Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano
Por David Hume
[1]Seção I – Das Diferentes Espécies de Filosofia
A filosofia moral, ou a ciência da natureza humana, pode ser tratada segundo duas maneiras diferentes, cada uma das quais com seu mérito peculiar, e que pode contribuir para o entretenimento, instrução e reforma do gênero humano. A primeira considera o homem como principalmente nascido para ação, e como influenciado em suas medidas por gosto e sentimento; buscando um objeto e evitando o outro, de acordo com o valor que esses objetos parecem possuir, e de acordo com a luz na qual eles se apresentam. Como a virtude, de todos os objetos, é reconhecida ser o mais valioso, essa espécie de filósofos pinta-a em suas cores mais amáveis, emprestando todos os auxílios à poesia e eloquência, tratando seu tema de uma maneira simples e óbvia, e tal como a ser melhor adequado para agradar a imaginação e engajar os afetos. Eles selecionam as mais notáveis observações e instâncias da vida comum, posicionam características em um contraste apropriado, e, seduzindo-nos aos caminhos da virtude pelas visões de glória e felicidade, direcionam nossos passos para aqueles caminhos pelos preceitos mais sãos e exemplos mais ilustres. Eles fazem-nos sentir a diferença entre vício e virtude; eles excitam e regulam nossos sentimentos; dessa forma, eles podem apenas inclinar [2]nossos corações ao amor à probidade e verdadeira honra e consideram que alcançaram completamente o fim de todos os seus labores.
A outra espécie de filósofos consideram o homem sob uma luz de ser racional, em vez de um ser ativo, e tenta formar o entendimento dele em vez de suas maneiras. Eles consideram a natureza humana como um tema de especulação; e com um escrutínio minucioso examinam-na, para descobrir aqueles princípios que regulam nosso entendimento, excitam nossos sentimentos e fazem-nos aprovar ou censurar qualquer objeto, ação ou comportamento particular. Eles consideram um descredito de toda literatura que a filosofia ainda não deva ter estabelecido, além de controvérsia, o fundamento da moral, do raciocínio e da crítica; e deva falar para sempre de verdade e falsidade, vício e virtude, beleza e deformidade, sem ser capaz de determinar a fonte dessas distinções. Enquanto tentam essa tarefa árdua, eles não são dissuadidos por nenhuma dificuldade; mas, procedendo de instâncias particulares para princípios gerais, eles ainda persistem em suas investigações para princípios mais gerais e não descansam satisfeitos até que cheguem àqueles princípios originais pelos quais, em cada ciência, toda curiosidade humana deve ser limitada. Embora a especulação deles pareça abstrata, e até ininteligível para os leitores comuns, eles aspiram à aprovação dos instruídos e sábios, e consideram a si mesmos suficientemente compensados pelo labor de suas vidas inteiras, se eles podem descobrir algumas verdades escondidas que podem contribuir para a instrução da posteridade.
É certo que a filosofia simples e óbvia sempre terá a preferência, com a generalidade do gênero humano, sobre a precisa e obscura; e por muitos será recomendada, não apenas como a mais agradável, mas mais útil, do que a outra. Ela entra mais na [3]vida comum; molda o coração e as afeições; e, tocando naqueles princípios que influenciam os homens, reforma a conduta deles, e trá-los mais perto daquele modelo de perfeição que ela descreve. Pelo contrário, a filosofia obscura, estando fundamentada em uma mudança da mente que não pode entrar em atividade e ação, desaparece quando o filósofo deixa a sombra e emerge para o dia aberto; nem podem os princípios dela reter qualquer influência sobre nossa conduta e comportamento. Os sentimentos de nosso coração, a agitação de nossas paixões, a veemência de nossas afeições, todas dissipam as conclusões dela e reduzem o filósofo profundo a um mero plebeu.
Isto também deve ser confessado, que a mais durável, assim como a mais justa fama, foi adquirida pela filosofia simples; e que os raciocinadores abstratos até agora parecem ter desfrutado apenas de uma reputação momentânea, a partir do capricho e da ignorância de sua própria época, mas não têm sido capazes de sustentarem seu renome com uma posteridade mais equitativa. É fácil para um filósofo profundo cometer um erro em seus raciocínio sutis; e um erro é o pai necessário de outro, enquanto ele prossegue com suas consequências, e não é dissuadido de adotar qualquer conclusão, por sua aparência incomum ou sua contradição com a opinião popular. Mas um filósofo, quem apenas tenciona representar o senso comum do gênero humano em cores mais belas e mais cativantes, se, por acidente, cai em erro, ele não avança; mas, renovando seu apelo ao senso comum e aos sentimentos naturais da mente, retorna ao caminho correto, e assegura a si mesmo de quaisquer ilusões perigosas. A fama de Cicero floresce no presente; mas aquela de Aristóteles está completamente decadente. La Bruyere atravessa os mares e ainda mantém sua reputação; mas a glória de Malebranche está confinada a sua nação e a sua própria época. E [4]Addison, talvez, será lido com prazer, quando Locke deverá ser inteiramente esquecido.1
O mero filósofo é um personagem que é comumente apenas pouco aceitável no mundo, como se supondo que não devesse contribuir para nada, quer para a vantagem, quer para o prazer da sociedade, enquanto ele vive distante da comunicação com o gênero humano, e está envolto em princípios e noções igualmente distantes da compreensão deles. Por outro lado, o mero ignorante é ainda mais desprezado; nem é em qualquer coisa considerado um sinal mais certo de um gênio de espírito limitado, em uma época e nação onde as ciências florescem, do que estar inteiramente destituído de toda satisfação com aqueles entretenimentos nobres. Supõe-se que o personagem mais perfeito se localize entre esses dois extremos; retendo uma igual habilidade e gosto por livros, companhia e atividade; preservando na conversação aquele discernimento e delicadeza que surgem de cartas delicadas; e, na atividade, aquela probidade e precisão que são o resultado natural de uma filosofia justa. Para difundir e cultivar um personagem tão realizado, nada pode ser mais útil do que composições de estilo e maneira simples, as quais não extraem demais da vida, não requerem nenhuma aplicação ou retiro profundos para serem compreendidas, e enviam de volta o estudante para o meio do gênero humano cheio sentimentos nobres e sábios preceitos, aplicáveis a cada exigência da vida humana. Através de semelhantes composições, a virtude torna-se amável; a ciência, agradável; a companhia, instrutiva e o retiro, divertido.
O homem é um ser racional; e, como tal, recebe da ciência seu alimento e nutrição adequados: mas tão [5]estreitos são os limites do entendimento humano, que pouca satisfação pode ser esperada nesse particular, quer da extensão quer da seguração de suas aquisições. O homem é um ser sociável, não menos que um racional: mas, nem pode ele sempre desfrutar de companhia agradável e divertida, nem preservar o prazer apropriado delas. O homem também é um ser ativo; e, a partir dessa disposição, assim como de várias necessidades da vida humana, deve submeter-se a atividade e ocupação: mas a mente requer reflexão e não pode suportar sempre sua inclinação à ocupação e indústria. Então, parece que a natureza assinalou um tipo misto de vida como o mais adequado para a raça humana, e secretamente lhes advertiu para não permitirem a nenhum dessas inclinações aspirarem demais, de maneira a incapacitar-lhes para as outras ocupações e entretenimentos. Satisfazei vossa paixão por ciência, diz ela, mas que vossa ciência seja humana, tal como possa ter uma referência direta à ação e à sociedade. Pensamente obscuro eu proíbo, e punir-vos-ei severamente, por meio da melancolia pensativa que eles introduzem, pela certeza incerta na qual eles vos envolvem, pela recepção fria com a qual vossas pretensas descobertas deverão encontrar-se, quando comunicadas. Sede um filósofo: mas, em meio a toda vossa filosofia, ainda sede um homem.
Estivesse a generalidade do gênero humano satisfeita em preferir a filosofia simples à abstrata e profunda, sem jogar nenhuma culpa ou desdém sobre a segunda, não poderia ser impróprio, talvez, reclamar com essa opinião geral, e permitir a cada homem desfrutar, sem oposição de seu próprio gosto e sentimento. Mas, como o assunto é frequentemente levado mais longe, até a rejeição absoluta de todos os raciocínios profundos, ou o que é comumente chamado de metafísica, nós agora devemos proceder para considerar o que razoavelmente pode ser alegado em seu favor.
[6]Nós podemos começar observando que uma vantagem considerável que resulta da filosofia precisa e abstrata é a subserviência dela à simples e humana; a qual, sem a primeira, nunca pode alcançar um grau suficiente de exatidão em seus sentimentos, preceitos ou raciocínios. Todas as cartas delicadas nada são senão retratos da vida humana em várias atitudes e situações, e inspiram-nos com diferentes sentimentos de elogio ou censura, admiração ou ridículo, de acordo com as qualidades do objeto que está colocado diante de nós. Um artista precisa ser o melhor qualificado para ter sucesso nesse empreendimento, que, além de gosto delicado e apreensão rápida, possui um conhecimento preciso do estrutura interno e das operações do entendimento, dos funcionamentos das paixões e das várias especies de sentimentos que discriminam vício e virtude. Por mais dolorosa que essa busca ou investigação interna possa parecer, ela torna-se em alguma medida requisito para aqueles que descreveriam com sucesso as aparências óbvias e exteriores da vida e das maneiras. O anatomista apresenta aos olhos os objetos mais medonhos e desagradáveis; mas sua ciência é útil ao pintor para ao delinear até uma Vênus ou Helena. Enquanto o último emprega todas as mais ricas cores de sua arte, e dá as suas figuras os ares mais graciosos e cativantes, ele ainda precisa trazer sua atenção com estrutura interior do corpo humano, a posição dos músculos, a estrutura dos ossos e o uso e a figura de cada parte ou órgão. A precisão é, em cada caso, vantajosa para a beleza, e o raciocínio justo para o sentimento delicado. Em vão nós exaltaríamos um depreciando o outro.
Além disso, nós podemos observar, em cada arte ou profissão, mesmo naquelas que mais concernem à vida ou ação, que um espírito de precisão, de qualquer maneira adquirido, leva todas elas mais próximas de suas perfeições e torna-as mais subservientes [7]aos interesses da sociedade. E, embora um filósofo possa viver distante de atividade, o gênio da filosofia, se cuidadosamente cultivado por vários, gradualmente deve difundir-se através da sociedade toda, e conceder uma correção semelhante a cada arte ou profissão. O político adquirirá maior previdência e sutileza na subdivisão e balanceamento de poder; o advogado, mais métodos e princípios mais precisos em seus raciocínios; e o general, mais regularidade em sua disciplina, e mais cuidado em seus planos e operações. A estabilidade dos governos modernos acima dos antigos, e a precisão da filosofia moderna, aperfeiçoaram-se, e provavelmente ainda se aperfeiçoarão, por gradações semelhantes.
Não houvesse vantagem a ser colhida desses estudos além da gratificação de uma curiosidade inocente, contudo, mesmo essa não deveria ser desprezada, como sendo uma adesão àqueles poucos prazeres seguros e inofensivos que são concedidos à raça humana. O caminho mais doce e mais inofensivo da vida conduz através das avenidas da ciência e do conhecimento; e quem quer que possa ou remover quaisquer obstruções nesse caminho, ou abrir qualquer novo prospecto, até agora deveria ser estimado como um benfeitor do gênero humano. E, embora essas pesquisas possam parecer dolorosas e fatigantes, é com algumas mentes como com alguns corpos, os quais, sendo dotados de uma saúde vigorosa e florida, requerem exercício severo, e colhem um prazer daquilo que, para a generalidade do gênero humano, pode parecer penoso e laborioso. A obscuridade, de fato, é tão penosa para a mente quanto para o olho; mas, trazer luz a partir da obscuridade, por qualquer labor que seja, precisa ser agradável e alegrante.
Mas essa obscuridade na filosofia profunda e abstrata é objetada não apenas como dolorosa e fatigante, mas como uma fonte inevitável de incerteza e erro. [8]De fato, aqui se localiza a mais justa e plausível objeção contra uma parte considerável da metafísica, que ela não é propriamente uma ciência, mas surge, quer a partir de esforços infrutíferos da vaidade humana, a qual desejaria penetrar em assuntos completamente inaccessíveis ao entendimento, quer a partir da arte das superstições populares, [e] sendo incapaz de defender a si mesma, ergue aqueles espinheiros emaranhados para cobrir e proteger sua fraqueza. Perseguidos a partir de região aberta, esses ladrões fogem para dentro da floresta, e deitam-se em espera para invadir qualquer avenida não guardada da mente e dominarem-na com temores e preconceitos religiosos. O mais robusto antagonista, se ele suspende sua vigília por um momento, é oprimido; e muitos, através de covardia e loucura, abrem os portões para os inimigos, e voluntariamente os recebem com reverência e submissão como seus soberanos legítimos.
Mas essa é uma razão suficiente para que os filósofos devessem desistir de semelhantes pesquisas e deixar a superstição ainda de posse do recuo dela? Não é adequado extrair uma conclusão oposta e perceber a necessidade de trazer a guerra aos mais secretos recessos do inimigo? Em vão nós esperamos que os homens, a partir de desapontamento frequente, finalmente abandonarão semelhantes ciências aéreas e descobrirão a província apropriada da razão humana; pois, além do que muitas pessoas descobrem um interesse muito sensível em recordarem perpetuamente tais tópicos, além disso, eu digo que o motivo do desespero cego razoavelmente nunca pode ter lugar nas ciências; uma vez que, por mais malsucedidas que as tentativas anteriores possam ter se provado, ainda há espaço para esperança de que a indústria, boa fortuna, ou sagacidade aperfeiçoadas das gerações seguintes, possa alcançar descobertas desconhecidas para as épocas anteriores. Cada gênio aventuroso ainda se lançará ao prêmio árduo, e descobrir-se-á estimulado em vez [9]desencorajado, pelas falhas de seus predecessores; visto que ele espera que a glória de alcançar uma aventura tão difícil esteja reservada apenas para ele. O único método de libertação da aprendizagem dessas questões obscuras de uma vez é investigar seriamente a natureza do entendimento humano e mostrar, a partir de uma análise exata de seus poderes e capacidade, que ele não é, de maneira alguma, adequado para assuntos tão remotos e obscuros. Nós precisamos submetermo-nos a essa fadiga, para depois vivermos em paz para sempre; e devemos cultivar a verdadeira metafísica com algum cuidado, para destruir a falsa e adulterada. A indolência, a qual, para algumas pessoas proporciona uma salvaguarda contra essa filosofia enganosa, com outras, é desequilibrada pela curiosidade; e o desespero, o qual, em alguns momentos, parece prevalecer, pode depois dar lugar a esperanças e expectativas sanguíneas. O raciocínio preciso e justo é o único remédio universal adequado para todas as pessoas e disposições, e sozinho é capaz de subverter essa filosofia obscura e jargão metafísico, os quais, misturados com superstição popular, tornam-no em uma estilo impenetrável para raciocinadores descuidados, e concede-o o ar de ciência e sabedoria.
Além dessa vantagem da rejeição, após investigação deliberada, a parte mais incerta e desagradável do conhecimento, há muitas vantagens positivas que resultam de um escrutínio preciso dos poderes e das faculdades da natureza humana. É notável, concernente às operações da mente, que, embora o mais intimamente presente a nós, contudo, sempre que elas se tornam o objeto de reflexão, elas parecem envoltas em obscuridade; nem pode o olho prontamente encontrar aquelas linhas e limites que as descriminam e distinguem. Os objetos são delicados demais para permanecerem por muito tempo no mesmo aspecto ou situação; e devem ser apreendidos em um instante, por uma penetração [10]superior, derivada da natureza e aperfeiçoada por hábito e reflexão. Portanto, torna-se parte não insignificante da ciência, escassamente conhecer as diferentes operações da mente, para as separar umas das outras, para as classificar sob suas categorias adequadas e para corrigir toda essa aparente desordem na qual elas jazem envoltas, quanto tornadas o objeto de reflexão e investigação. Essa tarefa de ordenação e distinção, a qual não tem nenhum mérito quando realizada em relação a corpos exteriores, os objetos de nossos sentidos aumentam em seus valores, quando direcionados às operações da mente, em proporção à dificuldade e ao labor que nós encontramos ao realizá-la. E, se nós não pudermos ir mais além do que essa geografia mental, ou delineação das partes e poderes distintos da mente, é, pelo menos uma satisfação ir tão longe; e, quão mais óbvia essa ciência possa parecer (e de maneira alguma ela é óbvia), o ainda mais desprezível precisa a ignorância dela ser considerada, em todos os pretendentes ao conhecimento e à filosofia.
Nem pode haver nenhuma suspeita de que essa ciência seja incerta e quimérica, a menos que nós devêssemos entreter um ceticismo tão grande que seja inteiramente subversivo a toda especulação e até a ação. Não pode ser duvidado que a mente é dotada de vários poderes e faculdades; que esses poderes são distintos uns dos outros; que o que está realmente distinto para a percepção imediata pode ser distinguido pela reflexão; e, consequentemente, que há uma verdade e falsidade em todas as proposições sobre esse assunto, e uma verdade e falsidade que não se localizam além do escopo do entendimento humano. Há muitas distinções óbvias desse tipo, tais como aquelas entre a vontade e o entendimento, a imaginação e as paixões, as quais caem no interior da compreensão de cada criatura humana; e as distinções mais delicadas e filosóficas [11]não são menos reais e certas, embora mais difíceis de serem compreendidas. Algumas instâncias, especialmente as últimas, de sucesso nessas investigações, podem dar-nos uma noção mais justa da certeza e solidez desse ramo do conhecimento. E nós deveremos considerá-lo digno do labor de um filósofo dar-nos um sistema verdadeiro de planetas, e ajustar a posição e a ordem daqueles corpos remotos, enquanto nós simulamos omitir aqueles quem, com tanto sucesso, delineiam as partes da mente, na qual nós estamos intimamente interessados?2
[12]Mas nós não podemos esperar que a filosofia, se cultivada com cuidado, e encorajada pela atenção do público possa levar suas pesquisas ainda mais adiante, e descobrir, pelo menos em algum grau, as molas e princípios secretos pelos quais a mente é influenciada em sua operação? Há muito os astrônomos tem contentado a si mesmos em provar, a partir dos fenômenos, os movimentos, a ordem e a magnitude verdadeira dos corpos celestes, até que um filósofo finalmente se ergueu, quem parece, a partir do raciocínio mais feliz, também ter determinado as leis e forças pelas quais as revoluções dos planetas são governadas e dirigidas. O semelhante foi realizado com respeito às outras partes da natureza. E não há razão para desesperar de sucesso igual em nossas investigações concernentes ao poderes e economia mental, se levada a cabo com capacidade e cuidado iguais. É provável que uma operação e princípio da mente dependa de outro; o qual, novamente, pode ser resolvido em um mais geral e universal: e quão longe essas pesquisas possivelmente podem ser levadas, será difícil para nós, antes ou até após um processo cuidadoso, determinar exatamente. Isto é certo, que tentativas desse tipo são feitas a cada dia, mesmo por aqueles que filosofam o mais negligentemente; e nada pode ser mais necessário do que entrar nesse empreendimento com cuidado e atenção minuciosos, para que, se ele localiza-se dentro do escopo do entendimento humano, pelo menos, ele possa ser felizmente alcançado; se não, contudo, ele possa ser rejeitado com alguma confiança e segurança. Certamente, essa última conclusão não é desejável, nem deve ser adotada tão precipitadamente. Pois quanto nós devemos diminuir da beleza e do valor [13]dessa espécie de filosofia sobre uma tal suposição? Até agora, os moralistas estiveram acostumados, quando eles consideram a multitude e diversidade vastas daquelas ações que excitam nossa aprovação ou aversão, a buscar por algum princípio comum sobre o qual essa variedade de pensamentos possa depender. E embora algumas vezes eles tenham levado o assunto longe demais, pela paixão deles por algum princípio geral, contudo, deve ser confessado que eles são desculpáveis de esperar encontrar alguns princípios gerais dentro do qual todos vícios e virtudes devessem justamente ser resolvidos. O semelhante tem sido o empreendimento de críticos, lógicos e até políticos: nem suas tentativas têm sido inteiramente mal sucedidas, embora, talvez, tempo mais longo, precisão maior e aplicação mais ardente, possam trazer essas ciências ainda mais perto da perfeição delas. Jogar fora de uma vez todas as pretensões desse tipo, pode justamente ser considerado mais imprudente, precipitado e dogmático do que até a filosofia mais audaz e afirmativa alguma vez tentou impor seus ditames e princípios imperfeitos sobre o gênero humano.
Que, embora esses raciocínios concernentes à natureza humana pareçam abstratos e de compreensão difícil, isso não proporciona nenhuma presunção da falsidade deles. Pelo contrário, parece impossível que o que até agora tem escapado a tantos filósofos sábios e profundo possa ser muito óbvio e fácil. E, quaisquer que sejam as dores que essas pesquisas possam nos custar, nos podemos considerar a nós mesmos suficientemente recompensados, não apenas no fator do lucro mas do prazer, se, por esses meios, nós pudermos fazer alguma adição ao estoque de conhecimento em assunto de semelhante importância indizível.
Mas, como afinal a abstração dessas especulações não é recomendação, mas antes uma desvantagem para eles; e como essa dificuldade pode talvez ser [14]superada por cuidado e arte, e o evitar de todo detalhe desnecessário, nós tentamos, na Investigação (Inquiry) que se segue, lançar alguma luz sobre assuntos a partir dos quais a incerteza até agora intimidou o sábio e obscureceu o ignorante. Felizes se nós pudemos unir os limites das diferentes espécies de filosofia, ao reconciliarmos investigação profunda com clareza e verdade com novidade! E, ainda mais felizes se, raciocinando dessa maneira simples, nós possamos enfraquecer as fundações de uma filosofia obscura, a qual até agora parece ter servido apenas como um abrigo para superstição e uma cobertura para absurdidade e erro!
ORIGINAL:
HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.1-14. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/1/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [4]Isso não pretendeu de maneira alguma depreciar o mérito do Sr. Locke, quem foi realmente um grande filósofo e um raciocinador justo e modesto. Apenas se pretendia mostrar o destino comum de semelhante filosofia abstrata. - Nota nas Edições K, L.
2 [11]Essa faculdade pela qual nós discernimos verdade e falsidade, e aquela pela qual nós percebemos vício e virtude, há muito têm sido confundidas uma com a outra; e supôs-se que toda a moralidade deve ser erigida em relações eternas e imutáveis, as quais, para toda mente inteligente, eram igualmente invariáveis como qualquer proposição concernente à quantidade ou ao número. Mas um filósofo recente [o Sr. Hutcheson] ensinou-nos, pelos mais convincentes argumentos, que a moralidade nada é na abstrata natureza das coisas, mas é inteiramente relativa ao sentimento, ou gosto mental de cada ser particular; da mesma maneira como as distinções de doce e amargo, quente e frio, surgem do sentimento particular de cada sentido ou órgão. Portanto, as percepções morais não devem ser classificadas com as operações do entendimento, mas com as dos gostos ou sentimentos.
Tem sido comum entre filósofos dividir todas as paixões da mente em duas classes, a egoísta e a benevolente, as quais se supõem manterem-se em constante oposição e contrariedade; nem foi considerado que a segunda poderia alguma vez alcançar seu objeto adequado senão à custa da primeira. Entre as paixões egoístas foram classificadas avareza, ambição, vingança, Entre as benevolentes, afeição natural, amizade, espírito público. Agora [Ver Sermons de Butler] os filósofos podem perceber a impropriedade dessa divisão. Provou-se, além de toda controvérsia, que mesmo as paixões comumente consideradas egoístas levam a mente além de si, diretamente ao objeto; que, embora a satisfação dessas paixões dê-nos prazer, contudo, o prospecto de seu prazer não é a causa da paixão, mas, pelo contrário, a paixão é antecedente ao prazer, e sem o segundo, possivelmente a primeira nunca poderia existir; esse caso é precisamente o mesmo com as paixões denominadas de benevolente e, consequentemente, que um homem não está mais interessado quando busca sua própria glória do que quando a felicidade de seu amigo é o objeto de seus desejos; nem está ele algo mais desinteressado quando ele sacrifica seu conforto e sua quietude ao bem público, do que quando ele laborar pela gratificação da avareza ou ambição. Portanto, aqui está um [12]considerável ajuste nos limites das paixões, as quais foram confundidas pela negligência ou imprecisão dos filósofos antigos. Esses dois exemplos podem ser suficientes para nos revelar a natureza e importância dessa espécie de filosofia. - Nota nas Edições K e L.
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