O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada
Parte IV Hiperconectividade
Visões e Exemplos de Hiperconectividade
por Jean-Gabriel Ganascia
[65]1 Preliminares
Não pode haver de dúvida de que as tecnologias de comunicação e informação (TCIs) impactaram profundamente a sociedade humana. A dificuldade em avaliar o efeito delas e antecipar-se às mudanças concomitantes jaz na profundidade desse impacto. Em uma tentativa de entender as evoluções presentes, nós propomo-nos a descobrir a estrutura subjacente a esse novo mundo ao revisitar suas dependências da hiperconectividade (hyper-connectivity) sobre a qual ele está fundamentado, e as consequências dessa hiperconectividade, ao modificar profundamente a rede de relações interindividuais. Onde nós estávamos acostumados a termos de dez a cinquenta amigos íntimos vivendo próximos de nós, com os quais nós compartilhávamos relações de convivência, agora nós podemos ter centenas de conhecidos vivendo em outros continentes, com os quais nós atualmente trocamos informação especializada sobre nossos principais campos de interesse que podem ser profissionais, artísticos ou relacionados a qualquer tipo de hobby. Segue-se naturalmente dessas grandes mudanças na escala e natureza das relações individuais, que o tecido social está evoluindo dramaticamente. Portanto, para citar Aristóteles, uma vez que “o homem é por natureza um animal social,” a humanidade está mudando porque a sociedade está mudando. Mas, como estão mudando os seres humanos e a sociedade? E o que significa ser humano nesta nova sociedade? Essas são as questões que nós gostaríamos de tratar.
Além disso, o mundo hiperconectado também é um mundo de hipermemorabilidade (hyper-morisability), onde toda a informação é armazenada em imensos bancos de dados e acessível a qualquer tempo a partir de qualquer lugar, sem qualquer esquecimento. E é um mundo da hiper-reprodutibilidade (hyper-reproducibility) e hiperdifusabilidade (hyper-diffusibility), onde todo o conhecimento, e de modo mais geral, todas as obras da mente, ou seja, a música, todas as pinturas, todos os filmes, etc., podem ser livre e massivamente reproduzidas. Assim, a maneira pela qual os indivíduos acessam o conhecimento, bem como o conteúdo interno das memórias deles, estão profundamente modificados, o que transforma as habilidades cognitivas humanas.
[66]Contudo, nós pensamos que a hiperconectividade é o principal fator de mudança, o que significa que, mesmo se nós encarássemos imensas transformações cognitivas individuais, essas teriam muito menos influência na sociedade do que a conectividade em rede. Nosso capítulo investiga esse ponto ao referi-se a alguns exemplos concretos. Mais precisamente, ele primeiro mostra que a análise das redes sociais não pode ser reduzida ao estudo da topologia das conexões, mas tem de levar em conta os processos e suas dependências recíprocas, ou seja, suas relações de sincronicidade ou dependência. Em seguida, ele analisa a natureza das transformações presentes em três exemplos que se referem respectivamente à mudança em nosso acesso ao conhecimento, à mudança na solidariedade e assistência entre pessoas e, em terceiro lugar, ao status e natureza da obra artística. Em cada caso, a rede influencia as relações de poder. Antigas autoridades bem estabelecidas são questionadas enquanto novas formas de domínio emergem.
Em outras palavras, ao lado das três questões kantianas tradicionais, “O que eu posso conhecer?”, “O que eu devo fazer?” e “O que eu posso esperar?”, nós gostaríamos de responder três questões atuais, “Como eu agora posso conhecer?”, “Como eu agora tenho de agir?” e “Como eu agora posso esperar?”, onde o “como” refere-se às maneiras pelas quais as coisas são feitas e, mais precisamente, às relações de poder que tornam as coisas possíveis ou impossíveis.
Nos lidamos com a primeira questão ao estudar a maneira pela qual o conhecimento comum é construído numa enciclopédia colaborativa, a saber, a Wikipedia, a qual muito se aproveita das propriedades de hiperconectividade de rede. Note que, com modernos computadores e redes de telecomunicação, o papel e o status dos experimentos estão mudando, o que contribui para uma ruptura (breakthrough) epistemológica (Ganascia 2008) e, portanto, para a construção do conhecimento. Contudo, o que nos interessa aqui não é a maneira pela qual novo conhecimento é construído por cientistas, mas a maneira pela qual conhecimento comum é disseminado através da sociedade inteira quando autoridades tradicionais não são mais válidas.
A segunda questão é ilustrada por um exemplo muito particular, que é a surpreendente evolução das associações de pacientes com os progressos nas tecnologias de comunicação. Isso ilustra claramente as novas formas de solidariedade que emergem em uma sociedade em rede. Por último, nós lidamos com reconhecimento social, que é a esperança derradeira dos seres humanos, em uma sociedade onde a abundância de informação obscurece as contribuições e méritos de todos os tipos.
2 Democracia G-rid
2.1 Evolução do Tecido Social
Com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação, o entrelaçamento de relações interindividuais torna-se progressivamente intrincado e difícil de compreender. Durante milhares de anos as relações têm sido principalmente estruturadas hierarquicamente por famílias ou tribos, e mais ou menos ancoradas no território.
[67]A invenção da escrita, transporte a cavalo, técnicas de impressão, a bússola, vela triangular, máquinas a vapor, o telégrafo, o rádio, o telefone e agora a web contribuíram para a extensão das interações humanas para espaços mais amplos (Poe 2011). Relações de autoridade têm sido expandidas em alcance; da família, grupo, tribo e cidade ao reino, nação, império, continentes, etc. E as ferramentas de comunicação desempenharam um papel central nessas transformações políticas. Em paralelo à extensão do alcance das interações sociais, as sociedades frequentemente têm admitido simultaneamente diferentes poderes, por exemplo, temporal versus espiritual, local versus global, corporativo versus central, etc, concomitância que tem sido facilitada pelo desenvolvimento das tecnologias de comunicação. Por exemplo, técnicas de impressão desempenharam um papel importante na disseminação de ideias, o que contribuição para a ascensão do Protestantismo. Na mesma veia, o custo decrescente do papel e a industrialização dos processos de imprensa no século XIX permitiram a emergência de uma imprensa popular com ampla audiência.
Aqui, nós tentamos traçar um paralelo entre o tecido social, que resulta do entrelaçamento de relações individuais, e computação distribuída. Mais precisamente, para registrar a estrutura das sociedades modernas, nós referimo-nos à topologia das redes de computador e à arquitetura de máquinas paralelas. Nós esperamos que isso ajudar-nos-á a ver a condição humana “OnLife” a partir de um ângulo novo e frutífero e que isso também poderia ajudar a clarificar a noção de hiperconectividade, acima referida.
2.2 Modos de Difusão
Parece óbvio que as conexões entre humanos dependem de sua habilidade para trocar informação e da maneira como eles comunicam-se, ambas grandemente afetadas pelo desenvolvimento das TCIs. Classicamente, engenheiros de telecomunicação distinguem diferentes modos de difusão: unicast, onde a troca de informação ocorre de um ponto – o emissor – a outro – o receptor, broadcast, onde um ponto – o emissor – envia simultaneamente para todos os outros pontos, e o multicast, onde a informação é distribuída de um ponto para um conjunto selecionado de receptores. Esses modos podem facilmente ser reusados para qualificar as comunicações humanas, as quais podem ser assimiladas ou à trocas interindividuais, ou seja, unicast, ou a coletivas, ou seja, multicast. Contudo, comunicações naturais não permitem troca de uma pessoa para todas, quer dizer, em termos técnicos, broadcast de informação. É somente com a mídia de massa, no final de século XIX, ou seja, com o desenvolvimento do jornal, e no século XX, com o rádio e a televisão, que broadicasting decolou.
Observe que, em adição a esses diferentes modos de difusão, os quais definem lógicas diferentes de comunicação, a proximidade espacial desempenha um papel importante, ou mais precisamente, desempenhou um papel crucial durante milhares de anos, enquanto que hoje, com comunicações eletrônicas, ela não desempenham um papel em absoluto. Mais precisamente, aprimoramentos tecnológicos aumentam o alcance e a velocidade das trocas de informação, em último caso tornando todas as comunicações quase instantâneas sobre a superfície da terra.
[68]Por último, há múltiplas redes de comunicação que podem coexistir simultaneamente, o que não quer dizer que nem todos têm acesso a todas essas redes. De fato, por diferentes razões, relacionadas, por exemplo, à proximidade física, linguagem usada, equipamento necessário, etc, são barreiras entre as redes que são difíceis de cruzar. Contudo, com a Internet essa multiplicidade de redes coexistentes tende a ser reduzida. Para ilustrar isso, permita-nos lembrar a nós mesmos que a palavra Internet é uma abreviação da locução entre-rede (inter-network), o que significa que essa rede originariamente se constituiu como uma tentativa de conectar todas as redes anteriormente existentes.
2.3 Topologia de Rede
A topologia de rede corresponde ao arranjo de nós através de conexões, ou seja, à estrutura da rede. Ela pode ser forte ou fracamente conectada e mais ou menos centralizada, o que corresponde a formas diferentes. Entre as principais formas correntes, nós podemos incluir, anéis, estrelas, barramentos (buses), hierarquias, árvores, rede em malhas (mesh network), grafos parcial ou totalmente conectados, etc. Em adição à forma, cardinalidade, etc, ou seja, o tamanho e o grau dos nós caracterizam a rede. A forma depende pesadamente do modo de difusão. Por exemplo, unicast dá origem a topologias como anéis, enquanto broadcast facilita a emergência de estrelas e multicast gera hierarquias. Também parece claro que as duas últimas características das redes, cardinalidade e o grau dos nós, são fortemente influenciadas pelo desenvolvimento de tecnologias, o que aumenta consideravelmente o número de pessoas a quem cada um pode estar conectado.
A topologia certamente impacta as relações de poder, as quais, por sua vez, influenciam formas políticas de uma maneira que ainda não é inteiramente entendida. Por exemplo, a escrita foi inventada na Mesopotâmia para o bem da administração Real, a qual esperava centralizar informação. Na passagem para o século XVIII, o desenvolvimento das técnicas de impressão e serviços postais públicos de correio baseados no transporte moderno (carruagem-correio (mail coach) e estradas de ferro) contribuíram para a criação de redes hierarquicamente organizadas que impuseram o poder das administrações. O desenvolvimento de mídia de massa broadcasted no século XX com o rádio, filmes e televisão ajudou regimes totalitários a prevalecer usando propaganda. Contudo, a escrita não foi somente usada pelo poder central na Mesopotâmia e muito logo os poetas tiraram vantagem da escrita para brincar com palavras e signos (Glassner 2000). Além disso, no século XX, o propósito único do broadcast não apenas possibilitou regimes totalitários a imporem seu poder sobre os indivíduos.
Hoje, a web constitui uma rede completamente conectada que cobre o planeta inteiro. Sua topologia é estudada por uma nova ciência de rede que tentar entender as propriedades de grafos imensos. Além do tamanho dessa rede e sua “desterritorialização” (ou seja, o fato de que as conexões são independentes da terra), o modo de difusão da Internet, que é principalmente unicast e multicast – em contraste com a mídia de massa, essencialmente broadcast – transforma grandemente a forma da rede, quebrando clássicas topologias bem-ordenadas como estrelas, anéis ou hierarquias, para tornar-se uma imensa rede em malha.
[69]A web certamente afetará as formas políticas; algumas pessoas afirmam que ela dará nascimento a uma nova democracia participativa, sob a qual a influência da nação é diminuída ou onde a soberania não mais se sustenta. Mesmo assim, a emergência recente do populismo na Europa mostra a fraqueza dessas suposições. Ocorre o mesmo com o reforço de partidos islâmicos tradicionais após a Primavera Árabe, no Oriente Médio e em muitos países árabes (por exemplo, Egito, Líbia, etc) onde regimes autoritários foram depostos. Para concluir, nós não podemos extrapolar a natureza exata da transformação a partir de uma análise da topologia da rede, nem nós podemos usá-la para caracterizar adicionalmente o estado da sociedade como se, em si mesma, a topologia fosse estática e consequentemente não refletisse processos sociais e a parte que ele desempenha na evolução da sociedade.
2.4 Instituições como Processadores
Para abordar a dinâmica social, eu proponho referir-me às instituições vistas como relativamente estáveis estruturas formais e sociais que se pretende desempenharem um papel na sociedade. Essa definição de instituição é suficientemente vaga para ser discutida, mas o propósito aqui não é dar uma explicação precisa desse conceito. Nós apenas queremos examinar as estruturas sociais encarregadas de coordenar atividades humanas tais como família, escola, universidade, polícia, justiça, etc. Cada uma dessas instituições está encarregada de reprodução, a escola com educação, a polícia com repressão, a justiça com a punição por infração da lei, etc. Para realizarem essas funções, as instituições podem ser vistas como processadores que têm tarefas a sua disposição. Por exemplo, escolas fornecem ensino, justiça considera violações da lei e coloca pessoas na prisão ou faz com elas paguem multas, a polícia prende criminosos, etc.
Nos tempos antigos, quando as pessoas estavam agrupadas em tribos, cidades ou reinos pequenos, as decisões eram centralizadas em um lugar único, a ágora, o senado ou o palácio do monarca. Usando a metáfora do computador, nós podemos então assimilar instituições a processadores únicos, eventualmente processadores multitarefa, quando a mesma instituição, por exemplo, a ágora, possui funções diferentes.
Contudo, com a extensão geográfica das entidades políticas, o número crescente de pessoas e a multiplicação de tarefas, as instituições não podem estar inteiras em um único lugar. Elas necessitam dividir-se e trabalhar em paralelo. Portanto, é possível analisar as instituições como processadores em paralelo.
2.5 Computação Paralela
Antes de entrar nos detalhes da análise de instituições como processadores paralelos, deixe-nos lembrar a nós mesmos de que pessoas classicamente distinguem fluxo de dado (data flow) de fluxo de informação (information flow), ambos só quais podem ser únicos ou múltiplos. Isso deu origem a quatro possibilidades que são, IUDU (instrução única, dado único), IUDM (instrução única, dados múltiplos), IMDU (instruções múltiplas, dado único) e IMDM (instruções múltiplas, dados múltiplos). Além disso, junto com computação em grade (grid computing), recentemente apareceu a possibilidade de distribuir computação através de miríades de processadores distantes que estão disponíveis através da Internet.
[70]Como dito anteriormente, instituições clássicas podem ser assimiladas a IUDUs, uma vez que elas funcionam como um processador central, mas, tão logo a tarefa torne-se complexa, as assembleias tendem a dividir-se em comissões especiais que podem ser vistas como IMDUs, pois algoritmos diferentes, baseados em diferentes conhecimentos de fundo, funcionam em paralelo no mesmo conjunto de dados.
Pode acontecer que algumas instituições tenham de aplicar os mesmos procedimentos em dados diferentes, o que corresponde á arquitetura IUDM. Obviamente, esse é o caso com escolas tendo de ensinar as mesmas coisas a diferentes pupilos organizados em diferentes aulas. Também é o caso com a justiça, a qual tem de julgar todas as violações da lei com as mesmas regras.
Por último, algumas instituições modernas podem aceitar simultaneamente instruções múltiplas e dados múltiplos (IMDM). Contudo, qualquer que seja a arquitetura de processador corresponda às instituições, é usualmente bem-ordenada de uma maneira que se previnam conflitos.
2.6 Computação em Grade e Democracia Moderna
Como dito anteriormente, devido aos muitos computadores conectados à Internet, agora é possível distribuir computações para processadores distantes disponíveis através da web. Isso corresponde a computação em grade, acima mencionada, a qual permite o compartilhamento livre de recursos heterogêneos e deslocalizados.
Com a Internet, instituições tradicionais, e especialmente instituições democráticas que contribuem para o governo, por exemplo, assembleias, votação, etc, tendem a ser altamente transformadas. A noção de representação política, a qual tem sido considerada como necessária por causa das dificuldades de comunicação, tende, mais e mais frequentemente, a ser substituída por partes interessadas (stakeholders), os quais podem ser organizações não governamentais, sociedades privadas, associações, etc. Como uma consequência, a arquitetura geral que corresponde à nova paisagem social não é mais hierárquica, nem circular nem “estrelada”, mas em malha (meshed), pois as conexões são criadas mais ou menos aleatoriamente entre instituições, quando requeridas, não mais com restrições geográficas, morais ou legais.
Além dessa topologia em malha, as instituições realizam tarefas sob demanda, de acordo com suas próprias agendas e a disponibilidade delas. Isso resulta em um cenário totalmente distribuído e deslocalizado, correspondendo ao modelo da computação em grade. Colocado de outro modo, o modelo geral no qual a democracia é baseada não é mais uma democracia centralizada como na Grécia Antiga, com instituições como a ágora. Nem é uma democracia representativa baseada nas instituições legais da Idade Moderna, com assembleias, votação, constituições, etc. Ela corresponde a uma nova forma de democracia que nós devemos chamar de “Democracia em Grade (Grid Democracy),” porque sua estrutura reflete a arquitetura de computação em grade, ou seja, uma topologia em malha e processos de decisão distribuídos e deslocalizados.
2.7 Democracia G-rid
Para concluir, deixe-nos lembrar que cientistas da computação sabem que a mudança de arquitetura requer mudança de algoritmos. A introdução de computação paralela [71]força-nos a repensar os processos que resolvem tarefas, de acordo com o tipo de paralelismo usado (IUDU, IMDU, …). Algumas vezes, isso pode levar a soluções muito eficientes, mas nem sempre; em qualquer caso, o que quer que aconteça, nós precisamos reescrever totalmente os programas de acordo com o tipo de paralelismo que está implementado.
Parece ser o mesmo com a “democracia em grade”: os procedimentos que as instituições democráticas implementam, como votação, decisões, consulta pública, etc, necessitam ser repensados e reescritos. De uma maneira, isso parece ser muito positivo, porque as antigas hierarquias e relações autoritárias tradicionais parecem desaparecer, o que significa que com a “democracia em grade” a democracia livra-se de restrições antigas e embaraçosas. Mas, dessa maneira, a democracia também se livra de muitas instituições democráticas tradicionais e o medo é que isso poderia levar a democracia mesmo sendo eliminada.
3 Wikipedia, uma Utopia Realizada
3.1 Evolução da Governança Editorial
Com o desenvolvimento das TCIs, as restrições físicas relacionadas à produção e leitura de livros foram significativamente reduzidas. Muito cedo, muitos alegraram-se com as novas possibilidades que pareciam estar se abrindo. Eles viram uma grande flexibilidade no desenvolvimento e atualização de enciclopédias e na consulta as mesmas. Eles também viram a possibilidade de reduzirem muito os custos de manufatura e distribuição, uma vez que não era mais necessário recorrer à impressão em papel. Muito cedo, alguns esperaram explorar essas técnicas para transformar os procedimentos de validação e ter o leitor a desempenhar um papel mais importante na criação de enciclopédias. Alguns mesmo imaginaram que todos seriam capazes de contribuir livremente para o conteúdo de enciclopédias.
Mais precisamente, a estrutura da Internet permite aos leitores participarem no processo de escrita ao darem suas opiniões e ao iniciarem ou modificarem artigos. Leitores tornaram-se escritores e podem decidir por eles mesmos os itens que eles querem. O papel dos editores é então transformado: eles não mais criam ordem. Eles arbitram conflitos entre autores / escritores e asseguram que as regras básicas de ética, por exemplo, a regra da neutralidade, sejam respeitadas.
Isso resultou em novas formas de governança editorial para escritos enciclopédicos, caracterizados por uma inversão, mais ou menos extensiva, da hierarquia social para a administração desses projetos. Este texto fornece uma explicação da governança de alguns projetos editoriais enciclopédicos, notadamente aquele da Wikipedia.
Note-se que no começo, muitos dos especialistas bem informados pensaram que era impossível fazer do leitor um escritor. Por exemplo, eu organizei um grupo de trabalho em 1995 sobre a evolução de livros (Ganascia 1995). Enquanto alguns sugeriram a possibilidade de, com a web, construir uma enciclopédia aberta, o mais eminente especialista nesse grupo, Sylvain Auroux, um famoso linguista e editor de muitos livros coletivos e enciclopédias, afirmou que uma enciclopédia necessita de um fechamento. O que é interessante com o projeto da Wikipedia é que ele negou tais [72]reivindicações autoritárias. Contudo, como nós devemos ver, ele substitui uma nova organização por uma antiga, o que é interessante de analisar.
3.2 Governança Tradicional de Projetos Editoriais
Para entender o que aconteceu, primeiro vamos lembrar que a palavra “enciclopédia” vem etimologicamente de “círculo”: uma enciclopédia visa circular e encerrar todo o conhecimento humano em um dado momento. Para esse fim, é feito uso dos melhores especialistas em todos os campos do conhecimento. A Enciclopédia de Diderot e d’Alembert, no século XVIII, é muito ilustrativa dessa ideia: ela recorreu a 160 contribuidores, com vários treinamentos e empregos. Juntos ele escreveram 72.000 artigos.
Para implementar um tal projeto, uma organização rigorosa fora erguida. Os enciclopedistas distinguiram três funções entre as quais eles estabeleceram uma hierarquia estrita?
Editor: responsável por recrutar autores, ordenar e monitorar o trabalho deles,
Autores, escolhidos e controlados pelos editores e
Leitores, quem se supunha nem que contribuíssem, nem participassem de qualquer maneira da criação da enciclopédia.
Os editores pediam aos autores para escrever os artigos sobre tópicos pré-especificados. Os autores faziam as cópias deles sob a autoridade dos editores e tinham de revisar as contribuições deles de acordo com os comentários dos editores. Finalmente, os leitores ficavam felizes de conseguirem o produto acabado, sem intervirem em momento nenhum de sua realização.
3.3 Facilidades Induzidas por TCIs
Com a introdução de TCIs, muitas restrições técnicas que influenciaram a realização das enciclopédias tradicionais foram removidas. Falando brevemente, abaixo estão algumas dessas restrições desaparecentes.
Não é mais necessário imprimir uma enciclopédia para broadcast.
Uma vez que não há mais impressão em massa, o custo de distribuição da enciclopédia é extremamente pequeno, em última análise tornando-se quase insignificante.
A enciclopédia é acessível a qualquer tempo, em qualquer lugar sem qualquer problema de roteamento. Como um resultado, a audiência potencial é vasta, uma vez que todos os humanos que leem a linguagem na qual a enciclopédia está escrita são prováveis de usá-la.
Com a comunicação ponto a ponto, os leitores podem facilmente enviar comentários e trocas sobre os artigos que ele leram. Eles também podem reescrevê-los.
[73]Esses quatro pontos têm duas consequências principais:
Uma vez que os custos de produção e distribuição são virtualmente zero nós podemos facilmente multiplicar versões, ao ponto de criar mudanças locais sempre que pareça apropriado, sem esperar por uma revisão global. Nada proíbe uma reescrita permanente ou mesmo uma escrita contínua da enciclopédia.
Uma vez que leitores podem enviar seus comentários, nada nos previne de tomar vantagem de suas contribuições e - por que não? - oferecê-los a oportunidade de escreverem artigos e tornarem-se autores.
Tudo isso leva a evoluir a tríade clássica “autor – editor – leitor” (Ganascia e Lebrave 2002). Os resultados dessas mudanças têm trazido novos modos de governança para o processo editorial. Contudo, a tecnologia não é determinística: ela não induz um modo único de governança; várias organizações editoriais enciclopédicas online coexistem hoje. Para não estender o texto desta contribuição muito longe, nós restringimo-nos aqui à representação do modelo de governança da Wikipedia, mas há muitos outros (de Laat 2011).
3.4 Governança Editorial na Wikipédia
O modelo da Wikipédia foi desenvolvido a partir de 2001. Ele mudou totalmente o jogo ao requerer a recusa de qualquer hierarquia social ou qualquer forma de estratificação.
Para avaliar o impacto desse modelo, é difícil falar de sucesso ou realização, pois é um massivo fenômeno social.
Os números falam por si mesmos: mais de 2 milhões de artigos em inglês (setembro de 2012), mais de 22 milhões de artigos em 285 idiomas, 77.000 contribuidores ativos e alguns 470 milhões de visitantes por mês (fevereiro de 2012).
Por trás desse sucesso surpreendente, há um projeto social. Os projetistas dessa enciclopédia dão a entender criar uma forma de democracia baseada no modelo de auto-organização completado por uns poucos princípios éticos básicos, por exemplo, o requerimento de neutralidade e a proibição de intervenção em um artigo sobre uma questão que nos diz respeito diretamente.
Mais precisamente, a enciclopédia Wikipedia envolve categorias diferentes de atores que realizam funções diferentes, mas, entre os quais, reivindica não estabelecer nenhuma hierarquia, preferencialmente apenas regulamentos ou regras:
Jimmy Wales, nominalmente em uma posição de autoridade última,
O comitê de arbitragem (15-18 membros)
Os “Burocratas” (34)
Os Administradores (700 aproximadamente),
Observe-se que os administradores, “burocratas” e o Comitê de Arbitragem devem assegurar que os princípios da enciclopédia sejam respeitados. Eles não interveem nos conteúdos de artigos.
[74]Editores temáticos (eleitos – 70-80% de taxa de aceitação), esses suportam itens sobre os quais eles monitoram os desenvolvimentos
Contribuidores (77000 registrados)
Leitores registrados que votam,
Visitantes (15 milhões por dia em fevereiro de 2012), e finalmente,
Robôs (bots)(ou seja, agentes de inteligência artificial) que corrigem automaticamente erros de grafia, sintaxe ou itens de apresentação.
Essa estrutura organizacional é completada por mecanismos de supervisão. Através deles, editores especializados examinam as correções dos itens que eles suportam para localizarem atividades anormais, as quais são principalmente correções recorrentes dos mesmos itens. Isso ajuda a lutar contra o que os desenvolvedores dessa enciclopédia chamam de “vandalismo” e que consiste em, pela maior parte, grandes corporações ou associações alterarem artigos que digam respeito a elas a fim de melhorarem suas imagens.
Assim, regularmente há representantes de instituições, corporações, partidos políticos ou posições filosóficas (por exemplo, criacionistas), quem tentam corrigir artigos sobre eles mais ou menos diretamente, o que vai contra o princípio da neutralidade com o qual a Wikipedia conta. Considerados inconsistente com as regras éticas básicas, semelhantes comportamentos são estritamente condenados. Mais precisamente, eles podem continuar a consultar a enciclopédia, mas não são capazes de modificar artigos relacionados aos seus assuntos.
3.5 Um Sucesso Inesperado
Em conclusão, primeiro vamos lembrar que o sucesso da Wikipedia foi muito inesperado. Antes da Wikipedia, os modelos de enciclopédias colaborativas, as quais eram baseadas em contribuições públicas livres e espontâneas, surpreenderam a maioria dos especialistas em editoração de enciclopédias. Para eles, era mais uma visão utópica e ingênua do que uma realidade possível.
Como uma consequência do sucesso dos novos modelos, parece que os modelos antigos, baseados no respeito por habilidades e conhecimentos, estão em risco de desaparecer. Contudo, os novos modelos, especialmente o representado pela Wikipedia, levantam muitas questões sobre o status do conhecimento na sociedade, seu financiamento e controle, e sobre aqueles quem podem e precisam exercer controle. A esse respeito, há a preocupação de que grupos pouco qualificados, grupos fundados por governos ou grupos de pressão privados prevaleçam sobre os especialistas. Ou, por outro lado, que as regras aplicadas muito estritamente restrinjam a liberdade dos autores.
Independentemente dessas questões sobre o novo status do conhecimento na sociedade, nós temos aqui um exemplo concreto de um modelo moderno de governança acarretado pelo desenvolvimento das TCIs. Esse modelo de governança é interessante por si mesmo. Mas ele poderia ser generalizado para outras instituições online.
[75]4 Fortunas e Infortúnios das Associações de Pacientes
4.1 Preliminares
A seção anterior consistiu em uma descrição da enciclopédia Wikipédia, uma ilustração concreta de um novo tipo de utopia realizada graças ao uso de tecnologia da informação. Esta nova secção confronta ideias de Maio de 1968, um período propício a utopias sociais generosas, com a evolução atual da sociedade. Nós consideramos aqui outra ilustração concreta que é focada não no processo editorial, como no caso da Wikipedia, mas na evolução do sistema de saúde e sua organização, em particular na evolução das associações de pacientes. Isso ilustra como relações de solidariedade podem subsistir em uma sociedade em rede e como algumas pessoas promovem novos princípios de ética.
4.2 Breve Recordação Histórica
Há menos de meio século, em quase todos os países ocidentais assim como no mundo socialista e nas nações em desenvolvimento, os papéis sociais eram bem definidos: os professores estavam lá para ensinar, o médico, para curar, o policial, para assegurar a ordem pública, os políticos, para governar, etc. Durante Maio de 1968, me muitos países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos da América, a geração jovem contestou a legitimidade dos papéis sociais tradicionais e a autenticidade de todos os tipos de autoridade. O poder da política, do juízes, dos médicos, dos professores, etc. Nos anos que se seguiram, a sociedade foi atravessada por tentativas de mudar o tecido social, numa maneira que levou a um declínio no pode das autoridades tradicional.
O desenvolvimento de redes de computadores originou-se ao mesmo tempo, no final dos anos sessenta, com a ARPANET, a qual era suportada pela DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency). Não havia conexão direta entre os militares que financiaram a ARPANET e os ativistas políticos na origem dos eventos de 1968. Mesmo assim, uns poucos anos depois, nos anos setenta e oitenta, pessoas que foram fortemente influenciadas pelas ideias do Maio de 1968 em sua juventude, contribuíram grandemente para o desenvolvimento das tecnologias de computador e de redes (Lyotard 1984). Em particular, alguns deles iniciaram o movimento do software livre, o propósito do qual era instituir uma nova ordem econômica baseada numa utopia social que era característica do período (Turner 2006).
Aí naturalmente se seguiu dessas considerações uma questão sobre a natureza e origem mesmas da sociedade OnLife, ou seja, sobre a sociedade que é moldada pelas tecnologias da comunicação e informação e, mais especificamente, pela web: a estrutura dessa sociedade corresponde ao espírito dos movimentos livres de Maio de 1968? Ou é fundamentalmente diferente, e por quê? Em favor da influência de Maio de 1968, alguém pode notar que muitas instituições tradicionais e bem estabelecidas parecem ter perdido seu crédito. A web facilita retroações e relações interativas [76]entre atores, o que proíbe influências unidirecionais. Por exemplo, alguns aplicativos como “rate my professor”1, “review my lawyer”2, “rateMDs” (avalie médicos)3, etc, possibilitam a qualquer estudante, qualquer consumidor, qualquer paciente, etc, dar publicamente sua própria avaliação de autoridades. Adicionalmente, o desenvolvimento de câmeras baratas e leves4 e acoplamento delas à web possibilitou a qualquer um capturar e transmitir (broadcast) informação sensível sobre autoridades, por exemplo, sobre um policial que bate em pessoas numa plataforma de metrô, sem a mediação de intermediários, como jornalistas. Como uma consequência, instituições do estado, jornais, mídia e autoridades tendem a perder seus privilégios exclusivos. De maneira mais geral, o status dominante do conhecimento oficialmente expresso pode ser publicamente desacreditado nas redes. Tudo isso poderia inclinar-nos a concluir que a sociedade em rede realiza o espírito de Maio de 1968. Contudo, contra essa tese, nós notamos que o poder desbalanceado do mercado nunca foi tão importante e que a solidariedade sociais e generosidade pública parecem declinar.
Para tentar responder a essa questão de forma relevante, nós exploramos aqui a questão específica da manutenção da saúde e seus desenvolvimentos recentes. Em particular, nós estamos interessados na organização social dos sistemas de saúde, na evolução da autoridade de médicos e indústrias de saúde, e na influência deles sobre cuidados médicos.
4.3 Nêmesis Médica
Como uma introdução a essa questão, consideremos o trabalho de um famoso ensaísta dos setenta, Ivan Illich, quem era representativo do estado de opinião durante esse período. Ele escreveu muito livros controversos sobre tópicos muito diferentes: por exemplo, ele colocou em questão o papel da educação pública e da escola (Illich 1971), os benefícios da tecnologia (Illich 1974a, 1978a, 1995), a necessidade de trabalhar (Illich 1978a, 1978b), etc. Ele também denegriu a instituição médica em um livro famoso intitulado de “Medical Nemesis” (Illich 1974b) onde ele denunciou a onipotência do conhecimento médico, o que foi bastante incomum para a época. Mais precisamente, ele disse que a maiorias dos sucessos dos quais os médicos prevalecerem na segunda metade do século XIX e no século XX foram ilusórios, pois eles não são devidos à medicina moderna, mas aos progressos sociais, à higiene e à evolução do padrão de vida. Em contraste, ele culpava as autoridades médicas quem, de acordo com ele, foram não somente responsáveis pela introdução de doenças iatrogênicas, ou sejas, das doenças que resultam de tratamentos ou terapias, mas também da engenharia humana, a qual levou ao que ele chamava de “iatrogenia” social, ou seja, ao desenvolvimento de uma vida social e de uma economia sobre controle médico e sobre o domínio da [77]industria da saúde. Em outras palavras, ele acusava o corpo médico de não levar em conta as necessidades reais dos pacientes, mas somente seus próprios interesses.
Ivan Illich propôs algumas soluções para fazer a organização social da saúde mais ao serviço da saúde do que ao serviço da indústria. Entre as quais ele suportava o reconhecimento de muitas profissões de saúde, como fitoterapeutas, massagistas ou instrutores de yoga, contra quem ele chamava de “Mafia Profissional” dos médicos. Ele também recomendava a manutenção da saúde em vez da busca de cuidado (sick-care) e pagamento com uma quantia fixa per capita em vez de uma taxa por serviço (fee-for-service). Mas, a solução mais interessante aqui para nós era o estímulo à medicina orientada ao paciente, em vez de uma medicina centrada no meio. Ele então encorajava os pacientes a organizarem grupos para troca de informações sobre suas doenças e como viver com a doença, e também para pressionarem os governos para darem fundos públicos para pesquisas ou indústrias para projetarem novas terapias, mais adaptadas aos seus casos.
Então, nos anos setenta e oitenta, associações de pacientes para doenças específicas, especialmente doenças crônicas, foram formadas para ajudarem pessoas doenças a encararem as consequências de suas patologias através da troca de informação sobre tratamentos e aspectos práticos da vida social e subsistência. Nessa época, não havia web, mas as associações de paciente tiraram vantagem dos progressos da tecnologia de comunicação e informação, especialmente do telefone, para ajudar as trocas, e o rádio, para anunciar as associações.
4.4 Quarenta Anos Depois
Quarenta anos depois, há dezenas de milhares de associações de pacientes5, todas as quais usam tecnologias de comunicação e informação para assegurar suas promoções, para trocar conhecimento e educar as pessoas. Essas associações não somente ajudam pacientes a obterem informações práticas sobre suas doenças e os tratamentos mais apropriados mas elas agem como lobistas e partes interessadas no domínio da saúde. Por exemplo, elas pressionam autoridades públicas a financiarem tratamentos e pesquisas específicas; elas estimulam indústrias farmacêuticas a desenvolverem novas drogas; elas forçam reguladores a acelerarem os procedimentos de avaliação para facilitar a adoção de novos medicamentos; elas analisam protocolos de pesquisa; elas expõem efeitos colaterais de tratamentos, etc. O caso da AIDS foi particularmente ilustrativo: associações muito fortes de pacientes forçaram as autoridades públicas, industriais e médicas a impulsionarem a pesquisa e a acelerarem procedimentos administrativos, a fornecerem novos tratamentos que mudaram totalmente o desenlace da doença.
Mais geralmente, organizações de pacientes participam nas negociações entre autoridades estatais, organizações de pesquisa e indústrias farmacêuticas. Elas são consideradas como atores oficiais, o que lhes dá poder e reconhecimento. A esse respeito, a proposição de Ivan Illich, a qual era de promover grupos de paciente para impor controle público sobre a organização da medicina foi confirmada. Nós poderíamos concluir [78]disso que o espírito de Maio de 1968 venceu. E, sem dúvida, as coisas mudaram consideravelmente, devido em parte ao uso das modernas tecnologias de comunicação e informação, as quais facilitam muito a retroação das associações pacientes em debates públicos e na mobilização através de redes de pacientes difusos, quem agora podem exercer uma pressão forte em caso de necessidade.
Contudo, recentemente, muitas pessoas (Colombo et al. 2012; Mosconi e Colombo 2012; Rothman et al. 2011), denunciaram a opacidade do financiamento de associações e paciente, o qual vem parcialmente da indústria. Para clarificar esse ponto, vamos lembrar que, quando uma organização de pacientes cresce e aumenta sua influência, ela necessita empregar administradores em tempo integral, os quais rapidamente estabelecem um tipo de burocracia, cujos os objetivos estão muito distantes dos interesses dos pacientes: muito naturalmente, esses administradores tornam-se principalmente ocupados com a influência de suas organizações, as quais justificam seu emprego e satisfazem suas ambições. Como consequência, a sua preocupação mais importante é que sua organização seja considerada como uma parte interessada essencial, e então que esteja envolvida em decisões principais, mesmo se essa atividade não tenha relação direta com os interesses do paciente e cuidado. Por exemplo, elas desejam estar envolvidas em ensaios clínicos e na discussão com organizações de assistência médica sobre o reembolso de tratamentos. Pode acontecer então que indústrias negociariam secretamente com organizações de pacientes para constituírem coalizões de interesses contra organizações do estado ou contra organizações de médicos. Em tais casos, as organizações de pacientes não mais representam os interesses de pacientes, mas seus próprios interesses, os quais podem coincidir com os interesses das indústrias farmacêuticas, pois elas financiam-nas. Segue-se que a situação atual parece estar muito distante do espírito de Maio de 1968, mesmo se as associações de paciente oponham-se à associação de médicos e seu domínio.
4.5 O Esmigalhamento das Instituições
Como já mencionado, as associações de pacientes tiram vantagem da web para aumentar sua influência e disseminar informações para seus participantes. Uma vez que a web permite a mobilização direta de pessoas, isso certamente leva a associação de pacientes a aumentar sua influência. Isso é consistente com a ideia de que instituições tradicionais, como autoridades médicas, agora necessitam compartilhar sua influência com novos atores. No caso de organizações de pacientes, isso significa que pessoas, afetadas pela mesma doença, agora podem estar conectadas através da web e exercer uma forte influência, enquanto que no passado, elas teriam permanecido isoladas.
Mesmo assim, com o desenvolvimento da web e, em particular, com a web participativa, novos fenômenos acontecem que fazem com que o status oficial de ambas as associações de pacientes e de médicos torne-se mais difícil.
Para entender a situação atual, permita-nos lembrar que, como dito previamente, conforme elas crescem, as associações de pacientes estão distanciando-se dos interesses dos pacientes, em direção a seus próprios interesses. Portanto, pacientes individuais estão menos e menos motivados por essas organizações. Adicionalmente, eles agora se tornam capazes de reunirem informações por eles mesmos, através da web, e permanecerem em [79]contato diretamente, através de redes sociais, com outras pessoas que são afetadas pela mesma doença, com as quais eles podem facilmente compartilhar suas experiências. Como uma consequência, nós observamos que muitos pacientes deixam as organizações de paciente. Paradoxalmente, essas sempre permanecem como representantes oficiais dos pacientes em negociações públicas, embora muitos pacientes não estejam afiliados. Em outras palavras, as organizações de pacientes que progressivamente se tornaram reconhecidas como instituições oficiais esmigalham-se sob o efeito da Internet que permite aos pacientes conectarem-se e interagirem uns com os outros, sem sua mediação.
Em paralelo, alguns médicos, que não são bem reconhecidos pelas associações oficiais de suas profissões, tomaram vantagem da web para constituírem-se como conselheiros (advice givers). Ele promovem, via medicina 2.06, novas abordagens de medicina que permitem aos pacientes mesmo tomarem o controle, ao serem informados sobre suas doenças e possíveis terapias, e ao adotarem os seus tratamentos para suas necessidades, de acordo com seu próprio conhecimento e escolhas pessoais. Sem entrar nos detalhes dessa nova prática médica, a qual inclui automedicação, ou seja, o processo de prescrever tratamento para si mesmo, note-se que é muito frequentemente oposto à medicina institucional, considerando-se que satisfaz as necessidades de pacientes que estão buscando informação na web. Além disso, é digno de nota que hoje, por causa do acesso a conhecimento científico através da Internet, muitos pacientes afetados por doenças crônicas têm um conhecimento melhor das patologias deles e do estado de arte no cuidado de sua condição do que seu próprio médico.
Segue-se disso que o grupo dos médicos, o qual foi forçado a negociar com diferentes atores, após ter dominado sozinho o sistema inteiro de saúde por um longo tempo, é agora fragmentado da mesma maneira que as organizações de pacientes. Esses fenômenos correspondem a mudança social recente, inesperada e imprevisível. Essa imprevisibilidade torna difícil responder à nossa questão inicial, a qual diz respeito ao paralelo entre a evolução recente da sociedade OnLife e a utopia de Maio de 1968. Por um lado, é certo que tecnologias da informação mudaram profundamente a sociedade e tem contribuído para destruir os privilégios de instituições antigas como aquelas das academias médicas; por outro lado, não é óbvio que a evolução atual corresponda verdadeiramente aos ideais de Maio de 1968.
Em conclusão, consideremos a configuração atual onde pacientes isolados estão buscando informação sobre suas doenças, enquanto que alguns médicos disseminam informação por eles mesmos, sem se referirem aos conhecimento dos melhores especialistas do domínio. As duas partes são obviamente complementares. Contudo, pode então acontecer que conhecimento errôneo circule, enquanto autoridades, mesmo quando elas dão conhecimento correto, são desacreditadas. Isso foi o que aconteceu há dois anos, quando muitos médicos clínicos gerais (general practitioners) opuseram-se à vacinação pública proposta pelo governo francês, porque eles não estavam envolvidos em seu plano. Eles então disseminaram conhecimento enganoso sobre o perigo da vacinação através da web (Dupagne 2010), com o objetivo de provocar o fracasso do plano do governo. Rapidamente se tornou muito popular, por exemplo, um desses artigos foi [80]baixado mais do que 1 milhão e meio de vezes. Seguindo-se a isso, a vacinação pública proposta pelo governo falhou completamente porque a população não a aceitou. É certo que esses clínicos gerais desempenharam um papel nessa falha.
Isso ilustra o poder da Internet e a maneira que ela muda a política do estado, que é, em nosso caso, política de saúde. Isso também mostra como a Internet afeta o papel das autoridades, em particular autoridades científicas. Por fim, isso fornece evidência da necessidade crucial para uma sociedade em rede, onde instituições e organizações tendem a colapsar, de uma responsabilidade epistêmica como aquela que foi desenvolvida por Judith Simon, para condenar eticamente a disseminação de conhecimento errado, como foi o caso no acontecimento acima.
5 A “Aura” Digital em um Mundo de Abundância
5.1 Da Escassez à Abundância
Há vinte anos, eu tinha um sonho que era viver dia e noite, especialmente à noite, em uma biblioteca. Hoje, esse sonho tornou-se uma realidade: nós todos vivemos em uma imensa biblioteca, onde quase todos os livros escritos da literatura clássicas estão instantaneamente acessíveis, durante o dia e a noite. A propósito, o mundo do conhecimento está mudando dramaticamente. Está tornando-se um mundo de abundância onde todas as peças de informação estão permanentemente à disposição de todos. Para apreciar a amplitude da evolução, vamos dar uma olhada no passado. Até a Idade Média, os livros eram tão caros e tão difíceis de manipular que somente poucos felizes tinham acesso a eles. Adicionalmente, esse acesso não era permanente: era requerido que fosse através de uma biblioteca ou monastério o que impedia o acesso durante viagens, mesmo para os mais ricos. Na era moderna, as técnicas de impressão permitiram a redução do custo e tamanho dos livros e, consequentemente, a sua disseminação. Contudo, a despeito dessas melhorias e manufatura, os livros sempre foram caros e inconvenientes, o que restringia o acesso a eles a uma pequena parte da população. Foi somente com a industrialização das técnicas de impressão, no final do século XIX, que a literatura, os jornais, ensaios filosóficos e científicos e, de modo mais geral, todos os tipos de escritos, começaram a ser disseminados amplamente através de toda a sociedade. Paralelamente, as técnicas de litografia, inventadas no final do século XVIII, mas que receberam um desenvolvimento considerável durante o século XIX, facilitaram consideravelmente a reprodução de figuras, as quais foram largamente usadas para enriquecer livros, jornais e pôsteres. Por último, a fotografia, inventada no segundo quartel do século XIX, e em seguida, o fonógrafo e a cinematografia, ambos inventados no fim do século XIX, permitiram progressivamente a reprodução automática de figuras, sons e movimento.
Hoje em dia, com o desenvolvimento das tecnologias de informação, o movimento de reprodução mecânica parece ter sido consideravelmente ampliado. Não é nem surpreendente, nem novo: isso já tinha sido antecipado no século XX por [81]pensadores como Paul Valery em 1931 em pequeno texto intitulado de “La conquête de l’ubiquité” (Valéry 1928). Contudo, hoje, a quantidade de conteúdos disponíveis excede, muito mais do que nunca, nossas habilidades cognitivas. Ela resulta em modificações em nossa percepção das obras da mente em geral e das obras de arte em particular. Essas transformações simplesmente prolongam e estendem o movimento iniciado no século XIX com a reprodução mecânica ou elas constituem um novo passo qualitativa que caracteriza a entrada em um mundo de abundância? Essa é a questão nós devemos discutir aqui.
5.2 A Perda da Aura
Consequências econômicas, políticas e estéticas da reprodução mecânica de escrita e imagens têm tido efeitos consideráveis nas sociedades modernas durante o século XX. Não é somente o acesso às obras da mente e, em particular, as obras de arte que tem sido facilitado, mas a natureza do conteúdo intelectual e a maneira pela qual eles influenciam os seres humanos têm sido transformados (Benjamin 2006). Por um lado, objetos de arte, por exemplo, o suporte físico de pinturas, estavam tornando-se muito menos valiosos por causa de sua fácil reprodutibilidade. Portanto, o que anteriormente estivera ligado a itens únicos e singulares, que, por causa de sua insubstituibilidade, conferia a eles, algumas propriedades mágicas, estava desaparecendo, o que fez com que a natureza da arte evoluísse. Um ensaio famoso escrito por Walter Benjamin no segundo quartel do século XX e intitulado de “The Work of Art in the Age of its Technological Reproducibility” (Benjamin 2008) constituiu-se como uma tentativa de abordar a natureza dessas mudanças. Ele tem sido muito influente durante os últimos 60 anos especialmente, mas não somente, na estética. De acordo com Walter Benjamin, com a reprodução mecânica das obras de arte, em particular com a fotografia, a parte do humano na produção da arte foi muito reduzida, porque a captura não mais requeria a intervenção da mão humana, uma vez que a máquina estava automaticamente registrando a luz. Como uma consequência, as obras de arte, as quais testemunharam uma herança e uma tradição desde a origem da humanidade, ambas pelas técnicas de arte utilizadas, as quais requeriam aprender gestos, e pelas referências simbólicas ligadas aos conteúdos que eram quase sempre convencionais ou alegóricos, tornaram-se, com essas novas invenções, mais próximas de investigações científicas do que do sagrado e sobrenatural. Segue-se que objetos prosaicos da vida diária viraram mais e mais frequentemente referentes das obras de arte. Baudelaire, quem descreveu as ruas de Paris, e Stéphane Mallarmé atestaram essa evolução da poesia (Benjamin 2006). Mas, poderia ter sido possível ver muitas manifestações em artes diferentes. Adicionalmente, a recepção de obras de arte estava evoluindo com sua reprodutibilidade massiva: ela tornou-se coletiva e simultânea, com fotografias e filmes, enquanto que anteriormente fora essencialmente individual e contemplativa.
Um conceito-chave proposto por Walter Benjamin para abordar essas transformações foi a noção de aura, a qual ele definia como “o fenômeno único de uma distância, por mais perto que possa estar.” A noção de aura também estava ligada à memória [82]involuntária (Benjamin 2006), a qual tinha sido introduzida por Marcel Proust e Henri Bergson (Bergson 1926) para caracterizar um tipo de lembrança que é ao mesmo tempo contemplativa e inconsciente, e que contrasta com um aceso intelectual e ativo que é implementado na memória voluntária.
De acordo com Benjamin, obras de arte são recebidas e valorizadas em diferentes planos que se colocam entre dois opostos polares; em um, o acento é colocado principalmente no valor de culto, que está associado com a contemplação, a qual requer concentração; no segundo, o acento é colocado no valor de exibição das obras de arte que são projetadas para distrair a massa de espectadores e que não mais exigem ser absorvida por eles. Com a reprodução mecânica, o valor de culto de obras de arte, que requer concentração e esforço, tende a declinar enquanto que o valor de exibição, que distrai a massa, torna-se mais e mais proeminente. Como uma consequência, a aura, a qual está ligada ao valor de culto e às tradições, desaparece.
Essa perda de aura não é somente negativa. Ela tem consequências estéticas. Novas formas de arte que não mais se referem a tradições e que eliminam o valor de culto estão emergindo, entre as quais alguém pode notar a poesia de Baudelaire, Cubismo ou Dadaísmo. Mas isso também tem consequência menos positivas que levam regimes políticos – especialmente, os regimes totalitários do século XX – a usarem novas mídias e obras de arte para suas propagandas. Por último, tem consequências econômicas que levam as obras de arte a focarem-se somente no valor de exibição.
5.3 A “Aura” Digital
Como nós lembramos, Walter Benjamin anunciou a perda da aura que se sucedeu à reprodução técnica das obras de arte. A questão, então, é esta: O desenvolvimento da tecnologia da informação leva a uma definitiva e completa perda da aura? Em outras palavras, são as tecnologias de informação somente a busca de técnicas mecânicas? Elas estão simplesmente amplificando seus efeitos? Ou elas introduzem uma ruptura? No caso da aura, a questão diz respeito ao seu status atual: ela desapareceu definitivamente? Ou alguma forma de ressurgência da aura persiste?
Sem dúvida, tecnologias digitais aperfeiçoam os processos de reprodução de obras de arte. Graças a elas, a reprodução é quase gratuita: hoje em dia, não custa nem muito dinheiro, nem grandes quantidades de energia, para duplicar informação. Nós poderíamos caracterizar a facilidade atual para reproduzir como sendo um estado de hiper-reproducibilidade (hyper-reproducibility) em analogia ao estado de hipercondutividade para a condutividade elétrica.
Além disso, a difusão também é praticamente gratuita e acessível a todos. Atualmente, torna-se possível para qualquer um divulgar o mundo inteiro da literatura, pinturas ou sons do mundo sem ter de pedir autorização e sem possuir qualquer infraestrutura, exceto um computador pessoa. Como uma consequência, a informação de hoje está tornando-se eminentemente difusível em quase qualquer lugar na superfície da terra. Por exemplo, em 2011, durante a Primavera Árabe, jovens estudantes enviaram, sem suporte, vídeos de eventos públicos na Tunísia ou Egito, enquanto que, 20 anos atrás, na China, ou em muitos outros países autoritários, tinha sido impossível enviar imagens do evento dramático que estava [83]ocorrendo nas ruas. Sempre por referência à morfologia da hipercondutividade, nós poderíamos caracterizar esse estado como uma hiperdifusibilidade.
Por último, quaisquer imagem e sons podem ser facilmente capturados com equipamento muito barato, como um celular, e em seguida memorizado em aparelhos de armazenamento eletrônico, pequenos e baratos. Como um resultado, e da mesma maneira que anteriormente, nós podemos dizer que entramos em um mundo hipermemorabilidade.
Todas as técnicas de reprodução, difusão e memorização que tão grandemente contribuíram para o desaparecimento da aura tem sido tão consideravelmente melhoradas que o resultado excede nossas habilidades cognitivas. Como uma consequência, nossas faculdades de discernimento são insuficientes. O total de conteúdo disponível não pode ser consumido pela mente humana, mesmo ajudada por poderosas máquinas. Em outras palavras, está tornando-se mais e mais difícil filtrar o fluxo de dados que assalta cada um de nós, cada dia, e focar na informação relevante. Portanto, nós temos de fazer escolhas, decidir sobre qual objeto nós focaremos nossa atenção e então selecionar, dentre as muitas peças de informação que dizem respeito a nosso objeto de interesse, quais nós preferiríamos explorar. Contudo, essas escolhas diferentes não podem ser bem informadas, pois são anteriores à nossa posse de conhecimento. Como uma consequência, nós escolhemos de acordo com alguns critérios inconscientes que constituem um tipo de halo – ou uma nuvem – envelopando os objetos e atraindo nossa mente. Tais critérios correspondem à memória involuntária acima mencionada; portanto, nós chamamos isso de halo ou aura digital.
Observe que, como nós mostramos anteriormente em nosso trabalho sobre subvigilância (sousveillance)(Ganascia 2009, 2010), essa aura digital torna-se crescentemente importante porque, em nosso mundo de abundância excessiva de informação, o poder é muito mais frequentemente dado àqueles que são vistos do que àqueles que assistem.
Nossa hipótese aqui é que nós podemos desenhar certos paralelos entre esse halo digital e a aura de Benjamin. Entre eles, note-se que, enquanto que a aura requer concentração, é o mesmo com o halo digital. Além disso, como dito previamente, enquanto que a aura estava relacionada diretamente à memória involuntária, era também o caso que o halo digital é largamente inconsciente.
Contudo, como mencionado anteriormente, para Benjamin a noção de aura estava diretamente relacionada ao valor de culto, a uma ligação com as tradições e a uma atitude contemplativa. Poderia parecer surpreso e mesmo estranho afirmar que, com tecnologias digitais, nós adotemos uma atitude contemplativa direcionada às tradições. Para ser mais preciso, a primeira hipótese, desenvolvendo um paralelo entre a aura de Benjamin e o halo digital, necessita ser complementada por uma segunda hipótese que afirma que, enquanto a aura de Benjamin estava ligada ao valor de culto, orientada às tradições, a aura digital está ligada a um valor especular, o qual abre novas oportunidades. Em outras palavras, enquanto o valor de culto estava orientado a um passado imemorial, o valor especular está orientado a um futuro acessível e gratuito que está cheio de possibilidades.
Essa noção de aura digital em relação a um valor especular seria útil para interpretar muitos dos movimentos contemporâneos em arte, especialmente arte generativa, a qual não pode ser avaliada com respeito a seu valor de exibição e não mais com respeito a seu valor de culto, mas somente com respeito ao número de possibilidades que um [84]programa pode gerar. Seria conveniente seguir com alguns exemplos precisos, os quais justificariam as duas hipóteses precedentes, mas seria muito em excesso neste capítulo.
Lembre-se também de que a definição de Benjamin de aura como “o fenômeno único de uma distância, por mais perto que possa estar” poderia ser diretamente aplicado à aura digital. Mesmo assim, enquanto que no caso da aura de Benjamin, elementos próximos e concretos de obras de arte ajudavam a dar acesso, através da contemplação, a um passado distante, anterior ao que pode ser fornecido por qualquer memória voluntária, com a aura digital, elementos próximos e concretos de informação ajuda a dar acesso a um futuro distante que abre novas perspectivas, a despeito de todos os perigos e medos percebidos.
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Referências
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Próximo ensaio
ORIGINAL:
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TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC 3.0
4 Como uma ilustração, alguém pode mencionar a câmera wearable nemotoTM (http://memoto.com/), ou outra de nome autographerTM (http://www.autographer.com/), mas há muitas outras.
5 For exemplo, a HAS (“Haute Autorité de la Santéǀ”) francesa enumerou mais de 14.000 associações de pacientes somente na França.
6 Os sites http://www.doctissimo.fr/ e http://www.atoute.org/ são exemplos excelentes de semelhante abordagem da medicina. Note-se que Atoute.org explicitamente menciona a Medicina 2.0.
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