Capítulo 4 Falácias Informais
por Cassiano Terra Rodrigues
Como nós vimos nos capítulos anteriores uma característica importante de um argumento é se ele é válido ou não (no caso de argumentos dedutivos), ou se ele é forte ou fraco (no caso de argumentos indutivos e abdutivos). Este capítulo delineia alguns dos erros importantes que podem ser cometidos no interior de argumentos, garantindo que eles sejam ou inválidos, ou incorretos (unsound), ou fracos dentro de um contexto determinado. Dentro da filosofia, semelhantes erros são chamados de falácias. Foco particular será concentrado sobre falácias informais; quer dizer, erros não exclusivamente relacionados à forma lógica do argumento, mas também incluindo seu conteúdo. Isso significa que mesmo argumentos dedutivamente válidos ainda podem ser interpretados como falaciosos se as premissas deles são consideradas por quaisquer razões que sejam, incluindo razões retóricas (Walton 1995).
O cometimento de falhas no raciocínio é um fato muito comum. Algumas falácias apenas passam desapercebidas. Mas algumas vezes elas são planejadas, ou porque o argumentador está desinteressado em ser racional ou deseja induzir alguém a cometer um erro racional. A importância do estudo das falácias então aparece: sem ser capaz de identificar falhas em raciocínios, nós aceitaríamos – ou recusaríamos a aceitar – quaisquer conclusões sem boas razões para o fazer e teríamos que basear nossas crenças puramente sobre a confiança de outros.
Mas do que apenas identificar falhas, o propósito primário de estudar falácias é evitar sermos derrotados por elas. Revelando porque e quando uma certa maneira de raciocinar não suporta a verdade da conclusão, quer dizer, não oferece suficiente evidência convincente para ela, o estudo de falácias torna-se inescapável. Adicionalmente, a identificação dessas falácias requer mais do que dependência da lógica formal, ela também envolve uma boa quantidade de análise do discurso. Quer dizer, nós somos requeridos a fazer questões-chave relacionadas ao conteúdo das premissas relevantes: Quem fala? Para quem? A partir de qual perspectiva? Com qual propósito? Por essa razão, o estudo de falácias precisa levar em conta não apenas erros em lógica, mas usos indevidos de técnicas argumentativas. O que é argumentativamente apropriado em um contexto, pode não ser em outro. Essa adequação dependerá, entre outras coisas, do propósito do argumento e da audiência planejada.
Contudo, nada disso significa que nós não podemos desenvolver padrões gerais para quando nós devemos reconhecer bom raciocínio e mau raciocínio. De fato, como foi notado nos capítulos anteriores, é de proeminente importância que nós possamos fornecer padrões inteligíveis e publicamente acessíveis para a avaliação de toda forma de argumentos e raciocínio. Prestemos atenção nas três características básicas do bom raciocínio:
Um bom argumento é logicamente bem estruturado. Este é um requerimento mínimo: as premissas de um bom argumento fornecem razões para a conclusão. Contudo, indivíduos diferentes têm ideias diferentes sobre o que conta ou não como uma boa razão – boas razões para uma pessoa podem ser inadequadas para outra. Assim, embora necessário, este requerimento não é suficiente.
Visto que pode haver desacordo sobre as premissas, um bom argumento começa a partir de premissas aceitáveis, ou premissas que são justificadas, e não apenas para o raciocinador, mas, principalmente, para a audiência. É claro, apesar de absolutamente não verdadeiras ou plausíveis, certas premissas podem ser aceitáveis, dependendo da audiência ou até da função do argumento em um dado contexto. Considerações de forma e conteúdo devem ser tomadas juntas, então.
As premissas devem conter informação relevante para a conclusão – se não tudo que é relevante, pelo menos o suficiente para tornar a conclusão aceitável. Ocultação de informação relevante é uma forma bem conhecida de enganar pessoas, exatamente como tomar certa informação como garantida quando tem sido amplamente contestada como um erro.
Falácias contêm erros em um ou mais dos sentidos dados acima. É claro, há razões incontáveis para o aceite de uma conclusão, tais como razões sociais, culturais e psicológicas. Contudo, os critérios para identificação de bons argumentos, mesmo assim, são critérios lógicos – quer dizer, eles são critérios racionais, publicamente abertos para avaliação. Dessa forma, qualquer um poderia identificar falácias prestando atenção ao seguinte:
As premissas suportam a conclusão, ou apenas oferecem suporte muito fraco para a conclusão?
Estão as premissas bem suportadas?
As premissas incluem toda a importante informação relevante?
Para evitar ser falacioso, um argumento deve ser capaz de responder a todas essas questões no positivo. Tendo isso em mente, nós não precisamos tentar fornecer uma lista exaustiva para cada falácia possível. Tudo que nós precisamos fazer é identificar quando e como esses critérios não foram satisfeitos, dessa maneira nós podemos entender quando e como argumentos falham em ser bons. Assim, examinemos uma taxonomia de falácias, quer dizer, como elas são classificadas e, em seguida, uma lista de algumas falácias comuns.
TAXONOMIA DAS FALÁCIAS
Nossa taxonomia das falácias tem por objetivo categorizar falácias em grupos distintos, ressaltando os problemas distintivos que os membros de cada grupo possuem. Nossa divisão mais geral é a acima mencionada entre falácias formais e informais. Erros na forma de argumentos dedutivos já foram coberto no capítulo 3, neste capítulo, focamos no segundo tipo: falácias informais.
Falácias informais são chamadas assim porque os erros delas não existem em suas formas lógicas. Em vez disso, para apreciar o que está errado com elas, nós precisamos examinar o conteúdo do argumento e, dessa maneira, examinar se o raciocínio no interior do argumento adequa-se aos nossos outros critérios apresentados acima – informação relevante e premissas aceitáveis. Semelhantes falácias informais normalmente são divididas nas seguintes categorias gerais (Kahane e Tidman 2002, 349):
Falácias de relevância: Falácias deste tipo não apresentam informação relevante, ou apresentar informação irrelevante para a conclusão.
Falácias de ambiguidade: Tais falácias empregam termos ou proposições obscuros ou equívocos, de modo que se torna impossível apreender o sentido preciso do que está sendo argumentado. Alguém até pode ser levado a pensar que absolutamente não há nenhum sentido, devido à indeterminação do significado.
Falácias de suposição: Em tal raciocínio falho, a conclusão depende de certas suposições não explicitamente declaradas nas premissas. Tais suposições são falsas ou, pelo menos, incertas, implausíveis ou injustificadas. A explicação da suposição oculta (lurking assumption) comumente é suficiente para demonstrar a insuficiência do argumento, quer devido à falta de informação relevante quer devido a premissas inaceitáveis.
FALÁCIAS INFORMAIS COMUNS
A lista seguinte não é exaustiva e apresenta somente algumas das falácias mais comuns, como ilustração. Intencionalmente elas não estão classificadas de acordo com a classificação acima – essa é uma tarefa para você realizar depois de ler este capítulo, como um exercício (há outro ao final do capítulo, e umas poucas questões que você deve responder, aqui e ali). A tradição dita que os nomes sejam apresentados em latim, alguns dos quais são mais famosos do que os [equivalentes] em língua materna.
Argumento dirigido a pessoa (Argumentum ad hominem)
Esta falácia consiste em atacar a pessoa em vez de tratar do argumento que a pessoa está propondo. Consequentemente, o caráter ou as circunstâncias pessoas do falante são ressaltados para invalidar os seus argumentos, em vez de qualquer falta identificada com o argumento mesmo. Esta é uma falácia muito comum, da qual há várias formas. Será útil ressaltar duas delas:
Ad hominem ofensivo. Essa forma de ad hominem consiste em colocar em questão o caráter moral do falante, dessa forma, tentando recusar confiabilidade à pessoa em vez de mostrar os erros reais em seus argumentos. O ad hominem ofensivo recusa uma certa opinião por motivos de que aqueles que a sustentam devem ser recusados, quaisquer que sejam as qualidades independentes da opinião.
Ad hominem circunstancial. As circunstâncias de alguém que faz ou rejeita uma alegação são irrelevantes para a verdade do que é alegado. Essa falácia ignora esse fato importante ao tentar enfraquecer o argumento por motivos de seu contexto, ou circunstâncias correntes. Por exemplo, alguém poderia tentar argumentar que nós não devemos ouvir o argumento de outro visto que ele se beneficiará da verdade da conclusão. Obviamente, um tal apelo seria injustificado.
Uma Questão para Você!
Você consegue pensar em uma situação na qual seria aceitável desconsiderar a evidência de alguém devido a suas circunstâncias pessoais? (Dica: pense em tribunais de justiça (courts of law))
A Falácia do Espantalho (The Straw Man fallacy)
Essa é uma falácia muito comum. De acordo com o princípio de caridade (principle of charity) na análise de argumentos, a interpretação mais forte de um argumento sempre deve ser preferida. A falácia do espantalho é a recusa direta de aderir a esse princípio e consiste na redução de um argumento a alguma versão mais fraca dele simplesmente para o derrubar. Por esse meio, a força original do argumento é perdida e, reduzido a uma caricatura, pode ser facilmente refutada. O nome da falácia vem do fato de que um espantalho é mais fácil de derrubar do que um homem real. Alguns ativistas veganos alegam que os oponentes deles frequentemente cometem essa falácia ao declararam que, se veganos têm tanto respeito pela vida animal, eles deveriam, igualmente, conceder o mesmo respeito à vida vegetal. Justificadamente, os veganos podem alegar que essa é uma má interpretação de sua própria posição e, dessa forma, não diminuir sua legitimidade. A falácia do espantalho difere da falácia ad hominem no que ela não tenta enfraquecer o argumento atacando diretamente a pessoa.
Apelo ao poder ou ameaça de força (Argumentum ad baculum)
Em latim, “baculum” significa um porrete (cudgel), bastão (bat) ou vara (stick) para bater (hitting). Então, um argumento com um porrete é um apelo à força bruta, ou uma ameça de usar a força em vez do raciocínio para assegurar que a conclusão de alguém seja aceita. O ad baculum é um tipo de intimidação, ou literalmente, através de força física, ou por qualquer outro tipo de ameaça, assim alguém se sente obrigado a aceitar a conclusão independentemente da verdade dela. Quando alguém ameça usar força ou pode ou qualquer outro tipo de intimidação em vez do raciocínio e argumentação, de fato, esse alguém abandona a lógica. Então, está pode ser tomada como a falácia máxima, o modo mais radical de tentar impor uma conclusão sem raciocinar em favor dela.
Por exemplo, pense em quando alguém ergue sua voz como uma forma de intimidação para forçar a aceitação de uma conclusão, sem dar razões. Um exemplo histórico dessa falácia vem do uso de um slogan pelas guerrilhas de El Salvador nos anos 80, para impedir que o povo votasse: “vote pela manhã; morra à tarde (vote in the morning; die in the afternoon)” (Manwarring e Prisk 1988, 186). É claro, a ameaça não precisa ser publicamente declarada. No cinema, uma das linhas mais famosas de Don Corleone, o personagem mafioso interpretado por Marlon Brando em The Godfather (1972), de Francis F. Coppola, é “Eu vou fazer-lhe uma oferta que ele não pode recusar (I’m gonna make him an offer he cannot refuse).” Alguém tem de assistir ao filme para ver que isso é um ad baculum.
Petição de Princípio (Petitio principii)
Essa falácia surge quando as premissas do argumento assumem a verdade da conclusão mesma para a qual elas são supostas de fornecer evidência, de modo que, a fim de aceitar as premissas, alguém primeiro tem de aceitar a conclusão. Como nesses casos a conclusão age como um suporte para si mesma, o nome em latim “petição de princípios (petition of the principles)” está, por esse meio, explicado. Semelhantes argumentos são inúteis no estabelecimento da verdade da conclusão, mesmo se, em última análise, as premissas forem verdadeiras e o argumento, definitivamente válido. Então, por que este tipo de argumento é falacioso? Bem, nós desejamos evidência independente para nossas conclusões. Afinal, se nós já soubéssemos que a conclusão era verdadeira, nós não requereríamos um argumento para a prova. Contudo, argumentos que requerem (beg) a questão não fornecem tal evidência independente. Você justificaria suas declarações apenas as reformulando?
Então, argumentos que requerem (beg) a questão são problemáticos porque eles pretendem fornecer evidência independente para a conclusão quando, na realidade, eles simplesmente estão reafirmando a conclusão, ou assumindo sua verdade, no interior das premissas. Por exemplo, quando alguém argumenta que os homens são melhores que as mulheres em raciocínio lógico porque homens são mais racionais que mulheres, isso é requerer (beg) a questão. Agora, se ser lógico apenas significa ser racional, então, o que está sendo dito é apenas que homens são mais racionais porque eles são mais lógicos. Dessa forma, o argumento simplesmente assume o ponto mesmo que ele está tentando demonstrar.
Uma Questão para Você!
Você consegue detectar exemplos dessa falácia? E você pode dizer quando uma circularidade no raciocínio não é uma falácia? Explicar.
Apelo à opinião popular (Argumentum ad populum)
O latim significa mais precisamente “apelo à população (appeal to the populace).” Esta falácia consiste no erro de supor que uma ideia é verdadeira apenas porque ela é popular. Tais argumentos são falaciosos porque entusiasmo coletivo ou sentimento popular não são boas razões para suportar uma conclusão. Esta é uma falácia muito comum em discursos demagógicos, propaganda, filmes e programas de TV. Por exemplo, pense nas campanhas de marketing que dizem “produtos da marca x são melhores por que eles são melhores para se vender (sellers).” Ou quando alguém diz: “todo o mundo concorda com isso, por que não você? (everyone agree with this, why don’t you?)” Mas o “isso (this)” pode ser falso, mesmo se todo o mundo pensar que ele é verdadeiro. A imagem abaixo ilustra bem esta falácia.
Depender apenas da popularidade de uma pessoa, um movimento ou uma ideia pode ter repercussões significantes para a sociedade, como essa foto tirada em Hamburgo (Alemanha) em 1936, durante o governo nazista, demonstra. Uma pessoa nessa fotografia, diferentemente das outras, está recusando-se a fazer a saudação nazista. Você pode encontrá-la? Para descobrir sobre a história dessa fota e sua significância, ver a página da Wikipedia sobre August Landmesser (https://en.wikipedia.org/wiki/August_Landmesser) August Landmesser Almanya 1936 (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:August-Landmesser-Almanya-1936.jpg), via Wikimedia Commons. Essa obra está em domínio público.
Apelo à piedade (Argumentum ad misericordiam)
Isto acontece quando alguém apela aos sentimentos da audiência para compelir suporte para uma conclusão sem dar razões para sua verdade. Um exemplo claro dessa falácia é fornecido por Patricia Velasco: “Não é incomum encontrar estudantes que apelam para os sentimentos do professor para obterem, por exemplo, uma revisão de nota (grade review), recitando uma lista sem fim de problemas pessoais: cães são sacrificados, noivados (marital engagements) são rompidos, avós são hospitalizadas” (Velasco 2010, 123).
Em tribunais, este tipo de falácia é muito comum, como quando se apela aos sentimentos humanitários do júri sem discutir os fatos do caso. Há um caso muito famoso e peculiar de um jovem, quem assassinou sua mãe e seu pai, e, em seguida, fez seu advogado (attorney) implorar por uma penalidade mais leve alegando que na juventude ele tornou-se órfão (Copi, Cohen & McMahon 2014, 115).
Algumas vezes a evocação de sentimentos não é falaciosa. Por exemplo, pode ser perfeitamente razoável combinar razões para uma conclusão com um apelo a ultraje ou raiva em relação à certa ação. Essa falácia ocorre quando o apelos às emoções substitui absolutamente o fornecimento de razões – tendo como objetivo a persuasão apenas através da provocação de emoções, sem tentar suportar racionalmente a conclusão – de maneira que o sentimentalismo é usado para produzir a aceitação da conclusão, não importa o que é verdadeiro.
Apelo à ignorância (Argumento ad ignorantiam)
Esta falácia consiste em assumir que a falta de evidência para uma posição é suficiente para demonstrar sua falsidade e, inversamente, que a falta de evidência para sua falsidade é suficiente para implicar sua verdade. Esta é uma falácia muito simples, pois nós não podemos declarar a verdade de uma proposição baseados na falta de prova de sua falsidade e vice-versa. Falta de evidência é uma falha em nosso conhecimento e não uma propriedade da alegação mesma. Por exemplo, dizer que extraterrestres existem porque não há provas da não existência deles seria negligenciar o fato de que, tampouco, pode não haver positiva evidência independente para a existência deles. A atitude racional a adotar-se quando nós não temos evidência para nenhuma das posições é suspender o julgamento sobre a questão.
Uma Questão para Você!
Você consegue imaginar contextos nos quais ad ignorantiam não é uma falácia? Você consegue explicar a partir de seus exemplos porque ela não é uma falácia?
Apelo à autoridade (Argumentum ad verecundiam)
Estes são argumentos baseados no apelo a alguma autoridade, em vez de em razões independentes. Nós a identificamos quando o falante cita “autoridades” famosas, largando nomes em vez de fornecer suas próprias razões, dessa forma, reconhecendo sua própria incapacidade para estabelecer a conclusão da questão em mãos, como se estivesse dizendo: “Eu reconheço minha ignorância, há outros que conhecem mais do que eu sobre este assunto.” Isso explica o nome latino: “argumentum ad verecundiam,” o qual é mais apropriadamente traduzido como argumento baseada na modéstia, ou timidez (coyness), referindo o falante, quem invoca a autoridade para suportar o seu caso.
Note que um apelo à autoridade pode ser legítimo se a autoridade invocada realmente é uma autoridade no assunto. Se você citar Hegel discutindo questões de filosofia, ou Marie Curie, em química ou física, então o apelo poderia ser razoável. Mas invocar as ideias de Marie Curie quando falando sobre futebol, por exemplo, com toda a probabilidade, seria irrelevante. Em outras palavras, um apelo a autoridade torna-se ilegítimo quando, em vez de fornecer razões e construir uma inferência independente para a conclusão, alguém busca basear uma conclusão apenas no dito (say-so) de uma suposta autoridade, apesar desse alguém não ser uma autoridade competente no assunto em discussão. Então, o apelo é falacioso. Mas mesmo a mais elevada opinião de autoridade em algum assunto não é suficiente para estabelecer uma conclusão. Nenhuma conclusão é verdadeira ou falsa apenas porque algum especialista disse. Antes, o apelo de alguém à palavra da autoridade é meramente um resumo (shorthand) para “eles serão capazes e fornecer a vocês suporte independente para minha conclusão.” Se eles não podem, então a conclusão não é suportada por seu apelo à autoridade dele, se o que for que você diga.
Essa falácia pode parecer estranha, mas, de fato, ela é muito comum. Por exemplo, as ideias de Charles Darwin – um biólogo renomado – não raramente invocadas em discussões sobre questões de moral, política ou religião, sem a biologia ser realmente relevante para o caso.
Uma Questão para Você!
Você consegue encontrar outros exemplos dessa falácia! O que garante legitimidade a uma autoridade – consenso de comunidade? Perícia (expertise)? Uma combinação de ambos? O que mais?
Esse anúncio para cigarros Camel, da contracapa de Life magazine (11 de novembro de 1946) depende da perícia (expertise) de médicos para exaltar as virtudes de uma marca particular de cigarros. O efeito pretendido sobre a audiência é fazê-los acreditar que, como defensores bem informados (knowledgeable) da boa saúde, os médicos implicitamente não recomendariam um cigarro que fosse ruim para você. Mesmo assim, o apela às próprias ações de um médico é injustificado nesse caso. Por quê? Primeiro, simplesmente porque um indivíduo fazer alguma coisa (tal como, fumar uma marca de cigarro) não significa que ele recomenda isso para sua saúde, mesmo se eles mesmos forem bem informados de seu efeito. As pessoas envolvem-se em muitas atividades pouco saudáveis e irracionais em suas vidas privadas. Além disso, o anúncio depender da autoridade de figuras é justificado apenas se aquelas autoridades efetivamente são muito mais informadas sobre o assunto (matter) relevante. Para a história por trás deste, e de anúncios similares, ver a informação sobre a campanha publicitária “More Doctors Smoke Camels” da Universidade de Alabama (https://csts.ua.edu/ama/more-doctors-smoke-camels/)
Camel Advertisement (https://csts.ua.edu/ama/more-doctors-smoke-camels/) por R.J. Reynolds Tabacco Company. Publicado em Life Magazine, 11 de novembro de 1946. Via Universidade de Alabama. Usado sob uso razoável (fair use).
Generalização apressada
Essa falácia é cometida sempre que alguém sustenta uma conclusão sem dados suficiente para a suportar. Em outras palavras, a informação usada como uma base para a conclusão bem pode ser verdadeira, mas, mesmo assim, não representativa da maioria. Algumas generalizações amplamente conhecidas são injustificadas exatamente por essa razão, tais como “Todos os brasileiros são amantes de futebol,” “Ateus são pessoas imorais” e “os fins justificam os meios.” Tais generalizações estão baseadas em um conjunto insuficiente de casos e não podem ser justificadas com apenas umas poucas instâncias de confirmação.
Nossas crenças sobre o mundo são comumente baseadas em semelhantes generalizações. De fato, é tarefa difícil não fazer assim! Mas isso não significa que nós devamos aceitar tias generalizações sem exame, e antes de buscarmos evidência suficiente para as suportar.
Equívoco
Esta é uma das falácias mais comuns. Sempre que um termo ou expressão aparece com diferentes significados nas premissas e na conclusão, ocorre a falácia do equívoco. Nesses casos, o falante depende da ambiguidade dos elementos da linguagem e das mudanças de seus significados ao longo do argumento, forçando a audiência a aceitar mais do que é implicado pelo argumento quando qualquer significado fixo é dado para os termos relevante. Um exemplo clássico é:
O fim (end) de uma coisa é sua perfeição.
A morte é o fim (end) da vida.
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/∴ A morte é a perfeição da vida.
Aqui, “fim (end)” pode significar “objetivo (goal)” ou “fim (termination),” assim a conclusão poderia ser que o objetivo da vida é perfeição, ou que a vida é tornada perfeita (perfected) apenas quando está terminada. À parte de considerações metafísicas, o argumento é apenas aparentemente válido, uma vez que a mudança no sentido e contexto, torna, pelo menos, uma das premissas ou conclusão falsa (ou implausível).
Uma Questão para Você!
Você consegue reformular o argumento para tornar a falácia clara?
EXERCÍCIOS
Exercício Um
Para cada afirmação, identifique a falácia informal.
Exemplo:
O incesto deve ser imoral, porque todas as pessoas em todas as partes do mundo, por muitos séculos, tem o visto como imoral.
Resposta: Isso é um apelo à opinião popular (e, em particular, à tradição) para sugerir que um ato particular é imoral – a menos que alguém faça o argumento adicional de que a moralidade não é nada mais do que as normas aceitas no interior de uma sociedade – quando a opinião popular, em absoluto, não é evidência para a alegação de um ato é moral ou imoral.
Não é errado para jornais passarem adiante rumores sobre escândalos sexuais. Os jornais têm um dever de imprimir histórias que são do interesse público, e o público claramente tem um grande interesse em rumores sobre escândalos sexuais uma vez que, quando os jornais imprimem essas histórias, a circulação deles aumenta.
O livre comércio será bom para este país. A razão está evidentemente clara. Não é óbvio que relações comerciais irrestritas concederão a todas as seções desta nação os benefícios que resultam quando há um fluxo desimpedido de bens entre países?
É claro que o partido no poder sofre oposição a curto prazo, isso é exatamente porque eles querem permanecer por mais tempo no poder.
Um estudante meu contou-me que eu sou seu professor favorito, e eu sei que ela está contando a verdade, porque nenhum estudante mentiria para o seu professor favorito.
Qualquer um que tente violar uma lei, mesmo se a tentativa falhar, deve ser punido. As pessoas que tentam voar estão tentando violar a lei da gravidade, assim eles devem ser punidos.
Há mais budistas do que seguidores de qualquer outra religião, assim deve haver alguma verdade no Budismo.
Exercício dois
Agora tente descobrir suas próprias falácias, tantos aqueles tipos discutidos quanto novos. Aqui estão alguns outros tipos de falácias para você começar. Primeiro, determine a falácia e, em seguida, identifique casos dela:
Falsa causa (dois tipos: non causa pro causa e post hoc ergo propter hoc)
Inversão do acidente (Converse accident)
A falácia do jogador (The player fallacy)
Pergunta carregada (Loaded question)
Conclusão irrelevante (ignoratio elenchi)
Falsa analogia
Envenenando o poço (Poisoning the well)
Questão complexa (Complex question) (dois tipos: composição e divisão)
Bola de neve (Slippery slope)
ORIGINAL:
RODRIGUES, C. T. Informal Fallacies. In: MARTIN, B. Introduction to Philosophy: Logic, Rebus Community: 2020. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-logic/chapter/chapter-4-informal-fallacies/>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0


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