quinta-feira, 7 de abril de 2022

Leviatã IV Do Discurso

Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.


Por Thomas Hobbes


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Parte I Do Homem


[18]Capítulo IV Do Discurso


A invenção da imprensa, embora engenhosa, comparada com a invenção das letras, não é grande coisa. Mas quem foi o primeiro que descobriu o uso das letras, não é conhecido. Aquele quem primeiro as trouxe para a Grécia, os homens dizem que foi Cadmo, o filho de Agenor, rei da Fenícia. Uma invenção proveitosa para a continuação da memória do tempo passado e a conjunção da humanidade, espalhada por tantas e tão distantes regiões da terra; e, ao mesmo tempo, difícil, visto que procedendo a partir de uma observação atenta dos diversos movimentos da língua, do palato, dos lábios e de outros órgãos da fala (speech); por meio das quais produzir tantas diferenças de caracteres para as lembrar. Mas a invenção mais nobre e proveitosa de todas as outras foi aquela do DISCURSO (SPEECH), consistindo de nomes e denominações (appellations) e suas conexões; através do qual os homens registram seus pensamentos; relembra-lhes quando eles são passados; e também os declaram uns para os outros por utilidade mútua e conversação: sem o que, não teria havido em meio aos homens nem comunidade (commonwealth), nem sociedade, nem contrato, nem paz, não mais do que em meio a leões, ursos e lobos. O primeiro autor do discurso (speech) foi Deus mesmo, quem instruiu Adão a como nomear certas criaturas conforme ele apresentava-as a visão dele; pois a Escritura não avança nesse assunto. Mas isso foi suficiente para ele adicionar mais nomes, conforme a experiência e o uso das criaturas deveria dar-lhe ocasião; e combiná-los de maneira tal por graus, como a se fazer entendido; e assim, por sucessão no [19]tempo, tanta linguagem pôde ser obtida, conforme ele descobria uso para [ela]; embora não tão copiosa, como um orador ou filósofo tem necessidade: pois eu não encontro coisa alguma na Escritura a partir da qual, diretamente ou por consequência, pode ser obtido que a Adão foram ensinados os nomes de todas as figuras, números, medidas, cores, sons, imaginações (fancies), relações; muito menos os nomes de palavras e discurso (speech), como geral, especial, afirmativo, negativo, interrogativo, optativo, infinitivo, todos os quais são úteis; e por último, de entidade, intencionalidade, quididade, e outras palavras sem sentido da escola.

Mas toda essa linguagem recebida, e aumentada por Adão e seus descendentes, foi novamente perdida na Torre de Babel, quando, pela mão de Deus, todo homem foi acometido, por sua rebelião, com um esquecimento de sua linguagem antiga. E sendo por esse meio forçados a dispersarem-se por várias partes do mundo, precisa ser que a diversidade de línguas que agora existe prosseguiu, por graus a partir deles, de uma tal maneira como necessária, a mãe de todas as invenções, ensinada a eles; e no trato do tempo em todo lugar mais copiosa.

O uso geral do discurso (speech) é transferir nosso discurso mental para verbal; ou treinar nossos pensamentos em uma sucessão de palavras; e isso para duas comodidades, das quais uma é o registro das consequências de nossos pensamentos; os quais, estando aptos a escaparem de nossa memória, e colocar-nos em um novo labor, podem novamente ser lembrados, através daquelas palavras pelas quais eles foram marcados. De maneira que o primeiro uso de nomes é para servirem por marcas, ou notas, da memória. O outro é, quando muitos usam as mesmas palavras para significar, pela conexão e ordem delas, um para a outro, o que [20]eles concebem, ou pensam, de cada assunto; e também o que eles desejam, temem, ou têm qualquer paixão. E para esse uso elas são chamadas de sinais. Os usos especiais do discurso são estes; primeiro, para registrar o que pela cogitação nós consideramos ser a causa de alguma coisa, presente ou passada; e que nós consideramos que coisas presentes ou passadas podem produzir, ou efetuar; o que, em suma, é a aquisição das artes. Segundo, mostrar para outros esse conhecimento que nós obtivemos, ou seja, aconselhar e ensinar uns aos outros. Terceiro, tornar conhecidos a outros as nossas vontades e propósitos, para que nós possamos encontrar ajuda mútua uns dos outros. Quarto, agradar e encantar a nós mesmos e a outros, ao folgar com nossas palavras, para prazer e ornamento, inocentemente.

A esses uso, também há quatro abusos correspondentes. Primeiro, quando os homens registram erradamente seus pensamentos; pelo qual eles registram por sua concepção aquilo que eles nunca conceberam e, assim, enganam-se. Segundo, quando eles usam metaforicamente as palavras; quer dizer, em outro sentido do que aquele para o qual elas estão estabelecidas e, portanto, enganam outros. Terceiro, pelas palavras, quando eles declaram ser sua vontade o que não é. Quarto, quando eles usam-nas para causar dano um ao outro; pois veem que a natureza armou cada criatura viva, algumas com dentes, algumas com chifres e algumas com mãos, para causar dano a um inimigo; isso é apenas um abuso do discurso, causar-lhe dano com a língua, a menos que isso seja a alguém que nós estamos obrigado a governar; e então não é causar dano, mas corrigir e emendar.

A maneira pela qual o discurso serve à lembrança da consequência das causas e dos efeitos, [21]consiste na imposição de nomes e na conexão deles.

Dos nomes, alguns são próprios, e peculiares para somente uma coisa, como Peter, John, este homem, esta árvore; cada um dos quais, embora apenas um nome é, não obstante, o nome de diversas coisas particulares; em respeito a tudo que, em grupo, é chamado de um universal; nada havendo no mundo de universal senão nomes; pois as coisas nomeadas são, cada uma delas, individuais e singulares.

Um nome universal é imposto a muitas coisas, por sua similitude em alguma qualidade, ou outro acidente; e, visto que um nome próprio traz à mente uma coisa apenas, universais recordam qualquer uma daquelas muitas.

E dos nomes universais, alguns são de maior e alguns de menor extensão; o maior compreendendo o menor; e alguns, novamente de extensão igual, compreendendo um ao outro reciprocamente. Como exemplo: o nome corpo é de compreensão maior que a palavra homem, e compreende-a; e o nome homem e racional são de mesma extensão, compreendendo mutuamente um ao outro. Mas aqui nós precisamos notar, que por um nome nem sempre é entendido, como na gramática, apenas uma palavra; mas algumas vezes, por circunlóquio, muitas palavras em conjunto. Pois todas estas palavras, aquele que em suas ações observa as leis de seu país, formam apenas um nome, equivalente a esta única palavra, justo.

Através dessa imposição de nomes, alguns de significação maiores, alguns de mais estrita, nós transformamos o cômputo (reckoning) das consequências das coisas imaginadas na mentes em um cômputo (reckoning) das consequências das denominações (appellations). [22]Por exemplo: um homem não tem absolutamente uso do discurso (speech), tal como nascido e permanece perfeitamente surdo-mudo, se ele coloca diante de seus olhos um triângulo e, através de seus dois ângulos retos, tais como são os cantos de uma figura quadrada, ele pode, por reflexão, comparar e descobrir que os três ângulos daquele triângulo são iguais àqueles dois ângulos retos que o representam. Mas, se outro triângulo for mostrado a ele, diferente do anterior em forma, ele não pode saber, sem um novo labor, se os três ângulos daquele também são iguais ao mesmo. Mas aquele que tem o uso das palavras, quando ele observa que semelhante igualdade era o resultado, não do comprimento dos lados, nem de qualquer coisa particular nesse triângulo; mas apenas disto, que os lados eram retos, e os ângulos três; e que isso foi tudo que ele denominou de um triângulo; ousadamente concluirá que tal igualdade de ângulos está em todos os triângulos, quaisquer que sejam; e registrará sua invenção nestes termos gerais, todo triângulo tem seus três ângulos iguais a dois ângulos retos. E dessa maneira, a consequência encontrada em um particular vem a ser registrada, lembrada como uma regra universal e libertar nosso cômputo (reckoning) do tempo e lugar, e liberta-nos de todo o labor da mente, salvo do primeiro, e torna isso que foi encontrado verdadeiro aqui e agora ser verdadeiro em todos os tempos e lugares.

Mas o uso de palavras no registro de nossos pensamentos nunca é tão evidente quanto na numeração. Um tolo natural que nunca pudesse ter memorizado a ordem das palavras numerais, como um, dois e três, pode observar cada batida do relógio e acenar para ela com a cabeça. Ou dizer um, um, um, mas nunca pode dizer que hora é atingida. E parece, houve uma época quando [23]aqueles números não estiveram em uso; e os homens estavam inclinados a aplicarem seus dedos de uma ou ambas as mãos, para aquelas coisas das quais eles desejavam manter a contagem; e que dai se seguiu que agora nossas palavras numerais são apenas dez, em qualquer nação, e em algumas apenas cinco; e então começam novamente. E aquele que pode contar dez, se ele recita-os fora de ordem, perder-se-á, e não saberá quando terá terminado. Muito menos será ele capaz de adicionar, subtrair e realizar todas as outras operações da aritmética. De maneira que, sem palavras, não há possibilidade do cômputo (reckoning) de números; muito menos de magnitudes, velocidade, força e de outras coisas, os cômputos (reckonings) dos quais são necessários à existência ou ao bem-estar do gênero humano.

Quando dois nomes são combinados em uma consequência, ou afirmação, como desta maneira, um homem é uma criatura viva; ou desta maneira, se ele for um homem, ele é uma criatura viva; se o segundo nome, criatura viva, significar tudo que o primeiro nome, homem, significa, então a afirmação, ou consequência, é verdadeira; caso contrário, falsa. Pois verdade e falsidade são atributos do discurso (speech), não das coisas. E onde não há discurso, não há nem verdade nem falsidade; o erro pode haver, como quando nós esperamos aquilo que não deverá ser, ou suspeitamos do que não foi; mas, em nenhum caso, pode um homem ser acusado de mentira.

Vendo então que a verdade consiste na ordenação correta dos nomes em nossas afirmações, um homem que busca a verdade precisa tem necessariamente de se lembrar do que cada nome que ele usa significa e posicioná-lo adequadamente, ou senão ele se encontrará enredado em palavras, como um pássaro em galhos de limão, quão mais ele se debate, mais emaranhado [fica]. E portanto, em geometria, a qual e a única ciência que até agora satisfez [24]Deus a conceder ao gênero humano, os homens começam a estabelecer os significados de suas palavras; estabelecimento de significados que eles chamam de definições, e posicionam-nas no começo de seu cômputo (reckoning).

Através disso, percebe-se quão necessário é, para qualquer homem que aspire ao conhecimento verdadeiro, examinar as definições de autores antigos e, ou corrigi-las, quando elas estão negligentemente estabelecidas, ou para as produzir por si mesmo. Pois os erros de definições multiplicam-se conforme a cômputo (reckoning) prossiga, e conduzem os homens a absurdidades, as quais, por fim, eles veem, mas não podem evitar, nas quais jazem o fundamento dos erros deles. De onde acontece que, aqueles que confiam nos livros, fazem como aqueles que computam muitos pequenos cálculos em um maior, sem considerarem se aqueles pequenos cálculos estão corretamente computados ou não; e finalmente, descobrindo o erro visível, e não suspeitando de seus primeiros fundamentos, não sabem de que maneira elucidarem a si mesmos, mas gastam seu tempo agitando-se sobre seus livros; como pássaros que, entrando pela chaminé e descobrindo-se encerrados em uma câmara, batem as asas diante da falsa luz de uma janela de vidro, por desejo de conhecer para considerar por qual caminho eles entraram. De maneira que, na correta definição de nomes jaz o primeiro uso do discurso; o qual é a aquisição de ciência; e na errada, ou sem definições, jaz o primeiro abuso; a partir de onde procedem todos os princípios falsas e sem sentido; o que faz aqueles homens que tomam sua instrução da autoridade de livros, e não de sua própria meditação, estarem tão muito abaixo da condição do homem ignorante, como homens e ciência verdadeira estão acima dela. Pois entre ciência verdadeira [25]e doutrinas errôneas, a ignorância é o meio termo. O sentido natural e a imaginação não estão sujeitos a absurdidade. A natureza mesma não pode errar; e como os homens são ricos em abundância de linguagem, assim eles se tornam mais sábios, ou mais loucos que o ordinário. Nem é possível, sem as letras, para qualquer homem tornar-se excelentemente sábio, ou, a menos que sua memória seja danificada por doença e má constituição de órgãos, excelentemente tolo. Pois as palavras são as contadores (counters) do homem sábio, elas apenas recordam para eles; mas elas são o dinheiro dos tolos, que as valorizam pela autoridade de um Aristóteles, um Cicero ou um Tomás, ou qualquer outro doutor que se seja, se apenas um homem.

Sujeito para nomes, é o que quer que seja que possa entrar em ou ser considerada em um cálculo (account), e ser adicionada uma a outra para formarem uma soma, ou subtraída uma da outra e deixarem um resto. Os latinos chamavam cálculos (account) de dinheiro rationes, e cálculo (accounting) [de] ratiocinatio; e aquilo que nós em notas (bills) ou livros de cálculo chamamos de itens, eles chamavam de nomina, quer dizer, de nomes; e a partir dai parece proceder que eles estendiam a faculdade de cômputo (reckoning) para todas as outras coisas. Os gregos têm apenas uma palavra, λόγος, tanto para discurso (speech) quanto para razão; não que eles pensassem que não havia discurso sem razão, mas nenhum raciocínio sem discurso; e o ato de raciocínio eles chamavam de silogismo (syllogism), o qual significava a soma (summing up) das consequências de uma declaração (saying) para outra. E, porque a mesma coisa pode entrar em cálculo (account) por diversos acidentes, os nomes delas são, para revelar essa diversidade, diversamente deturpados e variados. A diversidade de nomes pode ser reduzida a quatro categorias gerais.

Primeiro, uma coisa pode entrar em cálculo (account) por matéria [26]ou corpo; como vivo, sensível, racional, quente, frio, movido, parado; como todos esses nomes a palavra matéria, ou corpo, é entendida; todos os tais sendo nomes da matéria.

Segundo, ela pode entrar em cálculo (account), ou ser considera, por algum acidente ou qualidade que nós concebemos nela; como ser movida, por ser tão longa, por ser quente, etc; e então, o nome da coisa em si mesma, por uma pequena mudança ou deturpação, nós fazemos um nome para aquele acidente, o qual nós consideramos; e por vivo nós colocamos no cálculo (account) vida; por movido, movimento; por quente, calor; por longo, comprimento, e semelhantes: e todos esses nomes semelhantes são nomes dos acidentes e propriedades pelas quais uma matéria e corpo é distinguida de outro. Esses são chamados de nomes abstratos, porque separados, não da matéria, mas do cálculo (account) da matéria.

Terceiro, nós trazemos em cálculo (account) as propriedades de nossos próprios corpos, por meio das quais nós fazemos semelhante distinção; como quando alguma coisa é vista por nós, nós reconhecemos não a coisa em si mesma, mas a vista, a cor, a ideia dela na imaginação (fancy): e quando alguma coisa é ouvida, nós não a reconhecemos, mas a audição ou o som apenas, os quais são nossa imaginação (fancy) ou concepção dela pelo ouvido; e tais são os nomes das imaginações (fancies).

Quarto, nós trazemos em cálculo (account), consideramos e damos nomes, aos nomes mesmos e aos discursos: pois geral, universal, especial, ambíguo, são nomes de nomes. E afirmação, interrogação, mandamento, narração, silogismo, sermão, oração e muitos outros semelhantes são nomes de discursos. E isso tudo é a variedade de nomes positivos; os quais são colocados para marcar alguma coisa que está na natureza, ou pode ser simulada (feigned) pela mente do homem, como [27]corpos que existem, ou podem ser concebidos existir; ou de corpos, as propriedades que são, ou pode ser simuladas (feigned) existir; ou palavras e discurso.

Também há outros nomes, chamados de negativos, os quais são notas para significar que uma palavra não é o nome da coisa em questão; como estas palavras, nada, nenhum homem, infinito, indomável, três desejo quatro e semelhantes; as quais, não obstante, são de uso no cômputo (reckoning), ou na correção do cômputo (reckoning), e para chamar à mente nossas cogitações passadas, embora elas não sejam nomes de coisa alguma, porque elas nos fazem recusar a admitir nomes não corretamente usados.

Todos os outros nomes são apenas sons insignificantes; e esses são de dois tipos. Um quando eles são novos, e seu significado ainda não é explicado por definição; dos quais há uma abundância cunhada por escolásticos e filósofos perplexos.

Outro, quando homens formam um nome [a partir] de dois nomes, cujos significados são contraditórios e inconsistentes; como este nome, um corpo incorpóreo, ou, o que é tudo o mesmo, uma substância incorpórea, e um grande número mais. Pois, sempre que qualquer afirmação seja falsa, os dois nomes dos quais ela é composta, combinado e feitos um, não significam absolutamente nada. Por exemplo, se for uma afirmação falso dizer um quadrado é redondo, a palavra quadrado redondo não significa nada, mas é um mero som. Assim, da mesma maneira, se for falso dizer que a virtude pode ser vertida (poured) ou soprada para cima (blown up) e para baixo (down), as palavras virtude infundida (poured virtue), virtude soprada (inblown virtue) são tão absurdas e insignificantes como quadrilátero redondo (round quadrangle). E portanto, você dificilmente se encontrará com uma palavra sem sentido e insignificante que não seja formada de alguns nomes latinos e gregos. Um francês raramente ouve nosso [28]Salvador ser chamado pelo nome de parole, mas pelo nome de verbe, frequentemente; contudo, verbe e parole não mais são diferentes, apenas que uma é latim e a outra, francês.

Quando um homem, ao ouvir qualquer discurso, tem aqueles pensamentos [a partir] dos quais as palavras daquele discurso e sua conexão foram estabelecidas e constituídas, então se diz que ele o entende; o entendimento nada mais sendo senão a concepção causada pelo discurso. E portanto, se o discurso for particular ao homem, como por algo que eu sei que é, então o entendimento também é peculiar a ele. E portanto, de afirmações absurdas e falsas, no caso que elas sejam universais, não pode haver entendimento; embora muitos pensem que eles as entendam, quando eles apenas repetem as palavras suavemente, ou repetem-nas em suas mentes.

Que tipos de discursos significam os apetites, aversões e paixões da mente do homem; e do uso e abuso delas, eu deverei falar quando eu tiver falado das paixões.

Os nomes daquelas semelhantes que nos afetam, quer dizer, que nos agradam ou desagradam, porque todos os homens não são afetados de maneira semelhante pela mesma coisa, nem o mesmo o homem todas as vezes, são nos discursos comuns de homens de significação inconstante. Pois, vendo que todos os nomes são impostos para significarem nossas concepções, e todas as nossas afeições são apenas concepções, quando nós concebemos as mesmas coisas diferentemente, nós dificilmente podemos evitar nomeá-las diferentemente. Pois, embora a natureza do que nós concebemos seja a mesma; todavia, a diversidade de nossa recepção dela, com respeito às constituições diferentes do corpo, e os prejuízos de opinião, dão a cada coisa uma tintura de nossas paixões diferentes. E portanto, ao raciocinar, um homem precisa prestar atenção às palavras; as quais, além da [29]significação do que nós imaginamos da natureza delas, têm também uma significação da natureza, disposição e interesse do falante; assim são os nomes das virtudes e dos vícios; pois um homem chama de sabedoria o que outro chama de medo; e um [de] crueldade, o que outro [chama de] justiça; um [de] prodigalidade, o que outro [chama de] magnanimidade; um [de] gravidade, o que outro [chama de] estupidez, etc. E portanto, tais nomes nunca podem ser fundamentos verdadeiros para qualquer raciocínio. Não mais do que metáforas e tropos de discurso; mas esses são menos perigosos, porque eles confessam sua inconstância; o que os outros não [fazem].


Próximo capítulo


ORIGINAL:

HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. 18-29. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/18/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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