e existência; e essas, evidentemente, são incapazes de demonstração. O que quer que seja (is) pode não ser (not be). Nenhuma negação de um fato pode envolver uma contradição. A inexistência de qualquer ser, sem exceção, é tão clara e distinta quanto sua existência. A proposição que afirma que ele não é, por mais que falsa, não é menos concebível e inteligível do que aquela que afirma que ele é. O caso é diferente com as ciências, propriamente assim chamadas. Cada proposição que não é verdadeira está ai confusa e ininteligível. Que a raiz cúbica de 64 é igual à metade de 10 é uma proposição falsa e nunca pode ser distintamente concebida. Mas, que César, ou o anjo Gabriel, ou qualquer ser, nunca existiu, pode ser uma proposição falsa, mas ainda é perfeitamente concebível e não implica contradição.

Portanto, a existência de qualquer ser apenas pode ser provada por argumentos a partir de sua causa ou de seu efeito; e esses argumentos estão fundamentados inteiramente na experiência. Se nós raciocinarmos a priori, qualquer coisa pode parecer capaz de produzir qualquer coisa. A queda de um seixo (pebble) pode, por tudo que sabemos, extinguir o sol; ou o desejo de um, controlar os planetas nas órbitas deles. É apenas a experiência que [187]nos ensina a natureza e os limites da causa e do efeito, e possibilita-nos inferir a existência de uma objeto a partir daquela do de outro.4 Tal é o fundamento do raciocínio moral, o qual forma a maior parte do conhecimento humano, e é a fonte de toda ação e todo comportamento humanos.

Os raciocínios morais são relativos a fatos particulares ou gerais. Todas as deliberações na vida com respeito aos primeiros; com também todas as disquisições em história, cronologia, geografia e astronomia.

As ciências, as quais tratam de fatos gerais, são a política, filosofia natural, física, química, etc, onde as qualidades, causas e efeitos de toda uma espécie de objetos são investigadas.

O estudo do divino (Divinity) ou teologia, visto que ela prova a existência de uma divindade, e a imortalidade das almas, é composta parcialmente de raciocínios a respeito do particular, parcialmente a respeito de fatos gerais. Ela tem um fundamento na razão, até onde ela é suportada pela experiência. Mas seu fundamento melhor e mais sólido é a e revelação divina.

Moral e critica não são propriamente objetos do entendimento, como do gosto e sentimento. A beleza, se moral ou natural, é sentida mais propriamente do que percebida. Ou, se nós raciocinamos a respeito dela, e tentamos fixar um padrão, nós consideramos um, a saber, o gosto geral do gênero humano, ou algum fato semelhante que pode ser o objeto de raciocínio e investigação.

Quando corrermos através de bibliotecas, persuadidos desses princípios, que estrago nos devemos produzir? Se nós tomarmos em nossa [188]mão qualquer volume, de estudo do divino (divinity) ou escola metafísica, por exemplo; perguntemos, Ele contém qualquer raciocínio abstrato a respeito do número e da quantidade? Não. Ele contém algum raciocínio experimental a respeito de questão de fato e existência? Não. Então, entregue-o às chamas; pois ela não contém nada, exceto sofística e ilusão.


FIM


ORIGINAL:

HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.170-188. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/170/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [176]Esse argumento é extraído a partir do Dr. Berkeley; e, de fato, a maioria dos escritos desse autor muito engenhoso formam as melhores lições de ceticismo que devem ser encontrados que entre os antigos, quer entre os modernos filósofos, Bayle não excetuado. Contudo, ele professa, em sua folha de rosto (e, indubitavelmente, com grande verdade), ter composto o seu livro contra os céticos assim como contra ateus e livres-pensadores. Mas que todos os seus argumentos, embora de outra maneira destinados, são, em realidade, meramente céticos, aparecem a partir disto, que eles não admitem nenhuma resposta, e não produzem convicção. O único efeito deles é causar aquele espanto e irresolução e confusão momentâneos, o qual é o resultado do ceticismo

2 [178]Quaisquer disputas que possam haver sobre pontos matemáticos, nós precisamos admitir que há pontos físicos, quer dizer, parte de extensão, os quais não podem ser divididos ou diminuídos, ou pelo olho ou pela imaginação. Então, essas imagens, as quais estão presentes para a imaginação ou os sentidos, são absolutamente indivisíveis e, consequentemente, precisam ser admitidas pelos matemáticos serem infinitamente menores do que qualquer parte real de extensão; e todavia, nada parece mais certo para a razão do que um número infinito deles compõem uma extensão infinita. Quão muito mais um número infinito daquelas partes infinitamente pequenas de extensão, as quais ainda se supõem infinitamente divisíveis?

3 [179]Não me parece impossível evitar essas absurdidades e contradições, se for admitido que não existem tais coisas como ideias abstratas e gerais, propriamente falando; mas que todas as ideias são, na realidade, particulares adicionados a um termo geral, o qual nos recorda, em consequência da ocasião, de outros particulares, [180]que se assemelham, em certas circunstâncias, a ideia presente para a mente. Dessa forma, quando o termo Cavalo é pronunciado, nós imediatamente figuramos para nós mesmos a ideia de um animal negro ou um branco, de um tipo ou figura particulares: mas, como aquele termo também é usualmente aplicado a animais de outras cores, figuras e tamanhos, essas ideias, embora não atualmente presentes para a imaginação, são facilmente recordadas; e nosso raciocínio e conclusão procederam da mesma maneira como, de fato, elas estivessem presentes. Se isso for admitido (como parece ser razoável), segue-se que todas as ideias de quantidade, sobre as quais os matemáticos raciocinam, nada são senão particulares, e tais como a serem sugeridas pelos sentidos e pela imaginação e, consequentemente, não podem ser infinitamente divisíveis. [nota] é suficiente ter soltado essa dica no presente, sem a prosseguir de qualquer maneira. Certamente diz respeito a todos os amantes de ciência não se exporem ao ridículo e desprezo do ignorante por suas conclusões; e isso parece ser a solução mais pronta dessas dificuldades.

[nota] Em geral, nós podemos pronunciar que as ideias de maior, menor, ou igual, as quais são os objetos principais da geometria, estão muito longe de serem tão exatas ou determinadas como a serem o fundamento de inferências tão extraordinárias. Pergunte a um matemático o que ele quer dizer quando ele pronuncia que duas quantidades são iguais, e ele deve dizer que a ideia de igualdade é uma daquelas que não pode ser definida, e que é suficiente colocar duas qualidades iguais diante de qualquer um para a sugerir. Agora, isso é um apelo às aparências gerais de objetos para a imaginação ou sentidos e, consequentemente, nunca podem proporcionar conclusões tão diretamente contrárias àquelas faculdades. - Edições K, L.

4 [187]Esta máxima ímpia da filosofia antiga, Ex nihilo, nihil fit, pela qual a criação da matéria foi excluída, cessa de ser uma máxima, de acordo com essa filosofia. Não apenas a vontade do Ser Supremo pode criar matéria, mas, por tudo que nós conhecemos a priori, a vontade de qualquer outro ser poderia criá-la, ou qualquer outra causa, que a imaginação mais extravagante pode atribuir

Nenhum comentário:

Postar um comentário