Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.
Por Thomas Hobbes
Parte I Do Homem
[51]Capítulo VII Dos Fins, ou das Resoluções do Discurso
De todos os discursos governados pelo desejo de conhecimento há, pelo menos, um fim, quer por alcançar, quer por desistir. E na cadeia do discurso, onde quer que ela seja interrompida, há um fim por aquele momento.
[52]Se o discurso for meramente mental, ele consiste em pensamentos de que a coisa será, e de que não será; ou de que ela tem sido, e de que não tem sido, alternadamente. Assim, onde quer que você rompa a cadeia do discurso de um homem, você deixa-o na presunção de que será, ou de que não será; ou que tem sido, ou de que não tem sido. Tudo o que é opinião. E aquilo que é apetite alternado, na deliberação a respeito do bem e do mal; o mesmo é na opinião alternada, na investigação da verdade do passado e futuro. E o último apetite na deliberação, é chamado de vontade (will), assim, a última opinião na busca da verdade do passado, e do futuro, é chamada de JULGAMENTO, ou sentença final e resoluta daquele que discursa. E como a inteira cadeia de apetites alternados é chamada de deliberação; assim a inteira cadeia de opiniões alternadas, na questão do verdadeiro, ou do falso, é chamada de DÚVIDA.
Nenhum discurso que seja pode terminar em conhecimento absoluto de fato, passado ou por vir. Pois, quanto ao conhecimento do fato, ele é, originariamente, o sentido e, para sempre, a memória. E pelo conhecimento da consequência, o qual eu disse antes é chamado de ciência, ele não é absoluto, mas condicional. Nenhum homem pode conhecer por discurso, que isto ou aquilo é, foi, ou será; o que é conhecer absolutamente: mas apenas que, se isto é, que é; se isto foi, que tem sido; se isto deve ser, que deverá ser: que é conhecer condicionalmente; e isso não é a consequência de uma coisa para outra; mas do nome de uma coisa, para o nome da mesma coisa.
E portanto, quando o discurso é colocado em linguagem, e começa com as definições de palavras, e segue pela conexão das mesmas em afirmações [53]gerais, e, novamente, dessas em silogismos; o fim ou última soma é chamado de conclusão; e o pensamento da mente por ela significado, é aquele conhecimento condicional, ou conhecimento das consequências de palavras, o qual é comumente chamado de CIÊNCIA. Mas, se o primeiro fundamento de tal discurso não forem as definições; ou se as definições não estiverem corretamente combinadas em silogismos, então o fim ou conclusão é, novamente, OPINIÃO, a saber, da verdade de uma alguma coisa dita, embora, algumas vezes em palavras absurdas e sem sentido, sem a possibilidade de serem entendidas. Quando dois ou mais homens conhecem um e mesmo fato, diz-se que eles estão CONSCIENTES dele um para o outro; o que é praticamente o conhecer conjuntamente. E porque tais são as mais adequadas testemunhas dos fatos um do outro, ou de um terceiro; foi, e sempre será considerado um fato muito mau, para qualquer homem falar contra sua consciência; ou corromper ou forçar outro a fazê-lo: de tal maneira que o apelo à consciência sempre tem sido ouvido com atenção, muito diligentemente, em todas as épocas. Mais tarde, os homens fizeram uso da mesma palavra metaforicamente, pelo conhecimento de seus próprios fatos secretos, e pensamentos secretos; e portanto, é retoricamente dito que a consciência é mil testemunhas. E por último, os homens veementemente apaixonados por suas próprias opiniões, embora nunca tão absurdas, e obstinadamente inclinados a mantê-las, também concedem às suas opiniões aquele reverenciado nome de consciência, como elas fariam parecer ilegítimo, mudar ou falar contra ela; e assim fingem saber que elas são verdadeiras, quando eles, no máximo, apenas pensam que elas são.
Quando o discurso de um homem não começa por definições, [54]ele começa ou em alguma contemplação de si próprio, e então ainda é chamado de opinião; ou ele começa em algum dito de outro, a habilidade do qual de conhecer a verdade, e a honestidade do qual em não enganar, ele não dúvida; e então o discurso não diz respeito tanto à coisa, como à pessoa; e a resolução é chamada de CRENÇA, e FÉ: fé no homem; crença, tanto no homem, quanto na verdade do que ele diz. De modo que, na crença, existem duas opiniões; uma do dito do homem; a outra, de sua virtude. Ter fé em, ou confiar em, ou confiar em um homem, significam a mesma coisa; a saber, uma opinião da veracidade do homem: mas, acreditar no que é dito, apenas significa uma opinião da verdade do dito. Mas nós devemos observar que a frase, eu acredito em; também como o latim, credo in; e o grego, piseno eis (πιςένω ἐις), nunca são usados, exceto nos escritos de teólogos. Em vez deles, nos outros escritos são colocados, eu acredito nele; eu confio nele; eu tenho fé nele; eu conto com ele: e em latim, credo illi: fido illi; e em grego, piseno anto (πιςένω αὐτω); e que essa singularidade do uso eclesiástico da palavra gerou muitas disputas no objeto de direito da fé cristã.
Mas, por acreditar em, como está no credo, quis-se dizer não confiar na pessoa; mas confissão e reconhecimento da doutrina. Pois não apenas cristãos, mas todas as formas de homens assim acreditam em Deus, como a considerarem tudo verdade o que eles ouvem ele dizer, quer eles entendam-no, quer não; o que é toda a confiança que possivelmente pode ser tida em qualquer pessoa que seja: mas todos eles não acreditam na doutrina do credo.
A partir de onde nós podemos inferir que, quando nós acreditamos [55]em alguém dizendo o que quer que seja, ser verdadeiro, a partir de argumentos recebidos, não a partir da coisa mesma, ou a partir de princípios da razão natural, mas a partir da autoridade, e boa opinião que nós temos daquele que disse isso; então é o falante, ou a pessoa na qual nós acreditamos, ou confiamos, a cuja palavra nós recebemos, o objeto de nossa fé; e a honra feita em acreditar, é feita em honra apenas dele. E consequentemente, quando nós acreditamos que as Escrituras são a palavra de Deus, não tendo revelação imediata dele mesmo, nossa crença, fé e confiança estão na igreja; e a palavra de quem nós recebemos e aquiescemos a ela. E aqueles que acreditam naquilo que um profeta diz relacionam-se com eles em nome de Deus, recebem a palavra do profeta, honram-lhe, e nele confiam, e acreditam, tocando a verdade que ele relata, quer ele seja um verdadeiro profeta, quer um falso. E assim também é com qualquer outra história. Pois, se eu não devesse acreditar em tudo que foi escrito por historiadores, dos atos gloriosos de Alexandre, ou de César; eu não penso que o fantasma de Alexandre, ou de César, tenha qualquer causa justa para ficar ofendido; ou qualquer outro, apenas o historiador. Se Lívio diz que, uma vez, os Deuses fizeram uma vaca falar, e nós não acreditamos; nisso nós não desconfiamos de Deus, apenas de Lívio. De maneira que é evidente que, no que quer que nós acreditamos, em consequência de nenhuma outra razão do que daquela que é extraída a partir da autoridade de homens apenas, e dos escritos deles; quer elas sejam enviadas por Deus, quer não, é fé apenas em homens.
ORIGINAL:
HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. 51-55. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/51/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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