quarta-feira, 13 de julho de 2022

Uma Introdução à Epistemologia - Introdução ao Livro

Uma Introdução à Epistemologia


Introdução ao Livro: o que é Epistemologia?


por Brian C. Barnett


Resultados de Aprendizagem

Após o fim da introdução ao livro, os leitores serão capazes de:

  1. Definir “epistemologia.”

  2. Identificar as questões centrais da epistemologia.

  3. Distinguir entre o epistêmico e o não epistêmico.

  4. Traçar o desenvolvimento da epistemologia como ela gradualmente se expandiu além de suas fronteiras tradicionais através de váriasviradas (turns)ou mudanças (shifts), cada um estabelecendo um importante novo ramo do campo de estudo.


Epistemologia: Uma Explicação em Verso

Epistemologia! “O que eu posso conhecer?”

E por que isso importa e como isso ocorre?

Essa coisa é importante, pois alguém não pode viajar

A estrada do sábio, se alguém não pode desrendar

O verdadeiro a partir do falo, o sentido a partir do balbucio

O sólido e firme a partir da gota e do sujo. (xxi)


Jacob M. Held

Unsettled Meddling: An Introduction in Verse”

em D. Seuss and Philosophy: Oh, the Thinks You Can Think!


PARTE 1 – EPISTEMOLOGIA TRADICIONAL: CAPÍTULOS 1-4


Epistemologia – como tradicionalmente construída – é o estudo do conhecimento. Seu nome deriva-se a partir do grego epistêmê, o qual se traduz como “conhecimento” ou “entendimento.” Esse estudo inclui quatro questões principais:

  • A Questão O-Que-É: O que é Conhecimento?

  • A Questão da Justificação: O que torna uma crença razoável ou racional ou justificada?

  • A Questão da Fonte: Quais são as fontes últimas de conhecimento (ou justificação)?

  • A Questão do Escopo: O que (se alguma coisa) nós conhecemos (ou podemos conhecer)?

A parte I deste volume cobre cada uma dessas questões por vez. No capítulo 1 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/the-analysis-of-knowledge/), Brian C. Barnett trata da Questão O-Que-É, começando com a visão de Platão de que conhecimento é “crença verdadeira justificada (justified true belief)” (para o expressar em termos padrões modernos). Uma crença justificada é uma crença apoiada por boas razões. Mais especificamente, o conhecimento requer boas razões que são indicativas da verdade, enquanto opostas a razões práticas, estéticas ou morais. Razões dirigidas à verdade (e o tipo de justificação que elas suprem) são epistêmicas, significando que elas dizem respeito ao conhecimento. A justificação epistêmica recebe atenção especial na epistemologia, em parte porque é o componente de conhecimento único ao campo de estudo. Em contraste, verdade e crença são tópicos compartilhados com outros domínios filosóficos (a verdade, com a filosofia da linguagem e a lógica, e a crença, com a filosofia da mente).

Dessa forma, a Questão O-Que-É conduz-nos diretamente para a Questão da Justificação. No capítulo 2 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemic-justification/), Todd R. Long teoriza sobre justificação epistêmica, incluindo teorias “internalistas” (nas quais a justificação é determinada unicamente por fatores internos à mente) e teorias “externalistas” (as quais admitem fatores externos à mente). Internalistas e externalistas de modo idêntico reconhecem tanto a razão quando a experiência como fontes justificatórias. Mas, pode toda a justificação, em última análise, ser traçada a uma fonte fundamental?

A Questão da Origem dominou muito da inicial filosofia britânica moderna. No capítulo 3 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/sources-of-knowledge-rationalism-empiricism-and-the-kantian-synthesis/), K. S. Sageentha refere-se à clássica disputa entre “empiristas” (quem aceitam a experiência ser primária) e “racionalistas” (quem postulam uma inata capacidade racional, anterior a toda experiência) que culminou na síntese das duas posições, articulada por Immanuel Kant. Debates em torno da interpretação e do sucesso da visão de Kant acionaram a famosa (infame) divisão analítico-continental na filosofia.1 Esses debates também foram parcialmente responsáveis pelo revigora mento da antiga posição filosófica do “ceticismo,” ou, da dúvida significante sobre nossa capacidade para conhecimento (ou justificação). Isso nos leva à Questão do Escopo.

O ceticismo surge em uma variedade de formas, variando do “ceticismo específico de domínio” (por exemplo, dúvidas sobre conhecimento religioso ou moral) ao “ceticismo global” (a visão de que nós não conhecemos absolutamente nada). No capítulo 4 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/skepticism/), Daniel Massey ilumina com um holofote uma influente forma intermediária: o ceticismo sobre um mundo independente da mente. Após explicar o argumento mais popular para esse “ceticismo em relação ao mundo externo” (devido a Descartes), Massey avalia duas proeminentes estratégias para ser céticos sobre tal ceticismo.


PARTE II – EPISTEMOLOGIA EXPANDIDA: CAPÍTULOS 5-8


Um fato familiar sobre a filosofia é que respostas tendem a gerar questões adicionais. A epistemologia tradicional não é exceção. Novos quebra-cabeças surgiram diretamente a partir do projeto tradicional. Novas questões também surgiram quando conexões foram estabelecidas entre a epistemologia e as outras áreas do pensamento (tanto dentro quanto fora da filosofia). Além disso, alguns epistemólogos tornaram-se insatisfeitos com as suposições e prioridades tradicionais. Esses desenvolvimentos não substituíram a epistemologia tradicional tanto quanto a expandiram. A parte II do volume é dedicada a essa epistemologia expandida.

As fronteiras tradicionais da epistemologia foram estendidas em várias novas direções ou “viradas (turns).Uma “virada (turn),” no sentido intencionado, é uma mudança principal no foco de uma disciplina acadêmica para uma nova ou anteriormente subvalorizada abordagem ou tópico. Viradas não têm de ocorrer em sucessão histórica distinta, e elas não são necessariamente em relação a toda a disciplina (discipline-wide), mas elas são suficientemente significantes para terem um impacto duradouro. A virada valorativa (value turn) em epistemologia reviveu a motivação original de Platão na busca da Questão O-Que-É: explicar porque o conhecimento é valioso.2 o objetivo expandido é explicar o “valor epistêmico” no geral (incluindo o valor da verdade, da justificação, da investigação e da virtude intelectual). Uma explicação completa do valor epistêmico precisa tratar da relação entre ele e o valor em outros domínios (ou seja, prático, estético e moral). Dessa forma, a virada valorativa conduziu a epistemologia e a ética a um diálogo estreito e instigou o debate sobre a “ética da crença (ethics of belief).” Guy Axtell navega através dessas questões normativas no capítulo 5 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemic-value-duty-and-virtue/).

Enquanto alguns buscam conectar a epistemologia com a ética, outros preferem tornar a epistemologia mais rigorosa importando métodos “formais” da linguística, lógica e matemática. Um desenvolvimento importante nessa virada formal (formal turn) vinculou a justificação ao grau ao qual a crença de alguém é tornada provável pela evidência, o qual pode ser modelado por fórmulas (por exemplo, o teorema de Bayes) na teoria matemática da probabilidade. Aplicar essa ideia ao teste de hipóteses empíricas resulta em uma teoria da confirmação científica, a qual pode ser utilizada na filosofia da ciência. Jonathan Lopez “formaliza” a epistemologia e examina sua aplicação científica no capítulo 6 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemology-probability-and-science/).

A epistemologia formal e a conduzida por valor inicialmente herdaram, a partir da epistemologia tradicional, seu foco nos indivíduos considerados no abstrato. Essa idealização ignora que as pessoas são epistemicamente afetadas por sua situacionalidade (situadness) social. Nós trocamos conhecimento com outros, descordamos uns dos outros e envolvemo-nos em investigação e tomada de decisão colaborativas. A explicação de dimensões sociais produz a virada social (social turn) em epistemologia. William D. Rowley lança os fundamentos da “epistemologia social” no capítulo 7 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/social-epistemology/).

Em suas fases iniciais, até a epistemologia social ignorou o “ponto de vista (standpoint) epistêmico” – como alocalização social(por exemplo, gênero, orientação sexual, raça, etnia, religião, in/capacidade, status econômico) de alguém influencia sua perspectiva sobre o mundo. O ponto de vista é epistemicamente significante porque ele dá forma à experiência, a como alguém pensa, à informação à qual alguém tem acesso e como os outros julgam a credibilidade de alguém. Embora a epistemologia feminista trouxe o ponto de vista à tona, o trabalho dela pode fornecer uma estrutura para epistemólogos de uma variedade de localizações sociais. Por essa razão, nós podemos “epistemologias feministas” (plural) como representativas, estendendo-se além das perspectivas feministas. Monica C. Poole conclui este volume no capítulo 8 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/feminist-epistemologies/) com uma introdução a epistemologias feministas amplamente construídas.

Conforme a epistemologia se expandiu, aplicações no mundo real tornaram-se crescentemente importante. Enquanto os epistemólogos historicamente se fixaram em questões altamente teóricas, muito removidas a partir da vida real, algum trabalho recente presta atenção a problemas cotidianos: desacordo político/religioso/moral, fake news, echo chambers, discernimento de especialistas a partir de novatos, discriminação induzida por ignorância, padrões comunais para investigação, e mais. Uma vez que questões aplicadas são consideradas melhor junto com as teorias epistemológicas adequadas para as tratar, essa vida aplicada (applied turn) não é exemplificada em seu próprio capítulo, mas via exemplos que ocorrem ao longo do volume.


Epistemologia Reconstruída

Deveria ser claro por agora que o projeto expandido em muito ultrapassa o tradicional. Então, o que é epistemologia, exatamente? Infelizmente, a definição tradicional permanece em uso comum. Mas deveriam os filósofos da justificação, da investigação ou do entendimento serem expulsos da comunidade epistemológica se eles também não filosofam sobre o conhecimento por si? Certamente não. Tais filósofos consideram-se epistemólogos, ensinam cursos de epistemologia, proferem palestras de epistemologia, publicam em jornais de epistemologia e são contados como companheiros epistemólogos mesmo por tradicionalistas comprometidos. Assim, uma definição mais inclusiva é desejável.

A plausibilidade-chave existe no reconhecimento de que todos os epistemólogos estudam temas que dizem respeito ao conhecimento em algum aspecto ou outro, mesmo se apenas vaga ou indiretamente. Por exemplo, a justificação é requerida para o conhecimento, o objetivo da investigação é alcançar o conhecimento (ou dissipar a ignorância) e as virtudes intelectuais (por exemplo, entendimento, curiosidade, humildade e abertura de mente (open-mindedness)) facilitam a investigação. Portanto, o conhecimento pode continuar a servir como pedra de toque (touchstone) para a identificação dos tópicos relevantes, apesar de alguém não necessitar nem estudar nem priorizar o conhecimento mesmo. Essa mudança é sútil, mas crucial: A epistemologia começou como o estudo do conhecimento, mas ela torna-se o estudo do epistêmico.3


Questões para Reflexão


  1. A questão “Deus existe?” não é uma questão epistemológica. Primeiro, explique a razão. Em seguida, identifique quatro questões relacionadas que são epistemológicas – uma para cada uma das tradicionais questões principais da epistemologia.

  2. Considere dois cenários, somente um dos quais exibe uma razão epistêmica para crença. Qual e por quê?

    1. Cenário 1: Eles acreditam que seu favorito time esportivo vencerá o jogo – meramente porque eles desesperadamente querem que isso aconteça.

    2. Cenário 2: Eles acreditam que seu favorito time esportivo vencerá o jogo – desta vez porque o time deles tem um histórico (track record) melhor do que o outro time.

  3. Nomeie e descreve as quatro “viradas (turns)” na história da epistemologia. Como elas – tanto individual quanto coletivamente – transformaram o campo de estudo?

  4. De que maneira é a mudança a partir da tradicional para a definição expandida de epistemologia “sútil”? O que a definição expandida acrescenta? Por que ela é “crucial”?


REFERÊNCIAS


Held, Jacob M. 2011. “Unsettled Meddling: An Introduction in Verse.” Em Dr. Seuss and Philosophy: Oh, the Thinks You Can Think!, edited by Jacob M. Held, xix–xxii. Lanham, MD: Rowman & Littlefield.

Jones, Kile. 2009. “Analytic versus Continental Split.” Philosophy Now: A Magazine of Ideas 74: n.p. https://philosophynow.org/issues/74/Analytic_versus_Continental_Philosophy

Riggs, Wayne. 2008. “The Value Turn in Epistemology.” Em New Waves in Epistemology, editado por Vincent F. Hendricks e Duncan Pritchard, 300–23. New York: Palgrave Macmillan.

Steup, Matthias, and Ram Neta. 2020. “Epistemology.” Em The Stanford Encyclopedia of Philosophy, editada por Edward N. Zalta. https://plato.stanford.edu/entries/epistemology/


Capítulo 1


ORIGINAL:

BARNETT, B.C. Introduction to the Book: What is Epistemology?. In. BARNETT, B.C. Introduction to Philosophy: Epistemology. Rebus Community: 2021. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/front-matter/introduction-to-the-book/>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 Ver Jones (2009), para uma visão global breve, mas perspicaz da divisão analítico-continental.

2 Eu tomo emprestado a sugestão de um “virada valorativa (value turn)” em epistemologia de Riggs (2008), a qual eu expandi aqui para outros desenvolvimentos significante na epistemologia.

3 Para uma tentativa alternativa de caracterizar o que eu chamo de “epistemologia expandida,” ver Steup e Neta (2020). Na abordagem deles, “a epistemologia procura entender um ou outro tipo de ‘sucesso cognitivo’ (ou, correspondentemente, ‘fracasso cognitivo’).” Seria um exercício de valor comparar e contrastar as virtudes e os vícios da abordagens deles com aquelas oferecidas aqui.

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