Uma Investigação a Respeito do Entendimento Humano
Por David Hume
[15]Seção II – Da Origem das Ideias
Todos prontamente admitirão que há uma diferença considerável entre as percepções da mente, quando um homem sente a dor de calor excessivo, ou o prazer de calor moderado; e quando, mais tarde, ele recorda na memória essa sensação, ou antecipa-a por sua imaginação. Essas faculdades podem imitar ou copiar as percepções dos sentidos, mas elas nunca podem alcançar inteiramente a força e vivacidade do sentimento original. O máximo que nós podemos dizer delas, mesmo quando elas operam com o maior vigor, é que elas representam seu objeto de uma maneira tão vívida, que nós quase poderíamos dizer [que] o sentimos ou vemos: mas, exceto [que] a mente esteja desordenada por doença ou loucura, elas nunca poderão alcançar a um tom tão grande vivacidade como a tornar essas percepções completamente indistinguíveis. Todas as cores da poesia, por mais que esplêndidas, nunca podem pintar os objetos naturais de uma maneira tão grande como a fazer a descrição ser tomada pela paisagem real. O pensamento mais vívido ainda é inferior à sensação mais monótona.
Nós podemos observar uma distinção semelhante espalhar-se através de todas as outras percepções da mente. Um homem em um ataque de raiva é influenciado de uma maneira muito diferente do que alguém que apenas pensa nessa emoção. Se você conta-me que [16]alguma pessoa está apaixonada, eu facilmente entendo o seu significado e formo uma concepção justa da situação dela; mas nunca posso confundir essa concepção com as desordens e agitações reais da paixão. Quando nós refletimos sobre nossos sentimentos e afeições passados, nosso pensamento é um espelho exato e copia seus objetos verdadeiramente; mas as cores as quais ele emprega são fracas e enfadonhas, em comparação com as quais nossas percepções originais estavam vestidas. Não se requer nem discernimento preciso nem cabeça metafísica para marcar a distinção entre elas.
Portanto, aqui nós podemos dividir todas as percepções da mente em duas classes ou espécies, as quais são distinguidas pelos graus diferentes de força e vivacidade. As menos forçadas e vívidas são comumente denominadas de Pensamentos ou Ideias. A outra espécie carece de um nome em nossa linguagem e na maioria das outras; eu suponho porque não foi um requisito para nada, salvo propósitos filosóficos, classificá-la sob um termo ou denominação geral. Portanto, usemos um pouco de liberdade e chamemo-la de Impressões, empregando essa palavra em um sentido um pouco diferente do original. Pelo termo impressão, então, eu quero dizer todas as nossas paixões mais vívidas, quando nós ouvimos, ou vemos, ou sentimos, ou amamos, ou odiamos, ou desejamos, ou queremos. E as impressões são distintas das ideias, as quais são as percepções menos vívidas, das quais nós somos conscientes, quando nós refletimos sobre quaisquer daquelas sensações ou movimentos acima mencionados.
À primeira vista, nada pode parecer mais ilimitado do que o pensamento do homem; o qual não apenas escapa de todo poder e autoridade humanas, mas nem mesmo é restrito no interior dos limites da natureza e realidade. Para formar monstros e juntar formas e aparências absurdas, não custa a imaginação dificuldade maior do que conceber os objetos mais naturais e familiares. E, enquanto o corpo [17]está confinado a um planeta ao logo do qual eles se arrasta com dor e dificuldade, o pensamento pode, em um instante, transportar-nos para as mais distantes regiões do universo, ou até além do universo, para dentro do caos ilimitado, onde se supõe que a natureza jaza em confusão total. O que nunca foi visto nem ouvido pode, contudo, ser concebido; nem está qualquer coisa além do poder do pensamento, exceto o que implica uma contradição absoluta.
Mas, embora nosso pensamento pareça possuir essa liberdade ilimitada, nós devemos descobrir, em consequência de um exame mais próximo, que ele está confinado dentro de limites muito estreitos, e que todo esse poder criativo da mente equivale a nada mais que a faculdade de composição, transposição, aumento ou diminuição dos materiais proporcionados a nós pelos sentidos e experiência. Quando nós pensamos em uma montanha dourada, nós apenas juntamos duas ideias consistentes, ouro e montanhas, com as quais nós somos íntimos. Um cavalo virtuoso nós podemos conceber; porque, a partir de nosso próprio sentimento, nós podemos conceber a virtude; e isso nós podemos unir com a figura e forma de um cavalo, o qual é um animal familiar a nós. Em resumo, todos os materiais do pensamento são derivados ou a partir de nossos sentimentos externos ou internos: a mistura e composição desses pertence apenas à mente e vontade; ou para me expressar em linguagem filosófica, todas as nossas ideias ou percepções mais fracas são cópias de impressões ou mais vívidas.
Para provar isso, eu espero, os dois argumentos seguintes serão suficientes. Primeiro, quando nós analisamos nossos pensamentos ou ideias, por mais que compostos ou sublimes, nós sempre descobrimos que eles se resolvem em ideias tão simples que foram copiadas de uma impressão (feeling) ou sentimento anterior. Mesmo aquelas ideias que, à primeira vista, parecem as mais distantes dessa origem, são descobertas, em consequência de um escrutínio mais de perto, serem derivadas dela. A ideia de Deus, como significando um [18]Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, surge a partir de nossa reflexão sobre as operações de nossa própria mente, e aumentando, sem limite, aquelas qualidades de bondade e sabedoria. Nós podemos prosseguir nessa investigação a que duração nos agrade; onde nós deveremos sempre descobrir que cada ideia que nós examinamos é copiada de uma impressão semelhante. Aqueles que afirmariam que essa posição não é universalmente verdadeira, nem sem exceção, têm apenas um método, e esse fácil para a refutar; produzindo essa ideia que, na opinião deles, não é derivada dessa fonte. Então, ficará incumbente para nós, se nós desejarmos sustentar nossa doutrina, produzir uma impressão ou percepção vívida que corresponda a ela.
Segundo, se acontece que, a partir de um defeito do órgão, um homem não seja suscetível a qualquer espécie de sensação, nós sempre encontramos que ele é tão pouco suscetível à ideia correspondente. Um cego não pode formar nenhuma noção de cores; um surdo, de sons. Restaure-se em qualquer um deles aquele sentido no qual ele é deficiente; ao abrir essa nova entrada para suas sensações, você também abrirá uma nova entrada para as ideias; e ele não encontrará dificuldade em conceber aquelas ideias. O caso é o mesmo, se o objeto adequado para excitar alguma sensação nunca foi aplicado ao órgão. Um lapão ou negro não tem noção do gosto do vinho. E, embora haja pouca ou nenhuma instância de uma deficiência semelhante na mente, onde uma pessoa nunca sentiu, ou seja inteiramente incapaz de um sentimento ou paixão que pertença a essa espécie, contudo, nós descobrimos que a mesma observação ocorre em um grau menor. Um homem de maneiras suaves não pode formar a ideia de vingança ou crueldade inveteradas; nem pode um coração egoísta facilmente conceber as alturas da amizade e generosidade. É prontamente reconhecido que outros seres podem possuir muitos sentidos dos quais nós não podemos ter concepção; porque as ideias [19]deles nunca foram introduzidas a nós, na única maneira pela qual uma ideia pode ter acesso à mente, a saber, pela impressão (feeling) e sensação reais.
No entanto, há um fenômeno contraditório, o qual pode provar que não é absolutamente impossível para as ideias surgirem independentes de suas impressões correspondentes. Eu acredito que será prontamente concedido que as várias ideias distintas de cor, as quais entram pelo olho, ou aquelas de som, as quais são transmitidas pelo ouvido, são realmente diferentes uma da outra, embora, ao mesmo tempo, semelhantes. Agora, se isso for verdadeiro de cores diferentes, [também] precisa ser não menos verdadeiro de tons diferentes da mesma cor; e cada tom produz uma ideia distinta, independente do resto. Pois, se isso devesse ser negado, é possível, pela contínua gradação dos tons, uma cor insensivelmente se mesclar naquilo que está o mais distante dela; e se você não reconhecer nenhum dos meios ser diferentes, você não pode, sem absurdidade, negar os extremos serem o mesmo. Portanto, suponha uma pessoa ter desfrutado de sua visão por trinta anos e ter tornado-se perfeitamente familiarizada com cores de todos os tipos, exceto um tom particular de azul, por exemplo, com o qual nunca foi sua fortuna encontrar-se; que todos os diferentes tons daquela cor, exceto esse único, sejam posicionados diante dela, descendendo gradualmente a partir do mais escuro para o mais claro, é evidente que ele perceberá um vazio onde aquele tom está faltando, e será sensível que há uma distância maior naquele lugar entre as cores contíguas do que em qualquer outro. Agora eu pergunto, se é possível para ela, a partir de sua própria imaginação, suprir essa deficiência, e criar para si mesma a ideia daquele tom particular, embora ele nunca tenha sido transmitido a ela pelos sentidos dela? Eu acredito que haja bastante poucos que serão da opinião que ela pode; e isso pode servir como uma [20]prova de que as ideias simples não são sempre, em cada instância, derivadas das impressões correspondentes, embora essa instância seja tão singular, que ela escassamente é digna de nossa observação, e não mereça que, por ela sozinha, nós devamos alterar nossa máxima geral.
Portanto, aqui está uma proposição, a qual não apenas parece simples e inteligível em si mesma, mas, se um uso apropriado for feito dela, poderia tornar toda disputa igualmente inteligível e banir todo aquele jargão que por tanto tempo tomou posse dos raciocínios metafísicos e atraiu desgraça sobre eles. Todas as ideias, especialmente as abstratas, são naturalmente fracas e obscuras. A mente possui apenas uma leve posse dela. Elas estão inclinadas a serem confundidas com ideias semelhantes e, quando nós frequentemente empregamos qualquer termo, embora sem um significado distinto, nós ficamos inclinados a que ele tenha uma ideia determinada anexada a ele. Pelo contrário, todas as impressões, quer dizer, todas as sensações ou externas ou internas, são fortes e vividas. Os limites entre elas estão determinados mais exatamente; nem é fácil cair em algum erro ou engano com respeito a elas. Portanto, quando nós entretemos qualquer suspeita de que um termo filosófico seja empregado sem nenhum significado ou ideia, (como é, não obstante, tão frequente,) nós necessitamos apenas inquirir, a partir de qual impressão é essa suposta ideia derivada? E se for impossível atribuir qualquer uma, isso servirá para confirmar nossa suspeita. Ao trazer ideias para uma luz tão clara, nós razoavelmente podemos esperar remover toda disputa que pode surgir concernente à sua natureza e realidade.1
ORIGINAL:
HUME, D. An Inquiry concerning Human Understanding. IN:______. The Philosophical Works of David Hume. Volume IV. Boston: Little, Brown and Company; Edinburgh, Adam and Charles Black, 1854. p.15-21. Disponível em: <https://archive.org/details/philosophicalworks04humerich/page/15/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [20]É provável que nada mais foi dito por aqueles que negavam ideias inatas, do que todas as ideias serem cópias de nossas impressões; embora deva ser confessado que os termos que eles empregaram não foram escolhidos com semelhante cuidado, nem tão exatamente definidos, como a evitar todos os erros sobre a doutrina deles. Pois, o que se quis dizer com inato? Se inato for equivalente a natural, então todas as [21]percepções e ideias da mente precisam ser admitidas serem inatas ou naturais, em qualquer sentido que nós aceitemos a última palavra, se em oposição a incomum, artificial ou miraculoso. Se por inato for significado contemporâneo a nosso nascimento, a disputa parece ser frívola; nem vale a pena investigar em que época o pensamento começa, se antes, durante ou depois de nosso nascimento. Novamente, a palavra ideia parece ser comumente aceita em um sentido muito vago por Locke e outros, como significando qualquer uma de nossas percepções, nossas paixões, assim como pensamentos. Agora, nesse sentido, eu deveria desejar conhecer o que pode ser significado afirmando que o amor-próprio, ou ressentimento de ferimentos, ou paixão entre os sexos, não é inato?
Mas, admitindo esses termos, impressões e ideias, no sentido acima explicado e entendendo por inato o que é original e copiado de nenhuma percepção precedente, então nós podemos afirmar que todas as nossas impressões são inatas e nossas ideias, não inatas.
Para ser engenhoso, eu preciso confessar ser minha opinião que Locke foi traído nessa questão pelos escolásticos, quem, fazendo uso de termos indefinidos, esticam suas disputas a uma extensão tediosa, sem nunca tocar no ponto em questão. Uma ambiguidade e circunlóquio semelhantes percorrem esses raciocínios de filósofo, nesses assim como na maioria dos outros assuntos.
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