terça-feira, 11 de maio de 2021

A Revolução Científica Revisitada 2 Experimentação e Quantificação

Por Mikuláš Teich


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[29]O mundo medieval


Ao final dos anos 1970, sociologistas e historiadores da ciência sociologicamente orientados começaram a atentar para a experimentação. Mesmo se as reivindicações deles de que a experimentação tinha sido negligenciada fossem exageradas, é verdadeiro que a literatura histórica não é rica nem em trabalhos lidando com experimentação nem com sistematização.

As incertezas persistem em relação à experimentação no mundo medieval antes que ela ocupasse, em conjunto com a quantificação, o centro do palco das atividades científicas no século XVII.

Isso tem alguma coisa a ver com o curso da discussão concernente às origens medievais da ciência normal, estimulada por Alistair Crombie no começo dos anos 1950. Isso foi ofuscado pelo debate sobre a estrutura das revoluções científicas, engendrado pelo ensaio seminal de Kuhn e perdurando de sua publicação em 1962 até meados dos anos 1980.1

[30]A ciência medieval como tal são foi uma preocupação de Kuhn, exceto no contexto de sua interpretação das revoluções científicas como mudanças de paradigma. Não surpreendentemente, para o autor de The Copernican Revolution (1957) a emergência da astronomia copernicana representou um caso clássico de mudança de paradigma. Kuhn reconhece, nós deveríamos notar, o papel desempenhado por fatores ‘externos’ na emergência ou transição para novos paradigmas. Relativamente à substituição da astronomia ptolomaica pela astronomia copernicana, Kuhn lista entre os fatores externos: a reforma do calendário, a crítica medieval a Aristóteles, a ascensão do Neoplatonismo renascentista ‘e além disso outros significantes elementos históricos’. Mesmo assim, ele escolhe não os endereçar:


Em uma ciência madura – e a astronomia tornara-se isso na antiguidade – fatores externos como aqueles citados acima são significantes principalmente na determinação do tempo do colapso (timing of breakdown), a facilidade com a qual ele pode ser reconhecido, e a área na qual, porque a ela é dada atenção particular, o colapso (breakdown) ocorre primeiro. Embora imensamente importante, questões desse tipo estão fora dos limites deste ensaio.”2


Por contraste, Crombie estava preocupado com as origens medievais da ciência moderna, as quais ele associava com o uso de experiência e matemática. Primeiro, ele rastreia-as de volta ao século XIII, se não a tempos anteriores. Mas, aproximadamente em 1961, ele declara: ‘Eu tenho sido responsável por afirmações que agora parecem exageradas’.3

Mesmo assim, a abordagem de Crombie para o envolvimento teórico e prático medieval com o mundo natural ainda é valiosa. Como, por exemplo, quando ele salienta a importância do estudo dos textos técnicos medievais para o entendimento da evolução do experimento:


Os escritos tecnológicos da Idade Média ainda estão relativamente inexplorados, e, contudo, parece-me que é lá que alguém principalmente deve procurar por aqueles hábitos desenvolvidos pelas demandas feitas pelos problemas mesmos por resultados precisos, repetíveis. Esses são da essência da vida prática, onde importa se a você é dada uma medida curta ou o produto errado, está sujeito a cirurgia incompetente, ou chega a um destino não planejado. Eles também são da essência da ciência experimental. Pois a história da ciência em toda [31]a idade média e período inicial da modernidade, as relações entre hábitos intelectuais e os métodos da ciência teórica e da tecnologia prática apresentam um campo vasto de pesquisa que mal tem sido investigado. A história da ‘matemática prática’ na Idade Média retribuiria especialmente estudo sistemático.”4


Veja-se a abordagem de outra autoridade nesse campo de pesquisa histórica – Edward Grant. Sobre a questão dos experimentos na Idade Média, assumida do livro no qual, como um crítico coloca-a, ele destila ‘uma vida de pesquisa acadêmica’, Grant tem isso a dizer:


Experimentos ocasionais têm sido feitos, e matemática têm rotineiramente aplicada a problemas hipotéticos, embora raramente reais, em filosofia natural. No século XVII, os novos cientistas aplicaram matemática a problemas físicos reais e adicionaram experimentos às técnicas analíticas e metafísicas dos filósofos naturais medievais. Os desenvolvimentos não emergiram de um vácuo.”5


Sem dúvida, Crombie teria concordado. O problema é a diferença no pensamento dos dois historiados sobre o que constitui o meio ou, nas palavras de Grant, o ‘o ambiente social na Idade Média que eventualmente possibilitou uma revolução científica a se desenvolver no século XVII’. Basicamente, Grant equipara esse ambiente com (1) a tradução das obras greco-árabes sobre ciência e filosofia natural para o latim, (2) a formação da universidade medieval e (3) a ascensão do filósofo natural-teológico.6

O que emerge do relato de Grant é que os sábios medievais colocavam-se problemas hipotéticos e buscavam soluções intelectuais para eles.

Crombrie impressionantemente retornou a essa problemática em seu massivo Styles of Scientific Thinking in the European Tradition (1994) de três volumes, onde ele discute a aparente predisposição da sociedade ocidental para investigação experimental da natureza em conjunção com a teologia filosófica medieval do Criador como um matemático divino. De acordo com essa maneira de pensar, Deus criou o mundo no qual todas as coisas forma ordenadas com medida, número e peso. Deus também criou o homem a imagem dele, dotado de sentidos e razão para decifrar o pensamento de Deus. Uma tal crença, Crombie argumenta, oferecia o caminho não somente para o uso sistemático da observação, experimento e argumento [32]lógico para colocar a natureza sob controle, mas também para a melhoria da condição humana. Mas Crombie afirma:


O hábito de mensuração sistemática e sua instrumentação por procedimentos apropriados foi caracteristicamente uma resposta não às demandas teóricas da filosofia natural mas às demandas práticas das artes técnicas. A filosofia natural acadêmica colocava uma recompensa na precisão lógica e na coerência interna; a vida prática requeria medidas exatas e repetíveis do mundo exterior como experienciado e usado. Habilidade técnica para especificar as condições para a produção de um resultado desejado era uma necessidade essencial parecida da ciência teórica e da vida prática; uma ciência experimental quantificada dependia de um diálogo entre ambas. Isso podia ocorrer em um nível adequada de educação. As inovações técnicas que vieram quantificar muitos aspectos da vida medieval prática no século XII foram sendo coincidas com um interesse crescente dos estudiosos em artes práticas, a partir do começo do século XII, ambos no interior de enciclopédias gerais e em tratados mais especializados. O contato intelectual era imediatamente encorajado pela educação melhorada dos artesãos (craftsmen) superiores e pela ampliação do conteúdo técnico dos currículos universitários especialmente no quadrivium matemático.”7


Crombie encontrou confirmação para esse ponto de vista quando ele considerou a evolução da quantificação das entidades fundamentais entre 1200-1500: tempo, espaço e peso.


Quantificação do tempo: relógio mecânico


Relativamente à medida do tempo, é aceito que a propagação do relógio efetuou uma mudança radical na Europa, começando aproximadamente em 1300. Sua operação dependeu da combinação engenhosa de um mecanismo condutor (o peso cadente) e um mecanismo regulador (o escape de borda (‘foliot-and-verge’ escapement)).

A percepção do tempo como um continuum foi transformada ao dividi-lo em porções concretas, idênticas, de tempo pequeno (minutae). Isso se deveu a capacidade do relógio mecânico para indicar a hora do dia – calculada de [33]uma meia-noite até a próxima – dividida em 24 horas iguais, cada uma contendo 60 minutos de 60 segundos. Deve ser acrescentado que o relógio movido por peso não era preciso o suficiente para medir pequenos intervalos de tempo. Mesmo assim, em comparação com os métodos contemporâneos para contar a hora do dia, através do relógio de sol (sundial) e do astrolábio respectivamente, a superioridade do relógio mecânico como um cronômetro (timer) era óbvia. Entre os dois, o relógio de sol fixo era mais simples de manejar – a sombra indicava o progresso do sol através do céu. Embora portável e utilizável durante o dia ou noite, o astrolábio era um instrumento de cronometragem (timekeeping implement) mais complicado, visto que era uma esfera armilar. Eles eram aparelhos para medirem a posição das estrelas; a partir de valor obtidos, era possível, no século XIII, calcular o tempo com segurança de 2-5 minutos.

Quando e quem realmente inventou o relógio mecânico é desconhecido – a primeira data firme é 1286.8 Como o eminente historiador da tecnologia Donal Cardwell declara:


Seu projeto pode ter resultado das especulações de alguns construtores de moinhos (millwrights) quem conheciam sobre engrenagens e os problemas de movimento uniforme, e quem, além disso, tinham uma intuição espantosa dos princípios mecânicos.

Tudo que nós podemos supor é que deve ter havido muitas tentativas de inventar uma máquina para indicar a posição do sol em sua jornada diária em volta da terra, e portanto para contar o tempo. Certamente muitos dos primeiros relógios foram astronômicos, alguns deles de um projeto tão elaborado que as posições do sol, da lua, e dos outros cinco planetas e mesmo os movimentos da maré podiam ser exibidos.”9


Sem dúvida, nós estamos em chão mais firme quando nós inquirimos sobre as condições sociais que favoreceram a invenção desse instrumento crucialmente novo para medida de tempo. O relógio mecânico foi um produto para regular a cronometragem (timing) das atividades urbanas (cívicas), multifacetadas, religiosas e florescentes, assim como um fato para a obtenção dessa regulação. Não é acaso que o relógio ostensivamente veio a adornar monastérios, igrejas e prefeituras.

[34]

Fig. 3 O Relógio Astronômico de Praga (Prague Orloj), na Praça da Cidade Antiga, Praga, República Tcheca. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Astronomical_Clock_(8341899828).jpg

Especialmente durante suas fases iniciais, a relojoaria (clockmaking) esteve profissionalmente entrelaçada com a astronomia. O engenho subjazendo a fabricação de relógios era tão altamente considerado que Nicole Oresme (c. 1325-1382), o grande sábio medieval francês, foi incitado a visualizador Deus como um relojoeiro (clockmaker). Exatamente como o homem imaginou produzir um relógio com movimento automático (self-moving clock), da mesma maneira ‘Deus permite aos céus moverem-se continuamente de acordo com as proporções dos poderes motrizes para as resistências e de acordo com a ordem estabelecida (de regularidade)’.10 Um exemplo inicial da invocação da imagem de Deus como um relojoeiro celestial!


Quantificação do espaço: bússola e cartografia


De algumas maneiras, a parte desempenhada pela bússola de agulha magnética na história da mensuração do espaço foi análoga àquela do relógio mecânico na história da mensuração do tempo. A bússola é descrita pela primeira vez em [35]um texto chinês datado de aproximadamente 1088, enquanto que na Europa a primeira referência ocorre em De naturis rerum (c.1200) de Alexander Neck(h)am (1157-1217). Uma carta conhecida como Epistola de magnete por Petrus Peregrinus (Pierre de Maricourt) (fl. 1269) contem um sumário do conhecimento europeu de fenômenos magnéticos na Idade Média tardia. Peregrinus concebe a bússola como um instrumento astronômico e navegacional.11

Ele descreve bússolas magnéticas com e sem pivô e escala. Elas estavam em uso no Mediterrâneo, abrindo caminho para os primeiros mapas medievais, conhecidos como portolani (cartas de bússola). Criados por homens práticos, Crombie afirma,


e baseado na determinação direta de distâncias e azimutes usando registro (log) e compasso, eles eram guias específicos para litorais. A partir dos primeiros exemplos sobreviventes da Carte Pisane (1274), os portulanos mostravam as escalas das distâncias. Pelo século XVI eles forneciam duas partes essenciais de informação para navegação: a rota a seguir e o ângulo que ela precisava formar com o eixo norte-sul como dado pela agulha magnetizada; e a distância a seguir na direção assim determinada.”12


O porte de bússolas, em conjunção com observações sobre correntes e ventos, em vez de métodos de observação astronômica, guiaram as primeiras viagens de descoberta de portugueses e espanhóis, incluindo a travessia transatlântica de Colombo, no fim do século XV.13

Contra isso, é indicado que a influente Geografia de Ptolomeu tornara-se bem conhecida em Portugal e Espanha antes que Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Cristóvão Colombo embarcassem e desse modo desempenhassem um papel ali. A tradução latina do trabalho apareceu impressa pela primeira vez em Florença no começo do século XV. Ela continha mapas desenhados em uma grade de paralelos e meridianos localizados com respeito às posições dos corpos celestes. Do sistema de coordenada de Ptolomeu, Crombie nota que ‘por sua ênfase em uma acurada medida linear do arco do meridiano veio a transformar o mapeamento quantitativo’.14

Crombie também aceita que o trabalho de Ptolomeu desempenhou uma parte importante na redescoberta da perspectiva linear. Quer dizer, Ptolomeu mostrou como desenhar um mapa como uma projeção a partir de um ponto de vista singular. É geralmente reconhecido que a técnica da perspectiva linear foi inventada e demonstrada por Filippo [36]Brunelleschi (1377-1446), o eminente arquiteto florentino, entre aproximadamente 1413-1425. Se ele estava familiarizado com o trabalho de Ptolomeu está pouco claro. Seja como for, o segundo guiou homens multitalentosos como P. Dal Pozzo Toscanelli (1397-1482), L.B. Alberti (1404-1472), L. Ghiberti (1378-1455), Nicolau de Cusa (1401-1464) em ‘sua busca comum por um espaço quantificado e técnicas para sua mensuração em astronomia, cartografia, ótica e pintura de modo idêntico’.15


Quantificação do peso: estática e ensaio (assaying)


Historicamente, a quantificação do peso através de mensuração tem origens empíricas que retrocedem à invenção da balança de braços iguais. Essa estava em uso no Egito e na Mesopotâmia de 2700 AC. Parece ter levado aproximadamente dois milênios e meio antes que a balança de braços desiguais fosse inventada.16 Seu princípio era conhecido pelo autor de Problems of Mechanics quem, é agora aceito, foi um seguidor de Aristóteles. Ele era familiar com o uso assim como com as propriedades da alavanca (lever). Desse modo, por exemplo, ele pergunta:


Por que é que quando dois homens carregam um peso entre eles sobre uma prancha ou algo do tipo, eles não sentem igualmente a pressão, a menos que o peso esteja em um ponto intermediário entre eles, mas o carregador mais próximo sente-o mais? Certamente é porque nessas circunstâncias a prancha torna-se uma alavanca, o peso, o fulcro, e o mais próximo dos dois carregando o peso é o objeto movido, e o outro carregador é o movedor do peso.”17


O que nós temos aqui é um reconhecimento empírico da lei da alavanca (lever) como posteriormente apresentada por Arquimedes (287-212) em uma linguagem matemática formal. O status de Arquimedes como um grande pesquisador em matemática pura e aplicada já era reconhecido na antiguidade. O que permaneceu pouco claro era sua atitude com a prática. Por um lado, o biógrafo Plutarco (fl. 83) refere-se ao desdém de Arquimedes pelo trabalho do engenheiro e pelas atividades artesanais [37]em geral. Por outro lado, suas próprias habilidades inventivas foram elogiadas por autores tais como Políbio (fl. 164 AC) e Lívio (59 AC-17 DC). Além do aparelho conhecido como parafuso de Arquimedes, diz-se que ele inventou poderosos aparelhos para o levantamento e movimento de cargas pesadas, e a balança (steelyard).

O que não pode ser disputado é que Arquimedes pensou profundamente sobre questões metodológicas. Quer dizer, ele esteve preocupado com a verdade de um teorema deduzido geometricamente. Ele acreditava que a verdade da prova demonstrada por geometria segue-se mais facilmente de conhecimento adquirido previamente através da contemplação de um problema mecânico.18

Arquimedes concebia um problema mecânico como pertencente à estática. Com efeito, ele tornou a estática científica e a hidrostática como um ramo da mecânica com o peso como sua categorial fundamental – um ramo que se originou empiricamente e estava enraizado na realidade. Isso é claramente mostrado na bem conhecida, embora apócrifa, história da descoberta de Arquimedes do princípio hidrostático que recebeu seu nome. Ele possibilitou-lhe resolver o problema colocado pelo Rei Hiero de Siracusa de quanto a se a coroa real era feita de ouro puro.

O prestígio de Arquimedes era tão grande que a autoria de trabalhos medievais sobre estática foi erradamente atribuído a ele. Em comparação com seu texto original, contudo, uma mudança discernível ocorreu na atitude para com a prática. Para a ‘ciência de pesos’ (sciencia de ponderibus), como a estática medieval era chamada, a teoria subjacente à mecânica do movimento de objetos pesados era de interesse. Desse modo, o tradutor toledano Domingo Gundisssalvo (fl. 1140), desenvolvendo a partir de autores árabes, tem isto a dizer sobre a ciência dos pesos:


A ciência de pesos considera pesos de duas maneiras: ou (1) de acordo com os pesos mesmos que estão sendo medidos ou de acordo com o que está medido com eles e por eles; e essa é uma investigação sobre os princípios da doutrina sobre pesos. Ou (2) ela considera-os na medida em que eles são movidos ou de acordo com as coisas com as quais eles são movidos; e isso é uma investigação sobre os princípios dos instrumentos através dos quais os corpos pesados são erguidos e através dos quais eles são mudados [ou movidos] de lugar para lugar.”19


Evidência para a consciência crescente de assuntos mundanos nos círculos intelectuais medievais é fornecida pelo autor do tratado [38]pseudo-arquimediano De insidentibus in humidum (c. 1250). Ele exibe familiaridade distinta com a fixação de preço (price-fixing) no mercado e transfere essa intuição para a solução de problemas hidrostáticos:


Uma vez que o tamanho de certos corpos não pode ser encontrado geometricamente por causa das formas irregulares deles, e uma vez que o preço de certos bens é proporcional aos tamanhos deles, era necessário encontrar a razão dos volumes dos corpos através dos pesos deles a fim de fixar os preços definitivos deles, conhecendo as razões do volume a partir das razões do peso.”20


Impulsionada pela economia baseada em prata, a quantificação do peso por meio de mensuração surgiu por conta própria durante a Idade Média. O propósito do ensaio (assaying) era particularmente o de testar a quantidade de ouro e prata que poderia ser extraída de minérios e descobrir se moedas e metais preciosos usado em joalheria eram puros.21

O ensaiador (assayer) essencialmente reproduzia quantitativamente a operação de fundição (smelting) em larga escala em uma escala menor. O processo envolvia a recuperação de prata e ouro, em uma corrente de ar, a partir de contas de chumbo colocadas em um prato raso feito de cinza de osso (copela). O fim do processo era indicado pelo aparecimento de uma conta do metal precioso no prato que poderia então ser pesada. O limite da precisão da balança era de aproximadamente 0.1 miligrama.

Em uma caracterização do ofício dos ensaiadores (assayers) e refinadores (refiners) Rupert Hall observa que era


um ofício quantitativo; o lucro surgia do uso com sucesso da balança, pois margens eram pequenas. Aqui, como na navegação, ciência e ofício aproximaram-se; mas, enquanto o navegador era o pupilo do astrônomo, o químico descendia do ensaiador (assayer).”22


Um impressionante exemplo inicial da conexão entre ciência e ofício, no contexto de ensaios (assaying), é fornecido por um edito de Filipe de Valois em 1343.23 Ele contém duas advertências (caveats), somo se fosse, para serem observadas pelos ensaiadores (assayers). Primeiro, a balança deve ser precisa – não se inclinando nem para a direita nem para a esquerda. Segundo, os ensaiadores (assayers) são [39]orientados a realizarem um teste em branco em uma amostra de chumbo a ser avaliada (assayed). A ideia é descobrir se ela contém prata e, se assim, quanta. Isso não é análise química quantitativa, mas é um passo na direção dela.24

Foi na Idade Média tardia que a pesagem experimental esteve começando a interessar ao erudito como um meio de aquisição de conhecimento natural. Entre esses que compreenderam sua importância e escreveram sobre ela estava o pensador audacioso Nicolau de Cusa, em seu Idiota: De staticis experimentis (1450). Como Crombie indica, Cusa imaginou um programa e propôs procedimentos experimentais para a mensuração de uma ampla variedade de propriedades e para a determinação por mensuração de materiais diferentes. Pois, de acordo com Cusa,


Pela diferença de pesos, eu penso que nós podemos chegar mais verdadeiramente ao segredo das coisas, e que muitas coisas podem ser conhecidas através de uma conjetura mais provável.”25


Cusa mesmo não realizou experimentos. Mais a ideia de comparação do peso de materiais, antes de seu começo e após o seu termino, devia eventualmente levar a uma das grandes generalizações científicas por Lavoisier – o princípio da conservação da matéria (1789).

Fig. 4 Retrato de Nicolau de Cusa usando um chapéu de cardeal, em Hartmann Schedel, Nuremberg Chronicle (1493). Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cusanus_schedel_chronicle.jpg

[40]Contextos fermentacional e metalúrgico26


Que Lavoisier formulou o princípio da conservação da matéria - o peso dos produtos é igual ao peso dos reagentes – a partir da observação das mudanças químicas que subjazem aos processos de fermentação tem sido considerado como um tanto intrigante. Mas não devia causar surpresa, vendo que historicamente uma boa parte de conhecimento químico evoluiu da experiência e problemas da fermentação.

Na realidade, a formulação do princípio foi fruto da interação de experimentação, quantificação e a teoria do flogisto, criada pelo químico alemão Georg Ernst Stahl (1659-1734). Uma grande parte do pensamento de Stahl sobre transformação química devia-se ao exame e discussão dos processos associados à preparação de bebidas fermentadas e a produção de pão. Esse foi certamente um de seus maiores interesses, como indicado por seu primeiro trabalho químico significante, Zymotechnia Fundamentalis, publicado em latim em 1697 e postumamente em alemão em 1734.

Fig. 5 Georg Ernst Stahl. Gravura de linha (1715). Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Georg_Ernst_Stahl._Line_engraving,_1715._Wellcome_V0005595.jpg


[
41]É digno de nota que uma das forças motrizes por trás da tradução desse trabalho era a alta expectativa de seu efeito econômico. No prefácio, o tradutor anônimo afirma, no espírito do mercantilismo, que a Alemanha poderia poupar milhões em importações se uma melhor atenção fosse concedida às maneiras pelas quais vinhos, bebidas e álcoois (spirits) eram produzidos.

Não pode haver dúvida de que conexão estreita entre o conhecimento químico teórico e seu uso prático concordava bem com as visões de Stahl. De fato, o ímpeto real que o levou a desenvolver a teoria do flogisto foi o interesse dele no processo de fundição de minérios. Stahl elaborou uma figura do processo de redução que gira em torno da liberação e transferência de um material sútil para o minério, postulou estar presente no carvão, que ele veio a chamar de flogisto. Quer dizer, ele explicou a redução de minérios como ‘flogistificação’ e a combustão de metais como ‘desflogistificação’.

Além disso, ele imaginou que o flogisto corporificava uma matéria sútil de combustibilidade que unia os reinos vegetal, animal e mineral. De fato, ele visualizava uma circulação global de flogisto. Subjazendo a isso estava a conjetura de que o flogisto do ar era absorvido pelas plantas durante o crescimento delas, em seguida tomado na forma de comida vegetal pelos animais, e então devolvido ao ar através da respiração.

A respeito de Lavoisier, o que emerge claramente é que o ímpeto inicial ele recebeu do ensaio vencedor de prêmio sobre a fermentação de vinho e a melhor maneira de obter álcool do Abade François Rozier em 1770. Ele continha a sugestão de que o ar comum desempenhava uma parte no azedamento do vinho, um processo que tinha preocupado o homem desde que ele tornou-se envolvido com sua preparação. Foi essa ideia que pode ter fornecido a primeira pista levando ao interesse subsequente de Lavoisier no estado aeriforme: as propriedades físicas e químicas de ‘fluídos elásticos’ ou ‘ares’, incluindo o fenômeno do calor e da composição do ar comum e água. Através de investigações desse problemas Lavoisier eventualmente chegou a uma nova concepção de acidez, calcinação e redução de metais – aquela da combustão e respiração baseada em oxigênio – tornando-a no princípio de conservação da matéria.

A analogia entre respiração e combustão lenta produzindo ácido carbônico e água foi reconhecida em 1784 por Lavoisier no trabalho quantitativo que ele realizou em uma cobaia em um calorímetro de gelo, conduzido em conjunto com Pierre-Simon Laplace (1749-1827). Mas foi quase uma década depois que essa analogia, a qual incluía a geração de calor animal, foi explicada à luz do pensamento químico transformado por Lavoisier em colaboração com Armand Seguin (1767-1835).


[42]Quantificação de qualidades: movimento, mudança e dinheiro


A referência ao mundo do comércio no tratado medieval pseudo-arquimediano pode surpreender. Contudo, durante o último quartel do século XX, estudos apareceram substanciando a tese de que os estudiosos medievais deviam mais ao cenário social monetizada deles do que era anteriormente concedido ou mesmo considerado. Isso foi trazido à luz quando nós examinamos a abordagem medieval ao movimento local como um problema de quantificação de uma qualidade contra um pano de fundo socioeconômico.

Mas. antes de retornarmos a isso, é útil rememorar a estrita separação aristotélica de qualidade e quantidade como categorias incomensuráveis. A negação aristotélica de que categorias poderiam ser quantificadas foi colocada em questão, durante o século XIV, por alguns dos mais eminentes escolásticos então ativos nas universidades de Oxford e Paris – centros reconhecidos de cultura medieval. Subjazendo a essa discussão de ‘intenção e remissão de formas e qualidades’ estava a crença de que variações em grau qualidades eram mensuráveis (latitudo qualitatum).

O trabalho deles incluía interrogações obre a quantificabilidade da graça divina mas também sobre a quantificabilidade do movimento local, ou velocidade, compreendido como magnitudes contínuas. Aqui, como em outras áreas de investigação de fenômenos naturais e sociais, a erudição medieval foi confrontada com as generalizações aristotélicas. Com respeito à velocidade de um corpo em movimento, Aristóteles argumentava que ela era diretamente proporcional ao peso (‘força’) dele e inversamente proporcional à resistência do meio no qual ele é movido (‘densidade’). Portanto, qualquer força, não importa quão pequena, podia mover qualquer resistência, não importa quão grande.

Percebendo o paradoxo na posição de Aristóteles, estudiosos de Oxford associados com Merton College – conhecido como Escola de Merton ou os Calculadores de Oxford – desafiaram-no.27 Concebendo variações em velocidade como variações na intensidade de uma qualidade matemática, eles chegaram ao que se tornou conhecido como o ‘teorema da velocidade média’. Ele propunha que uma velocidade uniformemente acelerada podia ser medida por sua velocidade média. A proposta tem sido saudada como ‘provavelmente a mais excelente contribuição singular medieval para a história da física matemática’.28

Outros desafios historicamente notáveis do século XIV à abordagem de Aristóteles veio de Paris. Certamente Jean Buridan [43](c. 1300-1350) era crítico da noção de Aristóteles de que o movimento de um projétil depende da ação propulsora do ar. Ele considerou a explicação de Aristóteles insatisfatória pois era contradita pela experiência.


A primeira experiência diz respeito ao topo (trocus) e ao moinho de smith (ou seja mola fabri de roda), os quais são movidos por um longo tempo e contudo não deixam os lugares deles. Consequentemente, não é necessário ao ar acompanhar para encher o lugar de partida acima de um topo desse tipo e um moinho de smith. Assim, não pode ser dito [que o topo e o moinho de smith são movidos pelo ar] dessa maneira.

A segunda experiência é esta: uma lança tendo uma [parte] posterior cônica tão afiada quando sua [parte] anterior seria movida, após ser projetada, exatamente tão velozmente quanto ela seria sem uma [parte] posterior cônica afiada. Mas certamente o ar seguindo não poderia empurrar uma extremidade afiada dessa maneira, porque o ar seria facilmente dividido pela agudeza.

A terceira experiência é esta: um navio arrasta-se velozmente no rio mesmo contra o fluxo do rio, após o arraste ter cessado, não pode ser parado rapidamente, mas continuar a mover-se por um longo tempo. E contudo, um marinheiro no convés não sente nenhum ar empurrando-o de trás. Ele somente sente o ar da frente resistindo[-o]. Novamente, suponha-se que o navio estivesse carregado com grão ou madeira e um homem estivesse situado na retaguarda da carga. Então, se o ar fosse de um ímpeto tal [que se] pudesse empurra o navio para frente tão fortemente, o homem seria pressionado muito violentamente entre aquela carga e o ar seguindo-a. A experiência mostra que isso é falso. Ou, ao menos, se o navio estivesse carregado com grão ou palha, o ar seguindo e empurrando dobraria sobre (plico) as hastes que estivessem na retaguarda. Isso tudo é falso.”29


O objetivo disso é trazer à atenção quais atividades práticas afetaram o pensamento escolástico medieval. Sem dúvida, Buridan, quem foi reitor da Universidade de Paris de acordo com os documentos em 1328 e novamente em 1340, levava-as em conta. No curso de seus estudos sobre os movimentos dos corpos materiais, Buridan desenvolveu a noção de impetus. Ele associava-o com a força móbil transmitida ao corpo pelo agente que o coloca em movimento. Visto em retrospectiva, Buridan estava chegando a compreender a tendência dos corpos em movimento em direção à inércia, a qual ocuparia as mentes de René Descartes (1596-1650), Gottried Wilhelm Leibniz (1646-1716) e Newton (1643-1727).30

É digno de nota que Buridan empregava o termo impetus para discutir se Deus necessitava de assistência para mover os corpos celestes. Buridan considerava que Deus podia operar sem ele – a oscilação pervasiva é suficiente para mantê-los seguindo. [44]Prefigurando Newton de fato, Buridan propunha que, uma vez lançados por Deus, tais corpos estão por sua própria conta – possivelmente pela eternidade. Contudo, a fim de evitar acusações de promover opiniões contrárias aso ensinamentos da Igreja, Buridan teve dificuldades para salientar:


Mas isso eu não digo assertivamente, mas [de preferência tentativamente] de modo que eu poderia buscar em nossos mestres teológicos o que eles poderiam ensinar-me nessas questões quanto a como essas coisas ocorrem…”31


Permanece incerto se a teoria do impetus de Buridan influenciou Nicole Oresme quando ele comparou Deus a um relojoeiro celestial permitindo aos céus moverem-se, como um relógio, por si próprios.32

Oresme é celebrado mais frequentemente por empregar linhas e figuras geométricas para representar quantidades e movimentos.33 Seu método original está descrito compreensivamente no relato de Kaye como se segue:


A nova abordagem [de Oreseme], a qual ele esboçou claramente na primeira parte de seu De configurationibus, era construir um sistema dual de coordenadas capaz de representar ao mesmo tempo a intensidade de uma qualidade e a extensão do indivíduo ao qual a qualidade pertence. No programa de Oresme, a extensão de um dado indivíduo no espaço ou tempo era medida por uma linha base [longitude], e as intensidades da qualidade ou movimento naquele indivíduo eram representadas por linhas perpendiculares erigidas sobre a linha base [latitude]. Intensidades maiores ou menores em vários pontos no indivíduo eram representadas por linhas proporcionalmente mais longas ou mais curtas erigidas sobre a linha base desse pontos. Quando desenhadas, essas linhas de mensuração formavam superfícies bidimensionais ao longo de duas coordenadas de variáveis configurações geométricas e tamanhos.”34


Assim, a configuração de uma qualidade ou movimento de intensidade uniforme – os pesos de todas as linhas verticais sendo os mesmos – tinha de se um retângulo. Uma qualidade ou movimento de intensidade uniformemente variante era categorizada por Oresme como ‘uniformemente disforme (difform)’, por exemplo, movimento uniformemente acelerado. Era representado por um triângulo retângulo.

Oresme estava interessado não somente na representação geométrica da qualidade e do movimento, mas também na mensuração da quantidade da qualidade do movimento, uma quantidade a qual ele imaginava ser igual ao produto da intensidade e extensão. Além disso, ele chegou ao que equivalia a uma prova geométrica [45]do teorema da velocidade média na qual as áreas do retângulo (representando um movimento uniforme) e do triângulo retângulo (representando a aceleração) são mostradas ser iguais. A demonstração geométrica do teorema deveria influenciar a análise do movimento pelos próximos 250 anos aproximadamente.

Ver o procedimento bidimensional de Oresme como prefiguração da geometria analítica cartesiana é problemático. A representação simultânea da extensão de um dado indivíduo no espaço ou tempo e a intensidade de uma qualidade ou movimento não era equivalente ao sistema axial, denominado de ‘sistema de coordenadas cartesianas’. Antes era um artifício para demonstrar geometricamente que ‘quantidade (extensão) e qualidade (intenção) estavam unidas em uma relação proporcional dinâmica’.35

O que separa Oresme dos estudiosos medievais referentes à proporcionalidade era, como Grant coloca, sua ‘fascinação com a questão da comensurabilidade e incomensurabilidade na matemática, física e cosmologia … [como] evidenciada por um número de tratados nos quais ele considerou apropriado discuti-la ou ao menos a mencionar’.36

De fato, os interesses intelectuais de Oresme estendiam-se além do mundo natural. Entre outros trabalhos, ele escreveu um tratado muito influente sobre dinheiro e cunhagem conhecido sob seu título abreviado como De moneta.37 A questão sugere a si mesma quanto a se o pensamento econômico e científico de Oresme conectam-se e, se sim, em qual contexto. Essa questão tem sido perceptivelmente endereçada por Kaye em seu tratamento de áreas de investigação histórica que raramente são consideradas em conjunto: história econômica, a história do pensamento econômico e a história da ciência sobre o que muito do que se segue está baseado.38


Monetização e desenvolvimento de mercado


O ponto de partida de Kaye é o desenvolvimento do poder e do peso do local de mercado no interior da sociedade feudal europeia durante os séculos XII e XIII. Esse crescimento teve a ver com o desenvolvimento das cidades como centros de comércio e produção artesanal. Fatores nesse processo, assim como produtos [46]dele, estavam ampliando-se a monetização e aumentando a consciência monetária. Isso se conecta ao assunto de De moneta de Oresme, no qual a política estatal de depreciação da cunhagem é criticamente examinada. A desvalorização e revalorização de moedas estavam enfraquecendo o papel de dinheiro como equivalente geral socialmente aceito ao valor de mercadorias. Aqui estava uma situação, como Kaye observa, na qual a sociedade experienciou relatividade e proporcionalidade em grande escala. Ela provê o pano de fundo social para analisar, por exemplo, as ideias relativísticas de Oresme e Buridan sobre se a terra está sempre imóvel no centro do universo.

Há uma boa quantidade de evidência de que os pensadores escolásticos de Oxford, Paris e de outros lugares não eram intelectuais enclausurados mas envolvidos na administração acadêmica e eclesiástica, operações financeiras e políticas. Eles não podiam evitar tomar consciência do pervasivo impacto social da expansão do capital mercantil na economia e sociedade medievais.

De fato, o termo ‘capital’ em sua versão latina capitale aqui entra no vocabulário econômico aparentemente pela primeira vez. Ele aparece em um trabalho do século XIII intitulado de De contractibus usurariis, composto por Peter John Olivi (Pierre de Jean Olieu), quem veio da Provença e viveu entre 1248-1298. Ele foi um membro da ordem franciscana e um líder da facção pressionando para o retorno ao compromisso original da ordem com as coisas e valores espirituais. De fato, após a morte de Olivi, os superiores franciscanos consideraram seus trabalhos serem heréticos e ordenaram sua destruição.

Embora Olivi se opusesse à participação franciscana no processo econômico, ele entendeu que ele constituía um elemento central da realidade social, um cardinalmente afetado, como foi, pela troca de mercadorias por dinheiro. Versado no pensamento romano e canônico sobre empréstimos, e familiar às práticas de empréstimo no mundo comercial, Olivi chegou à noção de capitale. Em sua [forma] mais simples, ela representava o valor acumulado do dinheiro emprestado devido às atividades habilidosas do investidor. Olivi especulava que a relação entre um atacante (striker) ou lançador (thrower) de um objeto e o objeto que ele põe em movimento corresponde à relação entre um investidor e o dinheiro emprestado que ele transforma em capitale. Tem sido argumentado que essa analogia equivaleu à primeira formulação do conceito de impetus.39

[47]Seja como for, nós temos aqui percepções medievais de fenômenos econômicos e naturais interagindo, o que, a partir de exame, levou Kaye a concluir:


Embora a base física da realidade não mude, a base social o faz. Ao longo desse período a sociedade foi transformada através dos processos sociais multifacetados da monetização e do desenvolvimento do mercado. Cada nível da sociedade e cada camada de crescimento institucional foram afetados. Filósofos, a partir de seus dias iniciais como estudantes foram apresentados a experiências sociais e econômicas, regras de conduta, caminhos de progresso e modelos de sucesso desconhecidos pelas gerações anteriores. Conforme as experiências sociais mudem, assim também mudam as percepções sobre como o mundo funciona e está ordenado.

O rigoroso treinamento intelectual da universidade e sua intensa atmosfera de desafio e disputa, transformava percepções brutas em intuições capazes de ser elaboradas através dos instrumentos técnicos da matemática e lógica. O hábito escolástico de síntese encorajava a ligação de intuições e princípios entre diferentes esferas de pensamento, entre a compreensão da ordem econômica e a compreensão da ordem natural. O resultado era a criação de uma nova imagem da natureza baseada na experiência e observação da sociedade monetizada: um mundo de linhas dinâmico, relativístico, geométrico, auto-ordenado e autoequalizado. Foi sobre esse modelo de natureza, primeiro imaginado no século XIV, que pensadores de Copérnico a Galileu construíram a ‘nova’ ciência.”40


A representação de Edward Grant do ambiente social medieval no qual o conhecimento da natureza desenvolveu-se aparece distintamente limitada sob essa luz. É insuficiente igualar esse ambiente à tradução da aprendizagem greco-árabe para o latim, à formação da universidade medieval e à ascensão do teólogo / filósofo natural.


Relações sociais da experimentação


A questão histórica é o papel da forma de capital, denominado de capitalismo mercantil, na primeira fase da transição do feudalismo para o capitalismo. Essas são concepções marxistas desenvolvidas para o entendimento da fase pré-industrial do capitalismo na Europa. Quer dizer, a fase na qual o controle do capital sobre o intercâmbio monetário era de importância maior do que seu [48]domínio sobre o processo de produção, restrito, como era, pelas guildas urbanas.

Essa dinâmica certamente emerge a partir da incisiva análise dos bancos italianos na Idade Media tardia por David Abulafia. Mas, junto com outros historiadores, Abulafia parece ser relutante ao empregar o termo ‘capitalismo’ no contexto de economias pré-industriais.41 Seja como for, é digno de nota que o proeminente estudante não marxista da Revolução Científica, Steven Shapin, recorreu ao conceito da transição do feudalismo ao capitalismo na Europa entre os séculos XV e XVII. Ele identifica esse período como um de reconhecível mudanças social, durante o qual formas mecânicas de explicação dos fenômenos naturais estiveram em ascendência. A transformação do clima intelectual durante esse período foi abastecida pela atenção crescente com os artifícios mecânicos na vida cotidiana, simbolizados pelo relógio:


A fascinação da máquina, e especialmente do relógio mecânico, como uma metáfora unicamente inteligível e apropriada para explicar os processos naturais não somente seguia amplamente os contornos da experiência diária com semelhantes aparelhos mas também reconhecia a potência e legitimidade deles na ordenação dos assuntos humanas. Isso quer dizer, se nós quisermos finalmente entender o apelo das metáforas mecânicas nas novas práticas científicas – e a consequente rejeição da distinção entre natureza e arte – nós devemos, em última análise, ter de entender relações de poder de uma sociedade europeia do começo da modernidade cujos padrões de vida, produção, e ordenação política estavam passando por mudanças massivas conforme o feudalismo dava lugar ao capitalismo inicial.”42


Desse modo, refletindo sobre o curso dos eventos, Leibniz reconhece em 1671 a preferência dos filósofos naturais contemporâneos por uma interpretação mecanicista em vez da dominante filosofia organicista de Aristóteles: ‘Todos os filósofos modernos desejam explicar os fenômenos naturais mecanisticamente’.43 Por volta dessa época o termo ‘filosofia mecânica’, cunhado, segundo todos os relatos, por Robert Boyle, entrou no vocabulário erudito.

[49]

Fig. 6 Retrato de Robert Boyle por Johann Keserboom (c. 1689).Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Robert_Boyle_0001.jpg

Entre as muitas publicações lidando com o trabalho e a vida do ‘pai da máquina a vapor’, o Leviathan and the Air-Pump, de Steven Shapin e Simon Schaffer, atraiu ampla atenção. Ele queriam ‘entender a natureza e o status das práticas experimentais e os produtos históricos delas’ e eles queriam que suas ‘respostas fossem de carácter histórico’. Para esse fim, eles escreveram:


Nós lidaremos com as circunstâncias histórica nas quais o experimento como um meio sistemático de geração de conhecimento natural surgiu, nas quais práticas experimentais tornaram-se institucionalizadas, e nas quais questões de fato experimentalmente produzidas tornaram-se os fundamentos do que contava como conhecimento científico apropriado. Nós começamos, portanto, com o grande paradigma de procedimento experimental: as pesquisas de Robert Boyle sobre pneumática e seu emprego da bomba de ar (air-pump) nesse empreendimento.”44


Aqui o leitor é lembrado de que os dois aspectos essenciais e entrelaçados da ciência – experimentação sistemática e quantitativa, por um lado, e institucionalização (sobre a qual [se falará] depois), pelo outro – estavam surgindo no século XVII.

De fato, a bomba a vapor foi uma das primeiras das máquinas grandes e complexas a serem desenvolvidas para uso em laboratório (a máquina elétrica foi a [50]outra).45 De acordo com Shapin e Schaffer, foi a produção intelectual (‘questões de fato’) através de uma máquina especificamente construída para propósito científico que tornou a experiência de Boyle um marco histórico. Por uma coisa, a nova tecnologia para investigação experimental da pressão do ar (‘fonte de ar’) clarificou o porque bombas de sucção não elevariam a água mais do que dez metros – um obstáculo para o desenvolvimento da mineração nas profundezas. Por outra, deu a ilusão para negar o vazio na natureza – um componente essencial da física de Aristóteles. Por último, mas não menos importante, a partir das mensurações tabuladas das pressões e volumes do ar resultou que seu produto é o mesmo (1662). Historicamente, a relação recíproca, conhecida como Lei de Boyle, é considerada ser o primeiro experimento científico de uma lei física.

Há um acordo generalizado, contudo, de que os celebrados experimentos de bomba de ar (air-pump) foram realizados por Robert Hooke (1635-1703) e não por Boyle, seu empregador e apoiador de muitos anos. Tudo o mesmo, Boyle desejava fazer uma afirmação pessoal quando ele declarou:


E embora minha condição permite-me (Deus seja louvado) fazer experimentos pelas mãos de outros; contudo, eu não tenho sido tão delicado para declinar da dissecação de cães, lobos, peixes e mesmo ratos e camundongos, com minhas próprias mãos. Nem, quando eu estou em meu laboratório, eu tenho escrúpulos com eles nus para manusear reboco e carvão.”46


Aqui Boyle, o cavalheiro rico, claramente sinalizou que não era socialmente humilhante engajar-se em experimentação manual (hands-on). Contudo, ele estimulava os cientistas


a desdenhar, tão pouco quanto eu faço, de conversar com comerciantes em suas casas de trabalho e lojas … ele não merece conhecimento da natureza, aquele que despreza mesmo conversar com pessoas desprezíveis, que tem a oportunidade de ser familiarizado com ela.”


No geral, o que os filósofos naturais empreenderam compreender nas oficinas (laboratórios) deles era a matéria em movimento. Ela subjaz aos processos que artesãos e artistas estavam dominando empiricamente enquanto exercendo seus ofícios em suas oficinas. A atenção crescente dos filósofos naturais para as contiguidades dessas atividades enfraqueceu o raciocínio que subscrevia a tradicional distinção entre natureza e arte – isso não estava confinado à Inglaterra.

[51]Tome-se o polímata tcheco do século XVI Tadeáš Hájek z Hájku (1525-1600), também conhecido como Thaddeus Hagecius ou Nemicus. Ele foi enobrecido ao ser indicado para o posto de Oficial Médico Chefe da Boêmia em 1571; contudo, por causa de seus interesses astrológicos e alquímicos, ele se tornou uma figura influente na corte do Imperador Rudolph II (1576-1612) em Praga. Em 1585 ele publicou em Frankfurt am Main um pequeno livro sobre fermentação (brewing): De cerevisia eiusque conficiendi ratione natura viribus et facultatibus opusulum.47

O que jaz por trás do interesse de Hagecius em cerveja? Havia a dimensão médica e a farmacêutica. Parece que a sugestão para escrever o livreto veio a Hagecius de um médico pessoal de Rudolph II. Mas além disso, há o crescimento de uma economia senhorial de larga escala na Boêmia a considerar. Centrada em criação de ovelhas, fermentação [de cerveja] e criação de peixes (carpa), bem como na produção de vidro e ferro, essa economia foi direcionada para aumentar a declinante renda em dinheiro do senhor do feudo.48 Dessa maneira o senhor evoluiu para um empreendedor de grande escala no interior do sistema feudal e, involuntariamente, em um acessório de sua dissolução.

Os passos tomados por Hagecius para se familiarizar com as práticas de fermentação lembram o conselho de Boyle aos filósofos naturais para não fugirem de buscar o esclarecimento de praticantes socialmente inferiores. Ignorante sobre fermentação, Hagecius consultou humilde cervejeiros (brewers) que lhe forneceram – como ele reconhece – informação que era inteira, embora simples e não sistemática. Incisivamente, ele considerou a produção de cerveja como um campo legítimo [52]para investigação científica e rejeitou as noções de que era uma busca acadêmica indigna. Claramente, Hagecius não percebia os mundos do trabalho intelectual e manual serem separados por uma parede impenetrável.

É nesse contexto que é conveniente voltar à explicação de Shapin e Schaffer da crítica de Thomas Hobbes (1588-1679) à metodologia de Boyle. Ele teve problema com a noção de que conhecimento natural fidedigno pode vir através de experimentação (air-pump).

Para Hobbes, a ideia de que os experimentos pneumáticos de Boyle, incluindo as mensurações cruciais de ‘a fonte do ar’, pudessem estabelecer a existência do vácuo era defeituoso em três maneiras relacionadas. Para começar, Hobbes considerou labutar em um laboratório ser semelhante aos labores de ‘operários’, ‘boticários’, ‘jardineiros’ e, portanto, uma atividade manual restrita a classes, abaixo da dignidade do filósofo. Experimento era uma coisa, filosofia outra. Por sua natureza mesma, o conhecimento produzido pelo primeiro era inferior ao gerado pela segunda.

Quanto à filosofia propriamente, Hobbes aderiu ao plenismo, uma forma de materialismo que afirma que o mundo da natureza é um pleno (plenum) constituído de corpos em movimento, não havendo espaço para ‘espaço livre’, ou seja, vácuo.

Finalmente, em questões de política, Hobbes era um defensor fervoroso da monarquia absoluta. Shapin e Schaffer salientam que ‘a verdade filosófica de Hobbes devia ser gerada e sustentada pelo absolutismo’.49 Isso serve para nos lembrar de que eles – de forma não ortodoxa – buscam ‘ler o Leviathan como filosofia natural’.50 De forma não ortodoxa no sentido de que o livro tem sido percebido como um tratado político, de fato, como ‘o maior trabalho de filosofia política alguma vez escrito em inglês’.51

A exegese de Shapin e Schaffer da rejeição do vacuísmo por Hobbes em fundamentos políticos é ousada:


“… o argumento contra o vácuo era apresentado no interior de um contexto político de uso … Ele recomendava seu monismo materialismo porque ele auxiliaria na garantia da ordem social. Ele condenava o dualismo e espiritualismo porque eles tinham de fato sido usado para subverter a ordem … Para Hobbes a rejeição do vácuo era a eliminação de um espaço no interior do qual discussão poderia ocorrer.”52


O emprego do termo ‘ordem social’ não está claro. Ele refere-se à ‘ordem política’ (provavelmente) ou a um tipo de sociedade (feudal, capitalista – menos provável)? [53]Em todo caso, a passagem citada e outras afirmações articulam a introdução e o uso do termo ‘espaço’ por Shapin e Schaffer em sentido amplo. Dessa maneira, ‘espaço experimental’ refere-se a reuniões em laboratórios para a realização / testemunho de experimentos. Enquanto que ‘espaço filosófico’ ou ‘espaço intelectual’ comportam participação em debates científicos e os encontros de grupos tais como a recém-formada Sociedade Real.

Hobbes nega aos filósofos naturais o direito a semelhantes atividades pois elas poderiam enfraquecer a soberania da monarquia absoluta, em seu entendimento dela. Como observado por Shapin e Schaffer:


Falar de vácuo era associado a recursos culturais que tinham sido ilegitimamente usados para subverter a autoridade própria do estado.”53


O estado em questão é a monarquia absoluta. Dize-se que o absolutismo é ‘o primeiro sistema internacional de Estados no mundo moderno’.54 Simultâneo ao seu desenvolvimento, a busca internacional pelo conhecimento natural (através de sociedades científicas e jornais) estava evoluindo e transcendendo fronteiras nacionais. A contemporaneidade não é acidental: os dois reinos, o político e o científico, foram produtos da, e agentes na, transição do feudalismo para o capitalismo. As complexidades da transição através do tempo, envolvendo múltiplos fatores (política, economia, ideologia, guerras, etc), não permitem aqui uma análise dirigida a uma causa primária. Mas é digno de nota que, durante sua fase inicial, a experimentação sistemática e quantitativa tornou-se uma parte integral da busca pelo conhecimento natural oposta por Hobbes, adquirindo a longo prazo, um grau de autonomia em relação ao estado.

Relativamente ao status do experimento no avanço científico, Boyle prevaleceu sobre Hobbes. E quanto ao status da hipótese, a qual, famosamente, foi de grande preocupação para Newton? Pode ser dito que o empirismo de Boyle triunfou sobre o racionalismo de Hobbes? Isso seria uma escolha simplista em relação às filosofias de ambos os protagonistas. Certamente isso não reflete a posição da Sociedade Real, a qual, a partir de seu começo (1600) até o começo do século XVIII ‘foi o principal centro europeu de física [54]experimental’.55 Como Marie Boas Hall coloca em sua análise detida da ciência na Sociedade Real do século XVII:


Por mais que a Sociedade como um corpo pudesse hesitar em favorecer a hipótese, seu objetivo era estabelecer algo mais do que uma coleção de experimentos aleatórios. Mera questão de fato não era valorizada por si mesma, mas pela luz que ela poderia verter sobre o objeto da Sociedade, o estabelecimento de uma verdadeira filosofia da natureza.”56


Próximo capítulo


ORIGINAL:

Teich, Mikuláš, The Scientific Revolution Revisited. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2015. p.29-54. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.11647/OBP.0054>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 Para o que é provavelmente a apresentação pública inicial das ideias desenvolvidas no ensaio, ver o artigo de Thomas Khun ‘The Function of Dogma in Scientific Research’, apresentado em the Symposium on the History of Science, University of Oxford, 9-15 July 1961. Ver A. C. Crombie (ed.), Scientific Change, Symposium on the History of Science, University of Oxford 9-15 July 1961 (London: Heinemann, 1963), pp. 347-69. O artigo foi comentado por A. Rupert Hall e Michael Polanyi, respectivamente (pp.370-380). Curiosamente, nem Kuhn nem Hall mencionaram que o último já tinha empregado o termo ‘paradigma’ no artigo ‘The scholar and the craftsman in the scientific revolution’ (Hall usa a minúscula). Ele foi apresentado em uma conferência de história da ciência, da qual também Kuhn participou (Madison, 1-11 de setembro de 1957). Ver M. Clagett (ed.), Critical Problems in the History of Science (Madison, WI: University of Wisconsin Press, 1959), pp. 3-29 (p. 19). Aqui Hall famosamente declara que, embora os papéis do estudioso (scholar) e do artesão (craftsman) fossem complementares na revolução científica, o primeiro detém primazia na história (p.21).

2 T. S. Kuhn, The Structure of Scientific Revolutions, 2nd revised ed. (Chicago, IL: University of Chicago Press, 1970), p. 69.

3 Ver ‘Contribution to Discussion of Part Three: Science and Technology in the Middle Ages’, pp. 272-91, de Crombie, em seu (ed.), Scientific Change, pp. 316-23. Para os comentários anteriores de Crombie, ver seu Augustine to Galileo: The History of Science A.D. 400-1650 (London: Falcon Press, 1952); Robert Grosseteste and the Origins of Experimental Science, 1100-1700 (Oxford: Clarendon Press, 1953).

4 Crombie (ed.), Scientific Change, p. 319.

5 E. Grant, The Foundations of Modern Science in the Middle Ages (Cambridge: Cambridge University Press, 1996), p. 202.

6 Ibid., p. 171.

7 A. C. Crombie, Styles of Scientific Thinking in the European Tradition: The History of Argument and Explanation Especially in the Mathematical and Biomedical Sciences and Arts (London: Duckworth, 1994), Vol. 1, pp. 416-17. a noção de um ‘artífice (craftsman) superior’ origina-se do ‘artesão (artisan) superior’, de Edgar Zilsel. Ver seu ‘Sociological Roots of Science’ (1942), reimpresso em D. Raven et al. (eds.), Edgar Zilsel The Social Origins of Modern Science (Dordrecht, Boston, MA and London: Kluwer, 2000), pp. 7-21. O historiador T. Inkster diferencia entre o conhecimento ‘artesanal elevado’ e ‘[de] artífice inferior’. Ver seu ‘Thoughtful Doing and Early Modern Oeconomy’, in L. Roberts, S. Schaffer and P. Dear (eds.), The Mindful Hand Inquiry and Invention from the Late Renaissance to Early Industrialization (Amsterdam: Koninkliijke Nederlandse Akademie van Wetenschappen, 2007), p. 445.

8 Em geral, os eruditos não aceitam a afirmação de Joseph Needham (e seus colaboradores Wang Ling e D. J. de Solla Price) de que o escapamento hidromecânico do relógio astronômico descrito pelo eminente erudito chinês e servo do estado Su Sung (1088) represente um estágio importante no desenvolvimento do relógio mecânico, com seu escape de borda (verge-and-foliot) do fim do século XIII na Europa. ‘O chinês media o tempo através do fluxo contínuo de água, os europeus, pelo movimento oscilatório de um escape de borda (verge-and-foliot). As duas técnicas usavam escapamentos, mas esses possuíam apenas o nome em comum. O chinês trabalhava intermitentemente, o europeu, ritmos discretos mas contínuos’. D. S. Landes, Revolution in Time (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1985), p. 21.

9 D. Cardwell, The Fontana History of Technology (London: Fontana Press, 1994), p. 41.

10 Citado em J. Kaye, Economy and Nature in the Fourteenth Century: Money, Market Exchange, and the Emergence of Scientific Thought (Cambridge: Cambridge University Press, 1998), p. 224.

11 Para uma tradução inglesa, ver The Letter of Peregrinus, em E. Grant (ed.), A Source Book in Medieval Science (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1974), pp. 368-76.

12 Crombie, Styles, Vol. 1, p. 420.

13 D. Goodman, ‘The Scientific Revolution in Spain and Portugal’, em R. Porter and M. Teich (eds.), The Scientific Revolution in National Context (Cambridge: Cambridge University Press, 1992), p. 166.

14 Crombie, Styles, Vol. 1, p. 433.

15 Ibid., p. 455. Para uma contribuição valioso sobre a relação entre matemática e pintura no final da Idade Média, ver J. V. Field ‘Mathematics and the Craft of Painting: Piero della Francesca and Perspective’, em seu e de Frank A. J. L. James (eds. e intr.), Renaissance and Revolution: Humanists, Scholars, Craftsmen and Natural Philosophers in Early Modern Europe (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), pp. 73-95. Field salienta o impulso euclidiano em vez de ptolomaico. Marinheiros ingleses começaram, no século XVI, a empregar observações astronômicas e cálculos matemáticos na navegação em vez de dependerem largamente de experiência prática. Ver See S. Rose, ‘Mathematics and the Art of Navigation: The Advance of Scientific Seamanship in Elizabethan England’, Transactions of the Royal Historical Society, 14 (2004), 175-84.

16 Aqui, e no que se segue, eu desenvolvo a partir de P. Damerow, J. Renn, S. Rieger and P. Weinig, Mechanical Knowledge and Pompeian Balances, Preprint 145 (Berlin: Max-Planck-Institut für Wissenschaftsgeschichte, 2000). See also G. E. R. Lloyd, Greek Science after Aristotle (London: Chatto and Windus, 1973), p. 48.

17 Ver Grant (ed.), Source Book, pp. 223-24, n. 22.

18 Os pensamentos de Arquimedes sobre isso estão entesourados em The Method, um tratado incompleto. Eles endereçavam-se a Eratóstenes, famoso por seu método para calcular a circunferência da terra. Ver a tradução em T. L. Heath, The Works of Archimedes (Cambridge: Cambridge University Press, 1912). O professor Lloyd comentou-me: ‘Eu não acho que você tenha compreendido muito bem a mecânica em Arquimedes. Não é que ele tentasse um problema mecânico primeiro e, em seguida, convertesse-o em análise geométrica. O problema é matemático desde o princípio. O uso da mecânica está limitado à aplicação das duas ideias de que a figura geométrica pode ser pensada como equilibrada ao redor de um fulcro’.

19 Ver Grant (ed.), Source Book, pp. 75-6.

20 Citado por O. Pedersen and M. Pihl, Early Physics and Astronomy: A Historical Introduction (London: Macdonald and Jane’s and New York: American Elsevier Inc., 1974), p. 210.

21 É interessante que as palavras ‘teste (test)’ e ‘ensaio (testing)’ relacionem-se com o latim ‘testa’, significando um pote ou vaso de barro empregado em operações metalúrgicas.

22 A. Rupert Hall, ‘Early Modern Technology to 1600’, in M. Kranzberg and C. W. Pursell, Jr. (eds.), Technology in Western Civilization, Vol. 1 (New York: Oxford University Press, 1967), p. 94.

23 Aqui eu desenvolvo pesadamente a partir de F. Greenaway’s ‘Contribution to the Discussion of Part Three: Science and Technology in the Middle Ages’, in Crombie (ed.), Scientific Change, pp. 329-31.

24 A. J. Ihde, The Development of Modern Chemistry (New York: Evanston; London: Harper and Row, 1964), p. 23.

25 Crombie, Styles, Vol. 1, pp. 421-22.

26 Ver M. Teich, ‘Circulation, Transformation, Conservation of Matter and the Balancing of the Biological World in the Eighteenth Century’, Ambix, 29 (1982), 17-28.

27 A Escola de Merton incluía Thomas Bradwardine (c. 1290-1349), John Dumbleton (morreu c. 1349), William Heytesbury (fl. 1235), Richard Swineshead (fl. 1340-1355).

28 Grant, Foundations, p. 101.

29 J. Buridan, The Impetus Theory of Projectile Motion. Trad., intr., and anotado por Marshall Clagett, em Grant (ed.), Source Book, pp. 275-76.

30 De acordo com Buridan, ‘pela quantidade [que] o motor mover esse corpo movente mais rapidamente, pela mesma quantidade ele imprimirá nele um ímpeto mais forte’. Ibid., p. 277. Essa medida de impetus, como tem sido frequentemente observado, lembra o momentum de Newton, como definido pelo produto da massa multiplicada pela velocidade.

31 Ibid., pp. 277-78.

32 Ver Crombie, Augustine to Galileo, p. 255.

33 Ver N. Oresme, The Configurations of Qualities and Motions, including a Geometric Proof of the Mean Speed Theorem. Trad., intr., and anotado por Marshall Clagett, em Grant (ed.), Source Book, pp. 243-52.

34 Kaye, Economy and Nature, p. 204.

35 Ibid., p. 206.

36 Grant (ed.), Source Book, p. 529.

37 O título do trabalho é dado como Tractatus de origine et natura, iure, et mutationibus monetarum e considera-se que tenha sido escrito entre 1355-1360. Ver Charles Johnson (ed. e trad.), The “De moneta” of Nicholas Oresme and English Mint Documents (London: T. Nelson, 1956).

38 Kaye, Economy and Nature, pp. 9-10. Para um estudo relacionado, ver A. W. Crosby, The Measure of Reality: Quantification and Western Society, 1250-1600 (Cambridge: Cambridge University Press, 1998).

39 Aqui eu desenvolvo a partir da estimulante Geschichte der Impetustheorie (Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1978), de M. Wolff, pp. 163f.; ver também idem, ‘Mehrwert und Impetus bei Petrus Johannis Olivi’, in J. Miethke and K. Schreiner (eds.), Sozialer Wandel im Mittelalter (Sigmaringen: Thorbecke, 1994), pp. 413-23. Para uma abordagem aristotélico-biológica da teoria do impetus, ver J. Fritsche, ‘The Biological Precedents for Medieval Impetus Theory and its Aristotelian Character’, The British Journal for the History of Science, 44 (2011), 1-27. Para informação adicional, ver R. W. Hadden, On the Shoulders of Merchants Exchange and the Mathematical Conception of Nature in Early Modern Europe (Albany, N.Y.: State University of New York Press, 1994), p. 100.

40 Kaye, Economy and Nature, pp. 245-46. Ver também J. Day, ‘Shorter Notices’, The English Historical Review, Vol. 109/432 (1994), 701.

41 D. Abulafia, ‘The Impact of Italian Banking in the Late Middle Ages and the Renaissance, 1300-1500’, in A. Teichova, G. Kurgan-van Hentenryk and D. Ziegler (eds.), Banking, Trade and Industry: Europe, America and Asia from the Thirteenth to the Twentieth Century (Cambridge: Cambridge University Press, 1997), pp. 18, 31.

42 S. Shapin, The Scientific Revolution (Chicago, IL and London: University of Chicago Press, 1998), p. 33.

43 ‘Desiderant omnes philosophi recentiores physica mechanice explicari’. Citado por H. Mayer, ‘Gott und Mechanik Anmerkung zur Geschichte des Naturbegriffs im 17. Jahrhundert’, in S. Mattl and others, Barocke Natur (Korneuburg: Ueberreuter, 1989), p. 12.

44 S. Shapin and S. Schaffer, Leviathan and the Air-Pump: Hobbes, Boyle, and the Experimental Life (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1985), p. 1. Nota: “O pai do motor a vapor seria um título melhor para Robert Boyle do que o de ‘pai da química’”. A. Rupert Hall, The Revolution in Science, 1500-1750 (London and New York: Longman, 1983), p. 338.

45 S. A. Bedini and D. J. da Solla Price, ‘Instrumentation’, in Kranzberg and Pursell, Jr. (eds.), Technology, Vol. 1, p. 178.

46 Esta e a citação seguinte são de J. G. Crowther, The Social Relations of Science (New York: The Macmillan Company, 1942), pp. 364-65.

47 Hagecius tem um lugar na história da astronomia. Primeiro, seus achados relacionam-se à descoberta de uma nova estrela na constelação de Cassiopeia (1572). Ele estabeleceu que a estrela precisa estar mais distante da Terra do que a lua e portanto precisa ser uma estrela fixa. Essa declaração contribuiu para a substituição da doutrina aristotélica de duas regiões desconectadas, a sublunar e supralunar. Ele adotou uma linha semelhante em seu escrito sobre o cometa que apareceu em 1577. Além disso, ele esteve por trás do convite de Rudolph II para Tycho Brahe (1546-1601) mudar-se para Praga. A vida e o trabalho de Hagecius são examinados por dezoito autores na coleção editada por P. Drábek, Tadeáš Hájek z Hájku (Prague: Společnost pro dějiny věd a techniky, 2000). O estoque de conhecimento concreto sobre a vida de Hagecius é criticamente examinado por J. Smolka, ‘Thaddaeus Hagecius ab Hayck, Aulae Caesarae Majestatis Medicus’, em Gertrude Enderle-Burcel, E. Kubů, J. Šouša and D. Stiefel (eds.), “Discourses – Diskurse” Essays for – Beiträge zu Mikuláš Teich & Alice Teichova (Prague and Vienna: Nová tiskárna Pelhřimov, 2008), pp. 395-412. Para uma breve introdução em inglês ao período, incluindo a significância de Hagecius, ver J. Smolka, ‘The Scientific Revolution in Bohemia’, in Porter and Teich (eds.), Scientific Revolution, pp. 210-39. Para uma resposta inglesa à descoberta de uma nova estrela em Cassiopeia, ver S. Pumfrey, ‘“Your Astronomers and Ours Differ Exceedingly”: The Controversy over the “New Star” of 1572 in the Light of a Newly Discovered Text by Thomas Digges’, The British Journal for the History of Science, 44 (2011), 29-60.

48 Os elementos dessa economia ecoam em um bem conhecido ditado alemão contemporâneo: ‘Schäfereien, Brauereien und Teich, machen die böhmischen Herren reich’.

49 Shapin and Schaffer, Leviathan, p. 339.

50 Ibid., p. 92.

51 Cf. descrição promocional de Hobbes and Republican Liberty (Cambridge: Cambridge University Press, 2008), de autoria de Quentin Skinner.

52 Shapin and Schaffer, Leviathan, pp. 99, 109.

53 Ibid., p.91. Aqui, talvez, seja apropriado fazer referência à atenção que Quentin Skinner concede à descrição da liberdade por Hobbes em Leviathan ‘de acordo com a significação própria da palavra’: ‘Logo que nós deixamos o mundo da natureza, contudo, e entramos no mundo artificial da comunidade (commonwealth), nós nãos somos mais simples corpos em movimento; nós também estamos sujeitos ao poder soberano’. Skinner, Hobbes, pp. 162-63. O livro de Shapin e Schaffer não está listado entre as ‘Fontes secundárias impressas’ de Skinner.

54 P. Anderson, Lineages of the Absolute State (London: New Left Books, 1974), p. 11.

55 Rupert Hall, Revolution, p. 260.

56 M. Boas Hall, ‘Science in the Early Royal Society’, in M. Crosland (ed.), The Emergence of Science in Western Europe (London and Basingstoke: Macmillan, 1975), pp. 61-2.

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