sábado, 9 de julho de 2022

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano XI – De uma Providência Particular e de um Estado Futuro

Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano


Por David Hume


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[151]Seção XI – De uma Providência Particular e de um Estado Futuro


Ultimamente, eu estive engajado em conversa com um amigo, quem ama paradoxos céticos; onde, embora ele propusesse muitos princípios, os quais eu não posso, em hipótese alguma, aprovar, contudo, visto que eles parecem ser curiosos, e comportar alguma relação com a cadeia de raciocínio continuada ao longo desta investigação, eu devo copiá-las a partir da memória tão acuradamente quanto eu posso, a fim de submetê-los ao julgamento do leitor.

Nossa conversa começou com minha admiração da singular boa fortuna da filosofia, a qual, como ela requer inteira liberdade acima de todos os privilégios, e floresce principalmente a partir da oposição livre de sentimentos e argumentação, recebeu seu primeiro nascimento em uma época e país de liberdade e tolerância, e nunca foi impedida, mesmo em seus princípios mais extravagantes, por nenhuma crença, confissão, ou estatutos penais. Pois, exceto no banimento de Protágoras e na morte de Sócrates – evento derradeiro que procedeu, parcialmente, a partir de outros motivos – escassamente há quaisquer instâncias, com as quais se deparar, na história antiga, da inveja fanática com a qual a época atual estão tão infestada. Epicuro viveu em Atenas até uma idade avançada, em paz e tranquilidade: [152]epicuristas1 eram até admitidos para receber o atributo sacerdotal, e oficiarem no altar, nos ritos mais sagrados da religião estabelecida: e o encorajamento2 público de pensões e salários era concedido igualmente, pelos mais sábios dos imperadores romanos,3 aos professores de cada secto de filosofia. Quão necessário foi esse tratamento para a filosofia, em sua juventude precoce, facilmente será concebido, se nós refletirmos que, mesmo no presente, quando ela pode ser considerada mais resistente e robusta, ela suporta com muito mais dificuldades a inclemência das temporadas e aqueles ventos severos da calúnia e perseguição que sopram sobre ela.

Você admira, disse meu amigo, como boa fortuna singular da filosofia, o que parece resultar a partir do curso natural das coisas, e ser inevitável em toda época e nação. Essa intolerância obstinada, da qual você reclama como fatal para a filosofia, é realmente filha dela, quem, depois de se aliar com a superstição, separa-se inteiramente do interesse de seu antepassado (parent), e torna-se seu mais inveterado inimigo e perseguidor. Os dogmas especulativos da religião, as ocasiões presentes de tal disputa furiosa, não poderiam ser concebidas ou admitidas nas épocas antigas do mundo; quando o gênero humano, sendo inteiramente iletrado, formava uma ideia de religião mais adequada para suas fracas compreensões, e compunha seus dogmas secretos de tais principalmente semelhantes, como se fossem os objetos de crença tradicional, mas do que de argumento ou disputa. Portanto, depois desse primeiro alarme, o qual se originou a partir dos novos paradoxos e princípios dos filósofos, ter acabado esses professores parecem para sempre, durante as épocas da antiguidade, ter vivido em grande harmonia com a superstição estabelecida, e ter feito [153]uma partição justa do gênero humano entre eles; os primeiros reivindicando todos os instruídos e sábios, a segunda possuindo todos os vulgares e iletrados.

Então parece, disse eu, que você deixa a política inteiramente de fora da questão, e nunca supõe que um magistrado sábio possa justamente ficar invejoso de certos dogmas da filosofia, tais como aqueles de Epicuro, os quais, negando a existência divina e, consequentemente, a providência e um estado futuro, parecem afrouxar, a uma grande medida, os laços da moralidade, e podem ser supostos, por essa razão, perniciosos à paz da sociedade civil.

Eu sei, respondeu ele, que, de fato, essas perseguições, em nenhuma época, procederam a partir de razão calma, ou a partir da experiência das consequências perniciosas da filosofia; mas surgiram inteiramente a partir da paixão e do prejuízo. Mas, se eu devesse avançar mais e afirmar que, se Epicuro tivesse sido acusado diante do povo, por qualquer um dos sicofantas, ou delatores daqueles dias, ele facilmente poderia ter defendido sua causa, e provado seus princípios de filosofia serem tão salutares quanto os de seus adversários, quem tentavam, com tanto zelo, expor-lhe ao ódio e ressentimento públicos.

Eu gostaria, disse eu, que você experimentasse sua eloquência sobre um tópico tão extraordinário, e produzisse um discurso para Epicuro, o qual poderia satisfazer, não o populacho (mob) de Atenas, mas a parte mais filosófica de sua audiência, tal como a ser considerada capaz de compreender os argumentos dele.

O assunto não seria difícil, em consequência de semelhantes condições, respondeu ele; e se agrada a você, eu deverei supor-me Epicuro por um momento, e fazer você representar o povo ateniense, e deverei proferir uma alocução pública tão grande que encherá a urna de feijões-brancos, e [154]não deixar um [feijão] negro para gratificar a malícia de meus adversários.

Muito bem: suplico-te que prossiga em consequências dessas suposições.

Eu vim aqui, Oh vós, atenienses! Para justificar, em vossa assembleia, o que eu sustento em minha escola, e descubro-me impedido por antagonistas furiosos, em vez raciocinando com inquiridores calmos e desapaixonados. Vossas deliberações, as quais, de direito, deveriam ser dirigidas a questões de bem público e ao interesse da comunidade [política](commonwealth), são desviadas para as disquisições de filosofia especulativa; e essas magníficas, mas, talvez, infrutíferas investigações, ocupam o lugar de vossas ocupações mais familiares, mas mais úteis. Mas, enquanto eu existir, evitarei esse abuso. Nós não deveremos disputar aqui sobre a origem e o governo de mundos. Nós apenas deveremos inquirir até onde tais questões dizem respeito ao interesse público. E, se eu puder persuadir-vos de que elas são inteiramente indiferentes à paz da sociedade e segurança do governo, eu espero que logo vós nos enviareis de volta às nossas escolas, lá para examinar, no lazer, a questão, a mais sublime, mas, ao mesmo tempo, a mais especulativa de toda a filosofia.

Os filósofos religiosos, não satisfeitos com a tradição de seus antepassados e a doutrina de seus sacerdotes, (com as quais eu voluntariamente aquiesço) satisfazem-se com uma curiosidade imprudente, testando quão longe eles podem estabelecer religião sobre os princípios da razão. Portanto, eles excitam, em vez de satisfazer, as dúvidas que naturalmente surgem a partir de investigação diligente e escrupulosa. Eles pintam, nas cores mais magníficas, a ordem, beleza e ordenação sábia do universo e, em seguida, perguntam se uma semelhante exibição gloriosa de inteligência poderia iniciar-se a partir do concurso fortuito de átomos, ou se o acaso (chance) poderia produzir o que o maior dos gênios nunca pode admirar suficientemente. Eu [155]não deverei examinar a justiça desse argumento. Eu deverei admiti-la ser tão sólida quanto meus antagonistas e acusadores possam desejar. É suficiente que eu possa provar, a partir desse raciocínio mesmo, que a questão é inteiramente especulativa, e que, quando em minhas disquisições filosóficas, eu negar a providência e um estado futuro, eu não enfraqueça os fundamentos da sociedade, mas proponha princípios, os quais eles mesmos, em consequência de seus próprios tópicos, se eles argumentarem consistentemente, devem admitir ser sólidos e satisfatórios.

Então, vós, quem sóis meus acusadores, reconheceis que o argumento principal ou único para uma existência divina (a qual eu nunca questionei,) é derivado a partir da ordem da natureza; ali onde aparecem tais marcas de inteligência e desígnio, que vós pensais ser extravagante atribuir como sua causa, quer o acaso (chance), quer a cega e descontrolada força da matéria. Vós admitis que esse é um argumento extraído a partir de efeitos para causas. A partir da ordem da obra, vós inferis que tem de haver projeto e premeditação (forethought) no artífice (workman). Se vós não podeis fazer sentido esse ponto, admitis que vossa conclusão falha; e vós não pretendeis estabelecer a conclusão em uma extensão (lattitude) maior do que os fenômenos da natureza justificarão. Essas são vossas concessões. Eu desejo que vós marcais as consequências.

Quando nós inferimos qualquer causa particular a partir de um efeito, nós devemos colocar em proporção a primeira em relação ao segundo, e nunca podemos ser autorizados a atribuir à causa nenhuma qualidade, exceto quais são exatamente necessárias para produzir o efeito. Um corpo de dez onças, erguido em qualquer escala, pode servir como uma prova de que o peso do contrapeso excede dez onças; mas nunca pode proporcionar uma razão de que ele exceda uma centena. Se a causa, atribuída a qualquer efeito, não for suficiente para o produzir, nós devemos, quer rejeitar a causa, quer adicionar a ela qualidades tais que concederão uma justa proporção ao [156]efeito. Mas, se nós atribuirmos a ela qualidades adicionais, ou afirmarmo-la capaz de produzir outros efeitos, nós somente podemos ceder à licença para conjecturar e, arbitrariamente, supor a existência de qualidades e energias sem razão ou autoridade.

A mesma regra vale, quer a causa atribuída seja matéria bruta inconsciente, ou um ser inteligente racional. Se a causa for conhecida apenas pelo efeito, nós nunca devemos atribuí-la a quaisquer qualidades além das que são precisamente requeridas para produzir o efeito; nem podemos nós, através de quaisquer regras de raciocínio justo, retornar de volta a partir da causa, e inferir outros efeitos a partir dela, além daqueles pelos quais sozinhos ela é conhecida para nós. Ninguém, meramente a partir de uma das pinturas de Zêuxis, poderia saber que ele também foi um escultor ou arquiteto, e não era um artista menos habilidoso em pedra e mármore do que em cores. Os talentos e o gosto exibidos naquela obra particular diante de nós; desses nós podemos seguramente concluir que o artífice (workman) deve estar possuído. A causa precisa estar proporcionada ao efeito; e, se nós exata e precisamente a colocarmos em proporção, nunca deveremos encontrar nela nenhuma qualidade que aponte para mais além, ou proporcionar uma inferência a respeito de qualquer outro desígnio ou performance. Tais qualidades devem estar um pouco além do que é meramente requisito para a produção do efeito que nós examinamos.

Portanto, concedendo-se os deuses serem os autores da existência ou ordem do universo, segue-se que eles possuem aquele grau preciso de poder, inteligência e benevolência que aparece em sua obra (workmanship); mas nada adicionalmente pode, alguma vez, ser provado, exceto o que nós invocamos em auxílio do exagero e lisonja para suprir os defeitos do argumento e raciocínio. Até onde os traços de quaisquer atributos aparecem no presente, até então nós podemos concluir que esses atributos existem. A suposição de [157]atributos adicionais é mera hipótese; muito mais a suposição de que, em distantes regiões de espaço ou períodos de tempo, tem havido, ou haverá, uma demonstração mais magnificente de poder, e um esquema de administração mais adequado para tais virtudes imaginárias. Nós nunca podemos ser permitidos acumular, a partir do universo, o efeito, até Júpiter, a causa: e, em seguida, descermos para inferirmos quaisquer novos efeitos a partir daquela causa, como se os efeitos presentes sozinhos não fossem inteiramente dignos dos atributos gloriosos que nós atribuímos àquela divindade. O conhecimento da causa sendo derivado apenas a partir do efeito, eles precisam estar precisamente ajustados um ao outro; e um nunca pode se referir a qualquer coisa adicional, ou ser o fundamento de qualquer nova inferência e conclusão.

Vós encontrais certos fenômenos na natureza. Vós buscais uma causa ou autor. Vós imaginais que tendes o encontrado. Depois, vós tornai-vos tão enamorados dessa prole de vosso cérebro, que vós imaginais impossível senão que ele deva produzir alguma coisa maior e mais perfeita do que a cena presente das coisas, a qual está tão cheia de mal e desordem. Vós esquecei-vos de que essa inteligência e benevolência superlativas são inteiramente imaginárias, ou, pelo menos, sem qualquer fundamento na razão, e que vós não tendes nenhum fundamento para lhe atribuir nenhuma qualidade senão aquelas que vós vedes que ela efetivamente exerceu e exibiu em suas produções. Portanto, oh, filósofos! Que vossos deuses sejam adequados às aparências presentes da natureza: e não presumai alterar essas aparências através de suposições arbitrárias, a fim de as adequar aos atributos que vós tão afetuosamente atribuís a vossas divindades.

Quando sacerdotes e poetas, suportados por vossa autoridade, Oh atenienses! Falam de uma era de ouro ou prata, a qual precedeu ao estado presente de vício e miséria, eu ouço-os com atenção e reverência. Mas, quando [158]filósofos, quem pretendem ter negligenciado autoridade, e cultivar a razão, mantêm o mesmo discurso, eu admito; não concedo a eles a mesma submissão obsequiosa e deferência piedosa. Eu pergunto, quem os transportou para dentro das regiões celestiais, quem os admitiu nos conselhos dos deuses, quem lhes abriu o livro do destino, para que eles dessa forma precipitadamente afirmassem o que as divindades deles executaram, ou executarão, em qualquer propósito além do que efetivamente apareceu? Se eles contarem-me que eles acumularam nos passos, ou através da ascensão gradual da razão, e extraíram as causas a partir de efeitos, eu ainda insisto que eles auxiliaram a ascensão da razão pelas asas da imaginação; caso contrário, eles não poderiam ter mudado dessa maneira seu modo de inferência, e argumentar a partir de causas para efeitos; presumindo que uma produção mais perfeita do que a presente no mundo seria mais adequada para seres tão perfeitos quanto os deuses, e esquecendo-se de que eles não têm nenhuma razão para atribuírem àqueles seres celestes qualquer perfeição ou qualquer atributo que possam ser encontrados no mundo presente.

Consequentemente, toda a indústria infrutífera para explicar as aparências malignas na natureza, e salvar a honra dos deuses; enquanto nós temos de reconhecer a realidade do mal e da desordem com os quais o mundo tanto abunda. As qualidades obstinadas e intratáveis da matéria, conta-se a nós, ou a observância das leis gerais, ou alguma razão similar, são a única causa que reprimiu o poder e a benevolência de Júpiter, e obrigou-lhe a criar o gênero humano e toda criatura sensível tão imperfeita e tão infeliz. Então, esses atributos, parece, serem tomados como certos antecipadamente em sua maior extensão. E, em consequência dessa suposição, eu admito, que, talvez, tais conjecturas possam ser admitidas como soluções plausíveis para os fenômenos maléficos. Mas eu ainda pergunto, por que tomar esses atributos [159]por certos, ou porque atribuir à causa quaisquer qualidades senão aquelas que, efetivamente, aparecem no efeito? Por que torturar nosso cérebro para justificar o curso da natureza em consequência de suposições, as quais, em qualquer grau que eu conheça, podem ser inteiramente imaginárias, e das quais não devem ser encontrados traços no curso da natureza?

Portanto, a hipótese religiosa precisa ser considerada apenas como um método particular de explicação dos fenômenos visíveis do universo; mas nenhum raciocinador justo, alguma vez, presumirá inferir a partir dela nenhum fato único, e alterar ou adicionar aos fenômenos em qualquer ângulo particular. Se vós considereis que a aparência das coisas prova tais causas, é admissível para vós extrairdes uma inferência relativa à existência dessas causas. Em tais assuntos complicados e sublimes, todos deveriam ser saciados na liberdade da conjectura e do argumento. Mas aqui vós deveis repousar. Se vós voltardes atrás e, argumentando a partir de vossas causas inferidas, concluirdes que qualquer fato que existiu, ou existirá, no curso da natureza, o qual pode servir como uma exibição mais completa de atributos particulares, eu devo admoestar-vos que vós tendes afastado-vos do método de raciocínio unido ao assunto presente, e certamente tendes adicionado alguma coisa, além do que aparece, ao efeito, aos atributos da causa; caso contrário, vós nunca podereis, com bom senso ou propriedade toleráveis, adicionar qualquer coisa ao efeito, a fim de o tornar mais digno da causa.

Então, onde está a odiosidade da doutrina que eu ensino em minha escola, ou antes, examino em meus jardins? Ou o que vós encontrais, nessa inteira questão, na qual a segurança das morais boas, ou a paz e ordem da sociedade, estão, no mínimo, afetadas?

Eu nego uma providência, vós dizeis, quem conduz o curso dos eventos e [160]pune o vicioso, com infâmia e desapontamento, e recompensa o virtuoso, com honra e sucesso, em todos os seus empreendimentos. Mas certamente eu não nego o curso mesmo dos eventos, o qual se estende aberto para a investigação e o exame de qualquer um. Eu reconheço que, na ordem presente das coisas, a virtude é acompanhada com mais paz da mente do que o vício, e encontra uma recepção mais favorável a partir do mundo. Eu estou sensível a que, de acordo com a experiência passada da humanidade, a amizade é a alegria principal da vida humana e a moderação, a única fonte de tranquilidade e felicidade. Eu nunca balanço entre o curso virtuoso e vicioso de vida; mas eu estou sensível a que, para uma mente bem-disposta, toda vantagem está do lado do primeiro. E o que vós podeis dizer a mais, permitindo-se todas as suas suposições e todos os seus raciocínios? De fato, vós dizei-me que essa disposição de coisas procede a partir de inteligência e desígnio. Mas, de onde quer que ela proceda, a disposição mesma e, consequentemente, nossa conduta e comportamento na vida ainda são o mesmo. Ainda está aberto para mim, assim como para vós, regular meu comportamento, através de minha experiência dos eventos passados. E se vós afirmeis que, enquanto uma providência divina for admitida, e uma justiça distributiva suprema no universo, eu devo esperar alguma recompensa mais particular do bem e uma punição, do mal, além do curso ordinário dos eventos, eu encontro aqui a mesma falácia que antes eu me esforcei para detectar. Vós persistis imaginando que, se nós concedemos que a divina existência, pela qual vós tão seriamente contendeis, vós seguramente podeis inferir consequências a partir dela, e adicionar alguma coisa à ordem experienciada da natureza, argumentando a partir dos atributos que vós atribuis a vossos deuses. Vós pareceis não vos lembrar de que todos os vossos raciocínios sobre esse assunto somente podem ser inferidos a partir de efeitos para causas; e que [161]todo argumento, deduzido a partir de causas para efeitos, deve de necessidade ser um sofisma grosseiro, uma vez que é impossível para vós conhecer qualquer coisa na causa, senão aquilo que anteriormente não inferido, mas descoberto para o completo, no efeito.

Mas o que um filósofo deve pensar desses raciocinadores vãos, quem, em vez de considerarem a cena presente das coisas como o único objeto de sua contemplação, até agora inverteram o inteiro curso da natureza, como a tornar está vida meramente uma passagem para alguma coisa além; uma varanda, a qual conduz a uma construção maior e vastamente diferente; um prólogo, o qual apenas serve para introduzir a peça, e conceder-lhe mais graça e propriedade? De onde, vós pensais, que tais filósofos derivam a ideia deles dos deuses? A partir de suas próprias presunção e imaginação, certamente. Pois, se eles derivam-na a partir dos fenômenos presentes, ela nunca apontaria para qualquer coisa adicional, mas deveria estar exatamente ajustada a eles. Que a divindade possivelmente pode ser dotada de atributos que nós nunca vimos exercidos; que possa ser governada por princípios de ação os quais nós não podemos descobrir estar satisfeitos; tudo isso será livremente admitido. Mas isso ainda é mera possibilidade e hipótese. Nós nunca podemos ter razão para inferir quaisquer atributos ou quaisquer princípios de ação nele, mas, até onde nós conhecemo-los ter sido exercidos e satisfeitos.

Há quaisquer marcas de uma justiça distributiva no mundo? Se vossa resposta for afirmativa, eu concluo que, uma vez que a justiça se exerça, ela fica satisfeita. Se vós respondeis na negativa, eu concluo, então, que vós não tendes razão para atribuir justiça, em nosso significado dela, aos deuses. Se vós sustenteis um meio entre afirmação e negação, dizendo que, no presente, a justiça dos deuses exerce-se em parte, mas não ainda em sua completa extensão, eu respondo que [162]vós não tendes razão para a conceder qualquer extensão particular, mas apenas até onde vós, no presente, veem-na exercer-se.

Dessa forma, Oh atenienses, eu trago a disputa a uma breve questão com meus antagonistas. O curso da natureza estende-se aberto para minha contemplação assim como a deles. O cortejo experienciado de eventos é o grande padrão pelo qual nós todos regulamos nossa conduta. Nada mais pode ser apelado no campo, ou no senado. Nada mais deve alguma vez ser ouvido na escola, ou no particular. Em vão nosso entendimento limitado avançaria além desses limites, os quais são tão estreitos para nossa apaixonada imaginação. Enquanto nós argumentamos a partir do curso da natureza, e inferimos uma causa particular inteligente, a qual primeiramente concedeu, e ainda preserva, a ordem no universo, nós adotamos um princípio que é igualmente incerto e inútil. É incerto, porque o assunto se estende inteiramente além do alcance da experiência humana. É inútil, porque, o nosso conhecimento dessa causa sendo inteiramente derivado a partir do curso da natureza, nós nunca podemos, de acordo com as regras do raciocínio justo, retornar de volta a partir da causa com qualquer nova inferência, ou, fazendo adições ao curso comum e experienciado da natureza, estabelecer princípios de conduta e comportamento.

Eu observo (disse eu, considerando que ele terminara sua alocução pública) que você não negligenciou o artifício dos demagogos de antigamente; e, como você se agradou de fazer-me equivaler ao povo, você insinuou-se em meu favor, ao abraçar aqueles princípios aos quais, você saber, eu sempre expressei um afeto particular. Mas, admitindo você experienciar (como, de fato, eu penso que você deve) do único padrão de nosso julgamento relativo a essas, e a todas as outras questões de fato, eu não duvido senão, a partir da exata mesma experiência a qual você apela, pode ser possível refutar esse raciocínio, o qual você teve de colocar na [163]boca de Epicuro. Por exemplo, se você vê uma construção meio terminada, cercada por pilhas de tijolos, e pedra, e argamassa, e todos os instrumentos de alvenaria, poderia você não inferir a partir do efeito que era uma obra de desígnio e artifício? E não poderia você retornar, a partir dessa causa inferida, para inferir novas adições ao efeito, e concluir que a construção logo estaria terminada e receberia todas melhorias que a arte poderia conceder a ela? Se você vê, à beira mar, a marca de um pé humano, você concluiria que um homem passou por aquele caminho, e que ele também tinha deixado traços do outro pé, embora apagado pelo deslizamento das areias ou inundação das águas. Então, por que você se recusa a admitir o mesmo método de raciocínio com respeito a ordem da natureza? Considere o mundo e a vida presente apenas como uma construção imperfeita, a partir da qual você pode inferir uma inteligência superior; e, argumentando a partir dessa inteligência superior, a qual não pode deixar nada imperfeito, por que você não pode inferir um esquema ou plano mais acabado, o qual receberá seu acabamento em algum ponto distante do espaço ou tempo? Não são esses métodos de raciocínio exatamente similares? E, sob que pretensão, você pode adotar um enquanto você rejeita o outro?

A diferença infinita dos assuntos, respondeu ele, é um fundamento suficiente para essa diferença em minhas conclusões. Em obras de arte e artifício humanos, é admissível avançar a partir do efeito para a causa e, retornar, a partir da causa, para formar novas inferências a respeito do efeito, e examinar as alterações pelas quais ele provavelmente passou ou ainda pode passar. Mas qual é o fundamento desse raciocínio? Simplesmente este: que o homem, sendo um ser que nós conhecemos por experiência, com cujos os motivos e desígnios de quem nós somos familiares, e com cujos [164]os projetos e as inclinações de quem nós temos uma certa conexão e coerência, de acordo com as leias que a natureza estabeleceu para o governo de semelhante criatura. Portanto, quando nós encontramos que qualquer obra procedeu a partir da habilidade e indústria do homem, como de outra maneira nós estamos familiarizados com a natureza do animal, nós podemos extrair uma centena de inferências com respeito ao que pode ser esperado a partir deles; e todas essas inferências estarão fundamentadas em experiência e observação. Mas, conhecêssemos nós apenas o homem por uma única obra ou produção que nós examinamos, seria impossível para nós argumentar dessa maneia; porque nosso conhecimento de todas as qualidades que nós atribuímos a ele, sendo, nesse caso, derivado a partir da produção, é impossível que eles possam apontar para qualquer coisa adicional, ou ser o fundamento para qualquer nova inferência. A marca do pé na areia somente pode provar, quando considerada sozinha, que havia alguma figura adaptada para isso, pela qual ela foi produzida: mas a marca do pé prova, da mesma forma, a partir de nossa outra experiência, que provavelmente há outro pé, o qual também deixa sua impressão, embora apagada pelo tempo ou outros acidentes. Aqui nós acumulamos a partir do efeito para a causa; e, novamente descendo a partir da causa, inferimos alterações no efeito; mas isso não é uma continuação da mesma simples cadeia de raciocínio. Nós compreendemos nesse caso uma centena de outras experiências e observações, referentes à figura e membros usuais daquela espécie de animal, sem as quais esse método de argumento deve ser considerado falacioso e sofístico.

O caso não é o mesmo com nossos raciocínios a partir das obras da natureza. A divindade é conhecida por nós apenas através de suas produções, e é um ser único no universo, não compreendido sobre nenhuma espécie ou gênero, a partir atributos ou qualidades experienciados de quem nós podemos, [165]por analogia, inferir qualquer atributo ou qualidade nela. Como o universo mostra sabedoria e bondade, nós podemos inferir sabedoria e bondade. Como ele mostra um grau particular dessas perfeições, nós podemos inferir um grau particular delas, precisamente adaptado para o efeito que nós examinamos. Mas atributos adicionais, ou graus adicionais do mesmo atributo, nós nunca podemos ser autorizados a inferir ou supor, por quaisquer regras de raciocínio justo. Agora, sem tal licença de suposição, é impossível para nós argumentar a partir da causa, ou inferir qualquer alteração no efeito, além do que imediatamente caiu sob nossa observação. Bem maior produzido por esse ser ainda deve provar um maior grau de bondade. Uma distribuição mais imparcial de recompensas e punições deve proceder a partir de uma consideração maior pela justiça e equidade. Cada suposta adição às obras da natureza faz uma adição aos atributos do Autor da natureza; e, consequentemente, estando inteiramente sem suporte por nenhuma razão ou argumento, nunca pode ser admitida senão como mera conjectura e hipótese.4

[166]A grande fonte de nosso engano sobre esse assunto, e da licença sem limites de conjectura com a qual nos satisfazemos, é que nós, tacitamente, consideramo-nos como no lugar do Ser Supremo, e concluímos que ele, em toda ocasião, observará a mesma conduta conosco, em sua situação, houvesse adotado-a como racional e aceitável. Mas, além do que o curso ordinário da natureza pode convencer-nos, que quase qualquer coisa é regulada por princípios e máximas muito diferentes dos nossos; além disso, eu digo, precisa evidentemente parecer contrário a toda regra de analogia, raciocinar, a partir de projetos e intenções de homens, para aquelas de um Ser tão diferente e tão superior. Na natureza humana há uma certa coerência experienciada de desígnios e inclinações; de modo que, quando, a partir de qualquer fato, nós descobrimos uma intenção de qualquer homem, e extraímos uma longa cadeia de conclusões sobre a conduta passada ou futura dele. Mas esse método de raciocínio nunca pode ter lugar com respeito a um ser tão remoto e incompreensível, quem comporta muito menos analogia com qualquer outro ser no universo do que o sol com uma vela de cera (waxen taper), e quem descobre a si mesmo somente por alguns traços e contornos fracos, além dos quais nós não temos nenhuma autoridade para atribuir a ele qualquer atributo ou perfeição. O que nós imaginamos ser uma perfeição superior, realmente, pode ser um defeito. Ou fosse isso alguma vez tanta perfeição, a atribuição dela ao Ser Supremo, onde ela realmente não parece ter sido exercida completamente nas obras dele, cheira mais a lisonja e panegírico do que raciocínio justo e filosofia correta. Portanto, toda a filosofia no mundo, e toda a religião, a qual nada é senão uma espécie de filosofia, nunca serão capaz de transportar-nos além do curso da experiência, ou conceder-nos [167]medidas de conduta e comportamento diferentes daquelas são fornecidas por reflexões sobre a vida comum. Nenhum fato novo pode alguma vez ser inferido a partir de hipótese religiosa; nenhum evento previsto ou predito; nenhuma recompensa ou punição esperada ou temida, além do que já é conhecido através da prática e observação. De modo que minha apologia por Epicuro ainda aparecerá sólida e satisfatória; nem têm os interesses políticos da sociedade nenhuma conexão com as disputas filosóficas a respeito de metafísica e religião.

Ainda há uma circunstância, respondi eu, a qual você parece negligenciado. Embora eu deva reconhecer suas premissas, eu preciso negar suas conclusões. Você conclui que as doutrinas e raciocínios religiosos não podem ter influência sobre vida, porque eles não devem ter influência; nunca considerando que os homens não raciocinam da mesma maneira, mas extraem consequência a partir da crença de uma Existência Divina e supõe que a Divindade infligirá punições sobre o vício, e concederá recompensas sobre a virtude, além do que aparece no curso ordinário da natureza. Se esse raciocínio deles for ou não justo, não é questão. Sua influência sobre a vida e conduta deles ainda deve ser a mesma. E aqueles que tentam desiludi-los de semelhantes prejuízos, podem, pois alguma coisa eu conheço, ser bons raciocinadores, mas eu não consigo reconhecer-lhes serem bons cidadãos e políticos; uma vez que eles libertam os homens a partir de uma restrição sobre as paixões deles, e tornam a infração das leis da sociedade, em um aspecto, mais fácil e segura.

Afinal, talvez, eu possa concordar com sua conclusão geral em favor da liberdade, embora em consequência de premissas diferentes daquelas sobre as quais você tenta encontrar. Eu penso que o estado deve tolerar todo princípio da filosofia; nem há uma instância de que qualquer [168]governo sofreu em seus interesses políticos por semelhante indulgência. Não há entusiasmo entre filósofos; as doutrinas deles não são muito sedutoras para as pessoas; e nenhuma restrição pode ser colocada sobre seus raciocínios senão que deva ser de consequência perigosa para as ciências; e até para o estado, pavimentando o caminho para perseguição e opressão em pontos onde a generalidade do gênero humano estão mais profundamente interessada e preocupada.

Mas, aqui me ocorre, (continuei eu,) com respeito ao seu tópico principal, uma dificuldade que eu deverei apenas propor a você, sem insistir nela; com temor de que ela conduza a raciocínios de uma natureza muito gentil e delicada. Em uma palavra, eu duvido muito de que seja possível para uma causa ser conhecida apenas por seu efeito (como você, durante todo o tempo, supunha), ou ser de uma natureza tão singular e particular quanto a não ter paralelo e nenhuma similaridade com qualquer outra causa ou objeto que alguma vez caiu sob nossa observação. É apenas quando duas espécies de objetos são descobertas constantemente conjuntas, que nós podemos inferir uma a partir da outra; e, houvesse um efeito apresentado-se, o qual fosse inteiramente singular, e não pudesse ser compreendido sob nenhuma espécie conhecida, eu não vejo que nós pudéssemos formar nenhuma conjectura ou inferência de qualquer maneira relativa a sua causa. Se experiência, e observação, e analogia, forem de fato as únicas guias que nós sensatamente podemos seguir em inferências dessa natureza; tanto o efeito quanto a causa precisam conter uma similaridade e semelhança com outros efeitos e causas que nós conhecemos, e os quais nós descobrimos, em muitas instâncias, estarem conjugados uns com os outros. Eu deixo isso para vossa própria reflexão buscar as consequências desse princípio. Eu apenas deverei observar que os antagonistas de Epicuro sempre supuseram o universo, um efeito bastante singular e sem paralelos, ser a prova de uma Divindade, uma causa [169]não menos singular e sem paralelos; os seus raciocínios em consequência dessa suposição, parecem, pelo menos, merecerem nossa atenção. Eu reconheço, há alguma dificuldade em como nós nunca podemos retornar a partir da causa para o efeito, e, raciocinando a partir de nossas ideias sobre a primeira, inferir qualquer alteração sobre o segundo, ou qualquer adição a ele.


Parte final


ORIGINAL:

HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.151-169. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/151/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [152]Luciani δνμπ. ἢ, λαπίθαι.

2 Luciani εὐνοῦχος.

3 Id. et. Dio.

4 [165]No geral, eu penso, pode ser estabelecido como uma máxima que, onde qualquer causa é conhecida por seus efeitos particulares, deve ser impossível inferir quaisquer efeitos novos a partir dessa causa; uma vez que as qualidades que são necessárias para produzir esses novos eventos junto com os antigos, precisam, ou ser diferentes, ou superiores, ou de uma operação mais extensa, do que aqueles que simplesmente produziram o efeito, apenas do qual se supõe a causa conhecida por nós. Portanto, nós nunca podemos ter nenhuma razão para supor a existência dessas qualidades. Dizer que os novos efeitos procederam apenas a partir de uma continuação da mesma energia, a qual é sempre conhecida a partir dos primeiros efeitos, não removerá a dificuldade. Pois, mesmo concedendo que esse seja o caso (o qual raramente pode ser suporto), a continuação e empenho mesmos de uma energia similar (pois é impossível que ela possa ser absolutamente a mesma), eu digo, esse empenho de uma energia similar, em um período diferente de espaço e tempo, é uma suposição muito arbitrária e que, possivelmente, não pode haver nenhum traço de seus efeitos, a partir do qual todo o nosso conhecimento de causa é originariamente derivado. Que a causa inferida seja exatamente proporcionada (como ela deve ser) ao efeito conhecido; e é impossível que ela possa possuir quaisquer qualidades a partir das quais efeitos novos ou diferentes podem ser inferidos.

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