domingo, 13 de junho de 2021

AC, Antes dos Computadores 3 Enviando Mensagens: Eletricidade

AC, Antes dos Computadores: Sobre a Tecnologia da Informação, da Escrita à Era do Dado Digital


Por Stephen Robertson


Capítulo anterior


[27]3 Enviando Mensagens: Eletricidade


Um novo meio


O método ideal de enviar mensagens através de distâncias não envolveria em absoluto a transferência física de um objeto. O uso de sinais de fogueira é um método antigo apropriado para um número limitado de tarefas; levemente mais sofisticado é o sinal de fumaça. Os dois possuem uma história venerável. Uma ideia mais recente (século XVIII) foi o semáforo, algumas vezes usado para sinalização naval, usando bandeiras de mão ou braços mecânicos, envolvendo um código alfabético simples. Mas desenvolvimentos maiores nessa direção surgiram do entendimento em evolução da eletricidade. A ideia de usar eletricidade para comunicação ponto a ponto é quase tão velha quanto a investigação séria da eletricidade como um fenômeno físico. É certamente mais antiga que as noções de usar a eletricidade para energia, calor ou luz.

Vários sistemas de sinalização usando métodos elétricos foram propostos no começo do século XIX, mas o que teve o maior impacto foi o sistema de telegrafia inventado por Samuel Morse. Esse, diferentemente das propostas anteriores, usava apenas um cabo, mas tinha um código elétrico distinto para cada letra do alfabeto. Esse é o famoso código Morse, consistindo em pontos e traços (sinais curtos e longos), ocasionalmente ainda em uso hoje me dia. (No momento da escrita deste parágrafo, uma marca particular de telefone móvel tem, como seu sinal audível padrão para a chegada de uma mensagem de texto – quer dizer um SMS – as letras SMS em código Morse.)

O sistema elétrico de Morse, transmitindo códigos através de um cabo, leva-nos um passo adiante em relação aos signos visuais, o que é mesmo assim um grande salto na direção dos imensos desenvolvimento do final do século XX.

Nós também poderíamos notar como a invenção do alfabeto, uns três milênios antes, pavimentou o caminho. Dado que nós podemos construir qualquer mensagem usando somente as letras do alfabeto (talvez com uns poucos caracteres extras tais como [28]dígitos e alguma pontuação), a noção de usar um semelhante pequeno número de códigos, o qual pode ser manipulado por algum mecanismo físico, é simples embora revolucionária. Agora nós podemos transmitir qualquer mensagem em nossa linguagem, através da escrita e do alfabeto, usando pulsos elétricos ligado-desligados enviados ao longo de um simples cabo. É suficiente para deixar de boca aberta.


O telégrafo


Como o livro The Victorian Internet de Tom Standage mostra-nos, o telégrafo Morse tornou-se, por volta do meio do século XIX, um imenso sucesso – não apenas comercialmente, mas ao revolucionar nossa visão do mundo no geral e da comunicação em particular. Subitamente a velocidade física da comunicação, mensageiros transportando mensagens, não era mais o fator limitante em comunicações de longa distância. As realizações do Cursus Publicus e da Thurn und Taxis não mais importavam. Se você tivesse um cabo estendendo-se de A a B, mensagens podiam ser entregues, para todos os intentos e propósitos, instantaneamente. E cabos haviam. Redes de cabos telegráficos espalharam-se como incêndio através das porções desenvolvidas (e algumas vezes menos desenvolvidas) do globo.

Mas o que é o mais extraordinário sobre esse processo é a maneira pela qual as pessoas subitamente descobriram a necessidade de comunicação rápida e abraçaram o meio. Assim como o penny post era muito mais barato e mais fácil, convidando vastos números de pessoas a entrarem na era da escritura de cartas, ao mesmo tempo, outros grupos estavam descobrindo as maravilhas da comunicação instantânea. Governos, autoridades militares, homens de negócio e organizações de notícias todos consideraram que era um meio sem o qual eles não poderiam passar.

Nunca ouve qualquer competição séria entre o serviço postal e o telégrafo. As necessidades de comunicação expandiram-se a tal ponto que as duas mídias podiam crescer simultaneamente a uma razão prodigiosa. Nós ainda não atingimos o auge do correio; no final, o telégrafo revelar-se-á ser uma mídia de vida bastante curta, por causa da competição real do telefone e outras mídias.


[29]Telégrafo impresso


Nós agora estamos bem no período de invenção vitoriana, e muitos desafios eram rapidamente reconhecidos e assumidos pelos inventores da época. A telegrafia Morse requeria um operador humano em cada extremidade, para fazer a conversão em ambos os sentidos entre as letras escritas e o código de ponto-traço. Quão mais fácil seria, as pessoas compreenderam, ter máquinas para fazer essas conversões.

Embora o eventualmente bem-sucedido serviço de telégrafo impresso, o telex, fosse um desenvolvimento do século XX (efetivamente depois do telefone), houve vários precursores no século XIX que alcançaram algum grau de sucesso. Um desses foi devido a David Hughes. Na tradição dos inventores da época, ele era um polímata; eventualmente ele foi honrado como físico e teve uma moeda da Sociedade Real que recebeu seu nome. Mas em 1855, quando ele era um professor de música em uma faculdade nos Estados Unidos, ele inventou um sistema com um teclado e uma roda de impressão. O emissor datilografaria a mensagem letra por letra em teclas marcadas, e a máquina recipiente imprimiria a mensagem em um tipo de fita de telégrafo.

A imagem que vem à mente dessa descrição é provavelmente o teclado semelhante ao de máquina de escrever com o qual nós agora somos familiares. Eu falarei sobre o teclado QWERTY depois, mas a moderna máquina de escrever ainda não fora inventada em 1855. Contudo, Hughes tomou sua inspiração da muito mais antiga tradição de teclado com a qual ele pessoalmente era particularmente familiar. Seu teclado, com teclas pretas e brancas alternadas, parece-se com nada mais que aquele de um piano.

De fato, ele não foi a única, nem mesmo a primeira, pessoa a considerar usar alguma coisa como um teclado de piano para teclar mensagens alfabéticas. Um aparelho levemente mais antigo, na veia do telégrafo impresso, foi desenvolvido por Royal Earl House – o seu teclado também era semelhante ao do piano. Verdadeiramente, até a invenção do teclado QWERTY posteriormente no século XIX, o piano e seus predecessores definiam a ideia canônica de controle com teclado.


Telefonia


Ainda melhor que escrever uma mensagem em um teclado e em seguida ler uma versão impressa na outra extremidade, seria falar e ouvi-la. Novamente, esse foi um desafio para o qual os vitorianos ergueram-se com entusiasmo. Em 1876, [30]Alexander Graham Bell venceu essa competição em particular por uma curta distância contra Elisha Gray. David Hughes não esteve envolvido nessa competição, mas ele, dentro de dois anos após a patente de Bell, inventou o microfone de carbono. A era do telefone começara.

Mas, muito rapidamente, uma nova dimensão foi adicionada. O telégrafo era um sistema especialista de mensagem ponto a ponto um pouco como o sistema postal, com cabos esticados entre postos que agiam como porta de entrada para as mensagens. Com o telefone, todos queriam uma parte da ação.

Os cabos tinham de ir para as casas das pessoas, e a porta de entrada tornou-se o quadro de distribuição (switchboard) ou troca, operado por um ser humano. O direcionamento de chamadas envolvia a conexão de um pedaço de cabo a outro, através de uma mesa de conexões (plugboard). Embora trocas manuais continuassem por um longo tempo, e fossem-nos familiares através de filmes, já no século XIX as pessoas estavam imaginando trocas automáticas.

As primeiras trocas automáticas foram de tipo rotatório. O discador telefônico rotatório com efeito controlava um comutador rotativo, o qual se movia em sincronização com o discador. Nesse sistema, o número discado não era guardado na troca (exceto implicitamente na posição dos discadores), e não era usado de nenhuma outra maneira. Contudo, já pelos anos de 1930 haviam trocas que se lembravam dos dígitos discados em um registro (como o registro em uma calculadora) e tinham regras de decisão embutidas sobre como rotear números diferentes. Essa é uma forma de processamento de informação à qual eu retornarei.

Ao longo do curso de um século de desenvolvimento do sistema telefônico, nós eventualmente alcançamos um sistema universal de endereçamento – um sistema de números definindo não apenas a linha na troca local, mas a troca mesma, então a cidade ou área mais ampla, então o país – de modo que, pelo final do século XX, um número telefônico completo representa uma única residência no planeta. Isso é comparável ao endereço postal, um pouco menos transparente ao leitor humano, mas mais receptivo à manipulação mecânica.


Rádio


Por esse tempo, é claro, nós também tínhamos o rádio: mensagens elétricas sem cabo. A transmissão (broadcasting) de rádio será discutida mais abaixo, mas também foi usada para comunicação direta um a um desde cedo. Rádio ponto a ponto, telefones de rádio, chamadas telefônicas roteadas vai satélite, e celulares [31]móveis, todos fazem uso desse meio.

Esse é um desenvolvimento levemente curioso, porque o rádio é um meio naturalmente transmissor. Quer dizer, uma mensagem transmitida pelo rádio pode ser recebida por qualquer um no interior do alcance e com um receptor adequado. Basicamente, a fim de o usar para comunicação ponto a ponto, nós temos de subverter sua natureza primária. Posteriormente, nós veremos outros exemplos de subversão de mídia para servir a propósitos outros que aqueles que a natureza deles sugeriria.

As tecnicalidades de construção de uma ligação temporária entre dois telefones para o propósito de fazer uma chamada (agora mais como uma ligação virtual do que um cabo físico), é claro, têm tornado-se um pouco mais complexas, e dependem pesadamente de outros desenvolvimento em tecnologia da informação do final do século XX. O sistema de endereçamento na forma de números de telefone foi impulsionado um pouco mais – agora, na era do telefone móvel, ele designa um único indivíduo no globo. Bem, isso é um exagero leve – realmente ele designa um único telefone, mas, dados a atual propagação e uso de telefones moveis, ele chega perto.


E-mail e mensagem de texto


Talvez o meio que forneceu o rival mais próximo do serviço postal foi o correio eletrônico (electronic mail). Sistemas de e-mail seguiram o desenvolvimento das redes de computadores no último terço do século XX, mas realmente decolaram com a Internet nos anos 1990.

O e-mail também é semelhante ao correio em que uma mensagem de um sentido único é autocontida – um pacote com um endereço no exterior. Não importa muito ao emissor ou recipiente que rota ele toma; ele pode ir através de qualquer número de comutadores, e algum atraso em alguns dos comutadores geralmente não é crítico. Não obstante, o e-mail requereu certo tempo para aprender as lições que os serviços postais aprenderam no século anterior, a saber, que o que era requerido era um sistema universal de endereçamento e interfaces transparentes entre as redes. Se você quisesse enviar um e-mail a longa distância ou internacional nos anos 1970, você tinha de especificar a rota a ser tomada ou, pelo menos, os principais postos de estágio ao longo do caminho. Um sistema usava a assim chamada ‘notação bang’, levando a um endereço como este:


utzoo!decvax!harpo!eagle!mhtsa!ihnss!ihuxp!grg


[32]Isso significa que eu quero alcançar o usuário chamado de grg, cuja a conta de e-mail vive em uma máquina chamada de ihuxp – mas minha máquina não conhece ihuxp. Como alternativa, eu digo a meu sistema de correio para o enviar a uma máquina chamada de utzoo, o qual deveria enviá-lo para decvax, o qual deveria enviá-lo para harpo – com mais três máquinas intermediárias antes que ele alcance seu destino. A fim de enviar o e-mail eu tenho de conhecer a rota. Ademais, cada posto de estágio adicionaria outra cobertura de endereço em torno da minha mensagem, de maneira que mesmo uma mensagem curta chegaria envolta em várias camadas de cabeçalhos.

Mas a Internet e o sistema universal de endereçamento eventualmente chegaram, e o nicho ocupado pelo e-mail, na assembleia dos métodos de comunicação aberta para nós, expandiu-se vastamente. Para todas as suas similaridades com o correio convencional, revelou-se que ele tem também algumas diferenças substanciais, e seu uso reflete essas diferenças. Por exemplo, embora fosse possível escrever os tipos de cartas que alguém estava acostumado a enviar pelo correio, também é possível usar o e-mail de uma maneira muito mais informal e imediata – para manter conversas através do e-mail que têm, pelo menos, algumas das características da conversa falada.

Outro meio que emergiu nos últimos poucos anos foi o da mensagem de texto. Esse é um desenvolvimento mais interessante, porque não possui um precursor óbvio. Como um resultado, o nicho que ele agora veio a ocupar era praticamente invisível até que mensagens de texto (texting) começaram a se tornar populares (embora o fim informal do espectro do e-mail forneça algumas dicas). Mas isso mostra claramente que, a despeito das óbvias vantagens da fala, a comunicação escrita tem algumas distintas vantagens próprias. Poderia ser difícil para gerações não educadas com elas reconhecer mensagens de texto como uma forma escrita de comunicação; mesmo assim, é isso o que ela é.


Uma nota sobre eletricidade


Neste capítulo, eu considerei a eletricidade puramente como um ‘meio’ para comunicação. Embora nós conhecêssemos um pouquinho sobre a eletricidade por milênios, o estudo sério sobre o fenômeno não começou até por volta do século XVII. Mas no século XIX, nós começamos a descobrir alguns de seus usos. E nosso caso de amor prosseguiu com ritmo. Pelo final do século XIX, nós tínhamos feito sérias incursões em engenharia elétrica, tínhamos começado a pensar nela como um recurso com muitas funções. No século XX, ela chegará a ser vista como um serviço vital ao qual todos [33]deveriam ter acesso, com um status quase comparável ao suprimento de água fresca. Hoje em dia eu tenho uma abundância de aparelhos eletrônicos, e a expectativa (mesmo se eu ocasionalmente me desaponte) de que eu posso obter a eletricidade necessária para os fazer funcionar em qualquer lugar do mundo, de uma maneira padronizada.

E em seguida, no século XX, nosso entendimento de eletricidade originou uma prole monstruosa -a eletrônica. Já por volta de 1883 nós tínhamos fotosensores; em seguida, a válvula termiônica (1904), o circuito flip-flop (a forma eletrônica original de uma memória de um bit, 1918), o transistor (1947), circuitos integrados (1958), uma variedade inteira de sensores, e assim por diante. Na era da eletrônica, os usos da eletricidade multiplicaram-se mil vezes, levando ao e incluindo o inteiro mundo digital.

Uma exploração completa desse aspecto de nossa história levar-me-ia muito longe dos temas principais deste livro – embora ele certamente conte como um dos precursores necessários da era digital.


O mundo conectado


Agora, no começo do terceiro milênio d.C., nós temos uma variedade de métodos de comunicação com outras pessoas, a qual é sem paralelo na história. Quer a pessoa com a qual nós desejamos nos comunicar esteja no escritório vizinho, do outro lado da rua, do outro lado da cidade, do outro lado do país, ou a meio mundo de distância, nós temos maneiras de fazer com que nossas mensagens sejam ouvidas. Com uma variedade de mídias, pelo menos três sistemas de endereçamento global, e roteamento transparente, nós estamos mimados pela escolha. Nesse sentido, pelo menos, é um mundo pequeno.

No próximo capítulo, nós voltaremos no tempo, a fim de considerar a ideia de broadcasting.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

Robertson, Stephen, B C, Before Computers: On Information Technology from Writing to the Age of Digital Data. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2020. p.27-33. Disponível em: <https://doi.org/10.11647/OBP.0225>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

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