Capítulo 2 Avaliando Argumentos
por Nathan Smith
Uma aplicação particularmente relevante da lógica é a avaliação da força relativa das alegações filosóficas. Embora os tópicos cobertos por filósofos sejam fascinantes, frequentemente é difícil determinar que posições sobre esses tópicos são as corretas. Muitos estudantes são levados a pensar que a filosofia é apenas uma questão de opinião. Afinal, quem poderia alegar conhecer a resposta final para questões filosóficas?
Não é provável de que alguém alguma vez conhecerá a resposta final para questões filosóficas profundas. Todavia, claramente há respostas melhores e piores; e a filosofia pode ajudar-nos a distingui-las. Este capítulo fornecerá a você algumas ferramentas para começar a distinguir quais posições sobre tópicos filosóficos estão bem fundamentas (well-founded) e quais não estão. Quando uma pessoa faz uma alegação sobre um assunto filosófico, você deveria perguntar, “Quais são os argumentos para suportar essa alegação?” Uma vez que você tenha identificado um argumento, você pode usar essas ferramente para avaliar se ele é bom ou ruim, se a evidência e o raciocínio realmente suportam a alegação ou não.
Em termos amplos, há duas características dos argumentos que os tornam bons: (1) a estrutura do argumento e (2) a verdade da evidência fornecida pelo argumento. A lógica lida mais diretamente com a estrutura dos argumentos. Quando examinamos a lógica dos argumentos, nós estamos interessados em se elas têm a arquitetura correta, se a evidência fornecida é o tipo correto de evidência para suportar a conclusão extraída. Contudo, uma vez que nós tentamos avaliar a verdade da conclusão, nós necessitamos saber se a evidência é verdadeira. Nós examinaremos ambas dessas considerações no que se segue.
INFERÊNCIA E IMPLICAÇÃO: PORQUE CONCLUSÕES SEGUEM-SE DAS PREMISSAS
Um argumento é uma série de proposições conectadas, algumas das quais são chamadas de premissas e, pelo menos, uma delas é a conclusão. As premissas fornecem as razões ou a evidência que suportam a conclusão. A partir do ponto de vista do leitor, um argumento pretende persuadir o leitor de que, uma vez que suas premissas sejam aceitas como verdadeiras, a conclusão segue-se a partir delas. Se o leitor aceita as premissas, então ele deve aceitar a conclusão. O ato de raciocínio que conecta as premissas com a conclusão é chamado de uma inferência. Um bom argumento suporta uma inferência racional para a conclusão, um argumento ruim não suporta inferência racional para a conclusão.1
Considere o exemplo seguinte:
Todos os seres humanos são mortais.
Sócrates é um ser humano.
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/∴ Sócrates é mortal.
Esse argumento afirma que Sócrates é mortal. Ele faz isso apelando para o fato de que Sócrates é um ser humano, combinado com a ideia de que todos os seres humanos são mortais. Claramente há uma forte conexão entre premissas e conclusão. Imagine um leitor que aceite ambas as premissas mas negue a conclusão. Essa pessoa teria de acreditar que Sócrates é um ser humano e que todos os seres humanos são mortais, mas ainda negar que Sócrates é mortal. Como poderia uma tal pessoa sustentar essa crença? Apenas não parece racional acreditar nas premissas mas negar a conclusão!
Agora considere o seguinte argumento:
Eu vi um gato preto hoje.
Meu joelho está doendo.
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/∴ Está para chover.
Suponha que, de fato, chova e que a pessoa quem proponha esse argumento acredite que está para chover. Essa pessoa está justificada em sua crença de que choverá? Não baseada no argumento apresentado aqui! Nesse argumento, há uma conexão muio fraca entre as premissas e a conclusão. Assim, mesmo se a conclusão revelar-se verdadeira, não há razão porquê um leitor deva aceitar a conclusão dadas essas premissas (é claro, podem existir outras razões para pensar que está prestes a chover que não são fornecidas aqui). O ponto é que essas premissas não fornecem o tipo correto de evidência para justificar a conclusão.
Até agora, eu descrevi a conexão entre premissas e conclusão em termos da exigência psicológica colocada sobre o leitor do argumento. Todavia, nós podemos descrever essa conexão a partir de outra perspectiva. Nós podemos dizer que as premissas de um argumento implicam logicamente uma conclusão. Qualquer maneira de falar está correta. O que elas afirmam é que bons argumentos apresentam uma conexão forte entre a verdade das premissas e a verdade da conclusão. Nas próximas poucas sessões, nós examinaremos três tipos diferentes de conexão lógica, cada um com suas próprias regras de avaliação. Algumas vezes a implicação lógica está garantida (como no caso de argumentos dedutivos), algumas vezes a conexão lógica apenas assegura que a conclusão é provável (como com argumentos indutivos e abdutivos).
ARGUMENTOS DEDUTIVOS
Argumentos dedutivos são o tipo mais comum de argumentos em filosofia, e por boa razão. Argumentos dedutivos tentam demonstrar que a conclusão necessariamente se segue a partir das premissas. Enquanto as premissas de um bom argumento dedutivo forem verdadeiras, a conclusão é verdadeira como uma questão de lógica. Isso significa que, se eu sei que as premissas são verdadeiras, eu conheço com cem por cento de certeza que a conclusão também é verdadeira! Isso pode ser difícil de acreditar; afinal, como nós podemos estar absolutamente certo sobre alguma coisa? Mas observe o que eu estou dizendo: eu não estou dizendo que nós estou dizendo que sei que a conclusão é verdadeira com cem por cento de certeza. Eu estou dizendo que nós podemos ficar com cem por cento de certeza de que a conclusão é verdadeira, com a condição de que as premissas sejam verdadeiras. Se uma das premissas é falsa, então a conclusão não está garantida.
Aqui estão dois exemplos de bons argumentos dedutivos. Ambos são válidos e têm premissas verdadeiras. Um argumento válido é um argumento cujas premissas garantem a verdade da conclusão. Quer dizer, se as premissas são verdadeiras, então é impossível para a conclusão ser falsa. Um argumento dedutivo válido cujas premissas são verdadeiras é chamado de um argumento correto (sound).
Se choveu do lado de fora, então as ruas estarão molhadas.
Choveu do lado de fora.
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/∴ As ruas estão molhadas.
Ou o mundo acabou em 12 de dezembro de 2012, ou ele continua até hoje.
O mundo não acabou em 12 de dezembro de 2012.
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/∴ O mundo continua hoje.
Esperançosamente, você pode ver que esses argumentos apresentam uma estrita conexão entre as premissas e conclusão. Parece impossível negar a conclusão enquanto aceitando que as premissas são todas verdadeiras. Isso é o que os torna argumentos dedutivos válidos. Para mostrar o que acontece quando argumentos similares empregam premissas falsas, considere os exemplos seguintes:
Se a Rússia vence a Copa do Mundo da FIFA de 2018, então a Rússia é o campeão mundial dominante da FIFA [em 2019].
A Rússia venceu a Copa do Mundo da FIFA de 2018.
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/∴ A Rússia é o campeão mundial dominante da FIFA [em 2019].
Ou a neve está fria ou a neve está seca.
A neve não está fria.
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/∴ A neve está seca.
Você pode reconhecer que esses argumentos possuem a mesma estrutura que os dois argumentos anteriores. Você pode reconhecer que os argumentos têm a mesma estrutura que os dois argumentos anteriores. Quer dizer, cada um expressa a mesma conexão entre as premissas e a conclusão, e todos eles são dedutivamente válidos. Contudo, esses dois últimos argumentos têm, pelo menos, uma premissa falsa, e essa premissa é a razão pela qual esses argumentos, de outra forma válidos, alcançam uma conclusão falsa. No caso desses argumentos, a estrutura é boa, mas a evidência é ruim.
Argumentos dedutivos são ou válidos ou inválidos por causa da forma ou estrutura do argumento. Eles são corretos (sound) ou incorretos (unsound) baseados na forma mais o conteúdo. Você pode tornar-se familiar com algumas das formas comuns de argumentos (muitas delas têm nomes) e, uma vez que você o fizer, você será capaz de dizer quando um argumento dedutivo é inválido.
Agora, examinemos alguns argumentos dedutivos inválidos. Eles são argumentos que têm uma estrutura ou forma errada. Talvez você tenha ouvido um argumento divertido como os seguintes:
A grama é verde.
O dinheiro é verde.
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/∴ A grama é dinheiro.
Aqui está outro argumento do mesmo argumento:
Todos os tigres são felinos.
Todos os leões são felinos.
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/∴ Todos os tigres são leões.
Esses argumentos são exemplos da falácia do termo médio não distribuído (undistributed middle term). O nome não é importante, mas você pode reconhecer o que está acontecendo aqui. Os dois tipos de objetos em cada conclusão são, cada um, um membro de um terceiro tipo, mas eles não são membros do tipo um do outro. Assim, as premissas são todas verdadeiras, mas as conclusões são falsas. Se você encontrar um argumento com essa estrutura, você saberá que ele é inválido.
Mas o que você faz quando não consegue reconhecer imediatamente quando um argumento é inválido? Um contraexemplo é um cenário no qual as premissas do argumento são verdadeiras enquanto a conclusão claramente é falsa. Isso automaticamente demonstra que é possível para as premissas do argumento serem verdadeiras e a conclusão, falsa. Assim, um contraexemplo demonstra que o argumento é inválido. Afinal, validade requer que, se todas as premissas forem verdadeiras, a conclusão possivelmente não possa ser falsa. Considere o argumento seguinte, o qual é um exemplo de uma falácia chamada de afirmação do consequente (affirming the consequente):
Se choveu do lado de fora, então as ruas estarão molhadas.
As ruas estão molhadas.
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/∴ Choveu do lado de fora.
Você pode imaginar um cenário onde as premissas são verdadeiras mas a conclusão é falsa?
E se um cano principal (water main) quebrasse e inundasse as ruas? Então as ruas estariam molhadas, mas pode não ter chovido. Ainda permaneceria verdadeiro que se tivesse chovido, as ruas estariam molhadas, mas nesse cenário, mesmo se não tivesse chovido, as ruas ainda estariam molhadas. Assim, o cenário onde um cano principal quebra demonstra que esse argumento é inválido.
O método do contraexemplo também pode ser aplicado a argumentos onde não há cenário claro que torne as premissas verdadeiras e a conclusão falsa, mas nós o aplicaremos um pouco diferentemente. Nesses casos, nós precisamos imaginar outro argumento que tem exatamente as mesmas premissas que o argumento em questão, mas usa proposições que mais facilmente produzem um contraexemplo. Suponha que eu fizesse o argumento seguinte:
A maioria das pessoas que vive perto da costa sabe nadar.
Mary vive perto da costa.
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/∴ Mary sabe nadar.
Eu não sei se Mary sabe nadar, mas eu sei que esse argumento não nos fornece razões suficientes para saber se Mary sabe nadar. Eu posso demonstrar isso imaginando outro argumento com a mesma estrutura que esse argumento, mas as premissas desse argumento claramente são verdadeiras enquanto que sua conclusão é falsa:
A maioria dos meses no ano civil (calendar year) têm pelo menos 30 dias.
Fevereiro é um mês do ano civil.
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/∴ Fevereiro tem pelo menos 30 dias.
Para revisar, argumentos dedutivos parecem levar a uma conclusão que deve ser verdadeira se todas as premissas são verdadeiras. Mas há muitas maneiras pelas quais um argumento pode prosseguir errado. A fim de avaliar um argumento dedutivo, nós devemos responder às seguintes questões:
As premissas são verdadeiras? Se as premissas não são verdadeiras, então, mesmo se o argumento for válido, a conclusão não é garantida de ser verdadeira.
A forma do argumento é uma forma válida? O argumento tem exatamente a mesma estrutura que um dos argumentos inválidos notados neste capítulo ou em outras partes deste livro?2
Você pode inventar um contraexemplo para o argumento? Se você pode imaginar um caso no qual as premissas forem verdadeiras mas a conclusão for falsa, então você tem demonstrou que o argumento é inválido.
ARGUMENTOS INDUTIVOS
Quase toda a lógica formal ensinada para estudantes de filosofia é dedutiva. Isso é porque nós temos um sistema formal muito bem estabelecido, chamado de lógica de primeira ordem (first-order logic), que explica a validade dedutiva.3 Por outro lado, a maior parte das inferências que nós fazemos diariamente são indutivas ou abdutivas. O problema é que a lógica governando inferências indutivas e abdutivas é significativamente mais complexa e mais difícil de formalizar das que as inferências dedutivas.
A principal diferença entre argumentos dedutivos e indutivos ou abdutivos é que, enquanto os primeiros argumentos objetivam garantir a verdade da conclusão, os últimos apenas objetivam assegurar que a conclusão é mais provável. Mesmo as conclusões dos melhores argumentos indutivos e abdutivos ainda podem revelar-se falsas. Consequentemente, nós não nos referimos a esses argumentos como válidos ou inválidos. Antes, argumentos com boas inferências indutivas e abdutivas são fortes; com premissas ruins, são fracos. De maneira similar, argumentos indutivos ou abdutivos fortes com premissas verdadeiras são chamados de cogentes.
Aqui está uma tabela para ajudar você a lembrar-se dessas distinções:
Inferências indutivas tipicamente envolvem um apelo à experiência passada a fim de inferir alguma alegação adicional diretamente relacionadas àquela experiência. Nessa formulação clássica, inferências indutivas movem-se a partir de instâncias observadas para instâncias não observadas, raciocinando que o que ainda não foi observado assemelhar-se-á ao que foi observado antes. Generalizações, inferências estatísticas e previsões sobre o futuro são todas exemplos de argumentos indutivos.4 Um exemplo clássico é o seguinte:
O Sol nasceu hoje.
O Sol nasceu ontem.
O Sol tem nascido em cada dia da história humana.
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/∴ O Sol nascerá amanhã.
Você pode perguntar-se porque essa conclusão é meramente provável. Há algo mais certo do que o fato de que o Sol nascerá amanhã? Bem, não muito. Mas, em certo ponto no futuro, o Sol, como todas as outras estrelas, extinguir-se-á e sua luz tornar-se-á tão fraca que não haverá nascer do sol sobre a Terra. Mais radicalmente, imagine um asteroide perturbando a rotação da Terra de maneira que ela falhe em girar em coordenação com nossos relógios de 24 horas – nesse caso, o Sol também falharia em nascer amanhã. Finalmente, qualquer inferência sobre o futuro sempre precisa conter um grau de incerteza porque nós não podemos estar certos de que o futuro assemelhar-se-á ao passado. Assim, mesmo embora a inferência seja muito forte, ela não nos fornece cem por cento de certeza.
Consideremos a inferência seguinte, muito similar, a partir da perspectiva de uma galinha:
Quando o fazendeiro veio ao viveiro ontem, ele trouxe-nos comida.
Quando o fazendeiro veio ao viveiro anteontem, ele trouxe-nos comida.
Cada dia, do qual eu consigo lembrar, o fazendeiro veio ao viveiro para nos trazer comida.
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/∴ Quando o fazendeiro vier hoje, ele nos trará comida.
A partir da perspectiva de uma galinha, essa inferência parece igualmente tão provável quanto a anterior. Mas essa galinha ficará surpreendida no dia fatídico em que o fazendeiro vier ao viveiro com uma machadinha para a matar! A partir da perspectiva da galinha, a inferência pode parecer forte, mas a partir da perspectiva do fazendeiro, ela está fatalmente falha. A inferência da galinha compartilha algumas similaridades com o exemplo seguinte:
Uma pesquisa recente de mais de 5000 pessoas no EUA descobriu que 85% deles são membros da National Rifle Association.
A pesquisa descobriu que 98% dos respondentes era forte ou muito fortemente opostos a qualquer regulamento de armas de fogo.
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/∴ O suporte aos direitos a armas de fogo (gun rights) é muito forte nos EUA.
Enquanto a conclusão desse argumento pode ser verdadeira e certamente pareça ser suportada pelas premissas, há uma fraqueza-chave que enfraquece o argumento. Você pode suspeitar de que esses números de pesquisa apresentem suporte incomumente alto para armas de fogo, mesmo nos EUA.5 Assim, você pode suspeitar de que alguma coisa está errada com os dados. Mas se eu contar a você que essa pesquisa foi feita do lado de fora de uma feira de armas (gun show), então você deverá compreender que os dados podem estar corretos, mas que a amostra está claramente distorcida (flawed). Isso revela algo importante sobre inferências indutivas. Inferências indutivas dependem de se o conjunto amostra de experiências a partir do qual a conclusão é extraída é representativo da população inteira descrita na conclusão. Nos casos da galinha e dos direitos de armas, são fornecido-nos amostras que não são representativas das populações na conclusão. Se nós queremos generalizar sobre o comportamento de fazendeiros de galinhas, nós precisamos tirar amostras da variedade dos comportamentos nos quais um fazendeiro envolvem-se. De modo similar, se nós queremos fazer uma alegação sobre as preferências de controle de armas nos EUA, nós precisamos ter uma amostra que represente todos os Americanos, não apenas aqueles que frequentam feiras de armas. A amostra de experiências em um argumento indutivo precisa ser representativa da conclusão a partir da qual ela é extraída.
Para revisar, fortes inferências indutivas levam a conclusões que são tornadas mais prováveis pelas premissas, mas não garantidas de ser verdadeiras. Tipicamente eles são usados para fazer generalizações, inferir probabilidades estáticas e fazer previsões sobre o futuro. Para avaliar uma inferência indutiva, você deve usar as seguintes diretrizes:
São as premissas verdadeiras? Exatamente como os argumentos dedutivos, argumentos indutivos requerem premissas verdadeiras para inferir que a conclusão é provável de ser verdadeira.
Os exemplos citados nas premissas são uma amostra suficientemente grande? Quão maior a amostra, maior a probabilidade de que ela seja representativa da população como um todo e, dessa maneira, maior a probabilidade de que as inferências indutivas nela baseadas será verdadeira.
ARGUMENTOS ABDUTIVOS
Argumentos abdutivos produzem conclusões que tentam explicar os fenômenos encontrados nas premissas. A partir de um ponto de vista do senso comum, nós podemos pensar em inferências abdutivas como “lendo entre as linhas,” “usando pistas de contexto,” “somando dois e dois.” Nós tipicamente usamos essas frases para descrever uma inferência de uma explicação que não está explicitamente fornecida. Por isso é que argumentos indutivos frequentemente são chamados de uma “inferência à explicação melhor (inference to the best explicanation).” A partir de uma perspectiva científica, a abdução é uma parte crítica da formação de hipóteses. Considerando que o clássico “método científico” ensina que a ciência é dedutiva e que o propósito da experiência é testar uma hipótese (confirmando ou desconfirmando uma hipótese), nem sempre é claro como cientistas chegam a uma hipótese. A abdução fornece uma explicação de como os cientistas geram hipóteses prováveis para teste experimental.
Apesar de Sherlock Holmes ser famoso por declarar, no curso de suas investigações, “Dedução, meu querido Watson,” ele provavelmente deveria ter dito “Abdução”! Considere a inferência seguinte:
O corpo da vítima tem muitos ferimentos à faca (stab wounds) em seu lado direito.
Há evidência de uma luta entre o assassino e a vítima.
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/∴ O assassino era canhoto (left-handed).
Você deve reconhecer que a conclusão não está garantida pelas premissas e, dessa forma, não é um argumento dedutivo. Adicionalmente, o argumento não é indutivo, porque a conclusão não é simplesmente uma extensão a partir de experiências passadas. Esse argumento tenta fornecer a explicação melhor para a evidência nas premissas. Em uma briga, é muito provável que duas pessoas estejam de pé face a face. Igualmente, o assassino provavelmente atacou com sua mão dominante. Seria não natural para uma pessoa destra (right-handed) esfaquear com sua mão esquerda, ou esfaquear uma pessoa encarando do lado direito. Assim, o fato de que o assassino é canhoto fornece a explicação mais provável para is ferimentos à faca.
Você usa esses tipos de inferência regularmente. Por exemplo, suponha que quando você chega em casa do trabalho, você nota que a porta de seu apartamento está aberta e vários itens de seu refrigerador estão fora, sobre o balcão. Você poderia inferir que seu colega de quarto está em casa. É claro, não é garantido que essa explicação seja verdadeira. Por exemplo, você pode ter esquecido de trancar a porta e guardar sua comida devido à urgência para sair pela porta. Inferências abdutivas tentam raciocinar para a conclusão mais provável, não para aquela que é garantida de ser verdadeira.
O que torna uma inferência abdutiva forte ou fraca? Boas explicações devem levar em conta toda evidência disponível. Se a conclusão deixa de fora alguma evidência como não explicada, então ela provavelmente não é um argumento forte. Adicionalmente, alegações extraordinárias requerem evidência extraordinária. Se uma explicação requer uma crença em alguma entidade inteiramente nova ou sobrenatural, ou simplesmente requer que revisemos profundamente crenças sustentadas, então nós devemos exigir que a evidência para essa explicação seja muito sólida. Finalmente, quando avaliando explicações alternativas, nós devemos atentar para o conselho da “Navalha de Ockham (Ockham’s Razor).” Guilherme de Ochkam argumentava que, dadas duas explicações quaisquer, a mais simples é provável de ser verdadeira. Em outras palavras, nós devemos ser céticos de explicações que requerem mecânicas complexas, embargos e exceções extensas, ou um conjunto extremamente preciso de circunstâncias, para serem verdadeiras.6
Considere os argumentos seguintes com premissas idênticas:
Tem havido centenas de histórias sobre objetos estranhos no céu noturno.
Há alguma evidência em vídeo desses objetos estranhos.
Algumas pessoas recordaram-se de encontros com formas de vida extraterrestre.
Não há explicações científicas revisadas por pares (peer-reviewed) de formas de vidas extraterrestres visitando a terra.
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/∴ Deve haver uma vasta conspiração negando a existência de alienígenas.
Tem havido centenas de histórias sobre objetos estranhos no céu noturno.
Há alguma evidência em vídeo desses objetos estranhos.
Algumas pessoas recordaram-se de encontros com formas de vida extraterrestre.
Não há explicações científicas revisadas por pares (peer-reviewed) de formas de vidas extraterrestres visitando a terra.
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/∴ As histórias, vídeos, e recordações provavelmente são o resultado de confusão, confabulação ou exagero, ou falsificações completas.
Qual é a explicação mais provável?
Para revisar, inferências abdutivas afirmam uma conclusão que as premissas não garantem, mas que objetivam fornecer a explicação mais provável para os fenômenos detalhados nas premissas. Para avaliar a força de uma inferência abdutiva, use as seguintes diretrizes:
Toda a evidência relevante é fornecida? Se fragmentos críticos de informação estão faltando, então pode não ser possível saber qual é a explicação certa.
A conclusão explica toda a evidência fornecida? Se a conclusão falha em explicar alguma parte da evidência, então ela pode não ser a explicação melhor.
Alegações extraordinárias requerem evidência extraordinária! Se a conclusão afirma alguma coisa nova, surpreendente, ou contrária a explicações padrões, então a evidência deve ser igualmente atraente (compelling).
Use a Navalha de Ockham (Ochkham’s Razor); reconheça que a mais simples de duas explicações é provável de ser a correta.
EXERCÍCIOS
Exercício Um
Para cada argumento decida se ele é dedutivo, indutivo ou abdutivo. Se ele contém mais do que um tipo de inferência, indique quais.
Exemplo:
Todo ser humano tem um coração,
Se alguma coisa tem um coração, então ela tem um fígado
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/∴ Todo ser humano tem um fígado
Resposta: Esse é um argumento dedutivo porque ele tenta mostrar que é impossível para a conclusão ser falsa se as premissas são verdadeiras.
1.
Galinhas da minha fazenda desapareceram,
Minha fazenda fica na zona rural britânica,
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/∴ Há raposas matando minhas galinhas.
2.
Todos os flamingos são pássaros rosados,
Todos os flamingos são criaturas que respiram fogo,
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/∴ Alguns pássaros rosados são criaturas que respiram fogo.
3.
Toda sexta-feira até agora a cafeteria tem servido peixe e batatas fritas,
Se a cafeteria está servindo peixe e batatas fritas e eu quero peixe e batatas fritas, então eu deverei trazer £4.
Se a cafeteria não está servindo peixe e batatas fritas, então eu não deverei trazer £4.
Eu sempre quero peixe e batatas fritas.
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/∴ Eu deverei trazer £4 na próxima sexta-feira.
4.
Se Bob Dylan ou Italo Calvino fossem premiados com o Prêmio Nobel em Literatura, então as escolhas feitas pela Academia Sueca seriam respeitáveis,
As escolhas feitas pela Academia Sueca não são respeitáveis,
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/∴ Nem Bob Dylan nem Italo Calvino foram premiados com o Prêmio Nobel de Literatura.
5.
Em todos as partidas que o Boston Red Sox jogou até agora nessa temporada ele tem sido melhor do que a oposição,
Se um time joga melhor do que sua oposição em todo jogo então ele vence a World Series
------------------------------
/∴ O Boston Red Sox vencerão a liga.
6.
Há luzes acesas no quarto da frente e há barulhos vindo do andar de cima,
Se há barulhos vindo do andar de cima, então Emma está na casa,
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/∴ Emma está na casa.
Exercício Dois
Dê exemplos de argumentos que têm cada uma das seguintes propriedades:
Correto (sound)
Válido, e tem, pelo menos, uma premissa falsa e uma conclusão falsa
Válido, e tem, pelo menos, uma premissa falsa e uma conclusão verdadeira
Inválido, e tem, pelo menos, uma premissa falsa e uma conclusão falsa
Inválido, e tem, pelo menos, uma premissa falsa e uma conclusão verdadeira
Inválido, e tem premissas verdadeiras e uma conclusão verdadeira
Inválido, e tem premissas verdadeiras e uma conclusão falsa
Forte, mas inválido [Dica: pense em argumentos indutivos.]
ORIGINAL:
SMITH, N. Evaluating Arguments In: MARTIN, B. Introduction to Philosophy: Logic, Rebus Community: 2020. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-logic/chapter/chapter-2-evaluating-arguments/>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 Isso não significa que argumentos ruins não possam ser psicologicamente persuasivos. De fato, pessoas são frequentemente persuadidas por argumentos ruins. Contudo, uma boa avaliação filosófica de um argumento deve depender puramente da racionalidade de suas inferências.
2 Os capítulos 3 e 4 desta Introdução tratam de tipos de falácias. Falácias são apenas erros sistemáticos cometidos no interior de argumentos. Você pode aprender mais exemplos de argumentos inválidos nesses capítulos.
3 O capítulo 3 introduz lógica formal.
4 Você pode notar que a inferência da seção anterior sobre Mary ser capaz de nada poderia ser reformulada como um tipo de argumento indutivo. Se é verdadeiro que a maior das pessoas que vive perto da costa sabe nada e Mary vive perto da costa, então segue-se que Mary provavelmente sabe nadar. Isso demonstra uma importante diferença entre argumentos dedutivos e indutivos.
5 Ver, por exemplo, recente pesquisa Gallup: 2019. “Guns.” http://news.gallup.com/poll/1645/guns.aspx
6 Embora a Navalha de Ockham seja uma boa regra prática (rule of thumb) na avaliação de explicações, há um debate considerável entre filósofos da ciência sobre se a simplicidade é ou não uma característica de boas explicações científicas.

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