segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Uma Introdução à Estética 7 A Significância da Estética Ambiental

Uma Introdução à Estética


Capítulo 6


7 A Significância da Estética Ambiental


Por Yuriko Saito


Na tradição estética ocidental, preocupações com o ambiente (environment) sempre estiveram presentes. Mas não foi até a última parte do século XX que o discurso específico da estética ambiental foi estabelecido, primeiro com um foco na natureza, logo seguido pela consideração do ambiente construído. A formulação mais recente inclui a totalidade de nosso mundo vívido, incluindo as nossas interações com vários objetos e outras pessoas. Dessa forma, a estética ambiental explora a maneira pela qual nós ganhamos uma experiência estética quando nos engajamos com o nosso ambiente nesse sentido expansivo, através da percepção ativa informada por sensibilidade e imaginação.

A oportunidade para obtermos uma experiência estética está em todos os lugares em nosso ambiente, não limitada a momentos “excepcionais,” memoráveis ou extraordinários. Essas experiências inesquecíveis de uma paisagem sublime e de uma esplêndia peça arquitetural têm sido um tema favorecido para a estética em geral. Contudo, os aspectos mundanos, indefinidos e frequentemente esquecidos de nosso ambiente cotidiano também são capazes de provocar uma experiência estética, embora diferente em característica e intensidade. Além disso, nós construímos uma estrutura avaliativa dos valores da estética ambiental que é cultural, social e historicamente situada. Por exemplo, brejos (wetlands) geralmente têm sido considerados como carentes de méritos estéticos, não apenas porque eles são de aparência bastante monôtona, mas também porque há muito eles têm sido considerados carecer de quaisquer valores utilitários para humanos. Consequentemente, eles têm estado vulneráveis à destruição pelo bem de “melhoria” e “desenvolvimento.” Ervas daninhas (weeds), tais como dentes-de-leão (dandelions), em um gramado verde – uma ideial quintessencial para a paisagem doméstica americana – são consideradas como o inimigo público número um porque elas arruinam o carpete perfeitamente liso e verde; consequentemente, elas têm de ser erradicadas.

Contudo, a aparência aparentemente monótona e tediosa dos brejos começa a tornar-se mais complicada e intrigante uma vez que nós entendamos suas complexas funções ecológicas. Nós começamos a notar a súbita mudança em vegetações que respondem aos conteúdos salinos diferentes na água, e nós compreendemos que a aparência aparentemente tediosa dos brejos oculta atividades vívidas de várias criaturas que habitam nesse ambiente. O engajamento imaginativo com tal conhecimento nos conduz ao desenvolvimento de uma apreciação estética de uma beleza, de outra maneira, humilde, quieta e facilmente esquecida desse ambiente. A despeito da negatividade associada com dentes-de-leão, ervas daninhas desagradáveis em nosso gramado, nós não podemos evitar senão de nos admirarmos diante de sua história de vida notável revelada pela transformação dramática de uma flor de amarelo vívido em um floco de algodão flutuante. O bem conhecido pensador ambiental do século XX, Aldo Leopold, desta maneira declara em seu Sand County Almanac que “as ervas daninhas em um lote na cidade transmitem a mesma lição que os paus-brasil” ([1949] 1966, 266). É apenas que o que é comum demais e familiar demais para nós é menos favorecido esteticamente.

A superação de sua desvantagem estética é benéfica para nossas vidas. Primeiro, ela alarga e afia nossa sensibilidade estética para sermos capazes de ter uma experiência estética de alguma coisa em seus próprios termos. Nós abrimos a nós mesmos para ser afetados por tipos diversos de coisas e fenômenos. Segundo, essa abertura (openness) cultiva as virtudes morais do respeito e da humildade com respeito aos outros, na medida em que nós não impomos nossos critérios ou valores préc-concebidos sobre eles. O cultivo de uma semelhante atitude é vital em nossa interação moral com outros. Essa fusão íntima do estético e do ético é uma das sabedorias oferecidas pelas tradições não ocidentais tais como o budismo zen. A iluminação espiritual, de acordo com o zen, é facilitada pela transcendência do eu de alguém, sobrecarregado com todos os tipos de prediloções, de maneira que nós possamos experienciar e apreciar respeitosamente o outro pelo que ele é, não como o que nós consideramos que ele deveria ser ou como nós desejaríamos que ele fosse.

Ao mesmo tempo, prestar atenção ao potencial estético daqueles que tem estado invisíveis não significa que a estetização deveria ocorrer indiscriminadamente. Algumas partes de nosso ambiente são francamente feias e em necessidade de reparo, limpeza ou reconstrução. Não é contraditório encorajar o cultivo da nossa sensibilidade estética direcionada a muitos aspectos de nosso ambiente, enquanto reconhecendo que alguns deles são esteticamente negativos sem nenhum valor redentor. Contudo, semelhante discriminação tem de envolver não apenas nossa percepção sensível, mas também uma imaginação simpática. Por exemplo, em um caso, uma vizinhança dilapidada pode ser um ambiente com memórias para os seus residentes, quem ainda a consideram com afeição, enquanto, em outro caso, os residentes podem estar sofrendo de severa privação estética e estão desesperados por alguma decência estética em seu ambiente. Semelhante entendimento finamente matizado e simpático que informa a sensibilidade estética é valioso quando nós, como uma sociedade, decidimos qual curso de ação, se qualquer um, deveria ser tomado com respeito à dita vizinhança.

Dessa forma, a estética ambiental é multifacetada nos termos com os quais ela lida: natureza, estruturas construídas, ambiente urbano, espaço doméstico, vários objetos interiores e nossas interações com os outros. Ela encoraja desenterrar as gemas ocultas em nosso ambiente, mas, ao mesmo tempo, ela cultiva um olho sóbrio mas simpático com respeito àqueles ambientes que são esteticamente prejudiciais. Em última instância, ela explora a nossa conexão intíma com os nossos ambientes porque nós somos criaturas cujas as vidas estão profundamente engastadas no mundo vívido e a qualidade dele não pode senão afetar a qualidade de nossas vidas.

Quando lendo a estética de Platão (428/7-348/7 a.C.) hoje, uma das alegações que mais provavelmente causa desacordo é a sua defesa da regulação das artes pelo estado no Livro X de seus Republic.1 Contudo, o que nós tendemos a deixar passar é que, subjacente a essa visão sobre a censura das artes está o reconhecimento dele de que nós humanos somos profundamente afetados pelas dimensões estéticas de nossas vidas. Embora os alvos dele sejam principalmente as artes, por causa da capacidade delas para proverem experiências estéticas intensificadas e focadas, nós podemos expandir o seu reconhecimento do poder da estética para incluir a totalidade de nosso ambiente vívido, a saber, entornos naturais, estruturas construídas, vários objetos de nossas vidas cotidianas e interações com outras pessoas. O nosso engajamento sensível e emotivo com esses vários ingredientes de nosso ambiente constitui as experiências estéticas. Se essas experiêncas fossem mero glacê dispensável sobre o bolo, não haveria necessidade de Platão exigir a regulação das artes na Republic.

Se ou não nós concordamos com a sua proposta de censura das artes ou sua visão da sociedade ideal, a intuição mais importante que Platão oferece é que as experiências estéticas desempenham um papel indispensável no cultivo de virtudes intelectuais e morais. Platão estava completamente consciente do poder da estética, o qual é uma espada de dois gumes. Ele pode ser aproveitado para promover uma boa vida, sociedade humana e civil e um mundo sustentável, ou ele pode trabalhar contra esses objetivos. Dessa forma, a estética ambiental deveria ser considerada não simplesmente como uma questão de experiência do ambiente, mas como um discurso e uma prática com profunda significância ética e social.


REFERENCE


Leopold, Aldo. (1949) 1966. A Sand County Almanac, With Other Essays on Conservation From Round River. Ilustrado por Charles W. Schwartz. New York: Oxford University Press.


Capítulo 8


ORIGINAL:

SAITO, Y. The Significance of Environmental Aesthetics In. VINO, V. Introduction to Philosophy: Aesthetic Theory and Practice. Rebus Community: 2021. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-aesthetics/chapter/the-significance-of-environmental-aesthetics/>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 As visões de Platão sobre a arte, e como e porque ela deveria ser regulada em uma república ideial, são discutidas em vários capítulos deste livro; ver, por exemplo, o capítulo 11, “Estética Antiga.” (https://press.rebus.community/intro-to-phil-aesthetics/chapter/ancient-aesthetics/)

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