terça-feira, 1 de novembro de 2022

Leviatã VIII Das Virtudes comumente chamadas de Intelectuais; e seus Defeitos Contrários

Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.


Por Thomas Hobbes


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Parte I Do Homem


[56]Capítulo VIII Das Virtudes comumente chamadas de Intelectuais; e seus Defeitos Contrários


A VIRTUDE em geral, em todos os tipos de assuntos, é algo que é apreciado pela eminência e consiste na comparação. Pois, se todas as coisas fossem iguais em todos os homens, nada seria apreciado. E por virtudes intelectuais, são sempre entendidas aquelas habilidades da mente que os homens apreciam, valorizam e desejam [que] deveriam existir neles mesmos; e comumente são chamadas de uma boa inteligência (good wit); embora a mesma palavra inteligência (wit) também seja usada para distinguir uma habilidade determinada a partir do resto.

Essas virtudes são de dois tipos; natural e adquirida. Por natural eu não quero dizer aquilo que um homem tem desde o seu nascimento: pois isso não é nada exceto a sensação (sense); no que os homens diferem tão pouco uns dos outros, e das bestas brutas, que ela não deve ser reconhecido entre as virtudes. Mas eu quero dizer aquela inteligência que é obtida apenas por uso e experiência; sem método, cultura ou instrução. Essa INTELIGÊNCIA NATURAL consiste principalmente em duas coisas; celeridade de imaginação, quer dizer, sucessão rápida de um pensamento para outro; e direção firme para algum objetivo (end) aprovado. Pelo contrário, uma imaginação lenta, forma aquele defeito, ou falha da mente, o qual é comumente chamado de LENTIDÃO DE ENTENDIMENTO (DULLNESS), estupidez e, algumas vezes, por outros nomes que significam lentidão de movimento, ou dificuldade para ser movido.

[57]E essa diferença de vivacidade (quickness) é causada pela diferença das paixões dos homens; esse amor e essa aversão (dislike), alguns uma coisa, alguns, outra: e, portanto, alguns dos pensamentos de alguns homens fluem de uma maneira, alguns, de outra; e aderem fortememente a, bem como observam diferentemente, as coisas que atravessam a imaginação deles. E considerando que nessa sucessão dos pensamentos dos homens não há nada a observar nas coisas sobre as quais eles pensam, mas, ou no que eles são semelhantes um a outro, ou no que eles são diferentes, ou para que eles servem, ou como eles servem a tal propósito; aqueles que observam essas semelhanças, no caso em que elas sejam tais como a serem apenas raramente observadas por outros, são ditos terem uma boa inteligência (good wit); pela qual, nessa ocasião, quer-se dizer uma boa imaginação (good fancy). Mas aqueles que observam as diferenças delas, e dissimilitudes; o que se chama de distinção (distinguishing), e discernimento (discerning), e julgamento (judging) entre coisa e coisa; no caso de tão discernimento não for fácil, eles são ditos terem um bom julgamento: e particularmente em questões de conversa e atividade (business); nas quais, tempos, lugares e pessoas devem ser discernidos, essa virtude é chamada da DISCRIÇÃO (DISCRETION). A anterior, quer dizer, a imaginação (fancy), sem a ajuda do julgamento, não é elogiada (commended) como uma virtude; mas a posterior, a qual é o julgamento e a discrição, é elogiada por si mesma, sem a ajuda da imaginação. Além da discrição de tempos, lugares e pessoas, necessária para uma boa imaginação, também aqui frequentemente se requer uma aplicação de seus pensamentos a este objetivo; quer dizer, a algum uso feito deles. Isso feito; aquele que tem essa virtude, facilmente estará bem ajustado com simillitudes, que agradarão, não apenas para as ilustrações de seus discursos, adornando-os com metáforas novas e aptas, mas também pela raridade de sua invenção. Mas, sem firmeza (steadinees) e direção para algum objetivo, uma [58]grande imaginação é um tipo de loucura (madness); tal como têm aqueles que, entrando em qualquer discurso, são arrebatados (snatched) por seu propósito, por cada coisa que surge em seu pensamento, em tantas e tão longas digressões e parênteses, que eles perdem completamente a si mesmos; um tipo de loucura (folly) para o qual eu não conheço nome; mas a causa dela é, algumas vezes, a carência (want) de experiência; através daquilo que parece para um homem novo e raro, o qual não é assim para outros: algumas vezes, pusilanimidade; pela qual, aquilo que parece grande para ele os outros homens consideram uma ninharia (trifle): e, o que quer que seja novo ou grande e, portanto, considerado adequado para ser dito, gradualmente, afasta um homem do caminho pretendido por seu discurso.

Em um bom poema, seja ele épico, ou dramático; como também em sonetos, epigramas, e em outras peças, julgamento e imaginação (fancy) são igualmente requeridos; mas a imaginação tem de ser mais eminente; porque eles agradam pela extravagância; mas não devem desagradar pela indiscrição.

Em uma boa história, o julgamento tem de ser eminente; porque a excelência (goodness) no método, na verdade e na escolha das ações que são mais vantajosas (profitable) de serem conhecidas. A imaginação não tem lugar, exceto apenas adornando o estilo.

Em orações de elogio e em invectivas, a imaginação é predominante; porque a intenção não é a verdade, mas honrar ou desonrar; o que é realizado através de comparações nobres ou vis. O julgamento apenas sugere que circunstâncias tornam uma ação louvável (laudable) ou culpável.

Em exortativos (hortatives) e súplicas (pleadings) conforme a verdade, ou o disfarce, serve-se melhor à intenção em mãos; assim é o julgamento, ou a fantasia, o(a) mais requerido(a).

Em demonstração, conselho e em toda busca [59]rigorosa pela verdade, o julgamento faz tudo, exceto que, algumas vezes, o entendimento precisa ser aberto por alguma similude adequada; e então, há tanto uso da imaginação. Mas quanto a metáforas, nesse caso, elas estão completamente excluídas. Pois, percebendo que, abertamente, elas professam enganar, admiti-las em conselho, ou raciocínio, seria loucura manifesta.

E em muitos discursos quaisquer que sejam, se o defeito de discrição for aparente, quão extravagante que seja a imaginação, o inteiro discurso será considerado como um sinal de carência de inteligência; e assim nunca será, quando a discrição for manifesta, embora a imaginação nunca seja tão ordinária.

Os pensamentos secretos do homem percorrem todas as coisas, sagradas, profanas, limpas, obscenas, graves e leves, sem vergonha ou culpa; o que o discurso verbal não pode fazer, mais que o julgamento deve aprovar do tempo, do local e das pessoas. Como o anatomista, ou um médico, pode falar ou escrever o seu julgamento de coisas imundas; porque não é para agradar, mas para beneficiar: mas, para outro homem escrever suas imaginações prazerosas e extragavantes sobre o mesmo, é como se um homem, depois de ter colapsado no sujo, deva chegar e apresentar a si mesmo diante de boa companhia. E é essa falta de discrição que faz a diferença. Novamente, em descuido professado da mente e em companhia familiar, um homem pode brincar com os sons e com as significações equívocas das palavras; e isso muitas vezes em encontros com imaginação extraordinária: mas em um sermão, ou em público, ou diante de pessoas desconhecidas, ou em público, ou a quem nos deveríamos reverenciar; não há tilintado de palavras que não seria explicado como loucura: e a diferença é apenas a falta de discrição. De modo que, onde a inteligência está faltando, não é [60]a imaginação que está faltando, mas a discrição. Portanto, o julgamento sem imaginação é inteligência, mas a inteligência sem o julgamento, não.

Quando os pensamentos de um homem, que tem um desígnio em mãos, percorrendo uma multitude de coisas, observam como elas conduzem àquele desígnio; ou a qual desígnio elas podem conduzir; se suas observações são tais como não fáceis, ou usuais, essa inteligência dele é chamada da PRUDÊNCIA; e depende de muita experiência, de memória de coisas semelhantes e de suas consequências até agora. No que não há tanto diferença de homens, como há de suas imaginações e julgamento; porque a experiência de homens iguais em idade, não é muito desigual, quanto à quantidade; mas jaz na diferença de ocasiões; cada um tendo seus desígnios privados. Governar bem uma família, e um reino, não são tipos diferentes de prudência; mas tipos diferentes de empresa (business); não mais do que desenhar um retrato em [tamanho] pequeno, ou tão grande, ou maior do que a vida, são diferenres graus de arte. Um simples lavrador (husbundman) é mais prudente nos assuntos (affairs) de sua própria casa do que um conselheiro privado (privy-councillor) nos assuntos de outro homem.

À prudência, se você acrescentar o uso de meios injustos, ou desonestos, tais como usualmente são induzidos nos homens por medo, ou por carência; você tem aquela sabedoria tortuosa, a qual é chamada de ASTÚCIA (CRAFT); a qual é um sinônimo de pusilanimidade. Pois magnanimidade é desprezo de auxílios injustos ou desonestos. E que aquilo que os latinos chamam de versutia, traduzido para o português (inglês), inconstância (shifting), e é a adiamento (putting off) de um perigo ou de uma incomodidade presente, ao engajar-se com um maior, como quando um homem rouba um para pagar outro, é apenas uma astúcia de visão curta (shorter-sighted), chamada de versutia, a partir de versura, a qual significa [61]tomar dinheiro na usura para o pagamento presente de juros.

Quanto à inteligência adquirida (acquired wit), eu quero dizer, adquirida por método e instrução, não há nenhuma exceto a razão; a qual está fundamentada no uso correto do discurso, e produz as ciências. Mas, sobre a razão e as ciências, eu já falei, nos capítulos quinto e sexto.

As causas dessa diferença de inteligências estão nas paixões; e a diferença de paixões procede, em parte, a partir da constituição diferente do corpo e, em parte, a partir da educação diferente. Pois, se a diferença procedesse a partir do temperamento do cérebro e dos órgãos do sentido, ou exteriorres ou interiores, não haveria menor diferença dos homens em sua visão, audição e outros sentidos, do que em suas imaginações e discrições. Portanto, ela procede a partir das paixões; as quais são diferentes, não apenas a partir da diferença das compleições dos homens; mas também a partir de suas diferenças de costumes e educação.

As paixões que, em sua maioria, causam a diferença de inteligência são, principalmente, o maior ou menor desejo de poder, de riquezas, de conhecimento e de honra. Todos os quais podem ser reduzidos ao primeiro, quer dizer, desejo de poder. Pois riquezas, conhecimento e honra são apenas vários tipos de poder.

E portanto, um homem que não tenha nenhuma grande paixão por qualquer uma dessas coisas; mas é, como os homens o denominam, indiferente; embora ele possa estar muito longe de um bom homem, quando a ser livre de ofender; todavia, ele possivelmente não pode ter uma grande imaginação, ou muito julgamento. Pois os pensamentos estão para os desejos, como batedores (scouts) e espiões para vaguearem no exterior, e encontrarem o caminho para as coisas desejadas: toda a firmeza o movimento de mente, e toda a rapidez da mesma, procedendo a partir [62]dai: não ter nenhum desejo, é estar morto: e ter paixões fracas, é ser de entendimento lento (dullness); e ter paixões indiferentemente por tudo, TONTURA (GIDDINESS), e distração; e ter paixões mais fortes e mais veementes por qualquer coisa que não é ordinariamente vista em outros é aquilo que os homens chamam de LOUCURA (MADNESS).

Da qual existem quase tantos tipos quanto das paixões mesmas. Algumas vezes, a paixão extraordinária e extravagante procede a partir da má constituição dos órgãos do corpo, ou do dano (harm) feito a eles; e, algumas vezes, o dano (hurt), e a indisposição dos órgãos, é causado pela veemência, ou longa continuidade da paixão. Mas, em ambos os casos, a loucura é de uma e mesma natureza.

A paixão, cuja a violência, ou continuidade, produz a loucura, é, ou grande vanglória (vain-glory); a qual é comumente chamada de orgulho (pride) e vaidade (self-conceit); ou grande desânimo (dejection) da mente.

O orgulho (pride), sujeita um homem à raiva (anger), o excesso da qual é a loucura chamada de IRA (RAGE) e FÚRIA (FURY). E, dessa forma, acontece que o desejo excessivo de vingança (revenge), quando ele se torna habitual, prejudica os órgãos e também se torna ira: que o amor excessivo, com ciúmes, também se torna raiva, a opinião excessiva de um homem por si mesmo, por inspiração divina, por sabedoria, forma e coisa semelhantes, torna-se distração e tontura (giddiness): o mesmo, combinado com inveja, raiva, opinião veemente da verdade de qualquer coisa, contradita por outros, raiva.

O desânimo (dejection) submete um homem a medos sem causa; o que é uma loucura, comumente conhecida como MELÂNCOLIA; também aparente de diversas maneiras; como na assombração (haunting) de ermos (solitudes) e covas; em comportamento superticioso; e no temor, alguns de uma, alguns de outra, coisa [63]particular. Em suma, todas as paixões que produzem comportamento estranho e incomum, são chamadas pelo nome geral de loucuras, mas, dos vários tipos de loucura, aquele que suporta o sofrimento (take the pains), poderia registrar uma legião. E, se os excessos são loucura, não há dúvida de que apenas as paixões mesmas, quando eles tendem para o mal, são graus da mesma.

Por exemplo, embora o efeito da loucura, naqueles que estão possuídos de uma opinião de estarem inspirados, não esteja sempre visível em um homem, por qualquer ação extravagante, ele procede a partir de tal paixão; todavia, quando muitos deles conspiram juntos, a ira da multitude inteira é suficientemente visível. Pois, qual argumento de loucura pode haver maior do que gritar, atacar, e jogar pedras em seus melhores amigos? Todavia, isso é um pouco menos do que tal multitude fará. Pois ele clamarão, lutarão contra e destruirão aqueles, por quem durante toda a vida anterior deles, eles foram protegidos de e assegurados contra dano. E, se isso for loucura na multitude, ela é a mesma em cada homem particular. Pois, como no meio do mar, embora um homem não perceba nenhum som daquela parte de água próxima a ele, todavia, ele está bem seguro de que aquela parte contribui tanto para o rugido do mar quanto qualquer outra parte da mesma quantidade; também assim, embora nos não percebamos grande inquietação em um ou dois homens, contudo, nós podemos estar bem seguros de que as paixões particulares deles são partes do rugido sedicioso de uma nação agitada. E se não houvesse nada senão aquilo que revelou sua loucura; contudo, essa inspiração tão arrogante para eles mesmos, é argumento suficiente. Se algum homem em Tumulto (Bedlam) devesse entreter você com discurso sóbrio; e você desejasse despedir-se, para saber o quem ele [64]era, para que você pudesse, em outro momento, retribuir sua civilidade; ele deveria dizer a você, ele era Deus, o Pai; eu não penso que você deva esperar nenhuma ação extravagante por argumento de sua loucura.

Essa opinião sobre inspiração, comumente chamada de espírito privado, começa muito frequentemente a partir de alguma descobcerta (finding) sortuda de algum erro geralmente sustentado por outros; e não conhecendo, não se lembrando de, por qual conduta da razão, eles chegaram a uma verdade tão singular, (como eles pensam nela, embora, muitas vezes, seja sobre uma inverdade que eles lançaram luz), eles logo admiram a si mesmos, como estando na graça especial de Deus Todo-poderoso, quem revelara o mesmo para eles, sobrenatualmente, através de seu Espírito.

Novamente, essa loucura nada mais é senão apenas muita paixão de aparentar (appearing), pode ser reunida a partir dos efeitos do vinho, os quais são os mesmos daquela má disposição dos órgãos. Pois, a variedade de comportamento em homens que beberam demais é a mesma que aquela dos loucos; alguns deles enfurecendo-se (raging), outros amando, outros rindo, todos extravagantemente, apenas de acordo com suas várias paixões dominantes: pois o efeito do vinho, apenas remove a dissimulação, e retira deles a visão da deformidade de suas paixões. Pois, eu acredito, a maioria dos homens sóbrios, quando eles andam sozinhos sem cuidado e emprego da mente, seriam relutantes da vaidade e extravagância de seus pensamentos naquela ocasião em que eles deveriam ser publicamente vistos; o que é uma confissão de que paixões não guiadas são, na maior parte, mera loucura.

As opiniões do mundo, igualmente em épocas antigas ou posteriores, relativas à causa da loucura, foram duas. Algumass as derivam a partir de paixões; [65]algumas, a partir de demônios, ou espíritos, ou bons ou maus, os quais, eles pensavam, poderiam entrar em um homem, possuí-lo, e mover seus órgãos de uma maneira tão estranha e rude, como os loucos o fazem. Portanto, o primeiro tipo, chamava tais homens de loucos (madmen); mas o segundo, algumas vezes demoníacos (demoniacs), quer dizer, possuído por espíritos; algumas vezes, de energúmenos (enurgumeni), quer dizer, agitado ou movido por espiritos; e agora, na Itália, eles são chamados não apenas de pazzi, loucos (madmen); mas também de spiritati, homens possuídos.

Uma vez houve uma grande confluência de pessoas em Abdera, uma cidade dos gregos, durante uma representação da tragédia de Andromeda, em um dia extremamente quente; em consequência do que, um número substancial de espectadores sucumbindo a febres, tiveram este acidente a partir do calor e da tragédia combinados, que não pronunciavam nada senão iâmbicos, com os nomes de Perseu e Andromeda; o que, junto com a febre, foi curado pela chegada do inverno; e essa loucura foi considerada proceder a partir da paixão impressa pela tragédia. De maneira similar, ali reinou uma crise (fit) de loucura em outra cidade grega, a qual apanhou apenas jovens donzelas; e causou muitas delas a enforcarem a si mesmas. Na época, isso foi considerado pela maioria um ato do Diabo. Mas alguém que suspeitou de que o desprezo delas pela vida poderia proceder a partir de alguma paixão da mente, e, supondo que elas não desprezavam a sua própria honra, aconselhou ao magistrado para as despir tal como assim elas enforcavam a si mesmas e deixá-las enforcadas nuas. A história disse que isso curou aquela loucura. Mas, por outro lado, os mesmos gregos, frequentemente atribuíam a loucura à operação de Eumênides, ou Fúrias; ou, algumas vezes, de Ceres, Febo e outros deuses; [66]tanto quanto homens atribuem a fantasmas, de maneira a considerar-lhes corpos aéreos vivos; e, de modo geral, a chamar-lhes de espíritos. E nisso os romanos sustentavam a mesma opinião que os gregos, assim também o faziam os judeus; pois eles chamavam os profetas de loucos, ou, de acordo como eles consideravam os espíritos bons ou maus, possuídos por espíritos (demoniacs); e alguns deles chamados igualmente de profetas e possuídos por espíritos, loucos; e alguns chamavam o mesmo homem de possuído por espírito e louco. Mas para o gentios isso não surpreende, porque, doenças e saúde, vícios e virtudes, e muitos acidentes naturais, eram com eles denominados de, e adorados como, demônios. De maneira que um homem devia entender por demônio, algumas vezes, uma febre (ague) assim como um diabo. Mas, para os judeus terem uma opinião semelhante é um pouco estranho. Pois nem Moisés nem Abraão pretenderam profetizar pela possessão de um espírito; mas a partir da voz de Deus; ou por uma visão ou sonho: nem há coisa alguma na lei deles, moral ou cerimonial, pela qual eles foram ensinados que havia semelhante entusiasmo, ou qualquer possessão. Quando sobre Deus é dito, (Números. xi. 25) que ele tomou o espírito que estava em Móises e deu aos setenta anciãos, o Espírito de Deus (tomando-o pela substância de Deus) não foi divido. As escrituras, pelo Espírito de Deus no homem, significam um espírito de homem inclinado à divindade (godliness). E onde é dito (Exôdo, xxiii. 8) “a quem eu enchi com o espírito de sabedoria para produzir roupas (garments) para Arão,” não se quis dizer um espírito, que pode produz roupas, colocado dentro deles, mas a sabedoria de seus próprios espíritos naquele tipo de trabalho. Em sentido similar, o espírito do homem, quando ele produz ações impuras, é ordinariamente chamado de um espírito impuro, e assim outros espíritos, embora nem sempre, contudo, tão frequentemente, quanto à virtude ou ao vício,[67]assim estilizados, é extraordinário e eminente. Nenhum dos outros profetas do Antigo Testamento pretenderam entusiasmo; ou que Deus falava neles; mas para eles, por voz, visão ou sonho; e a carga (burthen) do Senhor não era possessão, mas comando. Então, como os judeus puderam cair nesta opinião de possessão? Eu não posso imaginar nenhuma razão, exceto aquela que é comum a todos os homens, a saber, o desejo da curiosidade para buscar causas naturais: e a colocação por eles da felicidade na aquisição dos prazeres grosseiros dos sentidos, e nas coisas que mais imediatamente conduzem para eles. Pois, aqueles que veem qualquer habilidade, ou defeito, estranho e incomum, na mente de um homem; a menos que ele vejam com ele a partir de que causa ele provavelmente pode proceder, dificilmente podem considerá-lo natural; e, se não natural, eles devem considerá-la sobrenatural; e então, o que ela pode ser, senão que é Deus ou o Diabo nele? E, consequentemente, aconteceu que, quando nosso Salvador (Marcos iii. 21) foi cercado pela multidão, aqueles da casa duvidaram de se ele estava louco, e prosseguiram para o agarrar: mas os Escribas disseram que ele tinha Belzebu, e que era por isso que ele expulsava os diabos; como se o louco maior intimidasse o menor: e isto alguém disse (João x. 20), ele tem o diabo, e está louco; enquanto que outros, considerando-o um profeta, diziam, essas não são as palavras de alquém que tem um diabo. Assim, no Antigo Testamento, ele veio a ungir Jehu, (Reis 2 ix. 11) era um profeta; mas alguns da companhia perguntaram a Jehu, pelo que veio aquele louco? Dessa maneira, em suma, está manifesto, que, quem quer se comportasse de uma maneira extraordinária, era considerado pelos judeus estar possuído ou por um espírto bom ou por um mau: exceto pelos saduceus, quem [68]erravam tão distantes pelo outro lado, como a não acreditarem que, de qualquer maneira, existiam espíritos, o que está muito próximo do ateísmo direto; e através disso, talvez, os outros mais provocados, para denominar tais homens de possuídos por demônios, antes que de loucos.

Mas então, por que nosso Salvador prosseguiu na cura deles como se eles estivessem possuídos, e não como se eles fossem loucos (mad)? Ao que eu não posso dar nenhum outro tipo de resposta, exceto aquela que é dada por aqueles que impelem a Escritura de uma maneira similar contra a opinião do movimento da terra. A Escritura foi escrita para revelar para os homens o reino de Deus, e para preparar suas mentes para se tornarem seus súditos obedientes; deixando o mundo, e a filosofia do mesmo, para a disputa de homens, para o exercício da razão natural deles. Se o movimento da terra ou do sol produzem o dia e a noite; ou se as ações exorbitantes de homens procedem a partir da paixão, ou a partir do diabo, assim nós não o adoramos, é tudo o mesmo, quanto à nossa obediência e sujeição a Deus Todo-poderoso; que é a coisa para a qual a Escritura foi escrita. Quanto a isto de que nosso Salvador falou para a doença como para uma pessoa; é a frase comum de todos aqueles que curam apenas pelas palavras, como Cristo fazia, e os encantadores fingem fazer, quer eles falem para um diabo ou não. Pois também não foi Cristo quem disse (Mateus. Viii. 26) ter repreendido os ventos? Ele também não disse (Lucas iv. 39) ter repreendido uma febre? Contudo, isso não argumenta que uma febre seja um diabo. E, considerando que se diz que muitos diabos confessam Cristo; não é necessário interpretar aquelas passagens de outra maneira, do que naquelas que aqueles homens o confessaram. E visto que nosso Salvador (Mateus xii. 43) falou de um espírito impuro, que, tendo saído de um homem, [69]errava através de lugares secos, buscando descanso, e, não encontrando nenhum, retornando ao mesmo homem, com outros sete espíritos piores do que ele mesmo; isso é manifestamente uma párabola, aludindo a um homem, que, após um pequeno esforço para abandonar suas lúxurias, é vencido pela força delas e torna-se sete vezes pior do que ele era antes. De maneira que, de qualquer maneira, eu não vejo nada na Escritura que requeira uma crença de que os possuídos por espíritos fossem qualquer outra coisa exceto loucos.

Ainda há outra falha nos discursos de alguns homens; a qual também pode ser incluída entre os tipos de loucura; a saber, aquele abuso de palavras, do qual eu falei antes no quinto capítulo, pelo nome de absurdidade. E quer dizer, quando homens falam tais palavras que, enquanto colocadas juntas, não têm nelas absolutamente nenhuma significação; mas ocorrem a alguns, através do mal entedido das palavras que eles receberam, e repetem mecanicamente; por outros, a partir da intenção de enganar pela obscuridade. E isso não é incidente para ninguém, senão para aqueles que conversam em questões de assuntos incompreensíveis, como os Escolásticos; ou em questões de filosofia obscura. O tipo comum de homens raramente fala insignificantemente, e, portanto, são por aquelas outras pessoas notórias consideradas como idiotas. Mas para ficarem seguros de que suas palavras não correspondem a coisa nenhum nas mentes deles, ai se necessitaria de alguns exemplos; os quais, se qualquer homem requerer, que ele tome algum Escolástico em suas mãos e veja se ele pode traduzir um capítulo de alguém relativo a algum ponto dificil, como a Trindade; a Divindade; a natureza de Cristo; transubistanciação; livre-arbítrio, etc, em qualquer um dos idiomas modernos, de maneira a torná-los algo inteligíveis; ou em qualquer latim tolerável, tal como estavam familiarizados aqueles que viveram quando [70]o idioma latino era vulgar. Qual é o significado destas palavras, A primeira causa não necessariamente aflui coisa nenhuma para a segunda, pela força da subordinação essencial das causas secundárias, pelas quais se pode ajudá-la a operar? Elas são a tradução do título do sexto capítulo do primeiro livro de Suarez, Of the concourse, motion, and help of God. Quando homens escrevem volumes inteiros de tal coisa (stuff), não estão eles loucos ou prentendem tornar outros homens assim? E particularmente, na questão de transubstanciação; onde, após certas palavras faladas; eles que dizem, a brancura (whiteness), circularidade (roundness), magnitude, qualidade (quality), corruptibilidade (corruptibility), todas as quais são incorpóreas, etc, saem da hóstia (wafer), para dentro do corpo de nosso abençoado Salvador, eles não fazem dessas uras (nesses), tudes e dades (ties) serem tantos espíritos possuindo o corpo dele? Pois, por espíritos, eles sempre querem dizer coisas que, sendo incorpóreas, mesmo assim, são móveis a partir de um lugar para outro. De maneira que, com razão, esse tipo de absurdidade pode ser incluído entre os muitos tipos de loucura; e, durante todo o tempo que guiados pelos pensamentos claros da luxúria mundana deles, eles evitam disputar, ou escrever dessa maneira, apenas intervalos lúcidos. E é o suficiente sobre as virtudes e defeitos intelectuais.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. 56-70. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/56/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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