segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Inferir e Explicar - Capítulo 7 Semmelweis e a Febre Puerperal. Um Estudo de Caso

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


Capítulo anterior


[57]Capítulo 7

Semmelweis e a Febre Puerperal.

Um Estudo de Caso


Como uma simples ilustração de alguns aspectos importantes da investigação científica, examinemos o trabalho de Semmelweis sobre febre puerperal. Ignaz Semmelweis, um médico de origem húngara, realizou esse trabalho durante os anos de 1844 a 1848 no Hospital Geral de Viena. Como um membro da equipe médica da Primeira Divisão de Maternidade no hospital, Semmelweis ficou aflito ao descobrir que uma grande proporção de mulheres que foram ajudadas a dar à luz seus bebês naquela divisão contraíram uma séria e frequentemente fatal doença conhecida como como infecção pós-parto ou febre puerperal. Em 1844, tantas como 260 de 3157 mães na Primeira Divisão, ou 8,2 por cento, morreram da doença; por 1845, a taxa de mortalidade foi de 6,8 por cento e, por 1846, foi de 11,4 por cento. Essas figuras eram ainda mais alarmantes porque na adjacente Segunda Divisão de Maternidade do mesmo hospital, a qual acomodava tantas mulheres quanto a Primeira, o número de mortas era muito mais baixo: 2,3, 2,0, e 2,7 por cento para os mesmos anos.

Carl Hempel1


Febre Puerperal


Apenas imagine como deve ter sido ser jovem, pobre e grávida nos começos dos anos de 1840 em Viena e descobrir-se alocada para a Primeira Divisão da enfermaria de “parto (lying in)” no Hospital Geral de Viena. Suas chances de morrer de uma doença terrível conhecida como infecção pós-parto, ou febre puerperal (pere em latim para ‘criança (child)’ e parere para ‘gerar (to bring forth)’), eram entre 10 e 20 por cento. A palavra na rua era que isso era verdadeiro, assim como nos salões do governo, que instituíram uma comissão para estudar o problema, e, é claro, os médicos estavam todos conscientes da severidade do desastre.

A febre puerperal foi reconhecida e formalmente identifica pela medicina ocidental desde a Grécia antiga. Embora um problema médico obviamente sério, ela apenas atingiu proporções [58]epidêmicas no começo do século XIX. A fim de apreciar a significância da descoberta de Semmelweis da causa e do tratamento da febre puerperal, nós precisamos imaginar um tempo, surpreendentemente recente, no qual a verdadeira natureza da infecção, o papel dos micro-organismos e assim chamada teoria de germe da doença eram completamente desconhecidas. Os médicos especularam sobre o que estava acontecendo nesses casos usualmente fatais, mas de fato, eles realmente não tinha pista sobre a etiologia da doença. Esse extravagante termo latino simplesmente significa “causa,” ou “história causal.” De fato, havia dois tipos distintos de ignorância causal sobre febre puerperal. Uma tinha a ver com as origens causais da doença. A outra era a progressão causal da doença dentro do corpo da vítima. Isso ajuda-nos a entender porque as teorias predominantes sobre a doença estavam tão extremamente mal orientadas.

As duas teorias que se focavam na segunda questão causal ambas incompreenderam – de fato, identificaram erroneamente – as quantidades massivas de pus no corpo da mulher pobre infectada. Uma teoria que claramente retrocedia aos gregos diagnosticava o fluído pútrido como uma forma corrompida de lóquio, o fluído naturalmente ocorrente que acompanha o parto normal. Isso levou a muita especulação sobre os efeitos dos estágios posteriores de gravidez. A outra, a qual era favorecida pelos professores e supervisores de Semmelweis, identificava erroneamente o pus como leite corrompido e mal direcionado. A razão para esse desastre fisiológico era um mistério completo.

Uma explicação causal muito diferente da febre puerperal focava-se em suas origens causais. Os médicos foram atingidos pelas proporções epidêmicas da doença e outras epidemias com as quais eram familiares, tais como cólera e varíola. Eles atribuíam tudo isso a uma causa genérica chamada de miasma, ou “mudanças cósmico-telúrica atmosféricas.” Mas, quanto ao que tudo isso era, novamente eles estacam completamente ignorantes. Não obstante, pelo menos três teorias sobre febre puerperal estavam sobre a mesa dos médicos para investigar.


t1. Teoria da descarga do lóquio

t2. Teoria do fluído lactescente

t3. Miasma.


Ignác Fülöp Semmelweis


É hora de introduzir o herói trágico de nossa história, Ignác Semmelweis. Ele nasceu em origens relativamente humildes no ano de 1818. Naquela época, a Hungria era uma parte relativamente insignificante do império austro-húngaro, e sua capital, Budapeste, ocupava uma posição distintamente secundária em relação à capital do império, Viena. Mesmo no interior de seu contexto húngaro, Semmelweis encarava outra fonte de preconceito – a família dele falava um dialeto regional bastante obscuro, e ele carregou um sotaque distinto pela vida inteira. Tudo isso é relevante para o entendimento da vida acadêmica e profissional de Semmelweis porque, como muitas vítimas de prejuízo étnico, ele parece sempre ter visto a si mesmo como um estranho no interior da classe privilegiada e sofreu de alguma coisa com a qual muitos de meus estudantes podem identificar-se – um medo da, e aversão à, escrita acadêmica.

Não obstante, Ignác foi um estudante talentoso. Ele começou a faculdade como estudante de direto na Universidade de Viena, mas logo ganhou suporte para o estudo de medicina. Dividindo o tempo entre a Universidade de Viena e a Universidade Real de Peste, ele completou sua graduação em 1844 e saiu para procurar o que nós agora chamamos de estágio médico (internship) no [59]Hospital Geral de Viena. Ele foi malsucedido em suas solicitações para estudar sobre dois talentosos jovem pesquisadores no departamento de patologia e foi forçado a “estabelecer-se” em uma posição de assistente no departamento de obstetrícia. Nessa época, a obstetrícia era uma nova e bastante indistinta especialidade.

Assim, à idade de vinte e oito, Ignác Semmelweis começou como o segundo encarregado da Divisão de Maternidade do Hospital Geral de Viena. A educação médica era muito diferente naqueles dias, e esse jovem, recém-formado, médico assumiu grandes responsabilidades em clínica médica, pesquisa e administração hospitalar. Nós aprenderemos a triste conclusão da biografia de Semmelweis diretamente, mas primeiro temos de virar nossa atenção ao problema científico que ele imediatamente encontrou e sua descoberta sistemática da solução.


O Hospital Geral de Viena


Para alguém que está longe de ser jovem, dói-me admitir que os avanços científicos realmente relevantes são feitos por pesquisadores mais jovens. Não há nada particularmente surpreendente sobre isso, é claro, porque pensadores mais jovens estão quase por definição menos vinculados ao passado, tanto em termos de conhecimento predominante quanto em termos de seu próprio posicionamento pessoal e profissional.

O Hospital Geral de Viena era uma mistura clássica desses divergências geracionais. O sistema alemão colocava grande valor na experiência, lealdade e conexão política. Os membros sêniores da faculdade são descritos por um escritor em 1876 na seguinte linguagem colorida:


uma geração que fora criada em uma camisa de força intelectual com óculos escuros diante de seus olhos e lã de algodão em seus ouvidos. Os jovens davam cambalhotas na grama, e os velhos, cujos corpos foram entravados em seu desenvolvimento natural pelo fardo vitalício de supervisão de estado, sentiam seu mundo em volta de seus ouvidos, e acreditavam que o fim das coisas estava à mão.”2


Por outro lado, o hospital possuía alguns dos melhores pesquisadores em medicina no mundo todo. Três deles merecem uma breve introdução.

Em 1844, Karl von Rokitansky, na idade dos quarenta, tornou-se diretor de anatomia patológica. Ele realizou grandes contribuições ao conhecimento médico e formalizou a prática de condução de autópsias por especialistas treinados em cada fatalidade no hospital. Semmelweis foi um verdadeiro discípulo da metodologia de Rokitansky e, embora não um membro do departamento de patologia, foi treinado por ele na técnica apropriada de realização de autópsias das fatalidades na divisão de maternidade.

Joseph Skoda, quem entre outras coisas inventou o estetoscópio, foi um defensor de anatomia patológica. Seu único interesse profissional parece ter sido na diagnose da doença, não no seu tratamento. Ele sentia que a medicina, pelo menos em sua época, deveria preocupar-se com a prevenção da doença, através de um entendimento de suas causas, e não se preocupar com o tratamento, uma vez que, em todo o caso, ele sempre parecia tão inefetivo. De Skoda, Semmelweis aprendeu a importância de cuidadosa observação patológica e uma fixação no entendimento tanto das causas originárias da doença quanto de sua progressão causal no interior do corpo da vítima.

[60]Ferdinand von Herba realmente foi um contemporâneo de Semmelweis. Ele, exatamente como seu jovem amigo e colega, foi muito discípulo das novas técnicas patológicas e diagnósticas sendo ensinadas por Rokitanasky e Skoda. Ele tomou seu contexto e usou-o para vantagem notável de quase sozinho dar início à disciplina de dermatologia. O papel de Herba na história de Semmelweis é duplo. Ele foi amigo e confidente de Ignác, enquanto ele sofria durante a epidemia de febre puerperal, e ele foi o primeiro a finalmente compartilhar a descoberta com a comunidade médica, tanto em uma apresentação pessoal que ele proferiu, quanto em uma breve publicação em um jornal médico.


O Que era Conhecido à Época


Eu quero compartilhar com você um excerto um pouco longo de um livro maravilhoso sobre Semmelweis, The Doctors’ Plague, pelo contemporâneo historiador da medicina, Sherwin B. Newland. Você notará que o doutor Newland sumariza o conhecimento contextual de Semmelweis da magnitude e detalhes da epidemia de febre puerperal introduzindo cada breve parágrafo com a expressão “observação nº.” É quase como se Newland estivesse conscientemente esquematizando a evidência preliminar em termos de nossa receita da inferência-à-explicação-melhor (IEM), e nós podemos substituir mentalmente nossa convenção ao trocar a “observação nº” com o apropriado e e subscrito.


Observação nº 1: O mesmo número de partos ocorreu nas duas divisões obstétricas do hospital, usualmente entre 3000 e 3500. A única diferença entre elas era que partos na Primeira Divisão eram conduzidos por médicos e estudantes de medicina e aqueles na Segunda Divisão por obstetrizes e estudantes de obstetrícia. Na Primeira Divisão, uma média de 600 a 800 mães morriam a cada ano de febre puerperal; na Segunda Divisão, o número era usualmente aproximadamente de 60 mortes, um décimo do total.

Observação nº 2: Embora a febre puerperal ocorresse violentamente na Primeira Divisão, não havia epidemia semelhante fora dos muros do hospital, na cidade de Viena. A mortalidade do parto em casa, seja por obstetrizes ou médicos particulares, era baixa. Mesmo quando elas davam à luz em becos e ruas, os assim chamado de Gassengeburten, as mães que davam à luz sozinhas raramente morriam.

Observação nº 3: A despeito da impressão geral em contrário, as décadas de estatísticas cuidadosamente guardadas no Allgemeine Krankenhaus mostraram que nem a incidência nem a mortalidade de febre puerperal estavam relacionadas ao clima, como as epidemias frequentemente estão.

Observação nº 4: Trauma maior durante o parto parecia aumentar a probabilidade de que uma mãe desenvolvesse febre puerperal. Isso não era verdadeiro de nenhuma outra doença epidêmica.

Observação nº 5: O fechamento da ala (ward) por um período de tempo sempre pararia a mortalidade. Quando mães dessem à luz em outro lugar durante esse tempo, elas não ficavam doentes.

Observação nº 6: O infante nascido de uma mulher que subsequentemente morresse de febre puerperal frequentemente morreria de uma febre similar à de sua mão. Em semelhantes casos, os achados na autópsia eram similares àqueles identificados na mãe.”3


Diferenças nas Divisões


Considere a confusão nos dois tipos da etiologia da doença que nós temos discutido. Os superiores de Semmelweis endossavam simultaneamente a [61]explicação de leite e a de miasma da febre puerperal. Miasma, ou “influências epidêmicas,” tem uma ocasião difícil para explicar as observações dois, três e quatro (e2, e3 e e4). Parecia óbvio que a origem causal da epidemia deve estar, de alguma maneira, nas diferenças entre as duas divisões a maternidade.

A maioria dos filósofos de minha geração conhece a história de Semmelweis por causa de um pequeno livro-texto muito influente: Philosophy of Natural Science, por Carl Hempel, um dos mais sofisticados proponentes do “belo retrato da ciência.” Ele interpreta os procedimentos cuidadosos de Semmelweis como alguém conduzindo uma série de miniexpermentos para excluir possíveis diferenças causais entre as duas divisões. Enquanto nós lembramos de que experimentos são simplesmente uma maneira de coletar novos dados relevantes e então reavaliar as virtudes explicativas da hipótese competidora, essa é uma maneira muito útil de interpretar o método de Semmelweis.

Uma das menores diferenças entre as divisões era a posição da mulher durante o parto: “Uma nova ideia foi sugerida a Semmelweis pela observação de que na Primeira Divisão as mulheres davam à luz deitadas de costas; na Segunda Divisão, elas davam à luz deitadas de lado. Embora ele considerasse isso improvável, ele decidiu, ‘como um homem que se afoga agarrando-se a um canudo,’ testar se essa diferença no procedimento era significante. Ele introduziu o uso da posição lateral na Primeira Divisão, mas novamente, a mortalidade permaneceu não afetada.”4 Oferece-se a nós uma nova explicação rival:


t4. Parto na posição supina causa febre puerperal.


Os novos dados do miniexperimento de Semmelweis, contudo, derrubam essa hipótese bem para baixo na ordem de classificação.


e7. Mudança para a posição lateral para o parto na Primeira Divisão não fez diferença nas taxas de mortalidade.


Outra diferença interessante, surpreendentemente, tinha a ver com a administração dos últimos ritos católicos.


Várias explicações psicológicas. Uma delas notou que a Primeira Divisão estava de tal modo organizada que um padre portando o último sacramento para a mulher moribunda tinha de passar através de cinco alas antes de alcançar a enfermaria de doente do outro lado: o aparecimento do padre, antecedido por um assistente tocando um sino, foi considerada ter um efeito terrível e debilitantes sobre as pacientes nas alas e, dessa maneira, torná-las vítimas mais prováveis de febre puerperal. Na Segunda Divisão, esse fator adverso estava ausente, uma vez que o padre tinha acesso direto à enfermaria de doentes. Semmelweis decidiu testar essa conjectura. Ele persuadiu o padre a vir por uma rota desviada e sem toca o sino, a fim de alcançar a câmara de doentes silenciosamente e não observado. Mas a mortalidade na Primeira Divisão não diminuiu.”5


Novamente, nós temos uma nova explicação rival:


t5. O efeito “terrificante e debilitante” do aparecimento do padre no leito de morte estava causando febre puerperal.


Mas os novos dados experimentais fazem dessa uma explicação muito pobre.


[62]e8. Mudar a aproximação de maneira que o padre pudesse entrar na enfermaria de doentes sem ser observado não fez diferença na taxa de mortalidade.


Novos Dados “Casuais”


Nem todos os dados científicos são o produto de procedimentos experimentais; algumas vezes é simplesmente boa sorte. Semmelweis estava fora do país na ocasião de uma terrível tragédia no Hospital Geral de Viena. Outro dos discípulos de Rokitansky e Skoda, Jakob Kolletschka, fora acidentalmente cortado por um bisturi de estudante de medicina enquanto ele estava conduzindo uma autópsia. Ele desenvolveu uma infecção massiva e morreu dias depois. Quando Semmelweis logo retornou após a morte de Kolletschka, ele estudou o relatório da patologia e formou uma excitante nova hipótese:


Inteiramente estilhaçado, eu meditei sobre o caso com intensa emoção até que subitamente um pensamento cruzou minha mente; imediatamente se tornou claro para mim que a febre puerperal, a doença fatal do recém-nascido e a doença do professor Kolletschka era uma e a mesma, porque todas consistem patologicamente nas mesmas mudanças anatômicas. Portanto, se no caso do professor Kolletschka, uma sepse geral [contaminação do sangue] surgiu da inoculação de partículas de cadáver, então a febre puerperal precisa originar-se da mesma fonte. Agora, era necessário apenas decidir de onde e através de que meios as pútridas partículas de cadáver foram introduzidas nos casos de parto. O fato da matéria ser a fonte de transmissão daquelas partículas de cadáver devia ser encontrado nas mãos dos estudantes e médicos assistentes.”6


Esse pequeno momento “ah-ha” estabeleceu vários novos bits de dados sobre a mesa. Um era uma diferença negligenciada entre as duas alas.


e9. Estudantes de medicina e seus professores na Primeira Divisão regularmente conduziam autópsias. As estudantes de obstetrícia e suas professoras, não.


Outro teve a ver com prática médica regular à época.


e10. Médicos e estudantes rotineiramente transitariam das autópsias para exames e procedimentos ginecológicos, incluindo parto, com apenas a mais superficial lavagem das mãos deles.


Adicionada a isso, é claro, foi a informação reunida da morte de Kolletschka.


e11. Detalhes relativos ao acidente, subsequente progressão da doença, e derradeira morte Kolletschka.


Tudo isso levou a teoria completamente nova e original sobre a causa da febre puerperal.


t0. A febre puerperal é causada pela introdução no sangue de partículas de cadáveres.


Um Experimento e um Tratamento


Semmelweis era, acima de tudo, um bom e compassivo médico. Sua primeira responsabilidade era com os pacientes confiados ao seu cuidado. Portanto, não é surpreendente que instintos sobre formar sua nova hipótese estivessem todos dirigidos para colocar essa informação imediatamente para trabalhar nos interesses de seus pacientes. O raciocínio era simples. Se a febre puerperal estava sendo espalhada pela introdução de partículas de cadáver a partir das [63]mãos dos médicos e estudantes, alguma coisa tinha de ser feita para evitar que isso acontecesse no futuro. Embora nada fosse conhecido sobre a verdadeira natureza de doença infecciosa, Semmelweis e seus colegas sabiam que:


Soluções de cloreto há muito tinham sido usadas para livrar objetos do odor nocivo de materiais pútridos. Semmelweis raciocinou que uma solução de cloreto seria a substância ideal para destruir as fedorentas partículas de cadáver. No meio de maio de 1847, ele ordenou que uma tigela de cloro líquido, uma concentração diluída do desinfetante, fosse colocada na entrada da Primeira Divisão, e ele insistiu que cada médico atendente lavasse-se nele antes de tocar uma mulher em trabalho de parto. Escovas pequenas e duras eram mantidas por perto, para serem usadas na limpeza sob as unhas da mão.”7


Embora a pesquisa médica não fosse seu objetivo principal na conjuntura atual, é muito natural interpretar as ações de Semmelweis como um experimento interessante projetado para testar sua nova hipótese. Alguém pode imaginar um bizarro e maligno experimento que poderia ter sido usado para testar a teoria de partículas de cadáver. Ele poderia ter escolhido aleatoriamente vinte mulheres grávidas e separado-as em dois grupos diferentes. Para dez, ele poderia intencionalmente ter introduzido partículas de cadáveres em suas correntes sanguíneas; para as outras doze, o “controle,” ele escrupulosamente não teria permitido a entrada de partículas de cadáver. Ele teria esperado para ver se as dez que ele predisse contrairiam febre puerperal, enquanto as outras dez não. Felizmente, esse não foi seu procedimento experimental. Ele poderia, um pouco mais sensatamente, também ter conduzido um experimento similar com animais de laboratório, mas novamente, seu foco era salvar vidas.

Sua ordem de cal clorada (chlorinated lime), contudo, produziu um pouco de novos dados assombrosos.


e12. Semmelweis ordenou o procedimento de cal clorada em maio de 1847.

e13. Por volta de 1848, a taxa de mortalidade por febre puerperal na Primeira Divisão caíra para 1,2 por cento, exatamente um pouco menos do que na Segunda Divisão, com 1,3 por cento.


A Evidência de Semmelweis


Paremos por um momento e usemos a inferência à explicação melhor para avaliar a qualidade da evidência de Semmelweis. A uma grande quantidade de evidência a esquematizar.


e1

:

e13

------------------------------

t0


Também há um número de explicações rivais que foram discutidas e parcialmente testadas.


t1

:

t5


Quando agora adicionamos t0 a essa lista e classificamos em ordem todos eles nos termos da explicação melhor, nós todos concordaríamos, eu confio, que t0 é de longe a explicação melhor que a evidência de Semmelweis era bastante irresistível.

Eu posso imaginar alguns de vocês vendo as coisas diferentemente. Você está avançado sobre a verdadeira natureza de doenças infecciosas tais como febre [64]puerperal e sabe que a causa delas são certos tipos de bactéria. Portanto, você poderia argumentar que uma explicação melhor seria como se segue:


t6. A febre puerperal é causada pela introdução no sangue de uma certa cepa de bactéria.


De fato, hoje em dia, nós diríamos que toda a evidência, incluindo tudo que ainda está por vir, suporta fortemente exatamente uma teoria semelhante. Nós provavelmente até dizemos que nós “sabemos com certeza” que febre puerperal é causada por uma infecção bacterial. Mas tudo isso é como a evidência situa-se no começo do século XXI. Bactérias eram completamente desconhecidas à época de Semmelweis, e o que ele chamou de “partículas de cadáver” era um preciso termo substituto para sua existência e papel causal na febre puerperal.


A Tragédia de Semmelweis


A história de Semmelweis deveria ter terminado em glória. Ele resolveu sozinho um terrível mistério médico e salvou incontáveis vidas. Mas glória não foi seu destino. Ele tornou-se tão obcecado, primeiro com a solução do problema da febre puerperal e então em insistir para que colegas imediatamente adotassem seus novos métodos, que ele tornou-se um pouco difícil de se conviver. Ele efetivamente acusava colegas céticos de assassinato por não desinfetarem as mãos deles. Para piorar as coisas, seu superior diretor era parte da inveterada geração antiga e nunca aceitou a teoria ou a metodologia empírica que conduziu a sua descoberta. Em 1848, quando sua posição de assistente estava no fim, ele teve negada a nova nomeação para a posição dele no Hospital Geral de Viena. Ele tomou isso muito mal e, a despeito do apoio de Rokitansky, Skoda e Herba, ele partiu abruptamente de Viena e retornou a Budapeste.

Ele ainda poderia ter colhido a fama e o prestígio que ele tão amplamente merecia, houvesse ele apenas publicado seus resultados um pouco depois da descoberta. Como nós discutimos antes, ele nunca esteve confortável com suas habilidades de fala e ainda menos com sua escrita. Ele simplesmente não alertou a comunidade médica europeia para o que ele descobrira. O amigo dele, Herba, vez alguns breves relatórios que eventualmente foram publicados, mas tudo isso foi distintamente de segunda mão. Quando ele finalmente escreveu um livro sobre febre puerperal, foi muito mais tarde e consistia tanto em assassinato do carácter daqueles colegas que discordaram da teoria dele quanto sobre o que ele fez dos achados clínicos e experimentais.

Semmelweis, como todos nós, era um prisioneiro de seu tempo, de sua personalidade e de seu treinamento e interesse. Ele era bastante ignorante da boa técnica experimental. Embora ele e um estudante de medicina conduzissem um inconclusivo conjunto de experimentos com coelhos, ele não buscou a experimentação animal sistemática que teria fortemente suportado sua teoria. E, embora microscópios já tivessem sido inventados e estivessem em uso por pesquisadores médicos, aparentemente nunca ocorreu a ele olhar e ver se ele poderia observar aquelas partículas de cadáver em primeira mão. Alguém apenas pode imaginar o curso da história médica houvesse ele feito isso.

Semmelweis foi a uma sepultura precoce como um homem amargurado e desapontado. Ele continuou a praticar medicina na Hungria, mas nunca obteve o reconhecimento que ele desejava. No começo da meia-idade, ele começou a comportar-se erraticamente e, por fim, [65]foi institucionalizado. Ele morreu pouco depois. Há uma irônica história comum sobre seu fim. Alguns sugerem que, exatamente como seu amigo Kolletschka, Semmelweis infectou-se com febre puerperal e que as mudanças de comportamento e a morte foram resultados da infecção. O professor Nuland, cujos dois livros sobre Semmelweis eu tenho usado tão livremente, argumenta persuasivamente que Semmelweis, de fato, desenvolveu doença de Alzheimer e morreu de espancamento no hospital mental.


Exercícios


  1. Use todos os passos da receita da IEM para mostrar como os novos dados concernentes ao sacerdote do leito de morte dão-nos boa evidência de que a causa da febre puerperal não era psicossomática.

  2. Por que eu argumento que a evidência de Semmelweis não foi rebaixada pela explicação rival de a febre puerperal era causada por infecção bacterial? Você concorda comigo?


Questionário Sete


O ponto de inflexão para Semmelweis e sua busca para descobrir a causa da febre puerperal foi claramente a morte de sue colega, Jakob Kolletschka. Mostre como esse evento constituiu novos dados significantes que levaram a uma nova hipótese sobre a doença. Agora mostre como sua “ordem” para a equipe do hospital sobre minuciosamente “desinfectarem” suas mãos pode ser vista como um clássico pequeno experimento. Dados os resultados desse experimento, use a inferência à explicação melhor para avaliar a qualidade da evidência que Semmelweis agora tem quanto a causa (parcial) da febre puerperal.


Notas


Próximo capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., “Inferring and Explaining” (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 57-65. Disponível em:<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 Carl Hempel, Philosophy of Natural Science (Englewood Clifs, NJ: Prentice-Hall, 1966), 3.

2 Teodor Billroth, The Medical Sciences in German Universities (1876), citado em Sherwood B. Nuland, The Doctor’s Plague (New York: Atlas Books, 2003), 77-78.

3 Nuland, 97-98.

4 Hempel, Philosophy of Natural Science, 5.

5 Nuland, 4-5.

6 Citado em Nuland, The Doctor’s Plague, 99-100.

7 Nuland, 101.

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