Uma Introdução à Ética
Capítulo 3 Como eu posso ser uma Pessoa Melhor? Sobre a Ética das Virtudes
Por Douglas Giles
Este capítulo explora uma variedade de abordagens para a questão da virtude moral e o que significa ser uma boa pessoa. Ele examina quatro sistemas que giram em torno do conceito de virtude: a ética das virtudes de Aristóteles, a versão cristã de Aquino da ética aristotélica das virtudes, a ética budista das virtudes e a ética das virtudes taoista e confucionista. Cada um apresentará uma maneira diferente de entender o que poderia significar viver como uma boa pessoa. Para Aristóteles, isso deve ser entendido em termos de se esforçar pelo meio-termo entre os extremos no contexto de uma comunidade política bem-ordenada. Para Aquino, isso deve ser entendido no interior do contexto do cristianismo e da lei natural. Para o Budismo, a virtude deve ser entendida em termos de uma vida orientada na direção do caminho óctuplo que conduz ao fim do sofrimento. Para a filosofia chinesa, tanto taoista quanto confucionista, virtude significa estar em harmônia com o Tao Cósmico.
O QUE É ÉTICA DAS VIRTUDES
Em filosofias de ética das virtudes, antes que uma ênfase em seguir regras, a ênfase está no desenvolvimento de si mesmo como uma boa pessoa. Não é que seguir regras não seja importante; é mais que o sentido de ser ético significa muito mais do que simplesmente seguir regras. Por exemplo, dado uma oportunidade para doar dinheiro para a caridade, deontologistas (ver capítulo 6 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-ethics/chapter/kantian-deontology/)) considerariam se há uma regra ética que requereria que eles doassem. Utilitaristas (ver capítulo 5 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-ethics/chapter/utilitarianism/)) considerariam se uma doação produziria consequências melhores se eles doassem do que se eles não o fizessem. Eticistas de virtudes considerariam a doação o tipo de ação que uma pessoa virtuosa faria. Outro exemplo seria decidir se mentir ou contar a verdade. Antes de se focarem em regras ou consequências, eticistas de virtudes perguntam que tipo de pessoa eles querem ser: honesta ou desonesta? A ética das virtudes coloca mais importância em ser uma pessoa que é honesta, de confiança, generosa e outras virtudes que conduzem a uma boa vida, e coloca menos importância no dever ou nas obrigações éticas de alguém. Um tema comum entre eticistas de virtude é a enfatização da importância do cultivo de valores éticos a fim de aumentar a felicidade humana. Hoje em dia, os negócios cada vez mais incorporam éticas de virtudes em sua cultura de trabalho, frequentemente tem uma “declaração de valores” guiando suas operações.
Porque a ação ética correta depende das particularidades de pessoas individuais e de suas situações particulares, a ética das virtudes vincula bondade com sabedoria, pois virtude é saber como tomar decisões éticas antes que conhecer uma lista de regras éticas gerais que não se aplicarão a cada circunstância. Eticistas de virtudes tendem a rejeitar a visão de que a teoria ética deveria fornecer um conjunto de comandos que ditam o que nós devemos fazer em todas as ocasiões. Antes, eles defendem o cultivo da sabedoria e do carácter que as pessoas podem usar para internalizarem princípios éticos básicos, a partir dos quais eles podem determinar o curso ético da ação em situações particulares. As diferentes formas de ética das virtudes podem ou não se focar em Deus como a origem última de princípios éticos. O que une as várias formas de ética das virtudes é foco na educação moral para o cultivo de sabedoria, discernimento e carácter morais, na crença de que a virtude ética manifestar-se-á em situações éticas.
ARISTÓTELES SOBRE EXCELÊNCIA E FLORESCIMENTO
O filósofo grego antigo Aristóteles (384-322 a.C.) acreditava que para entender alguma coisa nós precisamos entender sua natureza e função próprias (ver capítulo 2 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-ethics/chapter/can-we-have-ethics-without-religion-on-divine-command-theory-and-natural-law-theory/)). Ele também acreditava que tudo tinha um fim (end), ou objetivo (goal), em direção do qual naturalmente se move. Por exemplo, uma semente cresce em uma árvore porque o propósito e a função da semente é crescer em uma árvore. Objetos realizam seus propósitos, não a partir de desejo consciente, mas porque está na natureza deles realizarem suas funções. Aristóteles acreditava que nosso propósito é perseguir nosso fim humano adequado, eudaimonia, a qual é melhor entendida como florescimento humano ou viver bem (living well). A eudaimonia não é prazer momentâneo, mas contentamento duradouro – não apenas um dia bom, mas uma boa vida. Aristóteles dizia que uma andorinha só não faz um verão, e assim, também, um dia não torna alguém abençoado e feliz. É a natureza humana mover-se em direção da eudaimonia, e isso é o propósito, função ou objetivo final (telos) de toda a atividade humana. Nós trabalhamos para conseguir dinheiro, para construir uma casa e sacrificamo-nos melhorar nosso futuro, tudo com o objetivo último de viver bem.
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| Fotografia do busto de Aristóteles, por Jostrow via Wikimedia Commons. Esse trabalho está no domínio público. |
Florescimento humano significa agir de maneiras que causam sua essencial natureza humana alcançar sua forma mais excelente de expressão. Aristóteles sustentava que uma boa vida de contentamento duradouro somente pode ser alcançada por uma vida de virtude – uma vida vivida igualmente com phrónesis, ou “sabedoria prática,” e aretē, ou “excelência.” Aristóteles define o bem humano como a atividade da alma de acordo com a virtude, e escreveu na Nicomachean Ethics que
“Nós entendemos a atividade característica de um ser humano ser um certo tipo de vida; e nós entendemos esse tipo de vida ser a atividade da alma e as ações em concordância com a razão, e a atividade característica da boa pessoa ser realizar isso bem e nobremente, e uma atividade característica ser bem realizada quando ela é realizada em concordância com a virtude apropriada; então, se isso for assim, o bem humano revela-se ser a atividade da alma em concordância com a virtude. (1.7)1”
A exigência ética sobre nós é desenvolver nosso carácter para nos tornarmos uma pessoa de excelente sabedoria ética, pois, a partir dessa excelência, boas ações fluirão. Ações virtuosas vêm de uma pessoa virtuosa; portanto, é sábio focar-se em ser uma pessoa virtuosa.
Para Aristóteles, a ética é uma ciência que tem por objetivo os princípios racionais que podem ser descobertos e entendidos através da razão. Se um particular curso de ação é bom ou não, e se uma pessoa é boa ou não, são ideias que podem ser entendidas objetivamente. O cultivo da virtude deve ser acompanhado por um cultivo da racionalidade. Aristóteles via a alma humana como tendo três componentes: a parte nutritiva, responsável por receber a nutrição; a parte sensitiva e apetitiva, responsável pela sensação e resposta ao ambiente, incluindo os desejos e apetites que motivam as ações; e a parte racional, responsável pelo intelecto prático e produtivo. Todos os três componentes são essenciais para ser um humano, mas eles existem em uma clara hierarquia, com as faculdades da razão no topo; essas podem e devem controlar e guiar os apetites em ações éticas e produtivas. Aristóteles caracteriza a parte desejante e emocional da alma como participando da razão uma vez que ela se sujeita à razão e aceita sua liderança. A pessoa de boa virtude cultivou uma alma estável que não é balançada por apetites ou desejos, mas é governada pela razão. Então, ser ético, é uma habilidade que alguém desenvolve. Exatamente como, através da prática, você pode tornar-se bom em matemática ou em tocar um instrumento musical, você pode, através da prática, tornar-se uma pessoa virtuosa. Quando você alcançou um certo nível de habilidade em matemática ou em tocar música, não mais necessita de um professor para o guiar e rapidamente pode entender o que fazer. O mesmo é verdade na concepção aristotélica de tomada de decisão ética – ela torna-se um hábito arraigado.
Como pode o ser racional chegar a entender quais são as ações éticas apropriadas? A resposta de Aristóteles é sua doutrina do meio-termo, ou do curso equilibrado de ação:
“Virtude é um estado de carácter interessado em uma ação, existindo em um meio-termo relativo a nós, esse sendo determinado por um princípio racional, e por aquele princípio pelo qual uma pessoa de sabedoria prática determiná-lo-ia (Nicomachean Ethics 2.6)”
Aqui nós vemos a ênfase de Aristóteles em um carácter virtuoso que nós possibilite fazer uma escolha ética racional. Há dois importantes aspectos disso. O primeiro é o conceito de escolha existindo em um meio-termo relativo a nossas circunstâncias, e o segundo é que o que o meio-termo é, em qualquer situação particular, pode ser determinado pela pessoa de razão prática. O curso ético da ação é relativo a nossas circunstâncias particulares, significando que não há regra que se ajuste a todas as situações, mas o curso ético de ação é objetivamente verdadeiro no que qualquer pessoa racional examinando a situação será capaz de entender o correto curso ético de ação.
Por meio-termo (mean), Aristóteles refere-se a alguma coisa no meio do caminho entre dois extremos. O ato virtuoso é aquele que cai entre os extremos do que é deficiente e do que é excessivo relativo à situação.
Todas as virtudes morais são meios entre extremos prejudiciais (pouco, demais) em nossas ações e emoções:
Algumas vezes o meio-termo está mais próximo de um dos extremos do que de outro por causa das circunstâncias particulares envolvidas. Porque as situações são diferentes, não é suficiente dizer, “Seja corajoso” porque o meio-termo da coragem é diferente de situação para situação. Ainda há padrões éticos, mas eles são relativos à situação. É sempre errado comer demais, mas “demais” será diferente para cada indivíduo. Essa é a razão de uma ênfase na virtude – a habilidade para discernir como tomar decisões éticas – é a chave para vida ética, boa e balanceada que é digna de viver.
Quanto melhor você é para encontrar e agir no meio-termo, mais você tem phrónesis (“sabedoria prática”). Essa forma de razão prática ajuda alguém a reconhecer quais características de uma situação são moralmente relevantes e como alguém pode fazer a coisa certa na prática. A razão prática é racional porque ela está aberta à influência racional. Novamente, a virtude é uma habilidade aprendida. Uma pessoa ouve a, e aprende a partir da, razão de outros é uma pessoa racional, e o mesmo vale para a ética. Como Aristóteles entende, cada pensamento que alguém tem, e cada ação que alguém realiza, contribui para o desenvolvimento ou da virtude ou do vício. Virtudes tais como temperança, coragem e veracidade (truthfulness) tornam-se crescentemente uma parte de nossas ações quanto mais nós pretendemos realizá-las e mais nós praticamos fazendo-as. A pessoa verdadeiramente virtuosa:
Sabe o que está fazendo.
Escolhe um ato virtuoso por ele mesmo.
Escolhe como resultado de um estado moral estabelecido.
Escolhe alegre e facilmente.
Isso é possível apenas através do desenvolvimento de uma disposição virtuosa na qual a alma está determinada pela razão. Quanto mais você prática a virtude, mais você é capaz da virtude porque a virtude se torna um modo de vida. A condução de uma boa vida objetivamente racional produzirá uma vida subjetivamente feliz do tipo apropriado ao ser humano.
TOMÁS DE AQUINO SOBRE AS VIRTUDES
A maior parte dos escritos de Aristóteles esteve perdida para a Europa ocidental até o século XII. Quando o Islã se espalhou através do Egito, do Levante e da Pérsia no século VII, bibliotecas de antigos textos gregos foram encontradas, incluindo trabalhos de Aristóteles perdidos para o mundo falante de latim. Ibn Sina (Avicena), Ibn Rush (Averróis) e outros pensadores islâmicos reconheceram o valor de Aristóteles e escreveram comentários sobre suas obras e outras obras estendendo sua filosofia. Essas obras islâmicas foram descobertas por cristãos quando eles conquistaram a centro da Espanha islâmica no meio do século XII. Como suas contrapartes islâmicas poucos séculos antes, os estudiosos cristãos sabiam o que eles tinham nas bibliotecas islâmicas. As obras de Aristóteles (quem os estudiosos cristãos conheciam a partir de seus livros de lógica) foram ansiosamente traduzidos para o latim e amplamente distribuídas.
Os textos de Aristóteles colocaram problemas para os filósofos na reconciliação deles com a teologia cristã, o que levou a muitas disputas no interior da Igreja Católica no século XIII. Entra Tomás de Aquino (1225-1274), quem escreveu a Summa Theologica (A Soma de Conhecimento Teológico), criando um sistema que poderia, como anunciado, fornecer respostas para todas as questões. A filosofia de Aquino era baseada nos escritos de Aristóteles, a quem ele reverentemente chamava de “O Filósofo”, e colocada como uma fonte de verdade quase ao mesmo nível que a Bíblia. Você verá as similaridades entre os sistemas éticos de Aristóteles e Aquino.
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Santo Tomás de Aquino, por Carlo Crivelly, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público.
Como Aristóteles, Aquino baseava a ética na busca de nosso fim humano adequado. Diferentemente de Aristóteles, Aquino acreditava que nosso fim humano adequado da eudaimonia não devia ser encontrado neste mundo. O sistema de Aristóteles, Aquino acreditava, era tão bom quanto os humanos podiam alcançar sobre a base do reino natural, mas o nosso fim como humanos é ser aperfeiçoados através da união com Deus. Para Aquino, cada evento no universo ocorre porque há algum fim em direção ao qual as coisas são dirigidas, e nós humanos, como todo resto no universo, temos nossos próprios fins. Diferentemente de todo resto, nós, como humanos, podemos escolher conscientemente que fins nós perseguimos, e a ética preocupa-se com fins que são dignos de nossos esforços de busca. Como Aristóteles, Aquino acreditava que o entendimento ético surge através da virtude, e que a virtude é uma habilidade que deve ser desenvolvida. Também como Aristóteles, Aquino acreditava que nós aprendemos o que é ético através de nossa razão, a qual nós podemos usar para descobrir a lei natural de Deus que está imbuída na criação. Ao racionalmente refletirmos sobre o que está de acordo com a natureza e com nossas próprias inclinações naturais, nós podemos entender as virtudes éticas.
A ideia aristotélica de Aquino de que humanos podem entender racionalmente princípios éticos teve de lidar com o conceito cristão de que a natureza pecaminosa da humanidade impedia tal entendimento. Ele sustentava que o pecado afeta nossa vida moral mas não nossa vida racional, limpando o caminho para o uso de nosso intelecto humano para aprender verdades éticas. Ele tomou emprestado dos filósofos islâmicos a concepção de que o intelecto é tanto passivo quanto ativo. O intelecto passivamente recebe na experiência sensorial e nas ideias, mas ativamente as processa em verdades universais abstratas. Esse é um processo natural que é inerente à mente humana sem requerer iluminação a partir de Deus e que não é afetado pelo pecado (como era comumente pensado no tempo de Aquino). Os universais abstraídos pela mente a partir de múltiplos indivíduos (por exemplo, “triângulo” pode ser abstraído a partir de triângulos individuais) estão vinculados a características reais no mundo, os universais criados por Deus e primeiro existindo na mente de Deus, quem os usou para criar os objetos no mundo. Colocado simplesmente, nós usamos nosso intelecto para entendermos o mundo que Deus criou. É um mundo ordenado e com propósito, com todos os objetos nele recebendo seus propósitos a partir de Deus. Observando o mundo e refletindo sobre nossas observações, nós podemos aprender sobre o mundo natural, incluindo as leis éticas de Deus, as quais permeiam o mundo natural. Aquino usou essa concepção para desenvolver o que nós conhecemos como “lei natural” – a ideia de que as verdades éticas estão arraigadas na natureza (ver capítulo 2 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-ethics/chapter/can-we-have-ethics-without-religion-on-divine-command-theory-and-natural-law-theory/) para mais sobre a visão de Aquino de lei natural).
Para sermos virtuosos, nós precisamos conhecer a lei natural de Deus que governa o movimento dos objetos na natureza e instrui-nos em comportamento ético. Ser racional, o que é central para nossos fins humanos, requer disciplina intelectual, mas é o caminho para a virtude. Através de autodisciplina e refletindo sobre a lei natural, nós podemos aprender e desenvolver como hábitos arraigadas as quatro virtudes cardeais da temperança, coragem, prudência e justiça. Pessoas virtuosas praticam as quatro virtudes cardeais em suas vidas diárias, e, a partir dessas virtudes, fluem comportamentos éticos em todas as situações.
ÉTICA DAS VIRTUDES BUDISTA
O budismo é uma tradição espiritual e filosófica fundada por Sidarta Gautama na Índia no século V a.C. Há muitas escolas de pensamento budista em muitos países, desde monastérios dedicados à devoção ritual religiosa a praticantes solitários de práticas religiosas. Uma linha de pensamento comum entre a maioria das escolas budistas de pensamento é uma ênfase em um sistema de ética de virtudes que ensina a arte de se tornar equilibrado e harmonioso através da humildade, com o objetivo de ficar livre do dukkha, ou sofrimento ou angústia. Nós podemos libertar a nós mesmos do sofrimento através da extinção do ódio e da ignorância, seguindo o ensinamento do fundador do budismo, Sidarta Gautama, quem se tornou “Buda,” o que significa “O Iluminado (the Awakened One).” Sidarta Gautama ensinou que o que poderiam ser chamados de atos malignos são realizados a partir de ignorância e medo; regras e ameaças de punição não cerceiam esses atos. Nós aprendemos como agir de uma maneira apropriada (samma, significando o melhor ou mais efetivo nas circunstâncias) focando-nos em pensar adequadamente, porque nossos pensamentos levam a nossas ações. A ênfase no budismo está no que é adequado e inadequado, antes que na acepção ocidental de certo e errado ou bem e mal. Uma vida de virtude é delineada pelo caminho óctuplo: visão apropriada (suitable view), intenção, atenção plena (mindfulness), concentração, esforço, discurso, conduta corporal e sustento (livelihood). Tornando seus próprios pensamentos e ações adequados, alguém promove resultados positivos e diminui resultados prejudiciais. Isso é especialmente para budistas por causa do ensino de Gautama sobre o carma, um conceito que subjaz à ética budista e difere significativamente de éticas do comando divino que são encontradas em muitas religiões.
A ideia de carma é que ele é um fenômeno natural que nós podemos pensar de maneira similar a como nós pensamos as leis da física. A lei do carma diz que pensamentos e ações que têm a intenção de machucar outros eventualmente causarão prejuízo a nós mesmos e que pensamentos e ações que têm a intenção de beneficiar outros eventualmente nos beneficiarão. Na concepção budista de tempo, “eventualmente” poderia significar em uma vida futura que está a muitas reincarnações de distância, assim, os budistas pensam menos em termos das consequências imediatas de pensamentos e ações e mais em termos do intrínseco valor dele. O carma não é um determinismo estrito, naquilo que nós ainda tempos livre-arbítrio (free will) e podemos mitigar as consequências do carma através de nossos pensamentos e ações virtuosos. Para evitar sofrimento futuro nesta vida ou em vidas futuras, um budista foca-se em desenvolver a virtude interior para ser capaz de pensar e agir adequadamente a fim de evitar carma negativo e gerar carma positivo. Como com a ética aristotélica das virtudes, quanto mais você prática virtude, mais você é capaz de virtude. Tendo feito um comprometimento para seguir o caminho óctuplo como um modo de vida, você está disposto a seguir aquelas regras.
ÉTICAS DAS VIRTUDES CHINESAS
Por mais de dois milênios, a filosofia chinesa tem sido dominada por duas grandes tradições, o confucionismo e o daoismo (taoismo), que têm influenciado a China ao longo de sua história e ainda hoje são importantes para a cultura chinesa. As duas tradições estão fundamentadas em seu ensinamento do Tao, o que é melhor traduzido como “o caminho.” Tao é tanto nome quanto verbo, tanto como o universo é quanto como as coisas se comportam apropriadamente. O tao não pode ser descrito completamente em palavras mas pode ser sentido como a fonte de todas as coisas e o ritmo do Ser. Todas as coisas surgem a partir do Tao, e todas as coisas têm o seu próprio Tao, ou essência, a qual surge a partir do Tao Cósmico. Adeptos tanto do confucionismo quanto do taoismo acreditam que estar no Tao e em harmonia com ele é ser virtuoso e estar em paz, e que esse estado de harmonia duradoura com o Tao, similar à eudaimonia aristotélica, é o objetivo humano adequado. Tanto o sistema ético confucionista quanto o taoista ensinam que a comunidade floresce quando os seus membros estão em harmonia com o Tao, e que o estado floresce quando seus líderes estão em harmonia com o Tao. Contudo, confucionismo e taoismo estão em desacordo sobre como as comunidades e governos podem manter-se em harmonia com o Tao e, dessa forma, disseminam ideias diferentes de como alcançar a virtude.
O confucionismo é o sistema social e ético estabelecido por Kong zi (Mestre Kong)(c. 551-479 a.C.) conhecido como Ocidente como Confúcio. Kong zi via a pessoa virtuosa como uma criação artística alcançada através da prática diligente de excelência ética pelo caminho da estrita prática ritual. O ritual, ou Li, é a arte e prática de construir o carácter de alguém a partir do material bruto da natureza humana. Exatamente como um artesão (craftsperson) usa ferramentas para dar forma à madeira ou à pedra, uma pessoa usa comportamentos rituais para esculpir e polir o seu próprio carácter. O Li estende-se para todos os aspectos da vida; Kong zi ensinava que cada ação afeta nosso carácter e ambiente, assim, cada ação necessita ser realizada com o respeito e procedimentos adequados. Kong zi emitia centenas de ritos em ditos cobrindo muitos aspectos da vida humana, como a juventude deveria comporta-se em relação a seus pais, que cores de roupas alguém deveria usar e quando, como alguém deveria cumprimentar outra pessoa, protocolos que deveriam ser observados na corte do soberano, e assim por diante – tudo para ser estritamente observado a fim de cultivar a compreensiva virtude ética conhecida como Ren.
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| Confúcio. Em Half Portraits of the Great Sage and Virtuous Men of Old (Dinastia Yuan) via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público. |
A maioria dos ritos especificados por Confúcio dizem respeito às interações humanas, refletindo a grande importância que ele colocava em adequadamente se respeitar os superiores de alguém. A antiga sociedade chinesa era altamente estratificada, e Kong zi considerava que a manutenção da hierarquia social era essencial para a ordem social. Mostrar respeito pelos superiores de alguém, tais como oficiais de governo, anciões e ancestrais, era mais do que polidez (polite); era essencial para a sociedade funcionar apropriadamente. A piedade filial era mais do que respeitar os anciões vivos ou mortos de sua família; era o bloco de construção fundamental da harmonia e justiça sociais. Quanto mais praticasse os ritos, mais alguém desenvolvia virtude, mais importantemente, a virtude do Ren ou benevolência. O Ren deveria ser entendido não como atos de gentileza, mas como atos de propriedade que criam a virtude em alguém mesmo e na sociedade. A prática de ritos virtuosamente conduz cada pessoa e a sociedade à harmonia com o Tao e leva a uma boa para todos.
A filosofia do taoismo por muito tempo forneceu um forte contraponto para o confucionismo. Como o nome implica, o taoismo foca-se na harmonia com o Tao antes que em ensinamentos humanos, o oposto da ênfase confucionista em um sistema de comportamento ritual. A ética taoista centra-se sobre a virtude fundamental do wu wei, significando “ação sem esforço.” O taoismo rejeita rituais formais e o deliberadamente se esforçar pela virtude, antes enfatizando que a virtude surge a partir da naturalidade, simplicidade e espontaneidade. Às vezes o taoismo parece ser anticivilização com seus chamamentos para nos separarmos da artificialidade das tradições e rituais sociais e, em vez disso, adotarmos uma vida quieta de comunhão com a natureza. Em outras vezes, contudo, o taoismo tenta reformar a sociedade, especialmente seus líderes:
“Se você quer ser um grande líder, você deve aprender a seguir o Tao. Pare de tentar controlar. Livre-se de planos e conceitos fixos e o mundo governará a si mesmo. Quanto mais proibições você tiver, menos virtuosas as pessoas serão. (Lao Zi [ca. 400-250 a.C.] 1991, capítulo 57)”
A ideia taoista é que separar a nós mesmos da natureza é separar a nós mesmos do Tao e o que mais contribui para essa separação a partir do Tao sãos as instituições sociais do governo, forças armadas e outras hierarquias e estruturas de poder. A virtude taoista do wu wei envolve uma vida de escapar (walking away from) das armadilhas artificiais da pretensão e arrogância humanas e de dar forma às suas ações de acordo com o que os outros pensam de você. Antes, o taoista busca a unidade (oneness) com os ritmos da natureza, o que, provavelmente requer escapar da sociedade mesma. Deliberadamente, o taoismo não fornece um conjunto de regras e rituais porque central para a filosofia taoista é a ideia de que ritual não cultiva virtude. Antes, o taoismo fornece diretrizes sobre o cultivo das virtudes do altruísmo (selflessness), moderação, distanciamento (detachment) e humildade. Portanto, filósofos taoistas não publicaram livros detalhando práticas rituais como os confucionistas fizeram. Antes, os taoistas criaram poesia e histórias que mostram sábios taoistas ensinando sobre e exemplificando essas virtudes.
OBJEÇÕES À ÉTICA DAS VIRTUDES
Há duas objeções principais à ética das virtudes como um sistema ético: sua vagueza e seu relativismo.
Primeiro, a ética das virtudes é vaga e subjetiva demais e não produz regras explícitas para a conduta moral que nos contam como agir em circunstâncias específicas. Quando encarando um dilema ética, nós sentimo-nos melhor se temos uma resposta clara sobre o que fazer. Éticas de virtudes oferecem ideias gerais em vez de comandos definitivos. Nós podemos criar leis baseadas em uma ética definitiva contra roubo (stealing), mas nós não podemos produzir leis dizendo “seja sábio” ou “seja paciente.” Também problemático é que éticas de virtude tendem a sustentar que suas virtudes se aplicam variavelmente de acordo com a situação. É muito mais fácil praticar os princípios de nunca mentir ou de ser sempre generoso. Éticas de virtudes dizem que há ocasiões quando mentir é um curso melhor de ação e ser generoso é um curso pior de ação, e essa variabilidade cria incerteza. E mais, como eu posso decidir quando a virtude se aplica e quando não? Dizer-me para ser sábio e refletir sobre virtudes éticas e a situação é oferecer mais imprecisão (vagueness). Finalmente, nós queremos ser capazes de confiar no comportamento de outras pessoas, e aqueles que praticam éticas de virtudes podem variar em seus comportamentos, assim, não podemos não saber exatamente onde nós nos posicionamos com relação a eles.
Para consideramos essa objeção, nós precisamos pensar sobre a natureza da ética em si mesma. Sim, nós poderíamos dizer definitivamente, “Você não deve mentir” e “Você não deve roubar.” mas sobre o que essas proibições estão baseadas? Um eticista de virtudes poderia responder argumentando que ambas estão baseadas sobre o princípio ético da honestidade e que, se é assim, então o cultivo da virtude da honestidade levará alguém a não mentir ou roubar de outros. Um eticista de virtudes também diria que éticas de virtudes focam-se sobre o fundamento da vida ética encapsulado na razão objetiva (Aristóteles), a lei natural de Deus (Tomás), a lei do carma (budismo), ou o Tao (confucionismo ou taoismo) e, portanto, a virtude não é inteiramente variável. Éticas de virtudes fornecem-nos as ferramentas para tomarmos decisões éticas nas circunstâncias variantes de nossas vidas diárias. A variabilidade no comportamento daqueles que praticam éticas de virtudes reflete a variabilidade da vida cotidiana.
Segundo, há diferentes definições culturais de florescimento humano e virtude. Todas as culturas humanas têm valores éticos, mas valores variam através das culturas. Assim, como nós podemos decidir qual conjunto de virtudes é correto? Mesmo no interior de uma cultura, duas pessoas terão visões diferentes sobre o que as virtudes são, e quando e como elas se aplicam. Porque éticas de virtudes não nos dão comandos específicos para como agir, cada pessoa é deixada para decidir por si mesma como agir. Ética de virtudes são relativas demais para serem uma teoria ética útil.
O relativismo ético é uma preocupação. Se a ética significa alguma coisa, ela tem de ter alguma base objetiva e não pode ser deixada inteiramente para o capricho arbitrário. Eticistas de virtudes estão conscientes desse perigo e responderiam a ele que éticas de virtude são baseadas nas realidades objetivas do mundo e da natureza humana. As virtudes são manifestações de como as coisas são, ou deveriam ser, fora da subjetividade cultural ou individual. Diferentes culturas diferem sobre como virtudes éticas devem ser aplicadas, mas cada cultura valoriza virtudes fundamentais tais como honestidade, benevolência, coragem e justiça. Diferenças em como culturas aplicam as virtudes podem refletir as diferenças objetivas em suas circunstâncias. Quando nós interagimos com outra cultura, é necessário lidar com aquelas diferenças, mas dizer que a nossa cultura está completamente correta e a outra cultura, errada, não é uma abordagem útil. De maneira similar, os indivíduos encaram o fardo de ter de determinar como é melhor aplicar as virtudes e necessitam lidar com conflitos com outros sobre como eles pensam ser melhor aplicar as virtudes. Mas, isso não é similar às decisões que nós temos de tomar em todos os aspectos de nossas vidas?
REFERÊNCIAS
Aristotéles. (ca. 350 a.C.) 2000. Nicomachean Ethics, trad. Roger Crisp. Cambridge: Cambridge
University Press.
Lao Zi. (ca. 400-250 a.C.) 1991. Dao de Jing, trad. Stephen Mitchell. New York: Harper Perennial.
LEITURA ADICIONAL
Athanassoulis, Nafsika. 2002. Virtue Ethics. London: Bloomsbury.
Crisp, Roger e Michael Slote, eds. 1997. Virtue Ethics. Oxford: Oxford University Press.
Darwall, Stephen, ed. 2002. Virtue Ethics. Oxford/Malden, MA: Wiley-Blackwell.
Foot, Philippa. 2003. Virtues and Vices: And Other Essays in Moral Philosophy. New York: Oxford
University Press.
Harvey, Peter. 2000. An Introduction to Buddhist Ethics: Foundations, Values and Issues. Cambridge: Cambridge University Press.
Liu, JeeLoo. 2008. An Introduction to Chinese Philosophy: From Ancient Philosophy to Chinese Buddhism. Oxford/Malden, MA: Wiley.
Russell, Daniel C., ed. 2013. The Cambridge Companion to Virtue Ethics. Cambridge: Cambridge
University Press.
ORIGINAL:
GILES, D. How Can I Be a Better Person? On Virtue Ethics. In. MATTHEWS, G. Introduction to Philosophy: Ethics. Rebus Community: 2019. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-ethics/chapter/how-can-i-be-a-better-person-on-virtue-ethics/>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 Referências a Aristóteles são formatadas usando o livro e o capítulo do texto. Por exemplo, essa citação corresponde ao Livro 1, capítulo 7 da Nicomachean Ethics.




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