quinta-feira, 10 de março de 2022

Leviatã - Dedicatória e Introdução

 Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.


A Dedicatória em Epístola


Para meu mais Honrado Amigo,

SR. FRANCIS GODOLPHIN,

de Godolphin


[v]Honrado Senhor,


Vosso muito digno irmão, o Sr. Sidney Godolphin, quando ele vivia, ficava satisfeito de considerar meus estudos alguma coisa, e, por outro lado, para me obrigar, como você sabe, com testemunhos reais de sua boa opinião, grandes neles mesmos e maiores pelo valor da pessoa dele. Pois não há nenhuma virtude que disponha um homem, ou ao serviço de Deus, ou ao serviço de seu país, ou à sociedade civil, ou à amizade privada, que manifestamente não aparecesse na conversa dele, não enquanto adquirida por necessidade, ou assumida diante da ocasião, mas inerente e brilhando em uma constituição generosa de sua natureza. Portanto, em honra e gratidão a ele, e com devoção a você mesmo, eu humildemente dedico a você este meu discurso sobre a Comunidade [política] (Commonwealth). Eu não sei como o mundo recebê-lo-á, nem como ele deverá refletir sobre aqueles que devam parecer favorecê-lo. Pois, em um caminho assediado por aqueles que contendem, por um lado, por uma liberdade grande demais e, por outro lado, por autoridade demais, é difícil atravessar ileso entre as miras de ambos. Mas ainda, parece-me que [vi]o empreendimento de melhorar o poder civil não deve ser pelo poder civil condenado; nem que os homens privados, ao repreendê-lo, declarem que eles consideram esse poder grande demais. Além do mais, eu não falo de homens, mas, no abstrato, da sede do poder, (como para aquelas criaturas simples e imparciais no Capitólio Romano, que, com seu barulho, defenderam aqueles dentro dele, não porque eles fossem eles, mas [porque estavam] ali), ofendendo ninguém, eu considero, mas aqueles fora, ou semelhantes dentro, se houver algum semelhante, como a favorecê-los. Isso que talvez possa ofender, são certos textos da Sagrada Escritura, alegados por mim para outros propósitos do que ordinariamente se costumam usá-los por outros. Mas eu fiz isso com a devida submissão, e também, para meu tema, necessariamente; pois eles são as obras exteriores (outworks) do inimigo, a partir de onde eles impugnam o poder civil. Se, a despeito disso, você encontrar meu trabalho geralmente criticado, você pode ficar satisfeito para desculpar a si mesmo e dizer que eu sou um homem que ama minhas próprias opiniões, e considerar tudo verdade o que eu digo, que eu honrei seu irmão e honro você e, presumido, assumo o título, sem o seu consentimento, de ser, como eu sou,

Senhor,

Vosso mais humilde,

o mais obediente Servo,

Thomas Hobbes

Páris, 15/25 de abril de 1521


[ix]A Introdução


A natureza, a arte através da qual Deus criou e governa o mundo, é pela arte do homem, com em muitas outras coisas, também nisto imitada, que ela pode produzir um animal artificial. Pois, vendo que a vida é apenas um movimento de membros, o começo qual está em alguma parte principal interior, por que nós não podemos dizer que todos os autômatos (máquinas que movem a si mesmos por molas e rodas) têm uma vida artificial? Pois o que é o coração, senão uma mola; e os nervos, senão tantas cordas; e as juntas, senão tantas rodas, dando movimento ao corpo, tal como foi pretendido pelo artificie? A arte ainda vai além, imitando aquela obra racional e mais excelente da natureza, o homem. Pois, pela arte é criado aquele grande LEVIATÃ chamado de uma COMUNIDADE [POLÍTICA] (COMMONWEALTH), ou ESTADO, em latim, CIVITAS, o qual é apenas um homem artificial; embora de estatura e força maiores que as do natural, para a proteção e defesa de quem ele foi planejado; e na qual a soberania é uma alma artificial, visto que dando vida e movimento ao corpo inteiro; [x]os magistrados e outros oficiais de judicatura e execução, juntas artificiais; recompensa e punição, pelas quais, fixas pela sede da soberania, cada junta e membro realiza seu dever, são os nervos, que fazem o mesmo no corpo natural; a riqueza e os bens de todos os membros particulares são a força; salus populi, a segurança do povo, sua ocupação; os conselheiros, por quem todas as coisas necessárias para ele conhecer são sugeridas a ele, são a memória; equidade e leis, uma razão e vontade artificial; concórdia, saúde; sedição, doença; e guerra civil, morte. Finalmente, os pactos e as convenções, pelas quais as partes do corpo político foram primeiramente criadas, juntas e unidas, assemelhando-se àquele fiat, ou o façamos o homem, pronunciado por Deus na criação.

Para descrever a natureza desse homem artificial, eu considerarei

Primeiro, a matéria do mesmo e o artífice; ambos os quais são o homem.

Segundo, como e por quais pactos ele é formado; quais são os direitos e o poder e autoridade justos de um soberano; e o que é que o preserva ou dissolve.

Terceiro, o que é uma Comunidade cristã.

Por último, o que é o reino das trevas.

Concernindo ao primeiro, há um dito muito usurpado recentemente, de que a sabedoria é adquirida, não pela leitura de livros, [xi]mas de homens. Consequentemente, para esse propósito, essas pessoas, que, pela maior parte, não podem dar outra prova de serem sábias, tomam grande deleite em mostrar o que elas pensam ter lido nos homens, por censuras maldizentes de algum outro atrás de suas costas. Mas há outro dito não recentemente entendido, pelo qual eles verdadeiramente poderiam ler um ao outro, se eles se esforçassem (take the pains); que é, nosce teipsum, leia a ti mesmo: o qual não queria dizer, como agora é costume, tolerar, ou o estado bárbaro de homens no poder, em relação aos seus inferiores; ou encorajar os homens de baixa posição social a um comportamento insolente em relação aos seus melhores; mas ensina-nos que, pela semelhança de pensamentos e paixões de um homem com os pensamentos e paixões de outro, seja quem for que examine a si mesmo, e considere o que faz, quando pensa, opina, raciocina, espera, teme, etc e em sobre quais fundamentos; ele, portanto, deverá ler e conhecer quais são os pensamentos e paixões de todos os outros homens em ocasiões semelhantes. Eu digo semelhança de paixões, as quais são as mesmas em todos os homens, desejo, medo, esperança, etc; não a semelhança dos objetos das paixões, os quais são as coisas desejadas, temidas, esperadas, etc; pois esses a constituição individual, e a educação particular, preparam tão variadamente, e eles ficam tão facilmente facilmente ocultas de nosso conhecimento, que os caracteres do coração do homem, maculados e confundidos como eles estão com doutrinas dissimuladas, mentirosas, [xii]falsificadas e errôneas, são legíveis apenas por aqueles examinam corações. E embora pelas ações dos homens nós algumas vezes descubramos os desígnios deles; todavia, fazê-lo sem compará-los com os nossos próprios, e distinguindo todas as circunstâncias, pelas quais o caso possa vir a ser alterado, é decifrar sem uma chave, e, pela maior parte, enganar, por confiança demais, ou por desconfiança demais; conforme aquele que lê seja ele mesmo um bom ou mau homem.

Mas que um homem alguma vez leia outro por suas ações tão perfeitamente, isso lhe serve apenas com seus conhecidos, os quais são apenas poucos. Aquele que deve governar uma nação, deve ler em si mesmo, não este ou aquele homem particular; mas o gênero humano: o que, contudo, é difícil de fazer, mais difícil do que aprender qualquer língua ou ciência; todavia, quando eu tiver estabelecido minha própria leitura ordenada e claramente, as dificuldades deixadas para outro serão apenas as de considerar se ele também não encontra o mesmo em si mesmo. Pois esse tipo de doutrina não admite outra demonstração.


Primeiro capítulo


ORIGINAL:

HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. v-xii. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/n10/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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