segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Um Ensaio para Uma Nova Teoria da Visão [16-28]

Por George Berkeley


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[131]16. Agora que já está revelado1 que a distância é sugerida2 à mente, pela mediação de alguma outra ideia que é ela mesma percebida pelo ato de visão, resta que nós investiguemos que ideias ou sensações há que assistam a visão, às quais nós podemos supor que as ideias de distância estão conectadas e pelas quais elas são introduzidas na mente.

E primeiro, é certo pela experiência que, quando nós olhamos para um objeto próximo com os dois olhos, conforme ele aproxima-se ou afasta-se de nós, nós alteramos a disposição de nossos olhos, diminuindo ou aumentando o intervalo entre as pupilas. Essa disposição ou modificação dos olhos é assistida por uma sensação3, a qual me parece ser aquela que, neste caso, traz as ideias de maior ou menor distância à mente.

[132]17. Nem há qualquer conexão natural ou necessária4 entre a sensação que nós percebemos pela modificação dos olhos e a distância maior ou menor. Mas – porque a mente tem, por experiência constante, encontrado as sensações diferentes correspondendo às diferentes disposições dos olhos ao serem assistidas cada uma por um grau diferente de distância do objeto – houve o crescimento de uma conexão habitual ou costumeira entre esses dois tipos de ideias: de maneira que a mente imediatamente percebe a sensação surgindo da modificação diferente que ela dá aos olhos, a fim de conduzir as pupilas para mais perto ou mais longe separadamente. Mas, além disso, ela percebe que a ideia diferente de distância com a qual estava acostumada está conectada com essa sensação. Exatamente como, ao ouvir um certo som, a ideia é imediatamente sugerida ao entendimento, coisa que o costume unira a ela5.

18. Nem vejo como eu facilmente pode esta engando nesse assunto. Eu sei evidentemente que a distância não é percebida por si mesma6; que, por consequência, ela precisa ser percebida através de alguma outra ideia, a qual é imediatamente percebida, e variar com os graus diferentes de distância. Eu também sei que a sensação que surge a partir da modificação dos olhos é percebida imediatamente; e que os vários graus dela estão conectados com distâncias diferentes, as quais nunca falham em os acompanhar na mente, quando eu vejo um objeto distintamente com ambos os olhos cuja a distância é tão pequena que, com respeito a ele, o intervalo entre os olhos não tem nenhuma magnitude considerável.

19. Eu sei que é uma opinião recebida que, pela alteração da disposição dos olhos, a mente percebe quer o ângulo dos eixos ópticos, quer os ângulos laterais compreendidos entre o intervalo dos olhos ou eixos ópticos é tornado maior ou menor; e que, adequadamente, por um tipo de geometria natural, ela julga o ponto da intersecção deles estar mais perto ou mais distante. Mas que isso não é verdadeiro eu estou [133]convencido por minha própria experiência; uma vez que não estou consciente que fiz qualquer uso semelhante da percepção que tenho pela modificação de meus olhos. E para eu efetuar esses julgamentos, e extrair essas conclusões deles, sem que eu faço-o, parece completamente incompreensível7.

20. A partir de tudo isso segue-se que o julgamento que nós efetuamos da distância de um objeto visto com ambos os olhos é inteiramente resultado de experiência. Se nós não tivéssemos constantemente encontrado certas sensações, surgindo a partir de várias disposições dos olhos e assistidas com certos graus de distância, nós nunca deveríamos efetuar esses julgamentos súbitos relativos à distância de objetos a partir delas; não mais do que nós deveríamos pretender julgar os pensamentos de um homem pelo seu pronunciamento de palavras que nós nunca ouvimos antes.

21. Em segundo lugar, um objeto posicionado a uma certa distância do olho, a respeito da qual a largura da pupila comporta uma proporção considerável, sendo feito aproximar-se, é visto mais confusamente8. E o mais perto que seja trazido, o mais confuso é o aparecimento que ele produz. E isso sendo constantemente encontrado ser assim, ali surge na mente uma conexão habitual entre os vários graus de confusão e distância; a maior confusão ainda implicando a menor distância, e a menor confusão, a maior distância do objeto.

22. Esse aparecimento confuso do objeto, portanto, parece ser o meio pelo qual a mente julga a distância, naqueles casos nos quais os mais aprovados escritores em óptica compreenderão que ela julga pela divergência diferente com a qual os raios fluindo a partir do ponto de radiação caem sobre a pupila9. Nenhum homem, eu acredito, pretenderá ver ou sentir esses ângulos imaginários que se supõe os raios formem, de acordo com as várias inclinações de seu olho. Mas ele não pode escolher ver se o objeto aparece mais ou menos confuso. É portanto, uma consequência manifesta a partir da qual foi demonstrado, que, em vez da maior ou menor divergência dos raios, a mente faz uso da [134]maior ou menor confusão do aparecimento, para determinar por esse meio o lugar aparente de um objeto.

23. Nem ajuda dizer que não há conexão necessária entre visão confusa e distância grande ou pequena. Pois eu pergunto a qualquer homem, que conexão necessária ele vê entre a vermelhidão de um rubor e a vergonha? E todavia, não antes ele deverá observar que a cor surge na face de outro, mas que ela traz para sua mente a ideia daquela paixão que fora observada acompanhando-a.

24. O que parece ter engando os escritores em óptica nesse assunto é que eles imaginam que os homens julgam a distância como eles efetuam uma conclusão nas matemáticas; entre a qual e as premissas, de fato, é absolutamente requisito que haja uma aparente conexão necessária. Mas são muito de outra maneira os julgamentos súbitos que os homens fazem da distância. Nós não pensamos que brutos e criança, ou mesmo homens razoáveis crescidos, sempre que ele percebam um objeto aproximar-se ou afastar-se dele, fazem-no em virtude de geometria e demonstração.

25. Para que uma ideia possa sugerir outra à mente, será suficiente que elas tenham sido observadas estarem juntas, sem qualquer demonstração da necessidade de sua coexistência, ou sem tanto quanto a saber o que é que as faz coexistir assim. Disso há inumeráveis instâncias, das quais ninguém pode ser ignorante10.

26. Dessa maneira, a distância mais próxima tendo sido constantemente assistida por maior confusão, imediatamente é que a primeira ideia percebida apenas sugere a segunda para nossos pensamentos. E, se tem sido o curso ordinário da natureza que o mais distante que um objeto fosse posicionado o mais confuso ele deveria aparecer, é certo que a mesma percepção que agora nos faz pensar um objeto aproximando-se teria então nos feito imaginá-lo distanciando-se; percepção que, abstraindo-se do costume e experiência, sendo igualmente adequada para produzir a ideia de grande distância, ou distância pequena, ou nenhuma distância em absoluto.

27. Em terceiro lugar, um objeto sendo posicionado à distância acima especificada, e trazido para mais próximo do olho, nós podemos todavia evitar, pelo menos por algum tempo, o crescimento da confusão do [135]aparecimento, ao esforçar o olho11. Caso no qual aquela sensação supri o lugar da visão confusa, auxiliando a mente a julgar da distância do objeto; sendo ele estimado tanto mais perto quanto maior o esforço ou deformação do olho, a fim de distinguir a visão, seja maior.

28. Aqui12 eu estabeleci aquelas sensações ou ideias13 que parecem ser as ocasiões constantes e gerais da introdução na mente das diferentes ideias de distância próxima. É verdadeiro, na maioria dos casos, que diversas outras circunstâncias contribuem para construir nossa ideia de distância, a saber, o número, tamanho, tipo particulares, etc, das coisas vistas. Relativo aos quais, assim como a todas as outras ocasiões acima mencionadas que sugerem distância, eu deverei apenas observar que nenhuma delas, por suas próprias naturezas, têm qualquer relação ou conexão com ela: nem é possível que elas alguma vez devam significar os vários graus daquela, senão que, pela experiência, elas foram encontradas estar conectadas com elas.


Próxima parte


ORIGINAL:

BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.131-135. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/131/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 Seções 3, 9.

2 Observe a primeira introdução do termo sugestão por Berkeley, usado por ele para expressar um fator importante em sua explicação do mundo visível e, novamente, em sua explicação mais compreensiva de nosso conhecimento do universo material nos Principles. Ele fora empregado ocasionalmente, por Hobbes e Locke, entre outros. Há três maneiras pelas quais os objetos dos quais nós temos uma percepção imediata na vista podem ser supostos de nos conduzir ao que nós imediatamente não percebemos: (I) Instinto, o que Reid chamou de ‘sugestão original’ (Inquiry, ch. VI. Sect. 20-24); (2) Costume; (3) Raciocínio a partir de premissas aceitas. A ‘sugestão’ de Berkeley corresponde à segunda (Cf. Theory of Vision Vindicated, seção 42.)

3 Na Theory of Vision Vindicated, seção 66, é adicionado que essa ‘sensação’ pertence propriamente ao sentido do toque. Cf. também a seção 145 deste Ensaio.

4 Aqui ‘natural’ = ‘necessário’: em outros lugares = conexão divinamente arbitrária.

5 Que nossa visão mediada da exterioridade (outness) e de objetos como assim externos é devida ao meio, o qual tem uma conexão contingente ou arbitrária, em vez de uma necessária, com as distâncias que eles capacitam-nos a ver, ou da qual elas são signos, é uma parte primordial do argumento dele.

6 Seção 2.

7 Aqui, como geralmente no Ensaio, o apelo é à nossa experiência interior, não ao fenômeno observado por nossos sentidos no organismo.

8 Ver seção 35, para a diferença entre visão confusa e débil (faint). Cf. seção 32-38 com esta seção. Também, Theory of Vision Vindicated, seção 68.

9 Ver seção 6.

10 Essas seções pressupõem contiguidade prévia como uma lei associativa de fenômenos mentais.

11 Ver Inquiry, ch. vi. Seção 22, por Reid.

12 Seções 16, 27 – Para os sinais de distâncias remotas, ver seção 3.

13 Essas são sensações musculares no órgão, e graus de confusão em uma ideia visível. Os sinais ‘arbitrários’ de distância, próxima e remota, de Berkeley, são (a) ou estados invisíveis do órgão visual, (b) ou aparecimentos visíveis.

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