Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano
Por David Hume
[47]Seção V – Solução Cética dessas Dúvidas
Parte I
A paixão por filosofia, como aquela por religião, parece ser responsável por esta inconveniência, que, embora ela tenha por objetivo a correção de nossas maneiras e a extirpação de nossos vícios, ela apenas serve, através de administração imprudente, para nutrir uma inclinação predominante, e impelir a mente, com resolução mais determinada, na direção daquele lado que já atrai demais, através do viés e propensão do temperamento natural. É certo que, enquanto nós aspiramos à firmeza magnânima do sábio filosófico, e tentamos confinar nossas prazeres inteiramente dentro de nossas próprias mentes, nós podemos, pelo menos, tornar nossa filosofia como aquela de Epiteto e outros Estoicos, apenas um sistema mais refinado de egoísmo, e raciocinar a nós mesmos para fora de toda virtude bem como de todo o prazer social. Enquanto nós estudamos com atenção a vaidade da vida humana, e voltamos todos os nossos pensamentos na direção da natureza vazia e transitória das riquezas e honras, nós estamos, talvez o tempo todo, lisonjeando nossa indolência natural, a qual, odiando o alvoroço do mundo, e a labuta da atividade, busca uma pretensão de razão para conceder a si mesma uma indulgência completa e descontrolada. Contudo, há uma espécie de filosofia que parece [48]pouco culpável dessa inconveniência, e isso porque ela não se alia com nenhuma paixão desordenada da alma humana, nem pode se misturar com qualquer afeição ou propensão natural; e essa é a filosofia Acadêmica ou Cética. Os acadêmicos sempre falam de dúvida e suspensão do julgamento, do perigo em determinações apressadas, de confinar a limites muitos estreitos todas as investigações do entendimento e de renunciar às especulações que não se estendam no interior dos limites da vida e prática comuns. Portanto, nada pode ser mais contrário do que uma semelhante filosofia à indolência inerte da mente, sua arrogância apressada, suas pretensões elevadas e sua credulidade supersticiosa. Toda paixão é mortificada por ela, exceto o amor pela verdade; e essa paixão nunca é, nem poder ser, levada a um grau muito alto. Portanto, é surpreendente que essa filosofia, a qual, em quase qualquer caso, deve ser inofensiva e inocente, deva ser o objeto de tanta censura e descredito infundados. Mas talvez seja a circunstância mesma que a torna tão inocente que principalmente a expõe ao ódio e ressentimento públicos. Ao não lisonjear nenhuma paixão irregular, ela ganha poucos partidários; ao opor-se a tantos vícios loucuras, ela cria para si mesma uma abundância de inimigos, quem a estigmatizam como libertina, profana e irreligiosa.
Nem nós necessitamos temer que essa filosofia, enquanto ela esforça-se por limitar nossas investigações à vida comum, alguma vez debilite os raciocínios da vida comum e leve suas dúvidas tão longe como a destruir toda a ação bem como a especulação. A natureza sempre manterá seus direitos e no fim prevalecerá sobre qualquer raciocínio abstrato que seja. Embora nós devemos concluir, por exemplo, como na seção acima exposta, que em todos os raciocínios a partir da experiência, há um passo tomado pela mente que não é suportado por qualquer argumento ou processo do [49]entendimento; não há perigo de que esses raciocínios, sobre os quais todo o conhecimento depende, alguma vez serão afetados por uma tal descoberta. Se a mente não estiver comprometida por argumento para dar esse passo, ela deve ser induzida por algum outro princípio de igual peso e autoridade; e esse princípio preservará sua influência enquanto a natureza humana permanecer a mesma. Qual é esse princípio, pode bem ser digno dos esforços de investigação.
Suponha que uma pessoa, embora dotada das mais fortes faculdades de razão e reflexão, deva ser trazida de repente a este mundo; de fato, ela imediatamente observaria uma sucessão contínua de objetos e um evento seguindo-se a outro; mas ela não seria capaz de descobrir qualquer coisa adicional. Primeiramente, ela não seria capaz de, por qualquer raciocínio, alcançar a ideia de causa e efeito; uma vez que os poderes particulares, pelos quais todas as operações naturais são realizadas, nunca aparecem para os sentidos; nem é razoável concluir, meramente porque um evento em um caso antecede a outro, que, portanto, o primeiro é a causa, o segundo, o efeito. A conjunção pode ser arbitrária e casual. Pode não haver razão para inferir a existência de um a partir do aparecimento do outro; e, em uma palavra, uma semelhante pessoa sem mais experiência, nunca poderia empregar sua conjectura ou raciocínio a respeito de qualquer questão de fato, ou estar certa de qualquer coisa além do que estava imediatamente presente para usa memória ou sentidos.
Suponha novamente que ela tivesse adquirido mais experiência, e que tenha vivido o suficiente no mundo para ter observado objetos ou eventos similares serem continuamente combinados juntos; qual é a consequência dessa experiência? Ela imediatamente infere a existência de um objeto a partir do aparecimento do outro: ainda assim, ela não adquiriu, por toda a sua experiência, nenhuma ideia ou conhecimento do poder [50]secreto pelo qual um objeto produz o outro; nem é, por qualquer processo de raciocínio, [que] ela está empenhada em extrair essa inferência; mas ele encontra a si mesmo determinado a extraí-la; e embora ela deva estar convencida de que seu entendimento não tem parte na operação, mesmo assim, ela continuaria no mesmo curso de pensamento. Há algum outro princípio que o determina a forma uma tal conclusão.
Esse princípio é o COSTUME ou HÁBITO. Pois onde quer que a repetição de qualquer ato ou operação particular produza uma propensão para renovar o mesmo ato ou operação, sem ser impelida por qualquer raciocínio ou processo do entendimento, nós sempre dizemos que essa propensão é o efeito do Costume. Ao empregarmos essa palavra, nós não pretendemos ter dado a razão última de uma tal propensão. Nós apenas ressaltamos um princípio da natureza humana, o qual é universalmente reconhecido e é bem conhecido por seus efeitos. Talvez nós não possamos impulsionar nossas investigações mais além, ou pretender dar a causa de sua causa; mas precisa permanecer contente com isso como o princípio último, o qual nós podemos atribuir, de todas as nossas conclusões a partir da experiência. É satisfação suficiente que nós possamos chegar tão longe sem ficarmos descontentes com a limitação de nossa faculdades; porque elas não nos conduzirão mais além. E é certo, aqui nós promovemos uma proposição muito inteligível, pelo menos, se não uma verdadeira, quando nós afirmamos que, após uma constante conjunção de dois objetos, calor e chama, por exemplo, peso e solidez, nós estamos determinados apenas pelo costume a esperar um a partir da experiência do outro. Essa hipótese parece mesmo a única que explica a dificuldade, porque nós extraímos, a partir de mil casos, uma inferência que nós não somos capazes de extrair a partir de um caso que, em nenhum aspecto, é diferentes deles. A razão é incapaz de qualquer variação semelhante. As [51]conclusões que nós extraímos a partir da consideração de um círculo, são a mesma que seria formada em consequência da análise de todos só círculos do universo. Mas nenhum homem, tendo visto apenas um corpo mover-se após ser impelido por outro, poderia inferir que todo outro corpo mover-se-ia após um impulso semelhante. Portanto, todas as inferências a partir da experiência são efeitos do costume, não do raciocínio.1
[52]O costume, então, é o grande guia da vida humana. É aquele princípio que, sozinho, torna nossa experiência útil para nós e faz-nos esperar, para o futuro, uma cadeia de eventos semelhantes àqueles que apareceram no passado. Sem a influência do costume, nós deveríamos ser totalmente ignorantes de qualquer questão de fato além do que está imediatamente presente a nossa memória e nossos sentidos. Nós nunca deveríamos saber como ajustar os meios aos fins, ou empregar nossos poderes naturais na produção de qualquer efeito. De uma vez só haveria um fim para toda a ação bem como da parte principal da especulação.
Mas aqui pode ser apropriado observar que, embora nossas conclusões a partir da experiência conduzam-nos para além de nossa memória e sentidos, e assegurem-nos das questões de fato [53]que acontecerem no mais distantes lugares e nas mais remotas épocas, ainda assim, algum fato sempre precisa estar presente para os sentidos ou memória, a partir do qual nós primeiramente podemos realizar a extração dessas conclusões. Um homem, quem devesse encontrar em uma região deserta os restos de construções antigas, concluiria que aquela região, em tempos antigos, fora cultivada por habitantes civilizados; mas, se nada dessa natureza ocorresse a ele, ele nunca poderia formar uma semelhante inferência. Nós aprendemos os eventos de épocas antigas a partir da história; mas então nós precisamos examinar o volume no qual essa instrução está contida e, consequentemente, rastrear nossas inferências de uma testemunha para a outra, até que nós cheguemos às testemunhas oculares e espectadores desses eventos distantes. Em uma palavra, se nós procedêssemos não em consequência de algum fato presente para a memória ou sentidos, nossos raciocínios seriam meramente hipotéticos; e por mais que as ligações particulares pudessem ser conectadas umas com as outras, a inteira cadeia de inferência nada teria para a suportar, nem alguma vez poderia, por esse meio, chegar ao conhecimento de qualquer existência real. Se eu perguntar, por que você acredita em qualquer particular questão de fato que você relata, você precisa dizer-me alguma razão; e essa razão será algum outro fato conectado com ela. Mas você não pode proceder dessa maneira in infinitum, você precisa finalmente terminar em alguma fato que está presente para sua memória ou sentidos, ou precisa admitir que sua crença está inteiramente sem fundamento.
Então, qual é a conclusão da questão toda? Uma simples; embora, deva ser confessado, bastante distante das teorias comuns da filosofia. Toda crença em questão de fato ou existência real é derivada meramente a partir de algum objeto presente para a memória ou sentidos e uma conjunção costumeira entre esse e outro objeto; ou, em outras palavras, tendo descoberto, em muitas instâncias, que [54]quaisquer dois objetos, a chama e o calor, a neve e o frio, sempre estiveram combinados juntos; se a chama ou neve for apresentada novamente para os sentidos, a mente é levada pelo costume a esperar o calor ou frio, e acredita que uma semelhante qualidade existe, e revelar-se-á em consequência de uma aproximação. Essa crença é o resultado necessário do posicionamento da mente em tais circunstâncias. É uma operação da alma, quando nós estamos dessa maneira situados, tão inevitável quanto sentir a paixão do amor quando nós recebemos benefícios; ou do ódio, quando nós recebemos prejuízos. Todas essas operações são uma espécie de instintos naturais, os quais nenhum raciocínio ou processo do pensamento e entendimento é capaz ou de produzir ou de evitar. Neste ponto, seria muito admissível para nós pararmos nossas pesquisas filosóficas. Na maioria das questões, nós nunca poder dar mais um único passo adiante; e em todas as questões nós finalmente devemos finalmente terminar aqui, após nossas investigações mais agitadas e curiosas. Mas ainda assim nossa curiosidade será perdoável, talvez digna de louvor, se ela levar-nos a pesquisas ainda mais adiante, e fazer-nos examinar mais precisamente a natureza dessa crença e da conjunção costumeira da qual ela é derivada. Através desse meio, nós podemos encontrar algumas explicações e analogias que darão satisfação, pelo menos a um tal amor às ciências abstratas, e poderão ser entretidas com especulações, as quais, por mais que precisas, ainda podem reter algum grau de dúvida e incerteza. Quanto aos leitores de um gosto diferente, a parte restante desta Seção não é calculada para eles; e as investigações seguintes podem ser bem entendidas, embora ela seja negligenciada.
[55]Parte II
Nada é mais livre do que a imaginação do homem, e embora ela não possa exceder aquele estoque original de ideias, provido pelos sentidos internos e externos, ela tem um pode ilimitado de misturar, compor, separar e dividir aquelas ideias, em todas as variedades de ficção e visão. Ela pode simular um fluxo de eventos com toda a aparência de realidade, atribuir-lhes a um tempo e lugar particulares, concebê-los como existentes, e descrevê-los para si mesma com toda circunstância que pertence a qualquer fato histórico, o qual ela acredita com a maior certeza. Portanto, em que consiste a diferença entre uma semelhante ficção e uma crença? Ela jaz não meramente em qualquer ideia particular que esteja anexada a uma tal concepção que comanda nosso assentimento, e a qual está faltando em qualquer ficção conhecida. Pois, como a mente tem autoridade sobre todas as suas ideias, ela voluntariamente poderia anexar essa ideia particular a qualquer ficção e, consequentemente, ser capaz de acreditar no que quer que lhe agradasse, contrariamente ao que encontramos na experiência diária. Nós podemos, em nossa concepção, juntar a cabeça de um homem ao corpo de um cavalo; mas não está em nosso poder acreditar que um semelhante animal alguma vez tenha existido.
Portanto, segue-se que a diferença entre ficção e crença jaz em algum sentimento ou sensação que está anexado à última, e não à primeira, e o qual não depende da vontade, nem pode ser demandado à vontade. Ele deve ser excitado pela natureza como todos os outros sentimentos, e precisa surgir a partir da situação particular na qual a mente está colocada em qualquer conjuntura particular. Sempre que qualquer objeto é apresentado à memória ou [56]aos sentidos, ele imediatamente, pela força do costume, leva a imaginação a conceber aquele objeto que usualmente está conjugado com ele; e essa concepção é acompanhada por um sentimento ou sensação diferente daqueles devaneios soltos da imaginação. Nisso consiste a inteira natureza da crença. Pois, como não há questão de fato na qual nós acreditemos tão firmemente que nós não possamos conceber o contrário, não haveria diferença entre a concepção assentida e aquela que é rejeitada, não fosse por algum sentimento que distingue uma da outra. Se eu vejo uma bola de bilhar movendo-se em direção de outra sobe uma mesa lisa, facilmente eu posso concebê-la parar em consequência do contato. Essa concepção não implica contradição; mas, por outro lado, ela é sentida muito diferentemente daquela concepção pela qual eu represento para mim mesmo impulso e a comunicação do movimento de uma bola a outra.
Devêssemos nós tentar uma definição desse sentimento, nós deveríamos, talvez, descobri-la uma tarefa muito difícil, senão impossível; da mesma maneira como se nós devêssemos tentar definir a sensação de frio, ou a paixão de raiva, para uma criatura quem nunca teve nenhuma experiência desses sentimentos. Crença é o nome verdadeiro e apropriado desse sentimento; e ninguém, alguma vez, esteve no prejuízo para conhecer o sentido desse termo, porque todo homem, a cada momento, está consciente do sentimento representado por ele. Contudo, pode não ser impróprio tentar uma descrição desse sentimento, na esperança de que nós possamos por esse meio chegar a algumas analogias que podem proporcionar uma explicação mais perfeita dele. Eu digo, essa crença nada é senão uma concepção vívida, animada, forte, firme, estável de um objeto do que a imaginação sozinha é alguma vez capaz de alcançar. Essa variedade de termos, a qual pode parecer tão não filosófica, é pretendida apenas para expressar que o ato da mente que torna as realidades, ou o que é aceito por tal, [57]mais presentes para nós do que ficções, causa-lhes a pesar mais no pensamento e concede-lhes uma influência superior sobre as paixões e a imaginação. Se nós concordamos sobre a coisa, é desnecessário disputar sobre os termos. A imaginação tem o comando sobre todas as suas ideias e pode juntar, misturar e variá-las, de todas as maneiras possíveis. Ela pode conceber objetos fictícios com todas as circunstâncias de lugar e tempo. Ela pode estabelecê-los de uma maneira diante de nossos olhos, em suas cores verdadeiras, exatamente como eles podiam ter existido. Mas, como é impossível que essa faculdade de imaginação alguma vez possa, de si mesma, alcançar a crença, é evidente que a crença consiste não na peculiar natureza ou ordem de ideias, mas no modo de sua concepção, e em sua sensação para a mente. Eu confesso que é impossível explicar perfeitamente essa sensação ou maneira de concepção. Nós podemos fazer uso de palavras que expressam alguma coisa próximo a ela. Mas seu nome verdadeiro e apropriado, como nós observamos antes, é crença; a qual é um termo que cada um entende suficientemente na vida comum. E em filosofia nós não podemos avançar mais do que afirmar que crença é alguma coisa sentida pela mente, a qual distingue as ideias do julgamento das ficções da imaginação. Ela concede-lhes mais peso e influência; fá-las parecer de importância maior; impõe-las à mente e torna-as o princípio governante de nossas ações. Por exemplo, no presente eu ouço a voz de uma pessoa com quem eu estou familiarizado, e o som surge assim como do próximo cômodo. Essa impressão de meus sentidos imediatamente leva meu pensamento a pessoa, junto com todos os objetos circundantes. Eu descrevo-os para mim mesmo como existentes no presente, com as mesmas qualidades e relações das quais eu anteriormente conhecia-as possuídas. Essas se enraízam mais rapidamente em minha mente do que ideias de [58]um castelo encantado. Elas são muito diferentes do sentimento e têm uma influência muito maior de cada tipo, ou para conceder prazer ou dor, alegria ou sofrimento.
Então, tomemos no escopo inteiro dessa doutrina e admitamos que o sentimento de crença nada é senão uma concepção mais intensa e firme do que aquela que acompanha as meras ficções da imaginação; e que esse modo de concepção surge a partir de uma conjunção costumeira do objeto com alguma coisa presente na memória ou nos sentidos. Eu acredito que não será difícil, em consequência dessas suposições, encontrar outras operações da mente análogas a ela, e traçar esses fenômenos a princípios ainda mais gerais.
Nós já observamos que a natureza estabeleceu conexões entre ideias particulares e que, tão logo uma ideia ocorra em nossos pensamentos, ela introduz sua correlativa, e conduz nossa atenção na direção dela, através de um movimento gentil e insensível. Esses princípios de conexão ou associação nós reduzimos a três, a saber, Semelhança, Contiguidade e Causação; os quais são os únicos vínculos que unem nossos pensamentos juntos e geram aquele regular fluxo de reflexão ou discurso, o qual, em um grau menor ou maior, ocorre em meio a todo o gênero humano. Agora, aqui surge uma questão, sobre a qual a solução da dificuldade presente dependerá. Acontece em todas essas relações que, quando um dos objetos é apresentado aos sentidos ou à memória, a mente não é apenas levada à concepção do correlativo, mas alcança uma concepção mais estável e mais forte dele do que teria sido capaz de alcança de outra forma? Esse parece ser o caso com aquela crença que surge a partir da relação de causa e efeito. E se o caso for o mesmo com as outras relações ou princípios de [59]associação, isso pode ser estabelecido como uma lei geral, a qual ocorre em todas as operações da mente.
Portanto, nós podemos observar, como o primeiro experimento para nosso propósito presente, que, a partir do aparecimento da imagem de um amigo ausente, nossa ideia dele é evidentemente animada pela semelhança, e que toda paixão que essa ideia ocasiona, quer de alegria quer de tristeza, adquire nova força e novo vigor. Na produção desse efeito, ali concorrem tanto uma relação como uma impressão presente. Onde a imagem não comportasse semelhança nenhum com ele, pelo menos não pretendida para ele, ela mesma nunca transportaria nosso pensamento para ele: e onde ela estivesse ausente, bem como a pessoa, embora a mente possa passar do pensamento de um para aquele do de outro, ela sente sua ideia ser antes enfraquecida do que avivada por essa transição. Nós recebemos um prazer na visão da imagem de um amigo quando ela está colocada diante de nós; mas quando ela é removida, antes escolhemos considerá-lo diretamente do que por reflexão sobre uma imagem, a qual está igualmente distante e obscura.
As cerimônias da religião Católica Romana podem ser consideradas como instâncias da mesma natureza. Os devotos daquela superstição comumente alegam em pretexto pelas pantomimas com as quais eles foram repreendidos, que eles sentem o bom efeito daqueles movimentos externos, posturas e ações no avivamento de sua devoção e despertar de seu fervor, os quais, de outra maneira, decairiam, se inteiramente direcionados a objetos distantes e imateriais. Nós sombreamos os objetos de nossa fé, dizem eles, em tipos e imagens sensíveis, e tornamo-los mais presentes para nós pela presença imediata desses tipos, do que é possível para nós fazermos meramente através de uma visão e contemplação intelectuais. Objetos sensíveis sempre têm uma influência maior sobre a imaginação do que quaisquer outros; e essa influência eles prontamente transmitem àquelas ideias com as quais eles [60]estão relacionados e assemelham-se. Eu apenas deverei inferir a partir dessas práticas, e deste raciocínio, que o efeito de semelhança no avivamento de ideias é muito comum; e, como em cada caso uma semelhança e uma impressão presente precisam ocorrer, nós estamos abundantemente supridos com experimentos para provarmos a realidade do princípio acima considerado.
Nós podemos adicionar força a esses experimentos através de outros um tipo diferente, ao considerar os efeitos de contiguidade bem como de semelhança. É certo que a distância diminui a força de qualquer ideia, e que, em consequência de nossa aproximação de qualquer objeto, embora ele não se revele para nossos sentidos, ele opera sobre a mente com uma influência que imita uma impressão imediata. O pensamento em qualquer objeto prontamente transporta a mente para o que está contíguo; mas é apenas a presença atual de um objeto que a transporta com vivacidade superior. Quando eu estou a umas poucas milhas de casa, tudo que se relaciona a ela toca mais de perto do que quando eu estou a duzentas léguas de distância; embora mesmo a essa distância, refletir sobre meus amigos ou família naturalmente produz uma ideia deles. Mas, como no caso posterior, ambos os objetos da mente são ideias, a despeito de haver uma transição fácil entre eles; essa transição sozinha não é capaz de dar uma vivacidade superior a qualquer das ideias, por falta de alguma impressão imediata.
[61]Ninguém pode duvidar apenas que a causação tem a mesma influência que as outras duas relações de semelhança e contiguidade. Pessoas supersticiosas são atraídas por relíquias de santos e homens sagrados, pela mesma razão que elas procuram modelos ou imagens, a fim de avivarem sua devoção e conceder a si mesmas uma concepção mais íntima e forte daquelas vidas exemplares que eles desejam imitar. Agora, é evidente que uma das melhores relíquias que um devoto pode conseguir seria um trabalho manual de um santo; e, se as roupas e mobília dele alguma vez fossem consideradas sob essa luz, é porque elas uma vez estiveram à disposição dele e foram movidas e afetadas por ele; em respeito da qual elas devem ser consideradas como efeitos imperfeitos, e como conectadas com ele por uma cadeia mais curta de consequências do que qualquer uma daquelas pelas quais nós aprendemos a realidade de sua existência.
Suponha que o filho de um amigo, quem estivera há muito tempo morto ou ausente, fosse apresentado a nós; é evidente que esse objeto instantaneamente reviveria sua ideia correlativa, e recordaria a nossos pensamentos todas as intimidades e familiaridades passadas em cores mais vivas do que, de outra maneira, elas teriam aparecido para nós. Esse é outro fenômeno, o qual parece provar o princípio acima mencionado.
Nós podemos observar que, nesses fenômenos, a crença no objeto correlativo é sempre pressuposta; sem a qual a relação não poderia ter efeito. A influência da imagem supõe que nós acreditemos que nosso amigo alguma vez existiu. Contiguidade à casa nunca pode excitar nossas [62]ideias de casa a menos que nós acreditemos que ela realmente existe. Agora, eu afirmo que essa crença, onde ela alcança além da memória e dos sentidos, é de uma natureza familiar, e surge a partir de causas similares, com a transição de pensamento e vivacidade de concepção aqui explicada. Quanto eu jogo um pedaço de madeira seca em uma fogueira, minha mente é imediatamente levada a conceber que ele aumenta, não extingue, a chama. Essa transição de pensamento da causa para o efeito não começa a partir da razão. Ela deriva sua origem completamente a partir da experiência. E, como ela primeiro começa a partir de um objeto presente para os sentidos, ela torna a ideia ou concepção da chama mais forte e vívida do que qualquer frouxo devaneio flutuante da imaginação. Essa ideia surge imediatamente. O pensamento move-se instantaneamente na direção dela e leva para ela toda força de concepção que é derivada a partir da impressão presente para os sentidos. Quando uma espada é nivelada a meu peito a ideia de ferimento e dor não me atinge mais fortemente do quando uma taça de vinho é apresentada a mim, mesmo embora por acidente essa ideia deva ocorrer após o aparecimento do posterior objeto? Mas o que há nessa questão toda para causar uma concepção tão forte, exceto apenas um objeto apresentado e uma transição costumeira da ideia para outro objeto, o qual nós estivemos acostumados a combinar com o anterior? Essa é toda a operação da mente, em todas as nossas conclusões relativas a questão de fato e existência; e é uma satisfação encontrar algumas analogias pelas quais ela pode ser explicada. A transição a partir de um objeto presente, em todos os casos, dá força e solidez à ideia relacionada.
Então, aqui há um tipo de harmonia preestabelecida entre o curso da natureza e a sucessão de nossas ideias; e, embora os poderes e forças pelos quais o [63]anterior é governado sejam inteiramente desconhecidos para nós, ainda assim, nossos pensamentos e concepções, nós descobrimos, continuaram no mesmo fluxo de outras obras da natureza. O costume é o princípio através do qual essa correspondência tem sido efetuada; tão necessária à subsistência de nossa espécie e regulação de nossa conduta, em cada circunstância e ocorrência da vida humana. Não houvesse a presença de uma objeto instantaneamente excitado a ideia daqueles objetos comumente combinados com ele, todo o nosso conhecimento deveria ter ficado limitado à esfera estreita de nossa memória e sentidos; e nós nunca deveríamos ter sido capazes de ajustar os meios aos fins, ou empregar nossos poderes naturais, quer para produzir o bem, quer para evitar o mal. Aqueles que se deleitam na descoberta e contemplação das causas finais, aqui têm um amplo tema para empregar seu espanto e admiração.
Eu devo acrescentar, para uma confirmação adicional da teoria acima considerada, que como essa operação da mente, pela qual nós inferimos efeitos semelhantes a partir de causas, e vice-versa, é tão essencial à subsistência de todas as criaturas humanas, não é provável que ela possa ser confiada às deduções falaciosas de nossa razão, a qual é lenta em suas operações; não aparece, em qualquer grau, durante os primeiros anos da infância; e, no melhor [caso], está, em qualquer idade e período da vida humana, extremamente suscetível a erro e engano. É muito compatível com a ordinária sabedoria da natureza assegurar um tão necessário ato da mente, através de algum instinto ou tendência mecânica, a qual pode ser infalível em suas operações, pode revelar-se ao primeiro aparecimento de vida e pensamento e pode ser independente de todas as deduções laboradas do entendimento. Assim como a natureza no ensinou o uso de nossos membros, sem conceder-nos o conhecimento dos músculos e nervos pelos quais eles são impulsionados, assim ela implantou em nós um instinto, o qual leva [64]adiante o pensamento em um curso correspondente para aquilo que ela tem estabelecido em meio a objetos externos; embora nós sejamos ignorantes desses poderes e forças dos quais esse curso e sucessão regulares de objetos depende totalmente.
ORIGINAL:
HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.47-64. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/47/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [51]Nada é mais usual para escritores do que, mesmo em assuntos morais, políticos e físicos, distinguir entre razão e experiência, e supor que essas espécies de argumentação são inteiramente diferentes uma da outra. A primeira é tomada pelo mero resultado de nossas faculdade intelectuais, considerando a priori a natureza das coisas, e examinado os efeitos que devem se seguir a partir de sua operação, estabelece princípios particulares da ciência e filosofia. A segunda é suposta ser derivada inteiramente a partir do sentido e observação, pelos quais nós aprendemos o que efetivamente resultou a partir da operação de objetos particulares, e, consequentemente, são capazes de inferir o que resultará a partir deles para o futuro. Dessa maneira, por exemplo, as limitações do governo civil e uma constituição legal podem ser defendidas, ou a partir da razão, a qual, refletindo sobre a grande fragilidade e corrupção da natureza humana, ensina que nenhum homem podem seguramente ser confiado com autoridade ilimitada; ou a partir da experiência e história, as quais nos informam dos enormes abusos que a ambição, em cada época e país, tem sido descoberta de fazer de uma confiança tão imprudente.
A mesma distinção entre razão e experiência é mantida em todas nossas deliberações relativas à conduta de vida; enquanto o estadista, médico geral ou mercador é confiado é seguido; e o novato inexperiente, dotado de quaisquer talentos naturais, negligenciado e desprezado. Embora seja admitido que a razão possa formar conjecturas muito plausíveis com respeito às consequências de uma semelhante conduta particular em semelhantes circunstâncias particulares, ela ainda é suposta imperfeita, sem a assistência da experiência, a qual, sozinha é capaz de conceder estabilidade e certeza à máxima derivada a partir de estudo e exame.
Mas, a despeito dessa distinção ser dessa maneira universalmente recebida, tanto na cena ativa quanto especulativa da ida, eu não deverei ter escrúpulo para pronunciar que ela é, na base, errônea ou, pelo menos, artificial.
Se nós examinarmos aqueles argumentos que, em qualquer das ciências acima mencionadas são supostos de serem os meros efeitos de raciocínio e reflexão, eles serão descobertos terminarem, por fim, em algum princípio ou conclusão geral, à qual nós não podemos atribuir nenhuma razão senão observação e experiência. A única diferença entre eles e aquelas máximas, as quais são vulgarmente consideradas o resultado de pura experiência, é que os primeiros não podem ser estabelecidos sem algum processo de pensamento, e alguma reflexão sobre o que nós observamos, a [52]fim de distinguir suas circunstâncias e traçar suas consequências: considerando que nos segundos, o evento experienciado é exata e completamente similar àquele que nós inferimos como o resultado de qualquer situação particular. Nero faz-nos temer uma tirania semelhante, estivessem nossos monarcas libertos das restrições das leis e dos senados: mas a observação de qualquer fraude ou crueldade na vida privada é´suficiente, com o auxílio de um pouco de pensamento, para nos conceder a mesma apreensão, enquanto ela serve como uma instância da corrupção geral da humanidade, e mostra-nos o perigo no qual nós devemos incorrer ao sustentar uma confiança inteira no gênero humano. Em ambos os casos, é a experiência que em última instância é o fundamento de nossa inferência e conclusão.
Não há nenhum homem tão jovem e inexperiente, como a não ter formado, a partir de observação, muitas máximas gerais e justas relativas aos assuntos humanos e à conduta de vida; mas deve ser confessado que, quando um homem chega a colocar essas em prática, ele ficará extremamente suscetível a erro, até que tempo e experiências adicionais tanto alarguem essas máximas quanto lhe ensinem seu uso e aplicação apropriados. Em cada situação ou incidente, há muitas circunstâncias particulares e aparentemente minúsculas, as quais o homem de talentos maiores, inicialmente, está inclinado a negligenciar, embora delas a justeza de suas conclusões e, consequentemente, a prudência de sua conduta, dependem inteiramente. Para não mencionar que, para um jovem iniciante, as observações e máximas gerais nem sempre ocorrem nas ocasiões apropriadas, nem podem ser imediatamente aplicadas com a devida calma e distinção. A verdade é, um raciocinador inexperiente não poderia ser, de qualquer maneira, um raciocinador, fosse ele absolutamente inexperiente; e quando nós atribuímos esse caráter a qualquer um, nós apenas queremos dizer em um sentido comparativo, e supomos que ele é possuidor de experiência em grau menor e mais imperfeito.
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