Por George Berkeley
[127]1. Meu projeto é revelar a maneira pela qual nós percebemos a distância, magnitude e posição de objetos pela vista: também considerar a diferença que há entre as ideias de vista e toque, e se há alguma ideia comum a ambos os sentidos1.
2. Todos concordam, eu considero, que a distância, em si mesma e imediatamente, não pode ser vista2. Pois, a distância3 sendo uma linha dirigida longitudinalmente para o olho, ela projeta somente um ponto no fundo do olho, ponto que permanece invariavelmente o mesmo, quer a distância seja mais longa ou mais curta4.
[128]3. Eu também considero reconhecido que a estimativa que nós fazemos da distância de objetos consideravelmente remotos é antes um ato de julgamento fundamentado na experiência que do sentido. Por exemplo, quando eu percebo um grande número de objetos intermediários, tais como casas, campos, rios e semelhantes, os quais eu experienciei ocuparem um espaço considerável, por consequência, eu formo um julgamento ou conclusão de que o objeto que eu vejo além deles está a uma grande distância. Novamente, quando um objeto aparece indefinido e pequeno, o qual, à distância próxima, eu experienciei com uma aparência vigorosa e grande, eu instantaneamente concluo ele estar afastado5. E isso, é evidente, é o resultado de experiência; sem a qual, a partir da indefinição e pequenez, eu não deveria ter inferido coisa alguma concernente à distância de objetos.
4. Mas, quando um objeto é posicionado a uma distância tão próxima quanto aquela do intervalo entre os olhos comporta qualquer possível proporção a ela6, a opinião de homens especulativos é que os dois eixos ópticos (a fantasia de que nós somente vemos com um olho por vez sendo explodida), concorrendo no objeto, ali formam um ângulo, através do qual, de acordo com que ele seja maior ou menor, o objeto é percebido estar mais próximo ou mais longe7.
5. Entre a qual e a maneira acima exposta de estimar distância há esta diferença notável: - que, visto que não há conexão necessária aparente entre uma pequena distância e uma aparência grande e forte, ou entre grande distância e uma aparência pequena e fraca, ai [129]aparece uma conexão muito necessária entre um ângulo obtuso e distância próxima, e um ângulo agudo e distância maior. Isso não depende, no mínimo, da experiência, mas, evidentemente, pode ser conhecido por qualquer um, antes que ele tenha experienciado-o, que, quão mais próxima a concorrência dos eixos ópticos, maior o ângulo e, quão mais remota é sua concorrência, menor será o ângulo compreendido por eles.
6. Há outra maneira, mencionada pelos escritores em óptica, pela qual eles nos compreenderão julgar dessas distâncias com respeito às quais a largura da pupila tem qualquer grandeza (bigness) sensível. E que é a maior ou menor divergência de raios que, emitidos do ponto visível, cai sobre a pupila – esse ponto sendo julgado o mais próximo que é visto pelos raios mais divergentes, e que é mais remoto que é visto pelos menos divergentes raios, e assim por diante; a distância aparente ainda aumentando, conforme a divergência dos raios decresce, até que à extensão longitudinal torna-se infinita, quando os raios que caem sobre a pupila são paralelos para o sentido. E considera-se que é segundo essa maneira que nós percebemos a distância quando nós olhamos com apenas um olho.
7. Nesse caso, é claro que nós não estamos em dívida com a experiência: sendo uma verdade necessária que, quão mais próximos os raios diretos que caem sobre o olho aproximam-se de um paralelismo, o mais distante é o ponto da intersecção deles, ou o ponto visível de onde eles fluem.
8.8 Agora, embora as explicações aqui fornecidas da percepção de distância próxima pela vista (sight) sejam recebidas como verdadeiras e, consequentemente, usadas na determinação das posições aparentes de objetos, no entanto, elas parecem-me muito insatisfatórias, e isso pelas seguintes questões:-
9. [Primeiro9,] É evidente que, quando a mente percebe qualquer ideia não imediatamente e de si mesma, isso precisa ser através de alguma outra ideia. Portanto, por exemplo, as paixões que estão na mente de outro são elas mesmas invisíveis para mim. No entanto, eu posso percebê-las [130]pela vista; embora não imediatamente, contudo, através das cores que elas produzem na fisionomia. Nós frequentemente vemos vergonha ou medo na aparência de um homem, ao perceber as mudanças na fisionomia dele para vermelho ou pálido.
10. Além disso, é evidente que nenhuma ideia, que não seja ela mesma percebida, pode ser para mim meio de percepção de qualquer outra ideia. Se eu não percebo a vermelhidão ou palidez mesmas da face de um homem, é impossível que eu deva perceber por elas as paixões que estão na mente dele.
11. Agora, da sec. ii, é claro que a distância é, em sua própria natureza, imperceptível e, todavia, é percebida pela vista10. Portanto, permanece que ela é trazida à visão (view) através de alguma outra ideia, que é em si mesma imediatamente percebida no ato da visão (vision).
12. Mas aquelas linhas e ângulos, por meios dos quais alguns homens11 pretendem explicar a percepção12 de distância, são eles mesmos não percebidos de qualquer modo; nem são eles verdadeiramente alguma vez pensados por aqueles não habilidosos em óptica. Eu apelo à experiência de qualquer um, se, à vista de um objeto, ele avalia sua distância pela grandeza do ângulo formado pelo encontro dos dois eixos ópticos? Ou se ele alguma vez pensa da divergência maior ou menos dos raios que chegar de qualquer ponto a sua pupila? Ou melhor, se não seria perfeitamente impossível para ele perceber pelo sentido os vários graus por meio dos quais, de acordo com a divergência maior ou menor, eles caem sobre os olhos? Cada um é ele mesmo o melhor juiz do que ele percebe, e do que não percebe. Em vão qualquer homem13 deverá contar-me que eu percebo ceras linhas e ângulos, os quais introduzem em minha mente as várias ideias de distância, contanto que eu mesmo não esteja consciente de tal coisa.
13. Portanto, uma vez que aqueles ângulos e linhas não são eles [131]mesmos percebidos pela visão, segue-se, a partir da seção x., que a mente não julga a distância dos objetos por meio deles.
14. [Em segundo lugar14,] O verdadeiro dessa asserção ainda será mais evidente para qualquer um que considerar que aquelas linhas e ângulos não têm existência real na natureza, sendo apenas uma hipótese concebida por matemáticos, e por eles introduzida na óptica, para que eles pudessem tratar essa ciência de uma maneira geométrica.
15. A [terceira e15] última razão que eu devo fornecer para rejeitar essa doutrina é, que embora nós devamos conceder a real existência daqueles ângulos ópticos, etc., e que seja possível para a mente percebê-los, contudo, esses princípios não podem ser considerados suficientes para explicar o fenômeno da distância, como deverá ser revelado a seguir.
ORIGINAL:
BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.127-131. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/127/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Apenas na primeira edição seguia-se esta sentença:- ‘Ao tratarem de tudo em que, parece-me, os escritores em Óptica procederam a partir de princípios errados.’
2 As seções 2-51 explica a maneira pela qual nós aprendemos a ver para julgar sobre a distância ou exterioridade (Outness), e sobre objetos como existindo à distância de nosso organismo, a saber, por meio da associação deles com o que nós vemos, e com certas sensações musculares e de outros tipos no olho, as quais acompanham a visão. A seção 2 assume, como garantido, a invisibilidade da distância na linha de vista. Cf. seções 11 e 88 – First Dialogue between Hylas and Philonous – Alciphron, IV. 8 – Theory of Vision Vindicated and Explained, seções 62-69.
3 Ou seja, exterioridade (outness), ou distância exterior (outward) ao ponto de visão – distância na linha de vista – a terceira dimensão do espaço. Distância visível é espaço ou intervalo visível entre dois pontos (ver seção 112). Nós podemos ser sensivelmente percipientes disso apenas quando ambos os pontos são vistos.
4 Essa seção é aduzida por alguns dos críticos de Berkeley como se ela fosse a evidência descoberta por ele para sua Teoria, em vez de ser, como ela é, uma referência transitória ao fundamento científico da já reconhecida invisibilidade da exterioridade (outness), ou distância na linha de vista. Ver, por exemplo, Review of Berkeley’s Theory of Vision, p. 18-43, por Bailey, também, sua Theory of Vision, p. 179 e p. 20-7 – Discussions, vol. II, p. 95, por Mill – Sight and Touch, p. 10, por Abbott, onde essa sentença é apresentada como ‘o único argumento positivo avançado por Berkeley.’ A invisibilidade da exterioridade (outness) não é descoberta de Berkeley, mas a maneira como nós aprendemos a interpretar seus sinais visuais, e o que eles são.
5 Ou seja, perspectiva aérea ou linear são reconhecidas como sinais de distâncias remotas. Mas a questão, nesta e nas trinta e seis seções que se seguem, é relativa à visibilidade de distâncias próximas apenas – umas poucas jardas diante de nós. Era ‘do acordo de todos’ que, além desse limite, as distâncias são sugeridas por nossas experiências de seus sinais.
6 Compare essas e as quatro seções seguintes com as citações no Prefácio do Editor, do Treatise of Dioptrics de Molyneux.
7 Na última edição pelo autor nós temos a seguinte anotação: ‘Ver o que Des Cartes e outros escreveram sobre o assunto.’
8 Na primeira edição essa seção abre desta maneira: ‘Aqui eu estabeleci as explicações correntes comuns que são dadas sobre a nossa percepção de distâncias próximas pela vista (sight), as quais, embora elas sejam inquestionavelmente recebidas como verdadeiras pelos matemáticos, e consequentemente utilizadas por eles na determinação das posições aparentes dos objetos, no entanto, etc.’
9 Omitido na última edição pelo autor.
10 Ou seja, embora imediatamente invisível, é mediatamente vista. Note-se, aqui e em outros lugares, a ambiguidade do termo percepção, a qual agora significa o ato de ser consciente de fenômenos sensíveis, e novamente o ato de inferir fenômenos dos quais, ao mesmo tempo, nós estamos insensíveis; embora ele também seja aplicado ao objeto percebido em vez de ao ato percipiente; e algumas vezes à imaginação, e a atos mais elevados de inteligência.
11 ‘Alguns homens’ – ‘matemáticos’, na primeira edição.
12 Ou seja, a percepção mediada.
13 ‘Qualquer homem’ – ‘todos os matemáticos no mundo’, na primeira edição.
14 Omitido na última edição pelo autor.
15 Omitido na última edição pelo autor.
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