terça-feira, 22 de junho de 2021

AC, Antes dos Computadores 4 Espalhando a Palavra

AC, Antes dos Computadores: Sobre a Tecnologia da Informação, da Escrita à Era do Dado Digital


Por Stephen Robertson


Capítulo anterior


[35]4 Espalhando a Palavra


No começo do capítulo 2, eu falei em escrever coisas a fim de se comunicar com muitas outras pessoas. Nós poderíamos descrever isso como transmissão (broadcasting). Por muito da história registrada, a noção de transmissão (broadcasting) foi fortemente distinguida de mensagens ponto a ponto. Se o originador (a) quer que muitas pessoas recebam a comunicação, e (2) não sabem quem todas as pessoas podem ser, a mensagem precisam ser emitida em algum sentido, como sementes sendo espalhadas sobre um campo. Nós veremos no final deste capítulo como essa distinção poderia ser obscurecida ou até desaparecer, e pessoas mais jovens criadas na era da mídia social até poderiam considerá-la um pouco estranha ou não familiar. Mas sua importância histórica é imensa.

Além disso, a palavra transmissão (broadcast) é usualmente associada com o rádio, e sua derivada, a televisão, porque a maneira do rádio é, por sua natureza, transmissão (broadcast) para o éter. Mas muito antes da descoberta do rádio, um número de tecnologias foram aproveitadas para a tarefa de espalhar mensagens entre muitas pessoas.

Uma proclamação lida por um pregoeiro (crier) em uma praça de cidade é uma forma de transmissão (broadcasting) (ela pode ser mais ou menos efetiva nessa função, dependendo do ambiente e estrutura social). Outro método que foi extensivamente usado na Idade Média e por muito mais tempo foi o púlpito. Esse mecanismo não somente provia transmissão (broadcast) para uma comunidade local, mas também permitia a uma igreja bem organizada coordenar sua mensagem através de um país ou região.

Uma forma recente de proclamação, que transmite (broadcast) uma mensagem para uma comunidade local, muitas das quais poderiam ser esperadas visitar uma igreja ou praça de cidade, é o pôster em uma parede. Desde o século XX, particularmente no ocidente, nós associamos pôsteres com propaganda comercial, mas em alguns ambientes eles adquiriram conotações bem diferentes de debate público. Por exemplo, durante a revolução cultural nos anos 1960, argumentos políticos principais foram conduzidos através da mídia dos pôsteres [36]em paredes.

Contudo, esse modo requer uma comunidade na qual a alfabetização esteja muito difundida. Durante aquele período muito longo da história humana no qual a alfabetização era uma realização relativamente especializada, a transmissão (broadcasting) via escrita tomou várias formas.


A biblioteca


O primeiro grande mecanismo, aparelho, tecnologia que foi trazido para comportar o problema da transmissão (broadcasting) foi a biblioteca.

Hoje em dia nós vemos bibliotecas sob diversas luzes – como repositórios ou arquivos, como uma forma de entretenimento, como parte do sistema de educação, e assim por diante. Fundamental para essas maneiras de entender a noção de uma biblioteca é que bibliotecas, ao longo do tempo, tornam a informação escrita disponível para muitas pessoas.

Isso é, de fato, uma tecnologia principal. Uma peça de escrita no mundo pré-computador pode, por sua própria natureza, normalmente ser lida por, no máximo, uma pessoa por vez (é claro, um pôster imenso pode ser lido por várias pessoas ao mesmo tempo, mas isso é uma exceção). Além disso, escrita no papel normalmente é propriedade de uma pessoa. Essa pessoa pode lê-la mais de uma vez, ou emprestá-la ou passá-la a um amigo ou conhecido – mas isso é uma forma muito limitada de transmissão (broadcasting). Se a transmissão (broadcasting) é vista como desejável, um mecanismo muito mais eficiente é requerido. Diante disso, na era em que estamos discutindo, nós ainda não temos a tecnologia para reprodução múltipla de um texto escrito, nós temos de estabelecer um lugar onde as pessoas podem ir e consultar escritos diferentes, e então ter a certeza de que esse lugar contem todos os textos que as pessoas poderiam querer consultar. Colocar um livro numa biblioteca é transmissão (broadcasting) – torná-lo disponível para muitas pessoas ao longo de sua vida potencial, pessoas que você não conhece.

Bibliotecas têm estado por aí por um bom tempo – em particular, por pelo menos, dois milênios antes da invenção por Gutenberg dos tipos móveis de metal e o início da impressão em massa de livros. De fato, em algum sentido, as bibliotecas eram ainda mais importantes porque não havia produção em massa de cópias de livros. Um arquivo bem organizado de tábuas de argila datando de aproximadamente 2250 a.C. foi encontrado em Elba na Síria. Nós sabemos que havia uma biblioteca no palácio de Assurbanípal em Nínive, na bacia do Tigre-Eufrates, quando foi saqueada em 612 a.C. - mais sobre isso abaixo, bem como sobre a Biblioteca Real dos Ptolomeus em [37]Alexandria. A Casa da Sabedoria em Bagdá, a qual eu mencionei no primeiro capítulo em conexão com o sistema de numeração hindu-arábico, foi essencialmente uma biblioteca e um lugar de encontro que estudiosos de todo o mundo vinham visitar.

O modelo que eu deverei adotar para minha descrição do funcionamento de bibliotecas como aparelhos de transmissão (broadcasting) é aquele dos monastérios medievais na Europa. No período após a queda do império romano (o começo mesmo da Idade Média, ou como eles costumavam chamá-la, a Idade das Trevas) e antes da recuperação da civilização europeia, o sistema do monastério forneceu o principal repositório de conhecimento e os recursos para sua propagação – as universidades acompanharam um pouco depois. Mas primeiro, um pouco sobre as atitudes com relação a bibliotecas.


Queimando a biblioteca


Quando Nínive foi invadida (como com Elba mais de um milênio antes), os invasores que saquearam o palácio também queimaram a biblioteca que ele continha. Quase certamente, eles não tinham conhecimento de que o que eles estavam queimando era uma biblioteca – o palácio era o lugar e o símbolo de poder, mas a biblioteca era simplesmente parte do palácio. Como acontece, a queima da biblioteca revelou-se ser um dos maiores atos de preservação cultural na história. Os livros na biblioteca usavam o meio do tempo e lugar – tabuinhas de argila. Milhares dessas tabuinhas de argila foram queimadas até endurecer no fogo, e sem seguida enterradas em cinza e areia e, como resultado, podem ser vistas até hoje no Museu Britânico. Nós temos, a partir daquele evento, entre muitos tesouros, a melhor versão da primeira história escrita conhecida, o épico de Gilgamesh. Essa história já era antiga, provavelmente um milênio ou mais, mas a sobrevivência da versão de Nínive é um daqueles acidentes extraordinariamente valiosos da história.

Por, digamos, um milênio e meio ou aproximadamente depois, a queima de bibliotecas adquirira um carácter e significado completamente diferentes. O primeiro imperador da China, no segundo milênio a.C., sistematicamente queimava livros por causas das ideias subversivas que eles continham – um modo de comportamento repetido muitas vezes através dos séculos seguintes, incluindo mais famosamente a biblioteca de Alexandria. A noção de biblioteca mudara: tornara-se um repositório de conhecimento, não um prédio ou arquivo administrativo, e ademais as tecnologias da época (tais como o papiro) eram muito suscetíveis ao fogo. [38]Se acontece de você considerar o conhecimento como uma coisa ruim, subversivo em algum sentido – qualquer conhecimento ou apenas um pouco do conhecimento particular guardado na biblioteca – então um recurso aberto para você era queimá-lo.

A história conta que a biblioteca de Alexandria foi vítima desse tipo de ataque, possivelmente mais do que uma vez no começo da era cristã (uma época quando a subversão de ideias estabelecidas não era tratada levemente). Por essa época, os perpetradores teriam sabido perfeitamente bem o que eles estavam queimando. Ao lado de queimarem o prédio, eles formariam (ainda de acordo com a história) patrulhas vigilantes para procurarem por livros que de alguma maneira escapassem ou fossem resgatados das chamas, e queimá-los também. Isso traz à mente Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, sobre um mundo futuro no qual a função do ‘bombeiro (firemen)’ é exatamente erradicar e queimar livros. Isso pode ser ficção, mas algumas das atitudes que ele representa existiram no mundo real por uma parelha de milênios.

Efetivamente, o consenso atual é de que a história da queima da biblioteca de Alexandria é essencialmente um mito. Mas, mesmo como mito, ela suporta meu argumento. É contada (certamente a partir do começo mesmo da era cristã) como uma história cautelosa – queimar uma biblioteca é, pelo menos, um ato de vandalismo cultural. No seu pior, é um ataque ao conhecimento mesmo.


O erudito medieval


Na Europa, erudição (scholarship) estava associada com vida religiosa. Se você quisesse estudar, você se juntaria a uma ordem monástica e buscaria naquele ambiente os professores e ensinamentos de que você necessitasse. E embora ensino pessoal fosse, é claro, tão necessário como sempre foi, muitos os ensinamentos desde os tempos clássicos agora residiam em livros. A biblioteca do seu monastério conteria cópias de alguns desses livros.

Entretanto, cada um fora laboriosamente copiado à mão. Enquanto você poderia eventualmente esperar escrever um livro você mesmo, outros deveres associados com a propagação do conhecimento podem intervir. Você pode ter de empreender árduas viagens a outros monastérios para consultar livros que sua biblioteca não guarda. E acima de tudo, você pode ter de copiar livros à mão, e transportá-los para outros lugares. Para muitos monges, de fato, copiar outros livros seria o mais perto que eles alguma vez chegariam de escrever um livro.

A atividade de cópia de livros à mão e transportá-los de uma [39]biblioteca para outra era uma ocupação principal da erudição medieval. Em alguns lugares e tempos ela adquiriu quase um sabor industrial. A maneira normal de copiar um livro vincula ambos o original sendo copiado e o escriba-monge por um período considerável, e somente produz uma cópia extra. Em um ou dois monastérios, possuindo livros particularmente valiosos e procurados e muitos escribas, era possível tomar parte em forma de produção em massa. Um único leitor leria o livro em voz alta, e um número de escribas escrevê-lo-iam como ditado. Dessa maneira, muitas cópias poderiam ser produzidas simultaneamente.

Assim, quando no século XV, a forma de impressão de Gutenberg surgiu, em algum sentido o mundo ocidental estava pronto e esperando.


Impressão e publicação


A habilidade de reproduzir exatamente material escrito, em múltiplas cópias, por meios mecânicos, foi a segunda grande invenção a mudar a face da transmissão (broadcasting) completamente. Uma vez mais, eu estou em débito com The Gutenberg Revolution de John Man para esta explicação.

Credita-se a Gutenberg essa invenção na Europa, com a reserva de que muitos aspectos da impressão anteriormente já tinham sido inventados no Extremo Oriente (Gutenberg provavelmente não estava consciente desse trabalho). A partir do século IX, documentos estavam sendo impressos na China, inicialmente com um bloco de madeira especialmente entalhada para cada página, mas depois com um sistema de tipo móvel. Caracteres individuais eram entalhados ou modelados em argila e estoques de caracteres comuns eram acumulados; caracteres mais raros tinham de ser especialmente produzidos para uma página. Em um sistema em uso no século XI, os caracteres escolhidos para produzirem uma página eram temporariamente fixados em resina em uma estrutura de metal.

Nós podemos notas as características das linguagens europeias versus chinesa, que podiam ajudar ou entravar esse processo. Os caracteres chineses eram todos do mesmo tamanho, sem nenhum intervalo entre palavras. Desse modo, o arranjo na estrutura era simples – cada linha impressa contem o mesmo número de caracteres, e a sequência podia ser interrompida em qualquer lugar por uma nova linha (o mesmo se aplica se os caracteres fossem arranjados em colunas em vez de linhas horizontais).

Contudo, a linguagem chinesa sofre de uma desvantagem considerável comparada às europeias: a falta de um alfabeto. O chinês possui dezenas de milhares de caracteres distintos. Mesmo embora o número em uso diário [40]seja um pouco menor, há pouca possibilidade de se constituírem estoques suficientes de caracteres para cada nova página que possa ser simplesmente produzida a partir do estoque. E certamente a criação de um molde, a partir do qual muitas novas instâncias de um carácter pudessem ser moldadas em metal, não teria feito sentido no contexto chinês. Essas eram duas características do sistema de Gutenberg.

Nós podemos pensar na impressão em termos econômicos, como uma maneira que pode ajudar-nos a ver seu status revolucionário. No centro da revolução industrial está a noção de investimento em maquinaria – para possibilitar a reprodução barata de bens pelos quais as pessoas pagarão. O sistema chinês de impressão envolve muito investimento no objeto individual impresso – o livro ou o que quer que seja – e poderia ganhar um pouco com um investimento genérico em caracteres de impressão, mas não muito. O sistema de Gutenberg envolve um significante investimento anterior, nos moldes a partir dos quais os caracteres individuais de tipos são moldados. Isso torna a composição tipográfica (typesetting) de livros diferentes (assim como as páginas diferentes de um longo livro) muito mais barata.

Esse precursor da revolução industrial é extraordinário, não somente por ser anterior em aproximadamente três séculos, mas também por ser dedicado à produção da informação em vez de bens materiais. Bem, isso é uma afirmação exagerada – é claro, livros são bens materiais. Mesmo assim, o valor primário deles jaz em seu conteúdo em vez de em sua natureza física.

Mas o processo mecânico de impressão foi somente parte da invenção. A outra parte era o sistema de publicação. A revolução real de Gutenberg foi tornar possível, pela primeira vez, que pessoas fora de monastérios ou governos obtivessem livros, construíssem bibliotecas, e plenamente tomassem parte na vida intelectual e na construção do fundo de conhecimento da humanidade. A publicação juntou-se às bibliotecas como um mecanismo central para a transmissão (broadcasting) de informação.


Publicação


A publicação não é uma invenção singular datável da maneira que nós pudemos ver a impressão. Pelo contrário, a ideia de publicação começou como uma extensão não muito radical do que tinha sido prática comum antes da impressão. Mas a noção esteve crescendo e mudando desde então.

Quando os livros tinham de ser individualmente copiados, as cópias eram frequentemente (usualmente) alocadas, seus destinos pré-determinados, antes que eles viessem à existência. Nos dias iniciais da impressão, um livro seria preparado para uma lista [41]pré-definida de ‘assinantes (subscribers)’: pessoas que esperavam, e provavelmente pagavam adiantado, para receberem uma cópia. A ideia de impressão de um grande número de cópias arriscadamente, esperando ser capaz de vendê-las, emergiu apenas gradualmente. Também a ideias de assinatura (subscription) foi transformada ao longo dos séculos, em publicações periódicas. No século XVII, os jornais científicos começaram. Se você assinasse uma semelhante publicação, não saberia exatamente o que esperar, mas teria alguma confiança de que teria passado por algum processo de seleção antes que fosse impresso. Mesmo sem assinaturas, o editor publicaria novos números de acordo com algum cronograma regular, e poderia razoavelmente esperar que muitas pessoas comprassem regularmente.

Esse modelo tem sido usado, em ocasiões diferentes, por muitos tipos de publicação, não necessariamente aquelas que nós associaríamos com ele hoje em dia. Por exemplo, ambos os romances de Dickens e o Dicionário Oxford de Inglês apareceram primeiro em forma serializada. De fato, o modelo aplica-se em diferentes âmbitos. Se você gosta de ler romances, há alguma chance de que você tentará um novo romance; se você gosta de Dickens, há uma boa chance de que você tentará um novo [livro de] Dickens; se você gostou do último fascículo de Bleak House, há uma chance muita alta de que você tentará o próximo.

Longe de se estabelecer como algum estado estável, modelos de publicação continuam a mudar radicalmente, como nós deveremos ver mais abaixo.


Cinema


Depois eu considerarei as tecnologias associadas a imagens e seu desenvolvimento ao longo do período de um pouco mais do que dois séculos desde a invenção da fotografia. Contudo, o papel do filme como um método de transmissão (broadcasting) pertence a este lugar.

A fotografia mesma não é um meio mais natural de transmissão (broadcasting) do que a escrita. O análogo da biblioteca é a exibição ou galeria de arte, a qual esteve por aí por um tempo e para a qual a fotografia contribuiu. Posteriormente, quando se torna viável imprimi-las de uma maneira similar à impressão de textos, as fotografias tornam-se parte to mundo da editoração. Mas o filme é uma coisa diferente.

A fim de assistir a um filme, você tem de reservar algum tempo e não apenas reservar aquela cópia do filme por aquele período, mas também ter uso exclusivo de [42]algum equipamento – incluindo uma tela, o que significa uma sala inteira. O filme está igualmente disponível para todos na sala; não há problema sobre algumas pessoas lendo mais rápido do que outras, porque o tempo (timing) é fixo. Assim, torna-se não somente viável mas desejável ter um número de pessoas assistindo ao mesmo tempo.

O modelo para a reunião pessoas dessa maneira já existia por milênios, na forma da manifestação (show) popular – penso, para nomear apenas dois, dos grandes dramaturgos da Grécia clássica ou o teatro elisabetano. Essa noção dá nascimento à exibição (show) de cinema, um dos métodos de transmissão (broadcasting) dominantes no começo do século XX. Que você pode persuadir pessoas em grandes números a se reunirem a intervalos fixos para os propósitos de informação e entretenimento, não sabendo exatamente o que elas irão ver ou ouvir, é uma das grandes descobertas sociais, repetidas através das eras. Nós podemos argumentar que os grandes políticos populistas do mesmo período, Hitler incluso, fizeram uso completo e efetivo dessa descoberta, e que a igreja anteriormente alcançara um efeito similar por meios muito diferentes. Mas isso requereu da igreja vários séculos, e requereu uma cultura de vila que fosse receptiva a esse método de comunicação.

Embora o cinema ainda esteja por aí como um método de transmissão (broadcasting), é claro que outras mídias tais como a televisão, para não mencionar os DVDs, a web, o streaming, as quais não requerem que as pessoas reúnam-se em um lugar, desafiaram e amplamente superaram seu predomínio. De fato exatamente o mesmo poderia ser dito do comício político.


Rádio e televisão


Quando o rádio foi primeiro introduzido para comunicação no remate do século XX, o fato de que ele era essencialmente uma mídia de transmissão (broadcast) (quer dizer, se você transmitir, qualquer um dentro do alcance e com um receptor pode ouvir-lo) foi visto, pelo menos por algumas pessoas, como um desvantagem. A despeito da existência de transmissão (broadcasting) e de métodos de transmissão (broadcasting) por séculos, para muitas pessoas, o modelo de comunicação que vinha mais prontamente à mente era aquela da mensagem ponto a ponto. O sucesso extraordinário do telégrafo ao longo dos 50 anos anteriores, sem dúvida, contribuiu para essa visão.

O rádio era então, e é agora, usado para comunicação ponto a ponto. Mas o meio do rádio teve um efeito imenso sobre a noção de transmissão (broadcasting). Em um [43]sentido, a história do século XX é a história do desenvolvimento da transmissão (broadcasting) – abrangendo cinema, rádio e televisão.

Uma vez mais, para o rádio assim como para a televisão, nós requeremos uma audiência – pessoas que ouçam ou assistam arriscadamente, baseados em que esta fonte em particular informou-nos, interessou-nos ou entreteve-nos no passado. Isso é um pouco semelhante à noção tradicional de assinante, embora modificada pelos tempos. A tal ponto a comunicação de massa, transmissão (broadcasting) em todos os seus disfarces, tomou posse de nossa sociedade que muitas pessoas despendem muito de suas vidas, ativa ou passivamente, abertas da comunicação que chega. Nós esperamos, todo o tempo, para sermos auditiva ou visualmente entretidos.


Cópia e impressão


Enquanto isso, na virada do século XIX e por aproximadamente três quartéis do XX, as tecnologias associadas com a produção de múltiplas cópias de documentos prosseguiram rapidamente. Em alguns aspectos, eles prosseguiram na direção oposta da prensa de impressão (printing press) e da máquina de escrever (typewriter) – em vez de desmembrarem o texto em caracteres, elas moveram-se na direção de um tratamento holístico do material imprimível.

Por exemplo, um método de reprodução de plantas de arquitetos foi inventado em 1842 e amplamente usado perto do final do século. Esse era o diagrama (blueprint), e deu-nos uma metáfora que tem perdurado até hoje. Desenhos originais eram feitos em papel translúcido, e eram reproduzidos usando um processo fotográfico simplificado (sem câmera ou lentes envolvidas). O duplicador de estêncil de cera foi inventado nos anos 1880 – nesse caso, o original estêncil de cera era preparado normalmente em uma máquina de escrever embora também fosse possível fazer desenhos simples de linha com um estilete. Dados os desenvolvimentos em fotografia (a serem explorados adicionalmente no capítulo 7), era possível fotografar um documento e então fazer impressões únicas ou múltiplas dele (no tradicional método fotográfico óptico e químico de impressão). No começo do século XX, uma máquina fotostática foi desenvolvida para fazer cópias únicas automaticamente. Nesse caso, a cópia ficava em negativo – um original em tipo negro sobre papel branco tornava-se uma cópia em tripo branco sobre papel negro.

Mas o principal desenvolvimento do século XX em cópia de documentos foi o processo xerográfico. O princípio básico foi patenteado em 1942, embora a primeira máquina comercial não aparecesse até 1960. Contudo, logo ela fez [44]grandes incursões no mundo dos negócios, tornando-se uma presença ubíqua em escritórios ao redor do mundo. A chave era outro uso de eletricidade – fazer uma imagem eletrostática em uma placa fotossensitiva, a partir de um documento original em papel. A imagem eletrostática é transferida para o papel; partículas negras de tôner penetram nas áreas carregadas, e são fundidas por calor no papel. Nenhum processo químico era envolvido, e as impressões eram feitas em papel comum.

Embora a máquina Xerox imprimisse uma única cópia por vez, ela era muito rápida, e podia facilmente ser usada para imprimir múltiplas cópias de um original. Técnicas similares foram desenvolvidas para pequenas prensas de impressão, em um processo conhecido como litografia offset. A litografia mesma, usando uma pedra lisa preparada como uma placa de impressão, tem uma história venerável, tendo sido descoberta no fim do século XVIII, e usada, por exemplo, pelo artista Goya para reproduzir imagens, no século XIX. Mas a litografia offset usa uma placa metálica de impressão, normalmente produzida fotograficamente a partir de um original em papel.

O processo xerográfico assim como a litografia offset prosperaram na era digital. Impressoras a laser usam um laser para construir uma imagem eletrostática sobre um tambor de impressão, para imprimir diretamente em papel. Métodos similares podem ser usados para produzir uma placa de impressão que possa ser usada por séries mais longas de impressão. Em ambos os casos, o ponto de partida é um arquivo de computador, em vez de um original em papel. Agora, é claro, na era digital, virtualmente quaisquer objetos (na forma de arquivos de computadores) são indefinida e acuradamente copiáveis, ao toque de um botão.


A web


Aproximadamente um século após o desenvolvimento do rádio, nós descobrimos um novo meio. Esse é a internet: a vasta rede internacional de computadores conectados. À primeira vista, os cabos ponto a ponto que formam a internet parecem inteiramente inadequados para transmissão (broadcasting), exatamente da mesma maneira que o rádio parece inadequado para mensagens ponto a ponto. Mas exatamente como nós sucedemos na subversão do meio do rádio para servir a muitos propósitos diferentes, incluindo mensagens ponto a ponto, nós também subvertemos a comunicação baseada em cabos da internet inventarmos muitas novas maneiras de transmissão (broadcasting).

É claro, nem todas as conexões de internet são cabeadas (wire-based). De fato, mais e mais é feito uso de rádio e outras mídias sem fio, para conectar computadores [45]e outros aparelhos eletrônicos, em qualquer escala, de centímetros (infravermelho e bluetooth) a metros (wi-fi). Mas o arranjo quase universal é primeiro subverter o meio de transmissão (broadcasting) sem fio para servir à função ponto a ponto entre dois computadores (os quais poderiam ser seu telefone e a troca (exchange)) e em seguida subverter as múltiplas conexões ponto a ponto entre múltiplos computadores para servir a um propósito de transmissão (broadcasting).

A mais obvia manifestação dessa tecnologia é a World Wide Web. Mas nós temos de prestar particular atenção ao tipo de sistema que surgiu como um componente central da web: o motor de busca. Embora a natureza interligada da web contribua muitíssimo para seu uso como meio de publicação, motores gerais de busca como Google e Yahoo! e toda uma tropa de sistemas especialistas de busca revelaram-se ser críticos para seu sucesso.

Nós agora parecemos entrar em uma nova fase de transmissão (broadcasting). No ambiente da Web, ao leitor / ouvinte / espectador / usuário que estava acostumado a ter de escolher um canal e em seguida adotar um papel relativamente passivo, é subitamente dado muito mais controle sobre o sistema de comunicação. Esse recipiente potencial pode buscar ativamente informação desejada, usando uma combinação do poder do motor de busca, a habilidade de seguir links de uma página a outra, e a habilidade para reconhecer o que é desejado e necessário quando aparece na tela diante dele ou dela. Nenhum desses meios é perfeito ou infalível, mas em combinação eles são de fato muito poderosos.

Os existentes editores ou radiodifusores (broadcasters), os proprietários ou controlados das mídias antigas, têm tido grande dificuldade em se acertarem com essa nova mídia e sua inerente transferência de lugar de controle. Um campo de batalha no qual esse conflito é mais aparente é aquele da propriedade intelectual. Em antigos ambientes de publicação, os editores gostavam de pensar que eles poderiam reter o controle sobre os usos de seus ‘produtos’ mesmo após eles terem sido vendidos aos seus consumidores. Essa visão já estava um pouco divorciada da realidade na segunda metade do século XX com a chegada de baratas e fáceis instalações de cópias (a fotocopiadora como discutida acima, o gravador (tape recorder), o VCR, o CD / DVD, e finalmente os arquivos de computador mesmos). Mas a web multiplicou as oportunidades, e portanto as ameaças à propriedade intelectual, mil vezes.


[46]Embaraçamento das fronteiras


A distinção com a qual eu comecei o capítulo 2, entre uma mensagem para um destinatário específico e transmissão (broadcasting) para todos que pudessem ouvi-la, era uma maneira conveniente de discutir uma variedade de ideias diferentes em comunicação. Mas ela era uma distinção um pouco vaga, a qual não se sustenta bem diante de exame detalhado. A variedade de métodos de comunicação que agora nós temos à nossa disposição tornam a fronteira entre as duas parecer ainda mais vaga.

Por exemplo, eu posso escrever mensagens para enviar a listas ou grupos de e-mails. Uma lista de e-mail pode ser alguma coisa que eu criei para mim mesmo (meus irmãos, os membros do comitê que eu administro, etc). Ou pode ser uma lista cuja filiação eu conheço exatamente; uma cuja filiação eu conheço na sua maior parte mas a qual poderia incluir alguns novos membros que eu não conheço; uma lista pública ou grupo de e-mail onde eu não espero conhecer ninguém. Poderia ser uma lista controlada por uma pessoa ou alguém a qual ninguém pode juntar-se. O conhecimento de sua existência e / ou elegibilidade para filiação pode ser restrito ou muito difundido. Eu posso publicar em um blog, o qual, como depositar meu livro em uma biblioteca, abre minha mensagem para qualquer um que a encontre no futuro. Eu posso tuitar a mensagem que poderia ir apenas para muito poucas pessoas, ou poderia ser captada por alguém com uma grande número de seguidores (following) e retransmissão (rebroadcast) para uma lista de milhares.

Se eu subir uma página para a web, ela poderia ser para uma audiência particular ou interesse geral. Eu posso conectá-la através de links a alguma outra página que eu sei ser largamente acessada, a fim de encorajar qualquer um que esteja interessado a visitar. Eu posso, de várias maneiras, ajudar os motores de busca gerais a encontrá-la e indexá-la das maneiras que eu considero apropriadas, de modo que uma audiência particular, mas desconhecida, possa encontrá-la facilmente. Ou eu posso subir a página a fim de torná-la disponível para um pequeno número de pessoas, aquelas que em geral eu esperaria serem capazes de a identificar. Eu posso, de fato, querer restringir o acesso àquelas pessoas; isso eu posso tentar muito fazer, ao colocar sérios obstáculos no caminho de qualquer um que não seja do grupo [mas] esteja tentando acessar aquela página; ou eu posso tentar isso apenas de uma maneira menor ou não [o fazer], em absoluto.

Uma variedade semelhante de possibilidades surge no mundo dos documentos impressos de papel. Eu posso facilmente criar qualquer número de cópias de qualquer coisa, de uma a mil ou um milhão (dependendo de meus recursos); eu posso dá-las ou enviá-las para indivíduos ou para uma lista de correio (mailing list) (de papel); eu posso deixar cópias de um folheto em algum espaço público, para uma audiência limitada ou ampla.

[47]Todas essas possibilidades representam formas de comunicação em algum lugar na terra de ninguém entre a comunicação de um para um como outro indivíduo e a transmissão (broadcasting).


O mundo conectado – dois


A imensa variedade de métodos de comunicação que estão disponíveis para nós, à qual eu referi-me no final do último capítulo, estende-se dentro do reino do transmissão (broadcasting) e dentro do interior que eu descrevi há pouco. Poucas mídias antigas morreram: nós ainda temos livros e jornais (journals) e periódicos (newspapers), e rádio e televisão, assim como a web. Nós temos uma variedade extraordinária de aparelhos e métodos para nos ajudar a construir, exibir, transmitir, publicar localizar e acessar mensagens de todos os tipos. Nossas atividades de comunicação, tanto para emissão quanto para recepção, podem ser altamente focadas ou amplamente propagadas ou qualquer coisa entre uma e outra.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

Robertson, Stephen, B C, Before Computers: On Information Technology from Writing to the Age of Digital Data. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2020. p.35-47. Disponível em: <https://doi.org/10.11647/OBP.0225>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

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