Uma Introdução à Epistemologia
1 A Análise do Conhecimento
Por Brian C. Barnett
Resultados de Aprendizagem do Capítulo
Ao completar este capítulo, os leitores serão capazes de:
Identificar os principais tipos de conhecimento, as relações entre eles e as características distintivas deles.
Avaliar análises de conceitos e, em particular, a análise tradicional do conhecimento.
Estimar o valor da análise conceitual, incluindo sua relevância para outros tópicos em epistemologia.
Explicar o papel da análise na formação da história do campo de estudo.
INTRODUÇÃO: ANÁLISE CONCEITUAL
O conhecimento é o conceito central da epistemologia tradicional. Mas, o que é conhecimento? Essa é a questão mais básica sobre o conceito central, e, dessa maneira, o ponto de partida apropriado. As respostas tradicionalmente surgem na forma de análise conceitual: um conjunto de conceitos mais básicos a partir dos quais o conceito analisado é construído, arranjado para formar uma definição. O conceito de “quadrado,” por exemplo, é analisável em componentes tais como “figura de quatro lados,” “de ângulos retos,” e “equilátero.”1 O nosso foco aqui é a análise do conhecimento. Mas nós também consideraremos críticas a esse foco, as quais produzirão intuições úteis e levarão a novas direções de investigação. O capítulo termina com uma reflexão sobre o valor da análise conceitual epistemológica.
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Platão, como representado em A Escola de Atenas (detalhe), de Rafael, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público. |
TIPOS DE CONHECIMENTO
Antes do empreendimento da análise, nosso conceito-alvo necessita de refinamento. “Conhecimento” é um termo guarda-chuva, capturando uma família de sentidos relacionados:
Conhecimento de habilidade (procedural): conhecimento-de-como (knowledge-how) (por exemplo, eu sei como andar de bicicleta)
Conhecimento por familiaridade (acquaintance): conhecer uma pessoa, lugar ou coisa (por exemplo, Platão conhecia Sócrates. Ele também conhecia Atenas.)
Conhecimento fenomênico: Conhecer “como é (what it’s like)” ter uma dada experiência (por exemplo, Stella conhece como é o sabor de morangos.)
Conhecimento proposicional: conhecimento-de-que (knowledge-that) (Todo o mundo que lê este capítulo sabe que é sobre conhecimento.)
O que os primeiros três têm em comum é que eles requerem uma experiência direta de seus objetos. Eu sei como andar de bicicleta porque eu pratiquei; eu não sei como pilotar um avião, uma vez que eu careço do treinamento – a despeito de ter memorizado o manual. Platão conhecia Sócrates e Atenas porque ele estudou com o homem e viveu na cidade; Platão não conhecia nem Homero nem Londres, porque ele nem encontrou o poeta, nem visitou a cidade. Platão conhecia de (of) Homero, e proposições sobre (about) ele, mas nada a respeito de Londres. Stella conhece o sabor de morangos (tendo comido-os antes), mas não como é ser um morcego, dada a falta de experiências morcegais (batty)(ver CAIXA 1).2
CAIXA 1 – O Morcego de Nagel
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Thomas Nagel, por Nagelt, via WikimediaCommons. Licença: CC BY-SA 4.0 |
Em seu influente artigo de 1974, “What Is It Like to Be a Bat?”, o filósofo Thomas Nagel explica que para alguma coisa ser consciente, “há alguma coisa que é como ser (it is like to be)” essa coisa – “alguma coisa que é como para (it is like for)” essa coisa ser (436). Dessa forma, a consciência essencialmente tem um “carácter subjetivo” no que ela requer um “ponto de vista” de primeira pessoa. Como tal, nenhum estado consciente pode ser inteiramente apreendido ou explicado a partir de uma perspetiva de terceira pessoa (nem a partir de uma “visão a partir de lugar nenhum (view from nowhere)”, como um olho de Deus). A partir disso, Nagel extrai uma conclusão metafísica: que o mental não pode ser reduzido ao físico. Mais pertinente para este capítulo é uma importante implicação epistemológica: que nós não podemos conhecer “como é (what it’s like)” ter experiências que são radicalmente diferentes daquelas que nós efetivamente tivemos. Ele usa o seu agora famoso exemplo do morcego para ilustrar:
Os morcegos, embora mais de perto relacionados a nós do que outras espécies, mesmo assim, apresentam uma variação de atividade e um aparato sensorial tão diferentes dos nossos que o problema que eu quero colocar está excepcionalmente vívido (embora ele certamente poderia ser levantado com outras espécies). Mesmo sem o benefício de reflexão filosófica, qualquer um que passou algum tempo em um espaço fechado com um morcego sabe como é encontrar uma forma de vida fundamentalmente alienígena.
Eu disse que a essência da crença de que morcegos têm experiências é que há alguma coisa que é como ser um morcego (it is like to be a bat). Agora nós sabemos que a maioria dos morcegos (os microchiroptera, para ser preciso) percebem o mundo primariamente através de sonar, ou ecolocalização, detectando reflexões, a partir de objetos ao alcance, de seus próprios guinchos (shrieks) rápidos, sutilmente modulados, de alta frequência. Os cérebros deles são projetados para correlacionarem os impulsos que se afastam (outgoing) com os ecos subsequentes, e a informação dessa maneira adquirida capacita os morcegos a fazerem discriminações precisas de distância, tamanho, forma, movimento e textura comparáveis àquelas que nós fazemos através da visão. Mas o sonar do morcego, embora claramente uma forma de percepção, não é similar em sua operação a nenhum sentido que nós possuímos, e não há razão para supor que ele seja subjetivamente como qualquer coisa que nós podemos experienciar ou imaginar. Isso parece criar dificuldades para a noção de como é ser um morcego (what is like to be a bat).(438)
Enquanto que a epistemologia oriental e alguma ocidental recente enfatizam conhecimento experiencial (ver Monica C. Poole sobre epistemologias feministas no capítulo 8 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/feminist-epistemologies/) deste volume), a tradicional epistemologia ocidental enfatiza o conhecimento proposicional.3 Tal conhecimento pode ser expresso com uma cláusula que (that-clause), a qual expressa uma proposição: uma afirmação ou alegação com um valor de verdade (truth value)(quer dizer, alguma coisa é ou verdadeira ou falsa).4 A proposição de que este capítulo é sobre conhecimento é verdadeira; a proposição de que ele é sobre fotografia de cachoeiras é falsa.5
O conhecimento proposicional pode ser comunicado ou adquirido interpessoalmente através de evidência ou argumento. Por contraste, o conhecimento experiencial não pode nem ser argumentado nem linguisticamente transferido. Tentar, como eu poderia para descrever o sabor de morangos, não é o mesmo que conhecer como é o sabor deles. Alguém que nunca teve o prazer ainda aprenderá alguma coisa nova em consequência de sua primeira mordida.
A despeito da importância do conhecimento experiencial, nós exploraremos a abordagem tradicional neste capítulo. Então, por uma questão de brevidade, “conhecimento” aqui se refere a sua variedade proposicional.
A ANÁLISE TRADICIONAL
A mais influente análise do conhecimento proposicional deriva-se de Platão (ca. 428-348 a.C.) Em seu diálogo Mênon, o personagem Sócrates (modelado a partir de seu professor na vida real) de Platão argumenta que “o conhecimento difere da opinião correta em estar seguro (tied down)” através de “uma explicação da razão do porquê (why)” ([ca. 380 a.C.] 2009, 98a).6 A tabela mostra como isso se traduz em maneira de falar (parlance) moderna.
Essa tradução produz a análise tradicional do conhecimento ou análise “CVJ”: conhecimento é “crença verdadeira justificada (justified true belief)”. Nessa explicação, há três componentes que se justapõem aos pares, e o conhecimento é a convergência de todos os três (ver Figura 1). Consideremos cada um por vez.
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Figura 1 – A Análise Tradicional |
A. Crença (Belief)
A crença (especificamente crença-de-que7 (belief-that)) significa aceitar a proposição como verdadeira (equivalentemente: aquiescendo com (assenting to) a proposição, pensando que ela é verdadeira, concordando com ela, ou considerando-a como uma opinião/visão). A crença pode variar desde uma leve inclinação para garantia moderada, para certeza absoluta – a inteira metade positiva do espectro da confiança (ver Jonathan Lopez sobre os graus de crença no capítulo 6 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemology-probability-and-science/) deste volume).8 A crença exclui a metade negativa do espectro (descrença (disbelief), ou crença de que a proposição é falsa) e o ponto neutro, a meio caminho (suspensão / retenção (withholding) do julgamento).9 Crença, descrença e suspensão são as principais atitudes doxásticas (posturas sobre o valor de verdade de uma proposição).
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Figura 2 – O Espectro Doxástico |
Na análise tradicional, conhecer uma proposição requer que se acredite nela. Se uma verdade na qual você nunca pensou está “lá fora (out there)” esperando a descoberta, você não conhece essa verdade. Se você está pensando nela agora, mas não forma opinião (suspensão), você ainda não a conhece. É por isso que, quando perguntados sobre o valor de verdade em casos de suspensão, a resposta natural é “eu não sei.” E se você estabeleceu sua opinião contra a proposição (descrença), novamente, você não a conhece. Suponha que eu pergunte, “Você sabe que Marie Curie liderou a Underground Railroad?” Você não dirá, “Sim eu sei disso.” Em vez disso, você a negará e talvez oferecerá uma correção. Essa reação não é melhor explicada pelo que efetivamente é correto, mas pelo que você acredita que é correto, uma vez que você responderia da mesma maneira se a questão antes fosse sobre uma questão onde você estivesse convincentemente enganado (digamos, pela leitura de um erro de impressão em uma livro-texto aparentemente digno de confiança).
A combinação desses pontos concede-nos um argumento de um processo de eliminação. Até agora, nós determinamos que você carece de conhecimento de (a) proposições que você não considerou, (b) proposições sobre as quais você suspendeu o julgamento e (c) proposições nas quais você desacredita. As únicas candidatas remanescentes para o conhecimento são proposições nas quais você acredita, tais como Marie Curie não liderou a Underground Railroad, mas Harriet Tubman liderou.
Uma palavra de cuidado: frequentemente as pessoas conversam frouxamente. Conversa frouxa (loose talk) é a linguagem que é imprecisa por padrões literais estritos – tais como metáfora, aproximação, elipse (omissão de palavra). Esse fenômeno frequentemente causa avaliações erradas de análises conceituais, uma que vez que o sentido da análise é a estrita verdade literal. Considere a expressão “Eu não acredito nisso; eu conheço isso.” Uma interpretação natural é que alguém não meramente acredita nisso, onde “meramente” é omitido para se alcançar brevidade (e para efeito retórico). Nós usamos tal discurso elíptico rotineiramente. Considere: “Ela não é boa em matemática; ela é excelente (great)!” Mas, se ela nem mesmo é boa, ela não é excelente (great), uma vez que a excelência (greatness) é um grau de bondade (goodness). Reescrevamos: “Ela não é apenas boa em matemática; ela é excelente (great).” Isso ilumina o que anteriormente estava disfarçado – que o “não” nega um grau menor antes que completamente a bondade (goodness).10
B. Verdade (Truth)
Crença é uma coisa; verdade é outra. Há verdades não acreditadas (unbelieved) (que a terra era um esferoide oblato muito antes que isso ocorresse a alguém) e falsidades acreditadas (tais como o modelo geocêntrico do universo, por Ptolomeu). A frase problemática “verdadeiro para mim” confunde esse problema. A visão de Ptolomeu pode ter sido “verdadeira para ele,” mas isso meramente significa que ele a aceitava, não que ela era efetivamente verdadeira.
Aceitação e verdade podem separar-se porque a opinião humana não é uma medida perfeita da realidade. Nós somos capazes de erros. Reconhecer isso não é uma fraqueza, mas uma expressão de virtudes intelectuais (tais como honestidade e humildade intelectuais) que motivam investigação, aberta da mente (open-mindedness) e colaboração. Assim como nós algumas vezes reconhecemos nossos próprios erros, nós algumas vezes reconhecemos que os outros estão enganados. A situação pode requerer falar com franqueza sobre isso (de uma forma apropriada); em outros casos, nós devemos manter para nós mesmos. De qualquer maneira, a falsidade prospectiva é a razão pela qual é uma má ideia acreditar exatamente em qualquer coisa que alguém diz. Frequentemente nós precisamos refletir por nós mesmos e formular crenças independentemente. Entre a deferência intelectual e a autonomia existe a investigação virtuosa. (Para mais sobre as dimensões sociais, ver William D. Rowley, sobre epistemologia social, no capítulo7 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/social-epistemology/) deste volume.)
Mas o que é a verdade? Nas famosas palavras de Aristóteles, “Dizer do que é que não é, ou do que não é que é, é falso, enquanto que dizer do que é que é, e do que não é que não é, é verdadeiro” (ca. 350 [a.C.] 2009, 1011b). Isso é um precursor antigo para um moderno ponto de partida popular – a teoria da correspondência: uma proposição é verdadeira se ela corresponde à realidade, e falsa de outra maneira. Embora haja outras teorias alternativas, é possível interpretá-las como diferentes abordagens sobre “correspondência.” Detalhes não importarão aqui.11
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Busto de Aristóteles, da Coleção Ludovisi. Fotografia por Jastrow via Wikimedia Commons. Esse trabalho está no domínio público. |
Somente crenças verdadeiras qualificam-se como conhecimento na análise tradicional. Suponha que você alegue conhecer a resposta para uma questão de trivialidades. A resposta é revelada e você errou. Seus amigos exclamam, “Vê, você não sabia!” Essa reação é perfeitamente natural porque crença falsa não é conhecimento. Isso explica porque professores frequentemente atribuem notas a questões fatuais baseados em se os estudantes dão respostas corretas: o propósito deles em tais casos é testar o conhecimento, e, se os estudantes respondem corretamente, é um tal teste – precisamente por causa da condição da verdade sobre o conhecimento.
Novamente, fala frouxa (loose talk) torce a intuição. Vários livros e um álbum de Weird Al Yankovic são intitulados de Everything You Know Is Wrong. Mesmo Mark Twain supostamente gracejou, “Não é o que você não sabe que coloca você em problemas. É o que você conhece, com certeza, que exatamente não é assim.” Contudo, O Rei da Dinamarca de Shakespeare compreendia-o certo quando proclamou, “o que nós conhecemos deve ser” ([ca. 1600] 1998, I. ii. 98) pois, se não for assim, você realmente não o conhece. Na melhor das hipóteses, você meramente pensa que você conhece. O conhecimento é factivo (implica a verdade), considerando que a crença é não factiva (possivelmente errada).12
C. Justificação
Nós vimos que conhecimento requer crença verdadeira. Mas mesmo crenças verdadeiras podem ser injustificadas. Uma justificação é uma boa razão para crença (ver Todd R. Long no capítulo 2 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemic-justification/) deste volume para explicações teóricas). Na análise tradicional, a justificação é necessária para o conhecimento. Para entender o porque, suponha que você está jogando trivialidades novamente (aparentemente, você está viciado):
“Qual é o nome daquelas minúsculas protuberâncias em amoras silvestres?”
Sua suposição (guess): Opção D – Dupletes
Desesperado para vencer, você racionaliza: “Sim, isso tem de estar correto.”
A resposta é revelada, induzindo sua reação orgulhosa: “Vê, eu sabia!”
Seu amigo observa, “Não, você não sabia. Você estava apenas adivinhando (guessing)!”
A resposta de seu amigo é natural. Ausentes boas razões, alguém não conhece.
Platão oferecia uma analogia. Considere as estátuas do mítico inventor e escultor Dédalo, as quais são ditas serem tão realistas que elas poderiam correr. A menos que elas estivessem amarradas (tether down), você nunca saberia onde as encontrar. Meras crenças verdadeiras são similares a estátuas desamarradas: algumas vezes elas são encontradas por pura sorte. Justificação é semelhante à amarração (tethering): ela ancora crenças verdadeiras em boas razões, transformando-as em conhecimento. Outra analogia frequentemente utilizada é aquela de que a justificação funciona como um mapa de estradas para um destino desejado (a verdade). O conhecimento, como a jornada exitosamente navegada, como as estátuas amarradas, desfruta de um tipo de estabilidade. Isso torna evidente porque a justificação desempenha um papel crucial no valor do conhecimento (ver Guy Axtell no capítulo 5 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemic-value-duty-and-virtue/) deste volume sobre valor epistêmico).
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Dédalo e Ícaro por Antônio Canova. Fotografia por Livioandronico2013 via Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0 |
Aqui, também, a fala frouxa (loose talk) engana: “O termômetro ‘conhece’ a temperatura” – mas certamente carece de justificação. A condição de justificação também é duvidoso se exagerada, como na descrição de Platão. O conhecimento não requer “uma explicação da razão do porquê (why)” uma crença é verdadeira, tanto quanto uma razão de que ela é verdadeira.13 Alguém pode saber que um computador funciona, mas estar sem noção (clueless) do porquê. Uma razão de que (reason-that) não precisa ser sofisticada. Nenhum argumento ou demonstração científica é necessário. Apenas ligue o seu computador e veja-a funcionando, lembre-se disso de memória, ou seja contado por um técnico testando-o. Nem boas razões têm de ser perfeitas. O conceito de bom é mais fraco do que o de perfeito (maximamente bom). Se razões perfeitas fossem requeridas, a justificação seria impossível (meros mortais sempre estão sujeitos a erro).14 Tolerar razões imperfeitas adequa-se a julgamentos cotidianos. Na escola primária, eu tinha razão para acreditar na física newtoniana: eu tinha o testemunho de professores e livros-textos dignos de confiança e nenhuma razão para suspeitar de simplificação excessiva. Minha crença estava justificada – uma crença que, agora, eu reconheço como falsa dadas a mecânica quântica e a relatividade einsteiniana. Crenças justificadas podem se falsas – uma visão chamada de falibilismo sobre justificação (para ser distinguido de falibilismo sobre conhecimento).15 Por essa razão, uma condição de verdade sobre o conhecimento não é redundante.
Outro desafio à condição da justificação é o conhecimento comum atribuído a crianças e animais (não humanos). São tais atribuições meramente fala frouxa? Isso não está claro. Crianças e animais têm um tipo de justificação fraca? Difícil dizer. Talvez eles conheçam sem justificação. Se for assim, nós podemos distinguir entre dois tipos de conhecimento. Crianças e animais tem conhecimento peso-leve (lightweight) (crença verdadeira) mas carecem de conhecimento peso-pesado (heavyweight) – o tipo que nós buscamos além da mera opinião correta, onde adivinhação (guessing) e raciocínio pobre estão excluídos (Hawthorne 2002). A análise tradicional pretende capturar essa variedade peso-pesado.
CONTRAEXEMPLOS À ANÁLISE TRADICIONAL
Uma vez que a justificação parece distinguir entre mera crença verdadeira e conhecimento (peso-pesado), sua adição completa a análise – ou assim ela pareceu por mais de 2400 anos! A análise CVJ tornou-se a herança filosófica ocidental até Edmund Gettier (1917-2021), com seu artigo de três páginas em 1963.16
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Edmund L. Gettier, por DaveGettier, via Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 4.0 |
Gettier argumentou contra a análise tradicional através de contraexemplos (exemplos que refutam). Os seus contraexemplos são casos de CVJ que não são conhecimento. Uma vez que os exemplos originais são intrincados, nós consideraremos exemplos mais simples com a mesma substância (gist). Tais exemplos são chamados de casos de Gettier.
Você está dirigindo através de uma região de criação de ovelhas. Passando por um campo, você aparentemente vê uma ovelha e pensa, “Há uma ovelha no campo.” Normalmente, isso seria suficiente para conhecimento: você tem uma crença, uma percepção visual suporta-a e há uma ovelha no campo. O detalhe desagradável (kicker): você está olhando para uma rocha com a forma de ovelha, ou um lobo em pele de cordeiro!17 Não há maneira de dizer a partir do seu ângulo. Você não tem razão para suspeitar. Então, como é verdadeiro que há uma ovelha no campo? Sem o seu conhecimento, ali acontece de haver uma, fora de vista, em algum canto muito distante do campo. Intuitivamente, você não saber que há uma ovelha.
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Sheep in a Field por Sidney John Bunney via Wikimedia Commons. Esta obra está em domínio público. |
Você pode inicialmente não compartilhar dessa intuição (eu não o fiz, inicialmente). Algumas intuições precisam ser massageadas ou bombeadas até que elas venham à superfície. Há uma bomba de intuição (intuition pump). Considere um cenário revisado: a ovelha real foi removida. Uma vez que ela estava fora de vista, você não foi capaz de detectar nenhuma mudança. Assim, por tudo o que você sabe, nada mudou. Isso significa que o seu estado de conhecimento deveria ser o mesmo que antes. Mas, no cenário revisado, está claro que você não sabe: uma ovelha sobre a qual você não conhece não pode ajudar você a saber que há uma ovelha. Uma vez que o estado de conhecimento está intocado pela revisão, você não conhecia, em primeiro lugar.
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Amuleto em Forma de Ovelha do Peru. Foto por Coyau via Wikimedia Commons. |
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Lobo em Pele de Ovelha, por SarahRichterArt via Pixabay. Esse trabalho está no domínio publico.
Pensadores descobriram esse problema de Gettier muito antes que Gettier o redescobrisse e tornasse-o famoso, incluindo o lógico do século XIV Peter of Mantua (Boh 1985).Tão cedo quando o século VIII, o filósofo budista Dharmottara inventou um caso: um viajante no deserto, vendo uma miragem de água, onde havia água real sob uma rocha, tem crença verdadeira justificada sem conhecimento (Dreyfus 1997). Atravessando tempo e cultura, tais intuições são larga e independentemente atestadas.
CAIXA 2 – O Problema da Loteria
Casos de loteria apresentam um desafio adicional para a análise CVJ. Suponha que você tenha um bilhete na loteria estadual. Você não verificou se ganhou. Mas você raciocina que é um bilhete perdido, dado que ele é apenas um de muito milhões. E você está certo: você perdeu. Você tem uma crença verdadeira justificada, mas, como o mote da loteria do estado de Nova York diz, “Ei, você nunca sabe.”
Assumindo que o mote seja adequado, alguém poderia explicar a falta de conhecimento via a análise CVJ negando a justificação para a crença de que você perdeu. Talvez o que esteja justificado seja a crença de que você provavelmente perdeu. Infelizmente, esse movimento sútil não resolve claramente o problema tanto quanto ele muda-o para um problema separado de justificação. Exatamente como você pode estar errado se você perdeu, você também podem estar errado sobre a probabilidade de perda. Assim, exatamente o mesmo movimento plausivelmente sugere que no que você está justificado é meramente na crença de que é provável que você provavelmente perdeu – uma crença que, então, sucumbe ao mesmo problema tudo de novo. Um regresso ao infinito é gerado, não deixando nenhuma crença intocada.
Questões sobre justificação de lado, o que fundamentalmente é problemático aqui é que, como as crenças de loteria, todas as crenças parecem baseadas em alguma incerteza (assumindo falibilismo). Sempre após você checar os números do bilhete, você poderia ter lido-os mal, eles poderiam ter sido mal relatados, ou você está sonhando os resultados. O problema da loteria, notado por Gilbert Harman (1968), dessa forma potencialmente ameaça que nós literalmente “nunca conhecemos” – coisa alguma.
Uma rota de fuga é sustentar que nós conhecemos em casos de loteria. Afinal, muitas pessoas nunca se preocupam com bilhetes de loteria. Quando explicando o porquê, parece natural dizer alguma coisa como, “Nunca houve uma chance real de vencer uma dessas coisas. Para ser realista, eu sei que eu perderia.” Por outro lado, poucos se importariam de comprar bilhetes de loteria se eles soubessem antes do tempo que eles teriam perdido. Assim, parece, a intuição pode cortar em ambos os caminhos.
O que você pensa sobre atribuições de conhecimento em casos de loteria?
A ANÁLISE REVISADA
Gettier nunca publicou uma solução para seu próprio problema, mas ele levou outros a pesquisarem por uma quarta condição do conhecimento. A ideia é que conhecimento é CVJ plus alguma condição extra que exclua os casos problemáticos – CVJ+ considerações (accounts). Há espaço insuficiente para revisar essas propostas aqui. É suficiente dizer que a condição extra permanece elusiva. Talvez o problema seja que CVJ+ esculpe o conhecimento de modo que o plus falhe em corresponder a qualquer conceito natural. Elimine todos os pedaços mais decorados de um bolo de aniversário; aquelas porções podem ser bonitas. Mas o restante não tem forma identificável.
Retornando às pegadas de Platão, pode ser mais promissor buscar o que distingue crença verdadeira de conhecimento – uma CV+ consideração (account). Como Alvin Platinga definiu o termo, garantia (warrant) é aquela “qualidade ou quantidade elusiva suficiente da qual, junto com verdade e crença, é bastante para o conhecimento” (1993, v). Segue-se que o conhecimento é crença verdadeira suficientemente garantida (warranted), produzindo uma consideração CVsG. Agora nossa questão muda: O que é garantia (warrant)?
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Alvin Plantinga, por Jonathunder, via Wikimedia Commons. Licença: CC BY-BA 3.0 |
Essa mudança tem vantagens fundamentais. Primeiro, enquanto a abordagem CVsG é compatível com considerações CVJ+, ela também é compatível com o abandono da condição de justificação, como alguns preferem.18 Assim, a CVsG pode ignorar esse debate. Segundo, há um tipo de unidade para a garantia da qual a justificação carece. Para ver isso, nós precisamos explorar o conceito de sorte epistêmica (epistemic luck): o tipo de sorte que afeta o status epistêmico de alguém.
Façamos um balanço das várias formas de sorte epistêmica. Casos de Gettier são aqueles nos quais a boa sorte cancela a má (Zagzebski 1994). No caso da ovelha, você infelizmente foi enganado por uma forma de ovelha por aqui, mas, felizmente, esse erro foi corrigido por uma ovelha real bem ali. Por contraste, casos de loteria parecem melhor construídos como envolvendo um único elemento de acaso. A sorte, em casos de Gettier e de loteria, não ameaça a justificação. Assim, plausivelmente, a sorte envolvida na aquisição de verdade via crença não justificada (por exemplo, pura adivinhação (guesswork)) é ainda outro tipo.
As questões não são tão simples. Alguma sorte epistêmica contribui positivamente para o conhecimento. Suponha que você leia um jornal e conte-me sobre ele. Eu atribuo conhecimento a você. Quando eu descubro que você apenas leu-o porque você afortunadamente ganhou uma assinatura gratuita, eu não fico inclinado a retirar minha atribuição de conhecimento. Esse conhecimento está fundamentado em boa sorte epistêmica, o tipo que capacita alguém a ser sortudo para saber. Sorte verificativa (Veritic luck) é o tipo impeditivo de conhecimento, a qual inclui todas as várias formas identificadas no parágrafo anterior: Sorte de Gettier, sorte de loteria e adivinhação sortuda (Engel 1992). Um aspecto fascinante da garantia, diferentemente da justificação, é que a garantia exclui toda e apenas a sorte verificativa.
Mas que conexão entre crença e verdade isso efetua? Quais exatamente são as condições para assegurar a garantia e excluir a sorte verificativa, resultando em conhecimento? Nós não temos uma direção promissora como um exemplo, o qual traçava o paralelo entre crença e ação. Imagine uma arqueira hábil, Ártemis (a deusa grega dos animais selvagens e da caça, também conhecida como a deusa romana Diana). A mira dela é perfeita. O lançamento dela, perfeito. A flecha está indo para acertar o centro do alvo – até que Poseidon (o deus grego do mar), maliciosamente bate o seu tridente no solo oceânico, causando um terremoto, o qual muda o alvo. Simultaneamente, uma rajada de vento a partir do sopro de Éolo (o guardião dos ventos) altera o caminho da flecha, acidentalmente corrigindo o curso. Nesse cenário, a habilidosa Ártemis vê o sucesso, contudo, o talento dela não é a razão para o sucesso. Sempre que o sucesso dela é antes atribuível à habilidade, é para crédito dela antes que da sorte.
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Diana como Personificação da Noite por Anton Raphael Mengs via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público. |
De maneira similar, talvez o conhecimento seja “crédito para a crença verdadeira” (Greco 2003). O conhecimento é alcançado quando a habilidade/excelência/virtude manifesta-se no sucesso (verdade). Assim, o conhecimento é crença verdadeira virtuosamente alcançada (Sosa 1980). A partir dessa observação origina-se a epistemologia da virtude, o estudo da virtude intelectual e sua relação com o conhecimento.
CONCLUSÃO: EPISTEMOLOGIA PÓS-GETTIER
Acelerando várias décadas. Milhares de páginas de tinta foram derramadas sobre a quarta condição, garantia (warrant), sorte verificativa, virtudes produtoras de conhecimento, e assim por diante. Alguns acreditam que eles têm a solução. Outros continuam a buscarem novas soluções. Talvez você será o alguém a encontrá-la! Por agora, não há resposta acordada (agreed-upon). Nós vivemos em uma era pós-gettier: o problema não mais ocupa o centro do palco. Ainda assim, eles inspira o que vem em seguida.
Na consequência, alguns epistemólogos chegaram a suspeitar que o conhecimento não está sujeito a análise – que nenhum componente pode ser adicionado à CV(J) para obter conhecimento (Zagzebski 1994). Se verdadeiro, isso não torna o conhecimento misterioso. Alguns conceitos são básicos e, talvez, o conhecimento seja um deles. Sim, o conhecimento pode implicar CVJ, mas isso não significa que ele possa ser dividido em pedaços arrumados que perfeitamente são remontados sem resíduo. Isso deu nascimento à epistemologia do primeiro conhecimento, defendida mais proeminentemente por Timothy Williamson (2000).
Professor Timothy Williamson, por Easyax, via Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0 |
Outros abandonaram completamente a preocupação pelo conhecimento. O que os casos de Gettier (e da loteria) revelam, eles dizem, é que conhecimento é um conceito com peculiaridades (quirks). Quem se importa se alguém está gettierado (ou “loteriado”)? O que importa é adquirir verdades, ter boas razões ou alcançar a virtude intelectual, mais geralmente, (por exemplo, entendimento, aberta de mente, curiosidade, humildade).19 Dessa forma, os epistemólogos da virtude começaram a investigar as virtudes intelectuais em seu próprio direito (Zagzebski 1996).
Qualquer que seja o rumo que alguém tome, há uma coisa notável sobre a qual nós podemos concordar: o pequeno artigo de Gettier transformou permanentemente o mundo da epistemologia. Ele plantou as sementes de um sempre crescente jardim de frutíferas novas direções, produzindo alguns do mais fascinantes trabalhos que o campo de estudo viu: trabalho sobre sorte epistêmica, valor epistêmico, virtude intelectual e mais. Dessa forma, a análise conceitual, mesmo quando sem êxito, revela intuição. Muito do que se segue no livro nós devemos, em grande parte, a isso.
Questões para Reflexão
Pratique análise conceitual. Escolha um conceito que parece relativamente fácil de ser dividido em uma lista de componentes (ou seja, um objeto matemático). Primeiro, produza uma análise simplística. Segundo, ofereça um contraexemplo para ela. Terceiro, revise a análise para prevenir o contraexemplo. Repita o processo até que você esteja satisfeito com o resultado.
Retorne à figura 1. Note que existem oito regiões delimitadas distintas no diagrama de Venn (incluindo o espaço exterior a todos os três círculos, o qual representa não crenças falsas não justificadas). Declare uma proposição que você confidentemente pode posicionar em cada região.
Em introduções à filosofia (Philosophy 101), frequentemente, estudantes são relutantes em formularem suas próprias visões filosóficas. Uma razão frequentemente citada é que os argumentos para uma dada visão, embora fortes, não são “definitivos” ou “conclusivos.” Eles não “provam” a conclusão com “100% de certeza.” Dado o que foi dito sobre justificação neste capítulo, que erro(s) isso poderia exibir?
As pessoas geralmente usam sentenças na forma “Eu não acredito que tal e tal.” É claro que atitude doxástica isso expressa? Ou é ambíguo entre as múltiplas atitudes doxásticas? Explique sua resposta.
Este capítulo exprime a CVJ como uma identidade: conhecimento é crença verdadeira justificada. Outra maneira comum de exprimir uma análise conceitual é em termos de condições necessárias e suficientes: justificação, verdade e crença são (individualmente) necessárias e (conjuntamente) suficientes. Você concorda que elas são necessárias? Você concorda que elas são suficientes? Explique e defenda suas respostas. (Para mais sobre condições necessárias e suficientes, ver o Capítulo 5 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-logic/chapter/chapter-5-necessary-and-sufficient-conditions/) do livro livro de Lógica na série: Introduction to Philosophy: Logic (https://press.rebus.community/intro-to-phil-logic/).)
Considere o seguinte trecho de discurso do antigo Secretário de Estado EUA Donald Rumsfeld (durante uma conferência de imprensa (em 2002) sobre as armas de destruição em massa e a Guerra no Iraque): “Como nós sabemos, há conhecidos conhecidos; coisas que nós sabemos que sabemos. Nós também sabemos que há conhecidos desconhecidos; isso quer dizer, nós conhecemos que há algumas coisas que nós não conhecemos. Mas também a desconhecidos desconhecidos – aquelas que nós não sabemos que nós não sabemos.”(Graham 2014) Escreva uns poucos parágrafos analisando as alegações de Rumsfeld sobre conhecimento. O que elas querem dizer (colocando de lado o contexto político)? Você concorda? Tente usar exemplos e a análise CVJ (como uma aproximação ao conhecimento) para justificar sua visão.
Construa seu próprio caso Gettier. Dica: use a receita de Zagzebski: (a) comece com alguma coisa que você pensa que conhece mas sobre a qual poderia possivelmente estar errado; (b) adicione um elemento de má sorte para fazer sua crença revelar-se falsa; então (c) adicione um elemento de boa sorte para cancelar a má sorte, tornando-a verdadeira, afinal.
O Jogo de Gettier: Sempre que você ou alguém que você conheça tiver alguma boa razão para acreditar em alguma coisa, mas depois descobrir que alguma coisa estranha aconteceu que a fez se tornar verdadeira pelo puro ato de sorte idiota, registre-o em uma folha de papel. Faça isso até que você tenha encontrado vários casos de Gettier. Então reflita sobre a proporção. Quão comumente esses casos ocorrem na vida real? Dada a frequência, você pensa que a CVJ é, pelo menos, uma boa apresentação funcional (working) para o conhecimento? (Nota: na pós-graduação na Universidade de Rochester, meus companheiros estudantes de pós-graduação e eu jogávamos alguma coisa como esse jogo. Nós continuávamos executando uma contagem, no saguão de nosso departamento, desde que um de nós fora gettierado. Tão logo isso acontecesse, nós redefiníamos a contagem para zero. Ela nunca ficava muito alta.)
O “conhecimento sortudo (lucky knowledge)” é possível? Se sim, que tipos de sorte são compatíveis com conhecimento? Como esses tipos se relacionam à distinção entre justificação e garantia (warrant)?
Explore o artigo de Hetherington na Leitura Adicional abaixo. Em suas próprias palavras, explique (a) uma das soluções propostas ao problema de Gettier discutida lá e (b) uma das objeções àquela solução.
Qual é o valor de se analisarem conceitos? Uma análise de conceitos (ou parcial ou completa) seria útil para responder a outras questões epistemológicas? Tentativas falhas para fornecer uma análise podem mesmo assim fornecer alguma iluminação? Mantenha essas questões em mente enquanto você lê os outros capítulos neste volume.
LEITURA ADICIONAL
Engel, Mylan Jr. n. d. “Epistemic Luck.” Em The Internet Encyclopedia of Philosophy. https://iep.utm.edu/epi-luck/
Gettier, Edmund L. 1963. “Is Justified True Belief Knowledge?” Analysis 23 (6): 121–3. https://fitelson.org/proseminar/gettier.pdf
Graham, David A. 2014. “Rumsfeld’s Knowns and Unknowns: The Intellectual History of a Quip.”
The Atlantic, March 27, 2014. https://www.theatlantic.com/politics/archive/2014/03/rumsfelds-knowns-and-unknowns-the-intellectual-history-of-a-quip/359719/
Hetherington, Stephen. n.d. “Gettier Problems.” Em The Internet Encyclopedia of Philosophy. https://www.iep.utm.edu/gettier/
Plato. (ca. 380 BCE) 2009. Meno. Traduzido po Benjamin Jowett. The Internet Classics Archive. http://classics.mit.edu/Plato/meno.html
———. (ca. 369 BCE) 2013. Theaetetus. Traduzido por Benjamin Jowett. Urbana, IL: Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/files/1726/1726-h/1726-h.htm
REFERÊNCIAS
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ORIGINAL:
BARNETT, B.C. The Analysis of Knowledge. In. BARNETT, B.C. Introduction to Philosophy: Epistemology. Rebus Community: 2021. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/the-analysis-of-knowledge/>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 Ver K.S. Sangeetha, capítulo 3 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/sources-of-knowledge-rationalism-empiricism-and-the-kantian-synthesis/) deste volume, para mais sobre conceitos e a relação deles com verdade e conhecimento.
2 A visão expressa aqui (de que o conhecimento experiencial não se reduz ao conhecimento proposicional) tem sido amplamente (embora não universalmente) sustentada desde o artigo pioneiro de Ryle sobre conhecimento de habilidade (1949).
3 O zen enfatiza o conhecimento [de situações] (awareness) não conceitual, não dualista. O taoismo enfatiza wuwei (a ação que flui livre e espontaneamente a partir da natureza de alguém sem interrupção por deliberação proposicional). O confucionismo enfatiza o conhecimento-de-como (knowledge-how) sobre (ou em adição ao) conhecimento-de-que (knowledge-that), assim como participação ritual para alcançar a cultura ética (treinamentos das emoções de alguém e dos hábitos de ação) antes que argumentação proposicional sobre verdades éticas.
4 O “que (that)” é algumas vezes omitida da claúsula-de-que (that-clause) em afirmações sobre o conhecimento proposicional, mas tais sentenças sempre podem ser precisamente reescritas com o “que” incluído: “Os leitores sabem ser este capítulo sobre conhecimento” significa “Os leitores sabem que este capítulo é sobre conhecimento.”
5 Eu
omiti o conhecimento-wh (knowledge-wh): conhecimento
-de-quem
(who),
-do-que
(-what),
-de-onde
(-where),
-de-quando
(-when),
-de-porque
(-why),
-do-qual
(-which),
-de-se
(-whether)
e -de-como
(-how).
Alguns subtipos de
conhecimento-wh
são idênticos àqueles que eu já cobri (por exemplo,
conhecimento-de-como
(knowledge-how)).
Os outros,
possivelmente, reduzem-se a tipos que eu cubro. Por exemplo,
saber-do-porque
(know-why)
é saber-de-que
(know-that),
onde a cláusula-de-que
(that-clause)
expressa uma resposta correta para a questão-why
(why-question).
Eu também omiti o
autoconhecimento. A inscrição no Oráculo de Delfos ordena os
leitores a “Conhece-te a ti mesmo (Know
thyself).”
Claramente isso é mais do que uma familiaridade consigo mesmo. É
discutível se isso meramente consiste em conhecer certas verdades
sobre si mesmo, ou requer alguma experiência especial
autoiluminante. Finalmente, não há discussão neste capítulo
sobre “conhecimento de grupo” (por exemplo, o que a comunidade
científica conhecer) – um tópico recente e controverso em
epistemologia social. A epistemologia tradicional foca-se no
conhecimento de um indivíduo.
6 O Mênon de Platão é a mais antiga apresentação dessa tese, mas ali é muito breve. No Teeteto, um diálogo posterior e amplamente considerado o seu maior trabalho epistemológico, Platão desenvolve mais completamente a mesma análise ([ca. 369 a.C.] 2013, 206c-210b).
7 Isto é, a crença-de-que (belief-that), a qual toma proposições como objetos. Eu deixo de lado crença-em (belief-in), a qual tem objetos não proposicionais (por exemplo, “Eu acredito em você”). A crença-em não é puramente cognitiva. Ela tem um componente afetivo (por exemplo, esperança ou confiança). Essa é uma distinção importante em epistemologia religiosa, uma vez que muitos crentes religiosos enfatizam o tipo de fé que requer crença-em antes que mera crença-de-que.
8Compare com Moon (2008), quem argumenta que a crença não surge em graus. Mesmo assumindo que elas não surjam em graus, pode ser que o tipo de crença requerida para o conhecimento esteja restrito a um grau específico de confiança. Por exemplo, se alguém está escassamente inclinado a considerar uma proposição verdadeira, talvez alguém realmente não conheça sua verdade. Alternativamente, talvez alguém conheça – apenas não com certeza. Essa abordagem teria “conhecer com certeza” como o único tipo de conhecimento no geral. Questões de grau à parte, uma falta de clareza adicional a respeito da crença surge quando nós não estamos pensando em uma proposição (por exemplo, Você sabe que 2 + 2 = 4 enquanto você está dormindo?). Alguém pode dizer que nós sustentamos crenças inconscientes (armazenadas). Outra possibilidade é que nós temos meras disposições para acreditar, as quais são ativadas em crenças quando as proposições surgem na mente. Essa é uma questão contenciosa. Mas, o que quer que seja que alguém pense disso, alguém pode, plausivelmente, dizer a mesma coisa sobre justificação e julgamento (justificação/conhecimento inconsciente vs. uma disposição para ter justificação/conhecimento quando induzido.) Assim, não deveria haver um problema aqui para a análise do conhecimento por si.
9 Antes que localizar com precisão a suspensão de julgamento em um exato 50% de confiança, alguns epistemólogos preferem estendê-la para uma variação (talvez uma com fronteiras vagas ou contextualmente determinadas). Também é possível estar completamente fora do mapa doxástico, evitando até a suspensão – por exemplo, se alguém nunca mesmo considerou a proposição em questão.
10Compare Radford (1966), quem abandona a ortodoxia ao desafiar o requerimento da crença.
11Para uma visão geral das várias teorias da verdade, e seus pós e contras, ver Glanzberg (2018).
12Compare Hazlett (2010), quem abandona a ortodoxia ao desafia o requerimento da verdade para o conhecimento.
13 Para ser justo, em seu Teeteto, o Sócrates de Platão considera – e rejeita – três maneiras de definir “explicação (account)” (logos), algumas vezes traduzido como “explanação (explanation)” (206c-210b). O diálogo termina (210b-d) sem solução.
14 O ceticismo global adota essa conclusão, mas muito poucos são atraídos por uma forma tão forte de ceticismo. Ver Daniel Massey no capítulo 4 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/skepticism/) deste volume, para uma visão geral sobre o ceticismo.
15 Pode ser que o conhecimento requeira um nível especialmente alto de justificação (justificação ao nível de conhecimento.) Se assim for, há crenças justificadas que não estão justificadas ao nível de conhecimento. A visão de que crenças justificadas podem ser falsas é falibilismo sobre justificação. A visão de que mesmo crenças justificadas ao nível do conhecimento podem ser falsas é falibilismo sobre conhecimento. Da mesma forma, esta forma de falibilismo é plausível: você sabe que você está lendo essa sentença exatamente agora a despeito da pequena chance de que, de algum modo, você está meramente dormindo. Ou você sabe? Explore o capítulo 4 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/skepticism/) (Massey sobre ceticismo) para considerar mais isso.
16 Plantinga (1992, 6) dá uma perspectiva alternativa para a significância histórica de Gettier: que é mero “folclore (lore)” contemporâneo.
17 O famoso exemplo de Chisholm (1966).
18 A condição de justificação foi primeiramente abandonada por aqueles que usam “justificação” de uma certa maneira. Há aqueles que a inflacionam (como anteriormente descrito). Também há aqueles que inflacionam o conceito de “boas razões” para alguma coisa necessária para o conhecimento (usualmente externalistas, quem entendem razões exclusivamente como internalista – ver Todd R. Long no capítulo 2 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemic-justification/) deste volume). Ainda outros chegam a usar “justificação” de maneira que ela é, por definição, um requerimento para o conhecimento – o que quer que distinga a crença verdadeira do conhecimento (tornando-a equivalente à garantia). Contudo, pelo menos, há uma maneira de usar esses termos que nem inflaciona nem trivializa. Esse é o uso mais comum, o qual eu adoto neste capítulo.
19 Outros preferem encarar a dificuldade (to bite the bullet), fincar os pés (dig in their heels) e reverter à tradição pré-gettieriana. Gettier e loteria, eles dizem, enganaram-nos. Sim, intuições favorecem-nos. Mas, algumas vezes, intuições estão erradas. Ao utilizar critérios explanatórios padrões (por exemplo, no geral simplicidade teórica, coerência e outras virtudes explanatórias), Weatherson (2003) argumenta que a análise CVJ é a melhor teoria e recusa contraexemplos intuitivos como estranhos soluços (weird hiccups) conceituais.

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