Por Mikuláš Teich
[55]Inglaterra
A fundação da Sociedade Real (Royal Society) tem sido vinculada ao pensamento de Francis Bacon (1561-1626) sobre ciência organizada (sobre o qual mais será dito no próximo capítulo). A Sociedade Real é a principal organização científica na Grã-Bretanha, e alguns diriam no mundo, mas não é a mais velha.
Duas organizações italianas de curta duração, Accademia dei Lincei (Academias dos Linces (Lynxes)) em Roma (1609-1630 ou 1603-1651) e Accademia del Cimento (Academia do Experimento (Experiment)) em Florença (1657-1667), são frequentemente listadas como exemplos iniciais da institucionalização moderna da ciência. A distinção de mais antiga sociedade continuamente ativa pertence à Deutscher Akademie der Naturforscher Leopoldina (Academia Alemã de Naturalistas Leopoldina). Sua fundação precedeu a incorporação da Sociedade Real de Londres em dez anos (1652).1
Os inícios aproximados da Sociedade Real retrocedem a 1660, quando um grupo de matemáticos, astrônomos e médicos, interessados em promoverem conhecimento sistemático e experimental da natureza, começaram a se encontrar semanalmente no Gresham College na Cidade de Londres. Os encontros tinham um feitio informal mas logo se desenvolveram em operações formais de uma sociedade [56]privada. Duas cartas reais foram concedidas por Charles II (1630-1685), em 1662 e 1663 respectivamente, e foi denominada de Regalis Societas Londini pro Scientia naturali promovenda. Desde o começo a Sociedade Real tornou-se, e desde então tem permanecido, uma organização autônoma cujos membros – Associados (Fellows) da Sociedade Real – são cobrados em uma taxa por pertencerem a um clube social, por assim dizer.2
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Fig.7 Vista de cima do Gresham College, Londres, como era no século XVIII. Por um artista desconhecido, baseado em uma ilustração em Lives of the Profesors of Gresham College (1740), de John Ward. |
A fundação do Gresham College (ainda existente) retrocede a uma doação de Sir Thomas Gresham (?1515-1579). Um dos grandes mercadores da época, ele também fundou a Bolsa Real de Londres (1568). O Gresham College era primariamente uma instituição educacional fornecendo instrução em teologia (divinity), astronomia, música, geometria, direito, medicina e retórica. Perto de 1645, ele também se tornou um dos pontos de encontro para a reunião de pessoas interessadas na discussão de problemas científicos e em experimentação. Na esteira da Revolução Puritana, alguns dos membros do grupo moveram-se para Oxford (1648-1649) onde o Grupo Filosófico Experimental de Oxford (Oxford Experimental Philosophical Group) no Wadham College [57]fora estabelecido. De acordo com o matemático John Wallis (1616-1703), o grupo de Londres (encontrando-se semanalmente) concordou que
“(para evitar distração com outros discursos, e por algumas outras razões) nós excluímos todas as discussões sobre teologia (divinity), de assuntos de estado (state-affairs), e de notícias (news); outras que não as que concernem aos assuntos de Filosofia.”3
A ênfase na separação entre as questões pertencentes às ciências naturais e aqueles concernentes à teologia e política é significante. A mesma ideia reaparece no amplamente citado rascunho do preâmbulo dos Estatutos da Sociedade Real, atribuído a Hooke em 1663:
“A ocupação e o projeto da Sociedade Real é – Aperfeiçoar o conhecimento das coisas naturais, de todas as Artes úteis, Manufaturadores, Práticas mecânicas, Mecanismos e Invenções por Experimentos – (não se imiscuindo em Teologia (Divinity), Metafísica, Moral, Política, Gramática, Retórica, ou Lógica).”4
Foi após a restauração da monarquia que o Gresham College tornou-se o local de reunião para os encontros semanais da Sociedade Real. Composto à época, as seguintes sextilhas (de um poema contendo vinte e quatro) são de mais do que de um interesse passageiro. Elas documentam a atenção contemporânea aos mundos entrelaçados da ciência e comércio exterior (overseas commerce). Nesse contexto o problema de determinação da longitude agigantou-se – não sendo resolvido até 1764 pelo carpinteiro de Yorkshire John Harrison. Significativamente, o que era ensinado em Oxford e Cambridge aqui é ridicularizado em comparação ao conhecimento dos greshamitas. Enquanto a rejeição aristotélica do atomismo é objeto de riso, a visão epicureia de que nada existe exceto os átomos e o vazio é aprovada:
“Os Mercadores na Bolsa fazem intriga
Para aumentar do Reino o comércio saudável;
No Gresham College uma instruída união,
Sem paralelo projetos estabeleceu,
Para fazer de si mesma uma corporação,
E conhecer todas as coisas por demonstração.
Essa nobre corporação instruída,
Não para si mesma está assim combinada,
Mas para o bem público da nação,
E benefício geral da humanidade.
Eles não são homens de molde comum;
Eles cobiçam fama, mas condenam ouro.
[58]Esse College o mundo todo medirá,
O que mais impossível concluirá,
E navegação fará um prazer,
Ao descobrir a longitude:
Todos os marinheiros deverão então com facilidade
Navegar qualquer navio até as Antípodas
O College Gresham deverá daqui em diante
Ser do mundo todo a Universidade;
Oxford e Cambridge são nosso riso;
O saber delas é apenas pedantismo;
Esses novos colegiados asseguram-nos,
Aristóteles é um asno para Epicuro.”5
John Wallis era um dos greshamitas originais, ativo na discussão dos novos avanços científicos. Outro membro do grupo era Theodore Haak (1605-1690), um nativo do Palatinado Renano, que se considerava ter iniciado seus encontros em 1645, após retornar de uma missão diplomática na Dinamarca no serviço do Parlamento Inglês. Também, ele foi erroneamente reportado como tendo aplicado ao grupo o nome de ‘Colégio (College) Invisível’. Como Charles Webster aponta, esse foi uma organização separada, pequena e de curta duração (?1646-1647), na qual Boyle esteve envolvido. O ceticismo de Webster em relação à atitude do Colégio Invisível na gênese da Sociedade Real brota da limitação de Boyle de que ‘os princípios de nosso novo colégio filosófico’ para ‘filosofia natural, as matemáticas, e economia (husbandry) … que não valorizam nenhum conhecimento exceto enquanto ele tenha tendência para o uso’.6
Comênio e a Sociedade Real7
De acordo com esse pensamento utilitário, Boyle foi atraído ao círculo ao redor de Samuel Hartlib que estava preocupado com o que pode ser brevemente descrito como ‘milenarianismo prático’. Ele originou-se da Elbing prussiana (agora Elbłag na Polônia), a qual tinha fortes laços comerciais com a Inglaterra. A mãe de Hartlib era inglesa e, como Haak (que pertencia ao mesmo círculo), ele estabeleceu-se [59]na Inglaterra. Lá ele tornou-se conhecido como patrono e promotor de projetos encorajando o progresso humano através de melhorias na agricultura, reformas na educação e promoção de paz religiosa. Embora simpático à visão de Bacon de uma investigação empírica organizada da natureza, ele considerava-a ser muito secular.
É nesse contexto que Hartlib considerou os escritos do tcheco reformador educacional exilado Comênio mais convenientes. Na esteira da Contrarreforma, após a derrota dos estados revoltosos da Boêmia e seus aliados na Batalha da Montanha Branca perto de Praga (1620), Comênio – um membro e sacerdote da proscrita Unitas Fratrum – foi forçada a emigrar em 1628, primeiro para a polonesa Leszno. Lá ele compôs o Conatuum Comenianorum praeludia etc., publicado a pedido de Hartlib em Oxford (1637). O trabalho continha um esboço da epistemologia cristã ‘pansófica’ de Comênio, enraizada na fusão dos sentidos, razão e revelação.8
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Fig.8 Retrato de um velho que se pensa ser Comenius (c. 1661) por Rembrant. Florença, Galeria Uffizi. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Portrait_of_an_Old_Man,_Rembrandt.jpg |
[60]Hartlib,
quem se correspondia com Comênio
desde 1632 e procurava algum auxílio financeiro para ele, era o
espírito líder atrás das tentativas de movê-lo para a Inglaterra.
Chegando em 23 de setembro de 1641, parece que Comênio
devia comandar um grupo que
“assimilaria a mais avançada informação em cada esfera de conhecimento, o empreendimento colaborativo deles levando a um entendimento enciclopédico do mundo material e à solução de controvérsias religiosas entres os Protestantes, para ajudar a subsequente reforma da igreja e educação.”9
As agitações sociais e políticas seguindo-se à eclosão da Guerra Civil impediram a realização desse plano e, no final, Comênio deixou a Inglaterra via Holanda pela Suécia em 21 de junho de 1642. Um vislumbre da visão de Comênio sobre o que esse grupo de estudiosos teria feito pode ser obtida do trabalho escrito durante sua estadia na Inglaterra. Brevemente intitulado de Via Lucis, ele foi impresso em Amsterdam em 1668 e dedicado à Sociedade Real. O núcleo racional de Via Lucis é comumente resumido como um plano para uma linguagem universal, escola universal e um colégio (college) universal.10
Não é acidente que Comênio decidiu publicar Via Lucis, após um semelhante intervalo tão longo desde sua composição, dentro de um ano da History of the Royal Society ser publicada por Sprat. Enquanto respeitando as ideias de Bacon sobre empreendimento científico coletivo, Comênio considerava a Sociedade Real como o grupo que poderia e deveria ter executado suas ideias na prática. Contudo, ele claramente percebeu que isso apenas aconteceu em parte e que houve diferenças importantes entre o projeto estabelecido em Via Lucis e a rota tomada pela Sociedade Real.
Comênio assinala que os gloriosos esforços dos Associados da Sociedade Real, como mostrado pelos registros publicados, têm uma bela afinidade com aqueles objetivos inscritos no capítulo XIV de Via Lucis, começando com o parágrafo 12. Essa parte do livro lida com pan-história. O que Comênio tinha em mentre era compor uma revisão histórica indutiva crítica do conhecimento do homem dos processos natural e artificial, moral e espiritual, a fim de separar a verdade [61]do erro.11 À luz disso, não é sem interesse aprender que, de alguns Associados da Sociedade Real, de acordo com Sprat, foi requerido
“examinar todos os Tratados, e Descrições, das produções Natural e Artificial desses Países nos quais elas seriam informados … Eles compuseram Questões, e Direções, que coisas seriam necessárias de ser observadas a fim de produzir uma História Natural em geral: o que deveria ser observado na direção de uma perfeita História do Ar, da Atmosfera, e Clima: o que seria observado na produção, crescimento, avanço ou transformação de Vegetais, que particulares são requisito para a coleção de uma completa História da Agricultura, a qual é usada em várias partes desta Nação.”12
Em seguida, Sprat oferece casos particulares dessas investigações relativas à história do clima, salitre, pólvora e tingimento.13
A dedicatória à Sociedade Real em Via Lucis é tanto laudatória de suas buscas para adquirir conhecimento na escola da natureza (physics) quanto é exortativa, pedindo aos cientistas para não deixarem de fora a consideração do estudo do homem com suas qualidades e faculdades congênitas (metaphysics), e finalmente do reino onde Deus é o supremo professor (hyperphysics). Embora os sentidos possam apreender a natureza, eles são inúteis para o entendimento do homem que somente pode ser alcançado por meio da razão (Comênio chama a razão da luz interna ou o olho das almas). Mas ambos, sentidos e razão, são igualmente de nenhum proveito quando se chega à compreensão da própria província de Deus, investigação que Comênio aparentemente limita ao tipo ‘derradeiro’ de questão tal como: como era antes do mundo existir e como será quando o mundo não mais existir, e o que existe fora do mundo? De acordo com Comênio a única conselheira e guia nesta esfera pode ser apenas a fé na revelação.14
A política declarada da Sociedade Real de excluir todos os assuntos não pertinentes à exploração da natureza da consideração de seus membros foi estritamente seguida. Mas seria errado insistir em que os problemas levantados por Comênio teriam parecido a seus contemporâneos ou àqueles que vieram após eles como pseudoproblemas. Contudo, um Associado individual da Sociedade Real tinha de os resolver por si mesmo. A relação entre ciência e religião desempenhou um [62]papel importante nas vidas de Boyle e de Newton, para mencionar apenas duas das figuras notáveis da Sociedade Real. Boyle enquanto jovem esteve sujeito à influência direta do grupo hartibliano / comeniano, e ele reteve sua crença de que a revelação e a verdade científica são perfeitamente compatíveis. A posição de Newton, quem não acreditava na Trindade, é mais complexa. Newton pensava sobre assuntos teológicos muito profundamente e tinha dificuldades em reconciliar sua crença religiosa com a concepção do universo mecânico.15
Comênio era um cristão devoto, mas seria errôneo pensar que as críticas dele à Sociedade Real fossem derivadas do temor de que as ciências naturais intrometer-se-iam no território da teologia. Ele meramente acreditava que as respostas fornecidas pelas investigações científicas equivaliam somente a ‘o alfabeto da sabedoria divina e isso em hipótese alguma era suficiente’.16 Comênio promovia a visão de que as ciências naturais deveriam estabelecer um bom exemplo aos políticos e teólogos porque os princípios pelos quais os políticos dirigiam o mundo era instáveis. Esses princípios deveriam ser examinados e tudo não verdadeiro ser deixado de lado. Os esforços dos Associados da Sociedade Real para penetrar na verdade com base em observações e experimentos exatos deveriam estabelecer um exemplo maravilhoso àqueles que se colocam nos governos da sociedade humana, seja como administradores civis ou guardiões espirituais da consciência, encorajando-os a não temer o exame de suas ações.17 Comênio acreditava que a arte de governar e a prática cristã poderiam ter aprendido com os métodos empregados pelas ciências naturais em suas busca pela verdade. Mas deixar isso assim não lhe faria justiça, pois ele também estava preocupado com a universalidade do conhecimento e educação, e sentia os perigos na preocupação unilateral da Sociedade Real com a natureza.
No continente, muitas sociedades e academias científicas, fundadas após a Sociedade Real, assumiram uma atitude diferente e estabeleceram seções (classes) não somente para o estudo da natureza, mas também para as humanidades (filologia, história, filosofia, etc). A este respeito, elas aproximam-se muito mais do projeto de Comênio de conhecimento universal do que a Sociedade Real; ao mesmo tempo, contudo, diferenças importantes deveriam ser notadas. O conhecimento tornou-se especializado e os especialistas que se agrupavam em suas respectivas seções tornavam-se gradualmente estranhados de seus colegas em outros campos – eles não tinham nada ou muito pouco a dizer um ao outro. Essas sociedades [63]forneciam um teto comum de uma casa cujos os habitantes tendiam a se encerrar em cômodos sem portas comuns.
À universalidade à qual essas sociedades aspiravam existiu no papel e isso tornou-se em grande medida a base da teoria e prática educacionais. Essa universalidade certamente era de uma natureza diferente daquela que Comênio desejava. É claro, poderia ser argumentado que o método das sociedades foi historicamente inevitável uma vez que o conhecimento científico da natureza e sociedade somente poderia ser acumulado por investigações de facetas relativamente isoladas da realidade natural e social. Mesmo assim, essa foi a raiz histórica da polarização que eventualmente formou a base para o desenvolvimento das ‘duas culturas’, e com a qual a teoria e prática educacionais ainda se esforçam para se resolver. À luz disso, a exortação de Comênio à Sociedade Real no prefácio do Via Lucis, e o trabalho mesmo, são dignos de mais do que uma olhadela de relance.
Quanto à visita de Comênio à Inglaterra e sua disputada relevância para a fundação da Sociedade Real, talvez a observação de Rupert Hall seja apropriada:
“Ninguém ainda sucedeu em desembaraçar completamente as relações pessoais de todos aqueles que figuram mais ou menos amplamente no mundo científico da Inglaterra do meio do século XVII. É provável que a maioria dos quarenta ou cinquenta homens conhecessem alguma coisa um do outro, embora principalmente associados com um dos três grupos principais – o círculo de Hartlib, dedicado a reforma social e ética e mais ocupado com tecnologia do que com ciência abstrata; ou o clube de matemáticos, astrônomos e médico encontrando no Gresham College; ou na Sociedade Filosófica de Oxford. Não havia barreiras entre eles.”18
França19
A Sociedade Real era ‘Real’ de jure mas não de fato. Independente do estado, era uma organização autônoma de membros que eram originalmente requeridos de pagar um xelim para as despesas. Isso não era uma dificuldade como a maioria dos Associados eram pessoas de recursos independentes (‘cavalheiros’). Embora a posição social mantivesse sua significância, os Associados eram – como Sprat colocava-o – uma ‘Assembleia mista [itálicos de Sprat] que escapou dos prejuízos que costumam surgir [64]da autoridade, da desigualdade das pessoas…’20 O estado manteve sua distância da atividade da Sociedade Real de Londres, sejam elas práticas ou teóricas.
Essa distância não se aplicava à Académie Royale des Sciences parisiense, estabelecida quatro anos depois (1666). Sua origem também retrocede a reuniões privadas de pessoas com interesses comuns na expansão do conhecimento da natureza. Foi a compreensão de Jean-Baptiste Colbert (1619-1683) da importância das investigações científicas que levou o Rei Louis XIV (1643-1715) a dar seu consentimento a sua encarnação institucional. Julgando por sua correspondência com um número de cientistas, o mercantilista Colbert (surpreendentemente?) não adotou uma estreita atitude utilitária com relação à pesquisa. Ele entendia que os investigadores tinham de ter espaço para a busca do conhecimento por sua própria causa. Portanto, os trinta a quarenta membros da Académie estavam livres de preocupações financeiras. Eles recebiam uma pensão anual e uma notável concessão para instrumentos e outras necessidades de pesquisa. Isso capacitou a Académie a se tornar um centro de esforços coletivos e conscientes para colocar as atividades científicas ao serviço do estado. Considerável atenção foi concedida à análise dos modos de produção artesanal, incluindo avaliação e eficiência das novas invenções mecânicas. A fundação da Academia de Páris e sua ligação com o estado correspondiam às políticas mercantilistas vigorosamente perseguidas pelo governo francês no século XVII.
Prússia e Saxônia
A fundação da Sociedade Real em Londres e da Académie des Sciences em Paris causou uma forte impressão em cientistas de outros países, incluindo a Alemanha. Censurando os membros da Leopoldina por não trabalharem criativamente, Leibniz notou que a organização carecia de meios suficientes e de prestígio social. De modo geral, as condições sociais para o desenvolvimento de atividades científicas não eram propícias na Alemanha fragmentada resultante da Guerra dos Trinta Anos.
De fato, foi Leibniz quem desenhou uma imagem sombria do apuro do pessoal técnico-científico na Alemanha à época. Embora não houvesse escassez de mecânicos, artesãos ou experimentadores, os governos dos vários reinos e principados mostravam pouco interesses neles. Portanto, eles eram realmente confrontados por duas opções: ou desistir e enterrar seus talentos, ou deixar para trás as condições de vida desprezíveis em casa e buscar [65]oportunidades no exterior para o detrimento da Alemanha. Leibniz promoveu essa ideia quando ele submeteu uma proposta para fundação de uma comunidade científica na Prússia (aprovada em 1700 mas estabelecida em 1711).21
Sempre decidido a promover a institucionalização da ciência na Alemanha, Leibniz correspondeu-se sobre esse assunto (1693-1708) com o matemático Ehrenfried Walther Tschirnhaus (1651-1708). Ele também foi um construtor de espelhos circulares e parabólicos com os quais ele sucedeu, ao focar a luz do sol, em obter altas temperaturas.22
| Fig. 9 Espelho esférico de queimação por Ehrenfried Walther Tschirnhaus (1786). Coleção de Mathemtisch-Physikalischer Salon (Zwinger), Dresden, Alemanha. Fonte: https://de.wikipedia.org/wiki/Datei:Von_Tschirnhaus_-_Sph%C3%A4rischer_Brennspiegel.JPG |
Compartilhando
das preocupações de Leibniz, Tschirnhaus especulou sobre a
possibilidade de formas coletivas de atividade científica
na saxônia, particularmente após seu sonho de se tornar um
pensionário da Academia de Paris não deu em nada (1682). De
interesse histórico é a carta de Tschirnhaus para Leibniz (13 de
janeiro de 1693) na qual a ideia de realizar um
congresso científico é levantada talvez pela primeira vez:
[66]“Os mercadores reúnem-se na Feira de Leipzig por causa de suas perecíveis coisas terrenas [vergänglichen Dinge]: também não poderiam as pessoas instruídas encontrarem-se aqui um dia [einmahl alda] por causa de razões importantes.”23
Em resposta a uma carta de Leibniz, quem estava pensando em autofinanciamento da sociedade científica, Tschirnhaus sugeriu que as receitas poderiam derivar da exploração de descobertas científicas, tais como a sua própria em ótica (27 de janeiro de 1694). Ele também especificou critérios estritos para aplicar à seleção dos membros da sociedade: 1. O membro aspirante devia verdadeiramente empregar métodos científicos em seu trabalho; 2. A ciência e o desejo de obter a verdade deviam ser sua principal paixão; 3. Interesse próprio não devia ser seu principal motivo; 4. Nem devia a aspiração a glória pessoal ser sua razão para fazer pesquisa.
Ao mesmo tempo, Tschirnhaus informou a Leibniz que ele livrara-se dessas fraquezas. Como prova, ele ofereceu-se para publicar seu próprio trabalho anonimamente – somente sob o nome da sociedade. Ele não pediria por uma participação maior do erário comum do que ele estava autorizado. Ele também estava preparado para ceder ao erário comum todo o ganho monetário que ele derivava de suas próprias invenções ópticas. Mas no final, Tschirnhaus duvidava de que houvesse cientistas que corresponderiam a seu próprio exemplo. Leibinz concordou que semelhantes pessoas não existiam. Além disso, ele observou que muito não devia ser esperado de ‘pessoas de posição elevada’ (grosse Herren), por mais bem-intencionadas que elas fossem.
A história confirmou essa visão. Tschirnhaus envolveu-se, com a ajuda do príncipe Fürstenberg, no estabelecimento de uma manufatura para a produção de grandes espelhos em Dresden (1707). Esses espelhos não distorciam, devido à inovação de Tschirnhaus no tratamento de vidro derretido. Tschirnhaus esperava que a renda asseguraria a fundação de uma sociedade científica. Isso não se materializou, nem os outros planos considerados pelos dois cientistas. Por exemplo, havia uma proposta (não deles) para estabelecer uma instituição alemã central para o aperfeiçoamento do calendário, a partir da qual uma academia devia crescer – financiada a partir dos proventos da venda monopolizada de calendários. Os próprios esforços de Tschirnhaus e Leibniz para o estabelecimento de uma academia em Dresden também não deram em nada. Embora Tschirnhaus permanecesse otimista, Leibinz tendia a sucumbir à depressão, especialmente na visão das obstruções a seu plano em Berlim, o qual veio a se concretizar cinco anos antes de sua morte.
[67]Boêmia24
Tradicionalmente a ascensão da ciência organizada na Boêmia está vinculada às atividades de um grupo informal conhecido como a Sociedade Instruída Privada (Private Learned Society). Fundada aproximadamente em 1774, ela incluiu as humanidades desde o princípio como uma parte integral de suas preocupações, em adição às ciências naturais. Essa amplitude foi claramente refletida no título de seu jornal, Abhandlungen einer Privatgesellschaft in Boehmen, zur Aufnahme der vaterlaendischen Geschichte und der Naturgeschichte,25 publicado sob a editoria de Ignaz (Inigo) von Born (1742-1791). Ele apareceu seis vezes como um anual entre 1775-1786. A ideologia que dava forma à formação da Sociedade bem como do seu jornal era o patriotismo boêmio o qual os praticantes de ambas as disciplinas histórica e histórico-natural confessavam. Eles eram não somente uma assembleia socialmente mista (como a Sociedade Real), mas também uma etnicamente diversa. Os membros falantes de tcheco e alemão consideravam-se herdeiros de uma longa e honorável tradição de conhecimento efetivamente inaugurada pela fundação de um studium generale em Praga, a primeira universidade na Europa Central (1348). O patriotismo não somente a causa última de sua convocação à exploração dos recursos econômicos mas também do passado histórico da Boêmia. Eles concordavam que análise crítica e racionalismo, tão relevantes para o estudo científico da natureza, poderiam ser igualmente exitosos no estudo acadêmico da história.
Os interesses económico-técnico-científicos dos fundadores da Sociedade Instruída Privada assemelhavam-se àqueles dos fundadores da Sociedade Real e de outras sociedades científicas na Europa. Essas sociedades estavam preocupadas em ganhar conhecimento sistemático da natureza para uso prático em manufaturas e agricultura.
O Dicionário Oxford de Inglês localiza o primeiro uso de ‘manufatura (manufactory)’ no ano de 1618. Para todas as intenções e propósitos, ela significava um lugar de trabalho no qual as operações eram conduzidas manualmente. Por volta de 1960, pensadores econômicos (W. Petty, J. Locke) estavam escrevendo sobre a melhoria da produtividade do trabalho através de sua divisão – a maquinaria estava grandemente limitada a moinhos de água (watermills) e moinhos de vento (windmills). A análise clássica do papel que a divisão do trabalho desempenhou [68]na elevação da produtividade do trabalho foi oferecida por Adam Smith (1723-1790) em The Wealth of Nations (1776). Ela influenciou Marx a perceber na manufatura o modo característico de produção da fase pré-industrial do capitalismo. Ele chama-a de ‘período da manufatura’ (Manufakturperiode) e pensava que ele estendia-se aproximadamente do meio de século XVI ao fim do século XVIII. Embora essa abordagem informasse historiadores nos antigos países socialistas, ela foi largamente ignorada na historiografia ocidental. Na medida em que os historiadores adotaram variadamente o conceito de ‘protoindustrialização’, começando nos anos 1970, eles consideraram a estrutura marxista do estágio de manufatura da industrialização, em certos estados ou regiões europeias economicamente ativos, insuficiente.26
Seja como for, manufaturas necessitavam de matérias-primas, a existência das quais poderia ser determinada através de exames (surveys) de recursos naturais. Consequentemente, o exame de recursos naturais, famosamente representada no contexto sueco por Carolus Linnaeus (Carl von Linné) (1707-1778), tornou-se uma das importantes tarefas que as sociedades científicas estabeleceram para si mesmas.
A necessidade de um exame científico organizado dos domínios dos Habsburgos já fora proclamada por Philipp Wilhelm von Hornigk (1638-1712), o pensador líder do mercantilismo austríaco, em 1684. Hornigk (Hornick, Hoernigk) reconheceu a importância das matemáticas e mecânica para o desenvolvimento das manufaturas. Ele enfatizava que elas deveriam usar matérias-primas nativas. Ele apelava por exames e experimentos sobre aclimatação de plantas e animais estrangeiros. Ele também considerou altamente desejável publicar uma enciclopédia tecnológica a qual explicaria a significância da física e da mecânica para propósitos produtivos. Essa tarefa – de acordo com Hornigk – não poderia ser realizada por uma única pessoa mas somente por um grupo de desinteressados especialistas em vários assuntos, cientistas que não manteriam seu conhecimento para si mesmos, mas colocá-lo-iam à disposição pública.27
A agitação de Hornigk contra secretismo e sua requisição por especialistas para combinar o conhecimento científico e técnico deles por produção e comércio não era acidental. O princípio de cooperação baseada na [69]divisão do trabalho, tão característico das operações em manufaturas, também estava penetrando no mundo da ciência. De algumas maneiras, artesãos e cientistas desenvolveram uma atitude similar de evitarem a divulgação do que se acreditavam constituir segredos ‘comerciais’. Com o crescimento do conhecimento científico especializado, surgiu a necessidade de uma troca de resultados observacionais e experimentais que poderiam ser testados e expandidos, levando à fundação de sociedades e jornais científicos. Através deles, a atividade científica tornou-se ‘socializada’ em termos de organização e também no sentido de que seus resultados tornavam-se propriedade pública, disponível sem custo àqueles interessados em sua utilização prática na indústria, agricultura e medicina.28
As condições para a associação de cientistas trabalhando para o benefício da Áustria sugerida por Hornigk maturaram apenas lentamente, e levou um século antes que uma fosse fundada na Boêmia. O pano de fundo para o estabelecimento da Sociedade Instruída Privada tornar-se-á mais claro em referência à exploração dos recursos naturais da Boêmia e Salzkammergut austríaca, como fomentado pela Imperatriz Maria Theresa (1740-1780) e seu esposo Francis da Lotaríngia (1745-1765), ele mesmo um empresário importante entre 1750 e 1760. Eles encarregaram Jan Křtitel Boháč (Johan[n] Tauffer Bohadsch), um professor e oficial importante da faculdade de medicina de Praga, dessa tarefa.
Um dos distintos microscopistas de seu tempo, Boháč (1724-1768), também foi um conselheiro comercial no Gubernium da Boemia. Embora um professor universitário, Boháč não era isolado da vida e não tinha a menor dúvida de que o desenvolvimento das ciências naturais, artes e manufatura formavam uma unidade inseparável. Com grande clareza ele defendia a função social das investigações científicas contra aqueles que tendiam a subestimá-las.
No século XVIII, sob a influência do muito viajado Lineu, a sistemática veio a ocupar um lugar central na história natural. Algumas vezes esses empreendimentos degeneravam em classificações sem objetivo de plantas, animais e minerais por sua própria causa. Boháč condenava semelhantes tendências, sustentando que a classificação de objetos naturais deveria ser um meio na direção de os utilizar na produção material. Sua abordagem compreensiva levou-o a apreciar a dependência da manufatura em relação à agricultura. Por exemplo, sua preocupação com o cultivo de pastel-dos-tintureiros (woad) para alimentação animal e para tingimento (dyeing) indicava a conexão entre os aspectos científicos, técnicos, econômicos e políticos de seu trabalho.29 Ela devia ser coroada por um exame compreensiva da [70]riqueza das plantas, animal e mineral da Boêmia. Contudo, por causa da morte de Boháč, ele permaneceu um manuscrito que desde então se perdeu. Pode haver pouca dúvida sobre o ímpeto social e econômico que levou Boháč e outros a aplicarem seu conhecimento especializado das propriedades e processos da natureza, inanimada e animada, a campos práticos, incluindo a investigação sistemática da riqueza natural da Boêmia. Mas um indivíduo, não ajudado financeiramente, dificilmente poderia completar esse trabalho sozinho.
Um grupo de indivíduos poderia, e podia ter sido esperado que a Universidade de Praga eventualmente abrigaria um tal grupo porque contava entre seus membros com cientistas proeminentes interessados no uso prático do conhecimento natural, como Boháč ou o competente matemático e físico Joseh Stepling (1716-1778). Segundo ordem da Imperatriz Maria Theresa, um tipo de sociedade científica universitária presidida por Stepling fora estabelecida em 1753. Professores universitários acostumaram-se a se encontrar e realizar aulas, mas em menos de uma década a sociedade deixou de funcionar, possivelmente devido ao antagonismo da Ordem jesuíta ainda em controle da vida universitária e imbuída do pensamento derivado da síntese aristotélico-tomista.30
Para complementar esse relato, menção devia ser feita a mais antiga sociedade científica nas Terras Tchecas e, de fato, no Império Habsburgo. Foi a de curta duração Societas eruditorum incognitorum in terris austriacis em Olomouc (a antiga capital da Morávia). Foi fundada em dezembro de 1746, com o apoio de Maria Theresa, por Joseph von Petrasch (1714-1772), um antigo aide-de-camp de Eugene de Sávoia. A Sociedade de Estudiosos Desconhecidos surgiu a partir de reuniões informais de leigos, clérigos e oficiais militares interessados em discutir desenvolvimentos literários e científicos em casa e no exterior em uma atmosfera livre das limitações impostas pelos jesuítas sobre a [71]vida espiritual da fortaleza e da cidade-universitária. Contendo apenas análises (reviews) e sem contribuições originais, os dois volumes de seu jornal Monathliche Auszuege Alt, und neuer Gelehrten Sachen foram publicados em Olomuc em 1747 e 1748. Aparentemente para evitar censura, o terceiro volume do jornal foi impresso fora da Áustria (1750) e depois a publicação cessou.31
Aproximadamente duas décadas decorreram antes que a ideia de uma sociedade científica fosse assumida novamente pelo bem conhecido mineralogista Ignaz von Born. Escrevendo para seu amigo Conde F. J. Kinsky(ý) (1739-1805), Born enfatizava que ninguém pensava no estabelecimento de uma sociedade instruída para a exploração do extenso território austríaco, para reunir as observações feitas por naturalistas e cientistas. Isso é evidência de que uma sociedade científica, quer centrada na Áustria como um todo ou restrita à Boêmia, não existia antes de 1774.
Born criticava a aristocracia por sua falta de compreensão da utilidade da história natural. Ele ressaltava que aqueles que tomavam interesse nela e tinham a habilidade para trabalhar criativamente não possuíam os meios para explorar a natureza. Ele mencionava explicitamente o caso de Boháč, quem, em suas viagens, coletara objetos naturais às suas próprias custas e quando de sua morte deixou sua esposa sem dinheiro. Enquanto que, de acordo com Born, a nobreza tinha os meios mas não encorajava pessoas de talento a investigarem a riqueza natural da monarquia. Ademais, em sua carta ele elucida a utilidade da ciência para a economia, o estado, a igreja, o doutor e o poeta.32
Ele estava particularmente preocupado com a perniciosidade de não se fazerem as observações científicas e descobertas técnicas disponíveis para todos, sob o disfarce de segredo de estado. Aqui Born estava condenando uma prática oficial que já quase descarregara sobre ele a acusação de traição. Em 1771 ele publicara as descrições das máquinas usadas no distrito de mineração de Banská Štiavnica, de N. Poda, um dos textos clássicos sobre a mineração durante o século XVIII na Europa Central.33 Àquela época, ele ocupou o posto de assessor no [72]Escritório Central de Mineração e Moeda em Praga, pelo que ele escolheu demitir-se. A defesa de comunicação científica aberta era crucial para a atividade de Born para organizar a vida científica na Boêmia entre 1770 e 1776, e mais tarde, em Viena e, de fato, em um escala internacional.34
O major-general Franz Joseph (František Josef) Kinsky era descendente de uma das grandes casas da aristocracia tcheca. Um perspicaz geólogo e educador, ele eventualmente tornou-se o diretor da Academia Militar em Wiener Neustadt. Ele suportou a visão de Born para colocar a vida científica na Boêmia em uma base organizada por razões econômicas, técnicas e educacionais. Junto com Born e auxiliado pelo diretor do Gubernium, Príncipe Karl Egon Fürstenberg, ele foi instrumental na fundação do Museu de História Natural (1775) em trazer à existência a Biblioteca da Universidade de Praga (1777), da qual ele tornou-se o primeiro diretor.35
Kinsky compartilhava a preocupação de Born de que a aristocracia como uma classe social estava inclinada a considerar ciência e tecnologia com desdém. Em uma carta a Born publicada no primeiro volume de Abhandlungen (1775), Kinsky queixava-se de que a nobreza não estava propriamente informada de que a administração de seus domínios requeria o conhecimento de ciências naturais e agriculturais. Em sua resposta, Born escreve que a descrição mineralógica e geográfica da Boêmia era necessária, acrescentando que havia somente uns poucos mineralogistas disponíveis. De acordo com Born, eles deviam seguir o exemplo da Saxônia, onde especialistas financiados por fundos públicos estavam preparando um mapa mineralógico.36
A transformação da Sociedade Instruída Privada em uma instituição pública ocorreu quando ela se tornou a Sociedade Boêmia de Ciências em 1784 e a Sociedade Real da Boêmia em 1790. Os problemas que os cientistas na Boêmia tentaram resolver, especialmente aqueles associados com a Sociedade Real da Boêmia, estavam estritamente associados com a ideia de exame científico do recursos naturais da Boêmia.
A Sociedade abordava o problema de um exame científica da Boemia a partir de dois ângulos, basicamente. Ela lançava competições de ensaios premiados e organizava [73]expedições para o propósito de pesquisar várias regiões da Boêmia. O objetivo desses empreendimentos era coletar uma grande quantidade de informação cientificamente verificada para um mapa da Boêmia.
Os membros da Sociedade embarcaram nesse plano porque eles estavam convencidos de que o desenvolvimento da manufatura dependia acima de tudo do conhecimento dos recursos econômicos domésticos. Contudo, a situação social, financeira e pessoal não favoreceu a transformação dessa consciência em realidade. Para começar, a continuidade das relações feudais e o subdesenvolvimento das relações capitalistas efetuara progresso negativo na agricultura e indústria. Por outra coisa, a Sociedade de Ciências da Boêmia estava em dificuldades financeiras contínuas, as quais não eram aliviadas a despeito do suporte de uns poucos aristocratas interessados. Adicionalmente, o número de indivíduos capazes de realizar uma pesquisa em larga escala do país era então pequeno. A Sociedade incluía entre seus membros (quase todos não nobres) as mais distintos estudiosos na Boêmia, mais isso não correspondia a mais do que poucas pessoas. Como uma consequência ela sucedeu apenas parcialmente em alcançar seu objetivo.
ORIGINAL:
Teich, Mikuláš, The Scientific Revolution Revisited. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2015. p.55-73. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.11647/OBP.0054>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1Ela foi fundada como a Academia Naturae Curiosorum em 1 de janeiro de 1652, por quatro médicos na então Cidade-livre Imperial de Schweinfurt (agora Bavária). Em 1670 o Emperador Leopold I (1640-1705) ratificou-a como a Sacri Romani Imperii Academia Naturae Curiosorum. Em 1687 ele sancionou sua prerrogativa como uma instituição imperial independente (um caso raro se não único na Alemanha fragmentada), e tornou-se conhecida como Sacri Romani Imperii Academia Caesareo Leopoldina Naturae Curiosorum. Ver L. Stern, Zur Geschichte und wissenschaftlichen Leistung der Deutschen Akademie der Naturforscher “Leopoldina” (Berlin: Rütten & Loening, 1952). Sobre a negligenciada Academia Florentina, ver M. Beretta, A. Clericuzio and L. M. Principe (eds.), The Accademia del Cimento and its European Context (Sagamore Beach, MA: Science History Publications, 2009).
2As origens da Sociedade Real têm sido assunto de uma aparentemente interminável série de estudos. Thomas Sprat (posteriormente Bishop of Rochester) compilou sua primeira história quando ela tinha cinco de idade (1667): The History of the Royal Society in London. Ela foi reimpressa e editada com aparato crítico por J. I. Cope e H. W. Jones (St. Louis, MI: Washington University Studies, 1958). Ela ainda é de valor, como são T. Birch, The History of the Royal Society of London, for Improving of Natural Knowledge, from its First Rise, 4 vols. (London: printed for A. Millar, 1756-1757) e C. R. Weld, A History of the Royal Society, 2 vols. (London: J. W. Parker, 1848). Charles Webster fornecer uma imagem em perspectiva das origens complexas da sociedade em sua enciclopédica The Great Instauration: Science, Medicine and Reform, 1626-1660 (London: Duckworth, 1975). Ele discute os papéis de figuras controversas tais como Robert Boyle, Samuel Hartlib (c. 1600-1652) e Comênio (Jan Amos Komenský (1592-1670)). O 350º aniversário foi marcado por 22 contribuições para Seeing Further: The Story of the Royal Society (London: HarperPress, 2010), por B. Bryson (ed. e intr.).
3Ver History of the Royal Society, Appendix A, de Sprat.
4Weld, Royal Society, Vol. 1, p. 146.
5Ibid., p. 79-80, n. 10. Peter Dear assinala que o Gresham College pretendia fornecer instruções a marinheiros e mercadores em artes úteis, e especialmente nas técnicas matemáticas práticas. Ver a sua Revolutionizing the Sciences: European Knowledge and its Ambitions, 1520-1700 (Basingstoke: Palgrave, 2001), p. 53.
6Webster, Great Instauration, p. 61, n. 100.
7O que se segue continua em parte meu artigo ‘The Two Cultures, Comenius and the Royal Society’, Paedagogica Europea, 4 (1968), 147-53.
8Para a crítica de Descartes, ver a carta dele Hogelande, Agosto de 1638 (?), em A. Kenny (ed. e trad.) Descartes Philosophical Letters (Oxford: Clarendon Press, 1970) pp. 59-61. Um relato mais atualizado da vida e obra de Comênio, em inglês, é seriamente necessário. Para um tratamento breve e conveniente, sem tcheco, ver J. Polišenský, Komenský: Muž labyrintů a naděje [Komenský: Man of Labyrinths and Hope] (Prague: Academia, 1996).
9C. Webster (ed.), Samuel Hartlib and the Advancement of Learning (Cambridge: Cambridge University Press, 1970), p. 29.
10O título completo é: Via lucis, vestigata et vestiganda, hoc est rationabilis disquisitio, quibus modis intellectualis animorum Lux, Sapientia, per omnes omnium hominum mentes, et gentes, jam tandem sub mundi vesperam feliciter spargi posit. Libellus ante annos viginti sex in Anglia scriptus, nunc demum typis exscriptus et in Angliam remissus (Amsterdam: Apud Christophorum Cunradu, 1668). No momento da escrita, eu fui informado pela biblioteca da Universidade de Cambridge que a cópia da tradução inglesa por E. T. Campagnac (Liverpool: Liverpool University Press, 1938) está faltando desde 2007. Eu usei a versão tcheco-latina como alternativa: J. A. Comenii Via Lucis J. A. Komenského Cesta světla (Prague: Státní Pedagogické Nakladatelství, 1961).
11Ibid., p. 242-43.
12Sprat, History of the Royal Society, pp. 155-56.
13Ibid.: ‘A Method For Making a History of the Weather’ por Mr. Hook, p. 173; ‘The History Of the Making of Salt-Peter’ por Mr. Henshaw, p. 260; [Mr. Henshaw], ‘The History Of Making Gunpowder’, p. 277; ‘An Apparatus to the History of the Common Practices of Dying’, por Sir William Petty, p. 284. Para uma explicação do interesse inicial da Sociedade Real em assegurar a história natural, incluindo a sociedade humana, no exterior, ver J. Gascoigne, ‘The Royal Society, Natural History and the Peoples of the “New Worlds”, 1660-1800’, The British Journal for the History of Science, 42 (2009), 539-62.
14Comenii, Via Lucis, pp. 155-56.
15Sobre este tema o capítulo IV em Science and Religion: Some Historical Perspectives (Cambridge: Cambridge University Press, 1991), de J.H. Brooke, é recompensador. Ver também a biografia intelectual Boyle: Between God and Science (New Haven, CT and London: Yale University Press, 2009), por M. Hunter.
16Comenii, Via Lucis, pp. 158-59.
17Ibid., p. 160.
18A. Rupert Hall, The Revolution in Science, p. 142.
19O que se segue sob este e os cabeçalhos subsequentes deve muito ao meu ‘Tschirnhaus und der Akademiegedanke’, em E. Winter (ed.), E. W. von Tschirnhaus und die Frühaufklärung in Mittel-und Osteuropa (Berlin: Akademie Verlag, 1960), pp. 93-107. R. Hahn’s The Anatomy of a Scientific Institution: The Paris Academy of Sciences, 1666-1803 (Berkeley, CA and London: University of California Press, 1971) ainda é relevante.
20Sprat, History of the Royal Society, pp. 91-2.
21Ver Leibniz, ‘Errichtung einer Societät in Deutschland (2. Entwurf)’, em A. Harnack, Geschichte der königlich preussischen Akademie der Wissenschaften zu Berlin, Vol. 2 (Urkunden u. Actenstücke) (Berlin: Reichsdruckerei, 1900), p. 23.
22A dimensão com a qual a perícia de Tschirnhaus com altas temperaturas contribuiu para a descoberta da porcelana de Meissen por J.F. Böttger (1682-1719) e, desse modo, tornou-o codescobridor, têm sido sujeita a muita discussão.
23Teich, ‘Tschirnhaus’, in E. Winter (ed.), p. 101.
24O que se segue desenvolve muito de meus anteriores tratamentos do assunto. Ver ‘Bohemia: From Darkness into Light’, em R. Porter e M. Teich (eds.), The Enlightenment in National Context (Cambridge: Cambridge University Press, 1981), pp. 141-63; 247-53; ‘Afterword’, p. 215-17
26Para uma introdução e investigação, ver S. C. Ogilvie and M. Cerman (eds.), European Proto-Industrialization: An Introductory Handbook (Cambridge: Cambridge University Press, 1996); ver também M. Berg, The Age of Manufactures, 1700-1820: Industry, Innovation and Work in Britain, 2nd ed. (London and New York: Routledge, 1994). Para uma crítica não marxista da teoria, ver D. C. Coleman, ‘Proto-industrialization: A Concept too Many’, em seu Myth, History and the Industrial Revolution (London and Rio Grande, OH: Hambledon Press, 1992), pp. 107-22.
27[Ph. W. Hornigk], Oesterreich ueber alles wann es nur will, 2nd edn ([n.p.]: [n. pub.], 1685), pp. 94f., 99, 261-63.
28Ver K. Marx, Capital (London: George Allen & Unwin, 1938), Vol. 1, p. 383.
29J. T. Bohadsch, Beschreibung einigen in der Haushaltung und Faerbekunst nutzbaren Kraeutern, die er in seinen durch drey Jahre unternommenen Reisen im Königreich Böheim entdecket hat (Prague: Franz Ignatz Kirchner, 1755); Abhandlung vom Gebrauch des Waides in der Haushaltung (Prague: [n. pub.], [n.d.]); Dienst- und Nutzbarer Patriotischer Vorschlag, wienach dem Königreich Böheim ein ungemeiner Vortheil von sonderbarer Beträchtlichkeit jährlich zuwachsen könnte (Prague: [n. pub.], 1758). Ver Z. Frankenberger, ‘Jan Křtitel Boháč: Jan Křtitel Boháč: život a dílo’, Věstník Královské české společnosti nauk, 12 (1950), 1-122.
30Exceto por observações dispersas nos registros do século XVIII, há pouca informação sólida sobre esses encontros, variadamente chamados de consessus philosophicus, consessus philosophici e consessus literarii. Quanto aos jesuítas na Boêmia, é necessário diferenciar entre a atitude não progressiva da ordem, atrasando o avanço da ciência, e o papel progressivo dos membros individuais, ao promoverem e participarem em investigações astronômicas, matemáticas e físicas (por exemplo, J. Stepling). Ver também E. Winter, ‘Die katholischen Orden und die Wissenschaftspolitik im 18. Jahrhundert’, in E. Amburger, M. C. Cieśla and L. Sziklay (eds.), Wissenschaftspolitik in Mittel- und Osteuropa (Berlin: Camen, 1976), pp. 85-96.
31Ainda não há tratamento confiável do assunto. Sob essas circunstâncias o que pode ser dito, no geral, é que a Societas incognitorum corporificava um esforço para organizar a vida científica e cultural em um estágio inicial do Iluminismo nos domínios dos Habsburgos, mas as circunstâncias sociais, intelectuais, locais e pessoais que engendraram o seu nascimento não foram adequadas para o manter vivo. Ver E. Wondrák, ‘Die Olmützer “Societas incognitorum”. Zum 225. Jubiläum ihrer Gründung und zum 200. Todestag ihres Gründers’, in E. Lesky, D. S. K. Kostić, J. Matl and G. v. Rauch (eds.), Die Aufklärung in Ost- und Südosteuropa (Cologne and Vienna: Böhlau, 1972), pp. 215-28.
32Schreiben des Herrn Ignatz von Born … an Herrn Franz Grafen von Kinsky, Ueber einen ausgebrannten Vulkan bey der Stadt Eger in Boehmen (Prague: Gerle, 1773), pp. 1-3, 11-16.
33N. von Poda, Kurzgefasste Beschreibung der, bey dem Bergbau zu Schemnitz in Nieder-Hungarn, errichteten Maschinen etc. (Prague: Walther, 1771).
34O estudo definitivo sobre essa figura de liderança do Iluminismo na monarquia dos Habsburgo ainda permanecer por ser escrito. Ver H. Reinalter (ed.), Die Aufklärung in Österreich. Ignaz von Born und seine Zeit (Frankfurt am Main; Bern; New York; Paris: Lang, 1991).
35Kinsky tem recebido pouca atenção séria. Para uma apreciação, ver J. Haubelt, ‘František Josef Kinský’, Věstník Československé akademie věd, 78 (1969), 560-77.
36‘Schreiben des Herrn Grafen von K… an Herrn von Born ueber einige mineralogische und lithologische Merkwuerdigkeiten’, Abhandlungen, 1 (1775), 243-52; ‘Antwort des Herrn von Born, auf das Schreiben des Herrn Grafen von K.....’, ibid., 1 (1775), 253-63.


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