sexta-feira, 8 de julho de 2022

Uma Introdução à Ética - Introdução ao Livro

por George Matthews


Alguma vez é aceitável mentir para proteger alguém de dano? É a generosidade altruísta realmente possível, ou nós humanos sempre somos motivados, de uma por interesses egoístas? Deveriam a lealdade à família, aos amigos e à comunidade imediata de alguém terem precedência sobre o dever [desse alguém] de obedecer à lei? Tais questões, as quais pertencem ao domínio rico e complexo da reflexão moral, sem dúvida são tipos familiares de questões, mesmo se parecer não existir maneira clara de as responder com mais do que um encolher de ombros e a declaração de que “tudo depende…(it all depends…)”

A filosofia moral ou ética (eu estou usando esses termos aqui vagamente como sinônimos, a despeito das distinções entre eles que, algumas vezes, são feitas) é aquele ramo da filosofia que está preocupado com o exame crítico desses tipos de questões, junto com as suposições implícitas e comprometimentos teóricos que existem por trás deles. A ética é um ramo da teoria filosófica do valor dedicada à exploração das amplas regras que definem, regulam e restringem nossas vidas sociais, assim como à consideração mais abstrata da avaliação moral em si mesma. Dessa maneira, ela considera questões tais como se há princípios gerais, ou mesmo universais, aos quais nós podemos apelar em nossa tentativa de negociar dilemas éticos particulares que encaramos. Com o que tais princípios poderiam parecer-se e por que nós deveríamos de fato nós deveríamos segui-los quando eles requerem de nós que deixemos de lado nossos impulsos ou interesses? São princípios universais até desejáveis como um objetivo na deliberação ética e desenvolvimento humano?

Claramente, a reflexão e deliberação morais localizam-se no centro do que significa ser humano, membros de uma espécie e dependentes um dos outros e, ainda assim, frequentemente, ao mesmo tempo, não confiáveis e oportunistas. Mesmo assim, o pensamento moral apresenta-nos um profundo quebra-cabeças. Todos nós estamos intimamente familiarizados com o pensamento moral, enquanto, ao mesmo tempo, parece completamente obscuro como o abordar de qualquer maneira que não seja fragmentária, dependente de ideias recebidas, abordagens costumeiras ou instintos básicos (gut feelings). E isso certamente não é por falta de tentativas de apreender corretamente (to get the things right) a natureza, origem e base dos julgamentos sobre o certo e errado. Essas retrocedem, pelo menos, ao começo da história registrada, como é evidente em alguns dos mais antigos artefatos escritos sobreviventes, tais como, a estela de Hamurábi da antiga Mesopotâmia e as inscrições, do rei budista Açoca, em pilares e pedregulhos da planície gangética na Índia antiga. Os capítulos seguintes tomam esse quebra-cabeça conforme seus autores exploram algumas das principais abordagens teóricas da filosofia moral sob a convicção de que tanto nós podemos quanto devemos submeter a reflexão moral à análise crítica em busca da verdade (ou, talvez, verdades) sobre ética.

Como uma maneira de definir o palco (setting the stage) para as explicações detalhadas das várias abordagens para a moralidade e o pensamento moral nos capítulos seguintes, pode ser útil, desde o início, distinguir entre três maneiras diferentes pelas quais nós podemos abordar o pensamento moral. Primeiro de tudo, nós poderíamos adotar uma abordagem similar àquela dos cientistas interessados no entendimento e explicação de algum conjunto dado de fenômenos. Nós podemos chamar uma tal abordagem de “ética descritiva” uma vez que ela está preocupada com a descrição e explicação das operações (workings) da deliberação moral conforme ela efetivamente ocorre nas mentes das pessoas reais. Embora essa abordagem sirva como ponto de partida para algumas abordagens contemporâneas em ética (especialmente as abordagens evolucionária e feministas, como discutidas nos últimos dois capítulos), no geral, os filósofos estão menos interessados na descrição e explicação do pensamento moral do que eles estão na segundo das duas abordagens, a qual, mais diretamente, envolve-se com o lado avaliativo das questões com as quais nós começamos. Quer dizer, os filósofos, diferentemente dos cientistas, não estão apenas interessados na clarificação e explicação das operações do pensamento ético, mas também no exame dos casos que podem ser feitos por particulares princípios e abordagens morais. Esse lado “normativo” ou “prescritivo” da ética filosófica será central para muitos dos capítulos deste texto, uma vez que eles examinam vários argumentos filosóficos quanto a porque alguma abordagem particular da ética, de fato, deveria ser aquela que nós aceitamos como oposta a suas rivais teóricas. Contudo, em primeiro lugar, nós podemos ponderar sobre a justificação desse tipo de abordagem partidária para ética. Isso nos conduz à terceira maneira que nós poderíamos abordar a ética, dando um passo para trás, a partir abordagens particulares, para examinar o pensamento ético como tal, como ele se relaciona com outros aspectos de nossas vidas intelectuais e emocionais. Quer dizer, nós poderíamos fazer questões teóricas mais abstratas sobre a justificativa tanto para a deliberação ética racional quanto para as abordagens prescritivas para ética. Essa abordagem “meta-ética” é importante não apenas porque ela trata do lugar da ética em nossas vidas mentais mais amplas, mas também como uma maneira de tratar de preocupações que parecem se colocar no caminho das abordagens normativas que nós exploraremos.

O primeiro capítulo explora a alegação metaética de que, de fato, não pode haver deliberação racional real sobre ética, uma vez que o pensamento ético é sempre limitado por normas engastadas no interior de culturas humanas distintas. Aqui, Paul Rezkalla examina o caso em favor e contra as diferentes alegações de que a ética é limitada por normas de cultura e lugar. Em geral, o relativismo é considerado insuficiente em sua versão mais forte como teoria metaética sobre os limites das abordagens racionais para a ética, embora ele continue a ser atraente nas versões mais fracas, por sua defesa da tolerância e sensitividade cultural como princípios éticos fundamentais.

Em seguida, Jeggrey Morgan considera a alegação histórica e atualmente popular de que a ética está enraizada na religião. Ele faz isso examinando duas abordagens principais, aquela da Teoria do Comando Divino, a qual insiste em que, sem a autoridade de um suposto autor divino dos comandos morais, tais comandos falhariam em vincular os atores humanos, e aquela da Teoria da Lei Natural, a qual argumenta que uma ordem natural divinamente criada existe na base de todas as verdades relativas às ações e decisões humanas certas e erradas. Ambas abordagens são consideradas deficientes, mesmo se a moralidade e religião permanecem estritamente aliadas em sua preocupação pelo bem-estar humano e social.

O terceiro capítulo, escrito por Douglas Giles, considera diretamente a questão do bem-estar humano (human well-being) como articulada por uma família de abordagens conhecidas como Ética das Virtudes (Virtue Ethics), como elas têm sido desenvolvidas tanto nos contextos filosóficos ocidental e não ocidental. Diferentemente de outras abordagens que se focam em regras e princípios subjazendo à tomada de decisão ética, a ética das virtudes foca-se no ator mesmo, e questiona o que é que faz o carácter de uma pessoa bom ou mau na convicção de que a ação ética sempre está enraizada nas particularidades de uma vida e comunidade individuais.

No quarto capítulo, Sherry Ya-Yun Kao trata de uma preocupação da ética racionalista secular, a saber, aquela do entendimento da relação entre o interesse pessoal (self-interest) dos indivíduos racionais, a partir de seu próprio bem, e as regras básicas do jogo social, propostas pela ética. Primeiro ela considera as alegações do Egoísmo, nas duas variantes do Egoísmo Psicológico, o qual nega a possibilidade mesma de qualquer ação que não seja egoísta e, consequentemente, que a ética é impossível, e o Egoísmo Ético, o qual alega que as restrições éticas ao interesse pessoal são contraprodutivas uma vez que o bem social, de fato, é melhor obtido pela busca privada de ganho pessoal. Tendo mostrado a fraqueza dessas duas abordagens, ela segue para considerar as vantagens e desvantagens das abordagens para a ética baseadas no Contrato Social, o qual tenta mostrar que as regras éticas, e os interesses dos indivíduos restritos por elas, podem e devem estar em concordância.

O quinto capítulo, escrito por Frank Aragbonfoh Abumerem, explora o apelo e os inconvenientes de uma abordagem estritamente aliada à Teoria do Contrato Social, a qual é conhecida como Utilitarismo e que permanece uma das abordagens mais influentes entre os filósofos contemporâneos. O utilitarismo é uma tentativa de articular e defender uma ética genuinamente universal que é focada nos resultados (outcomes) de nossas ações e decisões como uma medida de seu valor moral.

Por sua vez, o utilitarismo frequentemente é contrastado com outra tentativa de uma ética racionalista universal, desenvolvida pelo filósofo Immanuel Kant, como aqui descrita e criticamente analisada por Joseph Kranak, no sexto capítulo. A ética kantiana do dever, ou ética deontológica, é baseada na alegação de que o valor moral de um ato ou princípio é intrínseco a esse ato ou princípio mesmo e tem pouco a ver com suas consequências. Isso conduz a uma ética universalista baseada no respeito incondicional por agentes autônomos que tem sido enormemente influente no desenvolvimento das noções de direitos humanos, a despeito de que ela permanece controversa nos contextos filosófico-moral e político.

No sétimo capítulo, Kathryn MacKat examina a influência do feminismo no pensamento sobre ética, conforme ela trabalha na intersecção de psicologia do desenvolvimento, teoria política e social feminista e explicações filosóficas do pensamento e deliberação morais. Ela explora o debate corrente sobre a natureza e influência do sexo e gênero tanto sobre as teorias éticas históricas quando sobre as tentativas contemporâneas de endereçar a desigualdade e o poder na sociedade em geral.

Finalmente, o livro termina com a explicação por Michael Klenk das contribuições da ciência da biologia, especialmente biologia evolucionária, para o desenvolvimento de uma ética naturalista. Aqui ele examina uma variedade de alegações a respeito da possibilidade do entendimento das normas éticas como enraizadas em nossa natureza como animais sempre envolvidos em encontrar um equilíbrio entre nossas tendências competitivas e cooperativas. O debaste neste capítulo, como no último, é um debate interdisciplinar em progresso, embora, neste caso, seja entre os filósofos contemporâneos, teóricos sociais e biólogos evolucionários.


Capítulo 1


ORIGINAL:

MATTHEWS, G. Introduction to the Book. In. MATTHEWS, G. Introduction to Philosophy: Ethics. Rebus Community: 2019. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-ethics/front-matter/introduction-2/>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

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