Uma Introdução à Ética
Capítulo 1 São o Certo e o Errado apenas Questões de Opinião? Sobre Relativismo e Subjetivismo Morais
por Paul Rezkalla
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| Uma Mulher Hindu jogando-se sobre a pira funerária de seu Esposo, por Frederic Shobel. Em The World in Miniature: Hindoostan via Wikimedia Commons. Essa obra está em domínio público. |
O recentemente falecido esposo dela jaz sobre a pira funerária esperando para ser acesa. Centenas de pessoas das vilas permaneciam de pé e esperando a viúva levar a cabo o seu dever de castidade a sua culminação. Enquanto a pira funerária era acesa, a mulher dava vários passos na direção dela e arrastava-se para cima do corpo de seu esposo para abraçar o pescoço dele. A dor era excruciante, mas se ela desmontasse, então envergonharia sua família e provavelmente seria linchada por uma turba, de qualquer maneira. Assim, ela deitava-se ali.
A prática de queimar uma viúva na pira funerária de seu esposo, conhecida como suttee ou sati, era lugar-comum em partes da Índia até o século XIX. Para permitir que as posses e propriedade do homem falecido retornassem às mãos da família dele, esperava-se que a viúva dele cometesse suicídio e levasse a cabo o seu dever de castidade imolando a si mesma na pira funerária dele. Vários casos de viúvas sendo afogadas ou queimadas vivas com seus esposos falecidos também foram registrados. Essa prática perdurou por 2000 anos até que os britânicos colocaram-na fora da lei em 1829 por motivos de que ela era desumana e imoral (ver Sharma 1988, 6-7).
É o suttee moralmente aceitável simplesmente porque era praticado e endossado por uma cultura? São os oficiais britânicos, quem colocaram o suttee fora da lei, moralmente louváveis por imporem um padrão externo sobre os habitantes nativos da Índia e perturbarem sua capacidade de executarem expectativas sociais sagradas? Há uma resposta correta para a questão de se ou não o suttee é moralmente aceitável?
Este capítulo lida com uma questão importante em metaética. Metaética é o ramo da ética que lida com a natureza da moralidade? Ele tenta responder a estas questões: O que é a moralidade? A moralidade é objetiva? De onde ela origina-se? Qual é a relação entre fatos morais, se eles existem, e este mundo físico com o qual nós interagimos? E assim, antes que nós descubramos como nós devemos ser e viver, primeiro, nós devemos estabelecer se há tal coisa como a maneira pela qual nós devemos ser e viver, em primeiro lugar. Uma das questões mais importantes em metaética é se há uma realidade moral que nos obrigue independentemente de nossos julgamentos, opiniões e crenças, e se há fatos morais que sejam necessária e universalmente verdadeiros. Talvez, os códigos éticos sejam meramente relativos aos grupos de pessoas. Talvez não haja moralidade objetiva, verdadeira e vinculante, fora da cultura, do período histórico e das preferências pessoais. A moralidade é objetiva e universal? Ou ela é meramente uma questão de opinião e tradição?
REALISMO E ANTIRREALISMO
Pense em uma ocasião quando você discordou com alguém sobre a coisa correta a fazer. Talvez fosse um amigo, um membro da família, celebridade, autor ou figura política. Você pode ter sentido muito fortemente que X é obviamente a coisa certa a fazer, o melhor curso de ação ou, meramente, o menor de dois males. A pessoa com a qual você estava discordando poderia ter sentido de maneira similar e, talvez, também, fornecesse razões para a posição dela. Ambos vocês fizeram alegações sobre moralidade. Cada um de vocês acreditava que sua própria posição estava correta e era verdadeira. Mas, essas alegações sobre moralidade são falsas ou verdadeiras da mesma maneira que fatos históricos e matemáticos são verdadeiros ou falsos?
“George Washington foi o décimo terceiro presidente dos Estados Unidos da América” é uma falsa alegação histórica porque George Washington não foi o décimo terceiro presidente dos Estados Unidos da América. Por que essa alegação história é falsa? Porque ele vai contra a realidade. De maneira similar, a questão agora diante de nós é se há uma realidade similar para a moral. Os fatos morais são fatos que se confirmam (hold true) independentemente do que nós pensamos sobre eles? Há fatos morais que são verdadeiros em virtude de alguma realidade moral independente da mente? Aqueles que dizem sim caem no campo do realismo moral. E aqueles que dizem não caem no campo do antirrealismo moral.
O realismo moral é a posição de que existem fatos independentes da mente sobre a ética que são verdadeiros e vinculativos mesmo se nós temos crenças para o contrário. Por exemplo, o realista moral diria que é objetivamente errado estuprar (to rape), mesmo se a vasta maioria das pessoas e culturas acreditasse de outra maneira – a verdade do “estupro é errado (rape is wrong)” sustenta-se independentemente de nossas opiniões e nossos julgamentos sobre estupro. Os realistas discordam sobre quais sãos os fundamentos ou o que constitui a verdade desses fatos morais, ou seja, comandos divinos, um conjunto de fatos necessários, a natureza das criaturas sencientes, etc. Não obstante, os realistas sustentam que esses fatos morais existem independente de nossas opiniões e julgamentos.
O antirrealismo moral é simplesmente a negação dessa tese. Para o antirrealista, não há fatos independentes da mente sobre a moralidade; a realidade pode ser construída ou é meramente relativa à cultura. Essa última versão de antirrealismo é a posição chamada de relativismo moral e é o tema deste capítulo. O relativismo moral, aproximadamente construído, é a visão de que os códigos éticos são relativos aos pontos de vistas das pessoas que os adotam. Isso pode significar muitas coisas, as quais serão discutidas abaixo, mas relativistas geralmente sustentam que verdades éticas são relativas à cultura, que o código ético de nenhuma cultura é superior ao de outra, e que nós não devemos julgar outros códigos éticos como inferiores ao nosso. Essa posição cai sob a categoria de antirrealismo porque ela nega que fatos morais existem independentemente de nós e antes argumenta que a moralidade é simplesmente um produto de pessoas e culturas.
RELATIVISMO DESCRITIVO
A mais suave e menos controversa forma de relativismo é o relativismo descritivo. De acordo com o relativismo descritivo, as moralidades e códigos éticos são radicalmente diferentes através de culturas diferentes – e nós podemos observar isso. Por exemplo, algumas culturas veem a homossexualidade como imoral, enquanto outras, não; algumas culturas consideram que a poligamia é moralmente aceitável (e até deveria ser encorajada), enquanto outras veem a monogamia como o ideal moral; algumas culturas praticam escravidão, enquanto outras consideram escravidão moralmente abominável, etc. A diversidade ética não é apenas observada e documentada agora por antropólogos culturais, mas até escritores antigos como Heródoto e alguns céticos gregos reconheceram as maneiras diferentes pelas quais as culturas conduziam casamentos, sepultamentos, disciplina militar e participação social. Aqueles que meramente aderem ao relativismo metafísico sustentam a visão de que as regras morais são observavelmente dissimilares através das culturas. Para alguns relativistas, isso sugere a falsidade da objetividade moral e é usado como evidência em favor de versões mais fortes de relativismo. Nem todos os relativistas argumentam que o relativismo descritivo é evidência contra a objetividade moral, mas, frequentemente, o relativismo começa a partir da verdade do relativismo descritivo e faz alegações mais fortes sobre a verdade moral sobre essa base. Em outras palavras, a observação de códigos morais diferentes através das culturas não necessariamente significa que a moralidade é relativa, mas alguns relativistas usam esse fato antropológico como evidência para conclusões mais fortes sobre o relativismo que nós examinaremos abaixo.
RELATIVISMO METAÉTICO
O escritor antigo Heródoto famosamente disse, “A cultura é rei (Culture is king)” baseado nas observações dele das diferentes moralidades culturais (Histories 3.38.4)1. Em consequência da observação das diferenças radicias nas maneiras pelas quais as culturas diferentes praticavam religião, sepultamento, organização da casa e até preferências de alimentação, ele conclui que não existe nenhum padrão além de uma cultura para determinar o bom e mau comportamento. Dessa forma, a cultura é rei.
Diferente do relativismo descritivo, o relativismo metaético faz esse tipo de alegação mais forte sobre a natureza da verdade moral. O relativismo metaético diz que as verdades morais são efetivamente somente verdades relativas a grupos específicos de pessoas. Isso significa que, se uma crença moral é verdadeira é dependente de, ou relativo a, o ponto de vista da pessoa ou cultura que tem a crença. Alguém em Cingapura e alguém na Inglaterra podem igualmente dizer “Está ensolarado do lado de fora,” mas é possível que a alegação seja verdadeira apenas para um deles. De maneira similar, o relativismo metaético é a posição de que declarações éticas são verdadeiras somente relativas ao contexto no qual elas são faladas. Em outras palavras, quando alguém alega que alguma prática, X, é moral, então a alegação é verdadeira se a cultura dela acredita e vive como se X fosse moral. Por exemplo, se uma cultura sustenta a visão de que relações sexuais antes do casamento (pre-marital sexual relations) são imorais, então, para essa cultura, é verdadeiro que ter relações sexuais antes do casamento é imoral. E para a cultura que acredita que é moralmente aceitável ter relações sexuais antes do casamento, então “ter relações sexuais antes do casamento é imoral” é falso.
Note que isso é diferente de dizer, “Mentir poderia ser moralmente permissível em certas situações, tais como quando um homicida homem do machado (murderous ax-man) pergunta a você onde sua família está escondendo-se.” O relativismo metaético não é sobre esse tipo de método de determinação do que é moral específico de situações. Antes ele diz que crenças e alegações morais são verdadeiras ou falsas relativas às culturas ou pontos de vista nas quais elas existem.
RELATIVISMO NORMATIVO
Finalmente, nós examinaremos o tipo mais forte de relativismo: relativismo normativo. É o tipo mais forte de relativismo porque ele vai além dos relativismos descritivo e metaético e faz uma alegação ainda mais maior. De acordo com o relativismo normativo, nenhuma pessoa ou cultura deve julgar os códigos éticos de outras culturas como sendo inferiores, nem deve nenhuma cultura intervir em outra cultura para a impedir de levar a cabo as especificidades de seu código ético. O relativista normativo diz que nós poderíamos preferir a moralidade específica de nossa cultura e mesmo sermos capazes de oferecer razões para o fazer, mas isso não implica que a nossa seja superior à de outros. Relativistas normativos argumentam que, porque não existe nenhum ponto de vista objetivo, independente, a partir do qual avaliar códigos morais, nenhuma cultura pode, justificadamente disser que a sua moralidade é objetivamente superior.
Aparentemente, isso poderia nos atingir como problemático por algumas razões. Talvez esse princípio de relativismo em si mesmo seja apenas específico de nossa cultura e não necessariamente se aplique a todas as culturas. Em outras palavras, apenas porque a minha cultura aceita no relativismo metafísico, isso não implica que todas as culturas devam conformar-se com o mesmo princípio (de relativismo metafísico) e não considerem suas moralidades como superiores. Contudo, se o relativista normativo insiste que este princípio é verdadeiro para todas as culturas (que nenhuma cultura deva julgar as moralidades de outras culturas ou considerar a sua moralidade superior), então isso parece como uma admissão de um valor universal que é verdadeiro através de todas as culturas, independentemente de se ou não elas acreditam-no ser verdadeiro. Lembre-se de que uma das razões pelas quais os relativistas negam a objetividade moral é a implausibilidade da existência de valores e fatos morais universais que nós podemos chegar a conhecer. E contudo, se o relativista normativo acredita que nenhuma cultura deve criticar a moralidade de outra cultura (e que esse princípio se verifica para todas as culturas), então esse é exatamente o tipo de fato moral universal que o relativista nega.
O PROBLEMA DA DIVERSIDADE MORAL
Como nós vimos na seção sobre relativismo descritivo, o problema da diversidade moral frequentemente é usado como evidência em defesa do relativismo. O relativismo parece oferecer uma explicação melhor de porque existe tanto desacordo moral no mundo. Os desacordos morais também tendem a ser observados mais profundamente entre culturas antes que no interior de culturas. Por exemplo, o relativista poderia indicar que as culturas discordam sobre a moralidade da homossexualidade – a prática homossexual sendo colocada fora da lei em uns poucos países e mesmo punível com a morte em alguns (Bearak e Cameron 2016). Talvez um exemplo mais claro seja aquele do controle de natalidade (birth control). Enquanto alguns países tenham tornado ilegal o controle artificial de natalidade, 92% dos americanos pensam que o controle de natalidade é moralmente aceitável e a maioria das nações ocidentais legalizou a maioria dos métodos de controle de natalidade (Gallup 2019; Kirk et al. 2013). Isso parece ser um ponto a favor do relativismo, pois, se a moralidade é relativa a culturas, então nós esperaríamos os desacordos morais serem mais evidentes e profundos quando comparando códigos éticos de culturas diferentes. Quão mais diferentes as culturas, mas diferentes os códigos éticos.
O realista moral, quem sustenta que há verdades objetivas sobre valores, tem duas possíveis respostas disponíveis para o problema do descordo moral. A primeira resposta é questionar o escopo e a profundidade do desacordo moral entre culturas. Alguns realistas argumentam que as diferenças entre moralidades em culturas são devidas mais às diferenças no conhecimento sobre o mundo do que em desacordo moral efetivo. Por exemplo, imagine uma cultura que pratique o senicídio – o assassinato autorizado de idosos. Quando um indivíduo no grupo alcança cinquenta anos de idade, espera-se que eles se submetam a um assassinato cerimonial de honra (cerimonial honor killing). Na superfície, isso parece conflitar com as sensibilidades e intuições morais de povos que não se envolvem nessa prática.
Mas suponha que alguém aprenda alguma nova informação, que esse grupo prática senicídio por causa dessas visões particulares sobre a vida após a morte. Eles acreditam que alguém vive a vida após a morte com o mesmo corpo com o qual morreu. Então, para construir cabanas, encontrar comida e criar uma família na vida após a morte, os membros do grupo precisam assegurar que seus anciões serão capazes de exitosamente superar os desafios da vida após a morte ao encerrarem suas vidas antes que os corpos deles tornem-se decrépitos.
Agora, a prática deles de senicídio é cingida pelos valores de cuidado e compaixão pelo idoso. A maioria das pessoas poderia ficar horrorizadas por uma tal prática, mas o desacordo não é um sobre valores e morais, mas sobre fatos sobre o mundo. Aqueles que ficam horrorizados podem não pensar que os idosos vivam a vida após a morte com os mesmos corpos com os quais eles morreram. Se eles pensassem, eles poderiam não considerar essa prática tão condenável. Dessa maneira, o objetivista poderia argumentar que muito das diferenças supostamente morais que nós observamos entre culturas são mais como esse caso, onde o desacordo diz respeito antes a fatos não morais do que a fatos morais.
A segunda resposta de objetivista é questionar a suposição principal feita pelo relativista quando argumentando a partir do problema da diversidade moral. O argumento moral do relativista contra a objetividade moral vem em dois passos: primeiro, ele assume que, houvesse uma moralidade objetiva, então não haveria tal diversidade moral, e segundo, então, ele rejeita a moralidade objetiva por causa da presença da diversidade moral. Mas por que nós deveríamos conceder a primeira suposição dele? Por que nós deveríamos assumir que, se a moralidade é objetiva, as pessoas não discordarão?
Suponha que eu dê a meus estudantes uma equação quadrática para resolver e eles todos inventam respostas diferentes. A presença de muitas respostas implica que não exista resposta correta? É claro que não. Em matemática, frequentemente, há uma resposta correta para um problema, independentemente de se ou nós tenhamos descoberto. Se a moralidade funcionar como a matemática dessa maneira, então isso poderia mostrar que respostas morais corretas são difíceis de se alcançar, mas certamente não mostra que não haja resposta correta. A suposição do relativista de que não haveria diversidade moral se a objetividade moral fosse verdade é, demonstrativamente, falsa.
OBJEÇÕES AO RELATIVISMO
Relativo a Quem?
Uma das dificuldades com o relativismo moral em geral é responder à questão de o que é uma cultura ou o que conta como um grupo apropriado de pessoas para a moralidade ser relativa a ou dependente de. Uma vila é uma população suficientemente grande para ter o seu próprio código ético válido? Ou é a moralidade relativa apenas a governos nacionais e as leis estabelecidas por eles? Talvez o subjetivismo moral seja a forma correta de relativismo, e a moralidade reduza-se aos julgamentos de cada sujeito individual ser suficiente para formar uma comunidade moral com um código ético.
Esse é um problema sério para o relativismo porque o conceito de uma cultura é tão vago e mal definido que ele se torna quase inútil para discussões éticas. Considere o exemplo do movimento abolicionista inicial nos Estados Unidos, anterior à abolição da escravatura: Era errado para um grupo de pessoas na América manterem visões antiescravidão dado que a maioria do país era pró-escravidão e a lei refletia tais crenças? É errado para grupos minoritários em outras nações manterem visões contrárias à opinião popular e à lei escrita? Se o relativismo metaético é verdadeiro, então uma alegação moral é verdadeira se ela está de acordo com a visão moral da cultura e falsa se não está. Isso significaria que os abolicionistas sustentavam uma falsa visão moral porque ela divergia da visão da cultura mais ampla.
Talvez o relativista possa responder que o movimento abolicionista foi grande o suficiente para contar como uma cultura, e, portanto, é uma posição moral legitima apesar dele ter diferido da visão da maioria naquele país. Mas isso meramente posterga a questão por um passo adicional: Se os abolicionistas contavam-se apenas com uma centena de membros, isso seria suficiente para compreender uma cultura? E se existissem apenas dois? Um? Em que bases o relativista define “cultura” para a tornar significante para discussão ética?
Algumas Coisas apenas parecem Erradas
As respostas mais comuns ao relativismo surgem na forma do que é chamado de uma reductio ad absurdum – uma forma de argumento pretendido para refutar uma visão mostrando-nos as conclusões difíceis ou absurdas (consequentemente o nome) às quais a visão sendo respondidas levaria. Se as consequências são suficientemente contraintuitivas ou ridículas, então nós estamos justificados em rejeitar a visão como sendo falsa. Por exemplo, se eu argumentei que toda pessoa deveria ser um médico em tempo integral, então não haveria políticos, bombeiros, oficiais de polícia, professores, trabalhadores humanitários, construtores em tempo integral, etc. Nós não podemos ter uma sociedade funcionando se minha posição fosse verdadeira. Nós precisamos de mais do que médicos em tempo integral para ter uma sociedade coerente. Dessa forma, minha posição conduz a consequências absurdas e, certamente, é falsa! Esta próxima seção examinará três problemas principais que o relativismo encara.
Se o relativismo é verdadeiro, então é difícil evitar a conclusão de que alguns comportamentos obviamente errados são efetivamente moralmente aceitos simplesmente porque algumas culturas praticam-lhes. A maioria das pessoas pensa que é realmente moralmente errado queimar viúvas sobre piras funerárias, a despeito de que isso foi praticado por um grande grupo em um momento. Contudo, a posição relativista compromete-se em conceder que até práticas como suttee, mutilação genital feminina, infanticídio e escravidão são moralmente aceitáveis para culturas que não as consideram como imorais. E por que o relativista nega que existam valores ou morais objetivos que valem universalmente, então não há padrão independente pelo qual avaliar comportamentos e códigos éticos.
Alguns relativistas, como David Wong (2009), veem a força desse problema e tentam contorná-lo concedendo que algumas moralidades são superiores porque elas têm melhor satisfeito as necessidades das pessoas, as quais são consistentes através de todas culturas. Contudo, essa tentativa de resgatar o relativismo parece enfraquecer o relativismo mesmo! Ao reconhecer que certas moralidades são superiores porque elas fazem trabalho melhor em ajudar humanos a florescerem, o relativista concedeu que existe, pelo menos, um fato moral que é verdadeiro independentemente de cultura ou ponto de vista, a saber, que o florescimento e bem-estar humanos são e nós deveríamos objetivar maximizá-los.
Se o relativista pensa que esse fato é verdadeiro, independentemente do que qualquer um acredita sobre ele, e se as culturas cujas moralidades melhor possibilitam o florescimento e bem-estar humanos são superiores às moralidades ou culturas que impedem o florescimento e bem-estar humanos, então essa admissão esvazia a posição relativista. Reconhecendo que algumas moralidades são objetivamente melhores do que outras presume que ali existe algum padrão ou conjunto de fatos independentes pelos quais nós podemos julgar moralidades e códigos éticos. Uma vez que a admissão de alguma(s) condição(ões) é(são) acolhidas(s), então parece que nós não mais estamos pensando relativisticamente, mas objetivamente.
Relativismo e Tolerância
Este último ponto se vincula a outro argumento proposto em favor do relativismo, a saber, que ele promove a tolerância. Admiravelmente, o relativista quer que abordemos o tema da ética com humildade e não nos apressarmos para condenar comportamentos que são diferentes dos nossos como imorais. A ideia é que, se nós reconhecemos que o código ético de nenhuma cultura é superior a outro, então nossa habilidade para praticar tolerância naturalmente aumenta, pois todas as moralidades são iguais. O relativismo, é argumentado, torna a superioridade moral injustificada.
Por mais nobre que isso possa parecer, ele depara-se com o mesmo problema que nós discutimos antes: se todas as moralidades são iguais, então, por que nós deveríamos pensar que a tolerância é um valor universal? Se o relativismo é verdadeiro, então nenhum código ético é superior, então, porque nós pensamos que um código ético que promova a tolerância é melhor do que o código ético que ignora a tolerância. Argumentado que nós deveríamos preferir o relativismo na base de que ele é melhor para promover e justificar a tolerância, então o relativista concedeu a existência de, pelo menos, um valor universal pelo qual todas as moralidades podem ser julgadas, a saber, a tolerância. A presença desse valor universal – desse fato objetivo sobre a maneira pela qual nós devemos viver e comportar – enfraquece o relativismo, em si mesmo, pois ela concede que, pelo menos, há um valor que não é relativo.
Além disso, a tolerância frequentemente é uma reação apropriada para a interação com posições, crenças e comportamentos que são diferentes dos nossos próprios. Mas não são alguns comportamentos e pontos de vista morais dignos de tolerância? Certamente, é apropriado ser intolerante com abuso infantil, doutrinação, escravidão, violência sem sentido, opressão do vulnerável, etc. Embora a tolerância obviamente seja apropriada e até necessária em algumas situações, a intolerância, e mesmo indignação e ofensa moral, são certamente apropriadas na face do mal.
Sem Espaço para Reforma Social e Progresso
Uma das mais fortes objeções ao relativismo é a ideia de que, se o relativismo é verdadeiro, então não pode haver tal coisa como reforma social ou progresso moral. Se o código ético de toda cultura é igualmente bom e correto, então quando um país muda seu código ético de ser pró-escravidão para ser antiescravidão essa mudança moral é meramente uma mudança antes que um aperfeiçoamento (improvement). O aperfeiçoamento e progresso morais requerem que haja algum padrão na direção daquilo que uma sociedade ou código ético estão aproximando-se; eles também implicam que a moralidade subsequente é melhor do que a moralidade anterior, mas, novamente, isso não é alguma coisa que pode ser dita se o relativismo for verdadeiro.
Quando os Estados Unidos aboliram a escravidão e segregação, e concederam às mulheres e minorias o direito ao voto, sua conduta ética passou por uma mudança. Mas dizer que ele passou por um aperfeiçoamento requer dizer que escravizar Afro-americanos, segregar Brancos de Negros, e evitar que mulheres e minorias votem são objetivamente piores, moralmente falando, do que seus opostos. Consistentemente, o relativismo não pode suportar uma tal pois relativismo implica precisamente o oposto, a saber, que não há método objetivo para a moralidade e que a moralidade é relativa a comunidades. Se uma comunidade decide que ela quer endossar X e, em seguida, decide moralmente condenar X, então as duas moralidades são iguais. Nenhuma moralidade é superior à outra.
Contudo, isto parecer como outra dificuldade a encarar (bullet to bite). O relativismo implica que certas instâncias de óbvio aperfeiçoamento moral são meramente instâncias de mudança, em vez de progresso, moral. O trabalho de William Wilderforce para colocar um fim no comércio de escravos no Império Britânico, a vida, e eventual martírio, de Martin Luther King Jr dedicada à defesa da igualdade e à eliminação do racismo, e outros exemplos morais sem conta que foram capazes de ver além da cultura, do direito e do costume aceito para reconhecerem verdades morais que estavam enterradas ou obscurecidas ao longo do tempo realmente ajudam a induzir progresso moral. Falar de outra maneira parece fortemente contraintuitivo.
CONCLUSÃO
Muito do relativismo esposado por pessoas comuns admiravelmente tem suas raízes nas virtudes da tolerância por visões opostos e humildade sobre suas próprias preferências, e, nesse respeito, ele pode ser aplaudido. Contudo, esse tipo de relativismo frequentemente é endossado sem o nível apropriado de avaliação crítica que inevitavelmente mostra a inconsistência, inabitabilidade e até as consequências imorais do relativismo. Tais consequências incluem:
O progresso moral é impossível.
Certos comportamentos obviamente imorais, como a escravidão e opressão de mulheres e minorias, são moralmente aceitáveis simplesmente porque eles desfrutam de aceitação por uma cultura.
É por essas razões, entre outras, que, de acordo com uma pesquisa de 2009, apenas 27,7% de filósofos profissionais são antirrealistas, com apenas uma fração deles endossando o relativismo sobre ética (Bourget e Chalmers 2014, 34). O relativismo conflita com muito do que parece ser fundamental à experiência humana. Nós nos envergonhamos quando nos lembramos das atrocidades da Escravidão americana, do Holocausto, e do Estupro de Nankin. Nós vemos erroneidade dessas atrocidades como nós vemos a correção 2 + 2 = 4. O relativismo sofre de város problemas principais e isso deveria nos fazer questionar sua habilidade para explicar a natureza da moralidade.
REFERÊNCIAS
Bearak, Max e Darla Cameron. 2016. “Here are the 10 Countries where Homosexuality may be Punished by Death.” The Washington Post. 16 de Junho. https://www.washingtonpost.com/news/worldviews/wp/2016/06/13/here-are-the-10-countries-where-homosexuality-may-be-punished-by-death-2/?noredirect=on
Bourget, David e David J. Chalmers. 2014. “What Do Philosophers Believe?” Philosophical Studies 170(3): 465-500. https://philpapers.org/rec/BOUWDP
Gallup. 2019. “Moral Issues.” http://www.gallup.com/poll/1681/moral-issues.aspx
Heródoto. (século 5 a.C) 1920. The Histories, ed. A. D. Godley. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Kirk, Chris, Charanya Krishnaswami, Katie Mesner-Hage, Skye Nickalls. 2013. “Reproductive Rights Around the World.” Slate. 30 de Maio. http://www.slate.com/articles/news_and_politics/map_of_the_week/2013/05/abortion_and_birth_control_a_global_map.html
Sharma, Arvind. 1988. Sati: Historical and Phenomenological Essays. Delhi, India: Motilal Banarsidass.
LEITURA ADICIONAL
Dreier, James. 2006. “Moral Relativism and Moral Nihilism.” Em The Oxford Handbook of Ethical Theory, ed. David Copp. Oxford/New York: Oxford University Press.
Harman, Gilbert. “Moral Relativism Explained.” https://philpapers.org/rec/HARMRE
Midgley, Mary. (1981) 2003. “Trying out One’s New Sword.” Em Heart and Mind: The Varieties of Moral Experience. Oxford/New York: Routledge.
Pojman, Louis. 2004. “Who’s to Judge?” Em Vice and Virtue in Everyday Life: Introductory Readings in Ethics, eds. Christina Sommers and Fred Sommers, 179-189. Belmont, CA: Wadsworth/Thomson.
Wong, David B. 2009. Natural Moralities: A Defense of Pluralistic Relativism. New York: Oxford University Press.
ORIGINAL:
REZKALLA, P. Aren’t Right and Wrong Just Matters of Opinion? On Moral Relativism and Subjectivism. In. MATTHEWS, G. Introduction to Philosophy: Ethics. Rebus Community: 2019. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-ethics/chapter/arent-right-and-wrong-just-matters-of-opinion-on-moral-relativism-and-subjectivism/>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 Ver Heródoto, The Histories, em Perseus Digital Library, ed. Geoffrey R. Crane, http://data.perseus.org/citations/urn:cts:greekLit:tlg0016.tlg001.perseus-grc1:3.38.4

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