Por George Berkeley
[332]133. Pelo que foi dito até aqui, é evidente que erros muito numerosos e importantes surgiram a partir daqueles Princípios falsos que foram contestados nas partes acima expostas; e os opostos [333]àqueles dogmas errôneos, ao mesmo tempo, parecem ser os Princípios mais fecundos, a partir dos quais fluem consequências inumeráveis, altamente vantajosas para a verdadeira filosofia assim como a religião. Particularmente a Matéria, ou a existência absoluta1 de objetos corporais, foi revelada ser onde os inimigos mais confessos e perniciosos de todo o conhecimento, quer humano, quer divino, sempre têm colocado sua força e confiança principais. E certamente, se ao distinguir a existência real de coisas não pensantes de seu ser percebido, e conceder a elas uma subsistência por si próprias, fora das mentes de espíritos, coisa nenhuma é explicada na natureza, mas, pelo contrário, muitas grandes dificuldades inexplicáveis surgem; se a suposição da Matéria2 for apenas precária, como não sendo fundamentada mesmo em uma única razão; se suas consequências não podem suportar a luz do exame e investigação livre, mas ocultam-se sobre a pretensão sombria e geral de infinitos sendo incompreensíveis; se, além disso, a remoção dessa Matéria3 não for acompanhada da menor consequência infeliz; se dela nem mesmo a falta for sentida no mundo, mas tudo concebido tão bem, ou melhor, muito mais facilmente concebido sem ela; se, por último, tanto Céticos quanto Ateus forem para sempre silenciados ao serem supostos apenas espíritos e ideias, e esse esquema de coisas estiver perfeitamente de acordo tanto com a Razão quanto a Religião: parece-me que nós devemos esperar que ele deva ser admitido e firmemente adotado, embora ele fosse proposto apenas como uma hipótese e a existência da Matéria4 houvesse sido considerada possível; o que, todavia, eu penso que nós demonstramos evidentemente que ela não é.
134. Verdadeiro é que, em consequência dos Princípios acima expostos, várias disputas e especulações que são estimadas como partes não insignificantes do conhecimento são rejeitadas como inúteis [5e, com efeito, relacionadas a absolutamente nada]. Mas, seja qual for o grande preconceito contra nossas noções que isso possa dar àqueles que já estão profundamente engajados e fizeram grandes avanços em estudos dessa natureza, todavia, para outros, nós esperamos que isso não seja considerado [334]nenhum fundamento justo de aversão aos princípios e doutrinas aqui estabelecidos, para que eles abreviem o labor de estudo e tornem as ciências humanas mais claras, compendiosas e alcançáveis do que alguma vez antes foram.
135. Tendo despachado o que nós pretendíamos dizer concernente ao conhecimento das ideias, o método que nos propomos nos conduz, no próximo lugar, a tratar dos espíritos6: com respeito aos quais, talvez, o conhecimento humano não seja tão deficiente quanto é vulgarmente imaginado. A grande razão que é atribuída para nosso pensamento ser ignorante da natureza dos Espíritos é nós não termos uma ideia deles. Mas certamente isso não deve ser considerado um defeito no entendimento humano, que ele não perceba ideia de Espírito, se é manifestamente impossível que deva haver qualquer ideia semelhante. E isso, se eu não me engano, foi demonstrado na seção 27. Ao qual eu devo aqui adicionar que um Espírito foi revelado ser a única substância ou suporte no qual as coisas não pensantes ou ideias podem existir: mas, que essa substância, a qual suporta ou percebe ideias, devesse ela mesma ser uma ideia, ou semelhante a uma ideia, é evidentemente absurdo.
136. Talvez seja dito que nós desejamos um sentido (como alguns imaginaram7) apropriado para conhecer substâncias do mesmo modo; o qual, se nós tivéssemos, nós poderíamos conhecer nossa própria alma como nós conhecemos um triângulo. A isso eu respondo, que no caso de que nós tivéssemos um novo sentido concedido a nós, nós apenas poderíamos receber por esse meio algumas novas sensações ou ideias de sentido. Mas eu acredito que ninguém dirá que o que ele entende pelos termos alma ou substância seja apenas algum tipo particular de ideia ou sensação. Portanto, nós podemos inferir que, todas as coisas devidamente consideradas, não é mais razoável considerar nossas faculdades defeituosas, naquilo que elas não nos fornecem uma ideia de Espírito, ou substância ativa pensante, do que seria se nós as culpássemos por não sermos capaz de compreender um quadrado redondo8.
[335]137. A partir da opinião de que os Espíritos devam ser conhecidos segundo a maneira de uma ideia ou sensação, surgiram muitos dogmas absurdos e heterodoxos, e muito ceticismo sobre a natureza da alma. É até provável que essa opinião tenha produzido uma dúvida em alguém de se ele tem uma alma de qualquer maneira distinta de seu corpo; uma vez que mediante investigação ele não pôde encontrar uma ideia dela. Que uma ideia, a qual é inativa, e a existência da qual consiste em ser percebida, deva ser a imagem ou semelhança de um agente subsistindo por si mesmo parece não necessitar de outra refutação que meramente atentar para o que é significado por essas palavras. Mas talvez, você dirá, que, embora uma ideia não possa se assemelhar a um Espírito em seu pensamento, ação, ou subsistência por si, todavia, ela pode em alguns outros aspectos; e não é necessário que uma ideia ou imagem seja, em todos os aspectos, igual ao original.
138. Eu respondo, se isso não [ocorre] nesses [casos] mencionados, é impossível que ela deva representá-la em qualquer outra coisa. Apenas ignore o poder da vontade, do pensamento e da percepção de ideias, e ai nada resta senão onde a ideia pode ser semelhante a um espírito. Pois, pela palavra espírito, nós apenas queremos dizer isso que pensa, deseja e percebe; isso, e apenas isso, contribui para a significação daquele termo. Portanto, se é impossível que qualquer grau daqueles poderes deva ser representado em uma ideia [9ou noção], é evidente que não pode haver ideia [10ou noção] de um Espírito.
139. Mas, será objetado que, se não há nenhuma ideia significada pelos termos alma, espírito e substância, eles são inteiramente insignificantes, ou não têm nenhum sentido neles. Eu respondo, aquelas palavras querem dizer, ou significam, uma coisa real; a qual não é nem uma ideia nem semelhante a uma ideia, mas isso que percebe ideias, deseja e raciocina sobre elas. O que eu mesmo sou, isso que eu denoto pelo termo Eu, é a mesma coisa que o que é significado por alma, ou substância espiritual. [11Mas, se eu devesse dizer que eu não era nada, ou que eu era uma ideia ou noção, nada poderia ser mais evidentemente absurdo do que qualquer uma dessas proposições.] Se deve ser dito que [336]isso é apenas brigar por uma palavra, e que, uma vez que as significações imediatas de outros nomes são, por consentimento comum, chamadas de ideias, nenhuma razão poder ser atribuída de porque isso que é significado pelo nome de espírito ou alma não possa participar da mesma alcunha. Eu respondo, tudo que os objetos não pensantes da mente concordam é naquilo que eles são inteiramente passivos, e [que] a existência deles consiste apenas em serem percebidos: enquanto que a alma ou espírito é um ser ativo, cuja a existência consiste, não em ser percebida, mas em perceber ideias e pensar12. Portanto, é necessário que, para prevenir equívoco e confusão de naturezas perfeitamente em desacordo e diferentes, nós distingamos entre espírito e ideia. Ver seção 27.
140. De fato, em um sentido amplo, pode ser dito que nós temos uma ideia [13ou melhor, uma noção] do espírito. Quer dizer, nós entendemos o significado da palavra, de outra maneira nós não poderíamos afirmar ou negar nada dela. Além disso, como nós concebemos as ideias que estão nas mentes de outros espíritos usando de nosso próprio [conhecimento de nossas ideias], o qual nós supomos ser semelhanças dos deles, assim nós conhecemos outros espíritos usando nossa alma: a qual, nesse sentido, é a imagem ou ideia deles; tendo uma circunstância similar aos outros espíritos que a qualidade do azul ou o calor percebidos por mim tem com aquelas ideias percebidas por outro14.
141. [15A imortalidade natural da alma é uma consequência necessária da doutrina acima exposta. Mas, antes de tentarmos provar isso, é adequado que nós expliquemos o sentido desse dogma.] Não deve ser suposto que aqueles que afirmam a imortalidade natural da alma16 sejam da opinião de que ela seja absolutamente incapaz de aniquilação mesmo pelo poder infinito do Criador que primeiro deu o ser a ela, mas somente que ela não é passível de ser dividida ou [337]dissolvida pelas leis ordinárias da natureza ou movimento. De fato, aqueles que sustentam que a alma do homem seja apenas uma delicada chama vital, ou sistema de partes animais, tornam-na perecível e corruptível como o corpo; uma vez que nada é mais facilmente dissipado do que um semelhante ser, o qual é naturalmente impossível [que] deva sobreviver à ruína do tabernáculo no qual ele está encerrado. E essa noção tem sido avidamente adotada e estimada pela pior parte do gênero humano, como o antídoto mais efetivo contra todas as impressões da virtude e religião. Mas foi tornado evidente que os corpos, de qualquer estrutura ou textura que sejam, são meramente ideias passivas na mente, a qual é mais distante e heterogênea deles do que a luz é da escuridão17. Nós mostramos que a alma é indivisível, incorpórea, inextensa e, consequente, é incorruptível. Nada pode ser mais simples do que os movimentos, mudanças, declínios e dissoluções que nós continuamente vemos acontecer aos corpos naturais (e o que é que nós queremos dizer pelo curso da natureza) não podem possivelmente afetar uma substância ativa, simples, não composta; portanto, um tal ser é indissolúvel pela força da natureza; isso quer dizer, a alma do homem é naturalmente imortal18.
142. Depois do que foi dito, eu suponho, é evidente que nossas almas não são conhecidas da mesma maneira como os objetos inanimados, inativos, ou por meio de ideias. Espíritos e ideias são coisas tão inteiramente diferentes, que quando nós dizemos que ‘eles existem,’ ‘eles são conhecidos,’ ou [expressões] semelhantes, essas palavras [338]não devem ser consideradas significar qualquer coisa comum a ambas as naturezas19. Não há nada de semelhante ou comum neles; e esperar que, por qualquer multiplicação ou alargamento de nossas faculdades, nós possamos ser capacitados a conhecer um espírito como nós fazemos com um triângulo, parece tão absurdo quanto se nós devêssemos esperar ver um som. Isso é inculcado porque eu imagino que ele pode ser um momento na direção da elucidação de várias questões importantes, e prevenção de alguns erros muito perigosos concernentes à natureza da alma.
[20Estritamente, eu penso que não se possa dizer que nós temos uma ideia de um ser ativo, ou de uma ação; embora se possa dizer que nós temos uma noção delas. Eu tenho algum conhecimento ou noção de minha mente, e de seus atos sobre ideias; na medida em que eu conheço ou entendo o que se quis dizer por essas palavras. Que eu conheço, disso eu tenho alguma noção. Eu não direi que os termos ideia e noção não possam ser usados permutavelmente, se o mundo afirma-o assim. Contudo, é conducente com a clareza e propriedade, que nós distingamos coisas muito diferentes pelo nome. Também isso deve ser observado de todas as relações, incluindo um ato da mente21; assim propriamente não se pode dizer que nós temos uma ideia, mas antes uma noção, das relações e hábitos entre as coisas. Mas se, na maneira moderna22, a palavra ideia for estendida a espíritos, e relações, e atos, isso é, depois de tudo, uma questão de preocupação verbal.]
143. Não será impróprio acrescentar que a doutrina das ideias abstratas teve não pequena participação em tornar essas ciências intrincadas e obscuras, as quais estão particularmente relacionadas a coisas espirituais. Os homens têm imaginado que eles podem formar noções abstratas dos poderes e atos da mente, e considerá-los tão bem abstraídos da mente ou do espírito mesmo, quanto de seus respectivos objetos e efeitos. Consequentemente, um grande número de termos obscuros e [339]ambíguos, presumidos representarem noções abstratas, foram introduzidos na metafísica e na moralidade; e, a partir deles, cresceram distrações e disputas infintas entre os instruídos23.
144. Mas, nada parece ter contribuído mais para envolver homens em controvérsias e enganos com respeito às operações da mente do que o estar acostumado a falar dessas coisas em termos emprestados das ideias sensíveis. Por exemplo, a vontade é denominada de movimento da alma: isso infunde uma crença de que a mente do homem é como uma bola em movimento, impelida e determinada pelos objetos do sentido, tão necessariamente como a segunda é pelo golpe de uma raquete. Consequentemente, surgem infinitos escrúpulos e erros de consequência perigosa na moralidade. Tudo isso, eu não duvido, pode ser elucidado, e a verdade aparecer evidente, uniforme e consistente, pudessem apenas os filósofos ser vencidos a [24distanciarem-se de alguns prejuízos e modos de falar,] retirarem-se para dentro de si mesmos e, atentamente, considerarem seu próprio significado. [25Mas as dificuldades surgindo dessa categoria demandam uma investigação mais particular do que é adequado ao desígnio deste tratado.]
145. A partir do que foi dito, é evidente que nós não podemos conhecer a existência de outros espíritos de outro modo que não por suas operações, ou pelas ideias por eles excitadas em nós. Eu percebo várias movimentos, mudanças e combinações de ideias que me informam que existem certos agentes particulares, como eu mesmo, que as acompanham, e concorrem na produção delas. Consequentemente, o conhecimento que eu tenho de outros espíritos não é imediato, como o conhecimento de minhas ideias; mas dependente da intervenção de ideias, referidas por mim a agentes ou espíritos distintos de mim mesmo, como efeitos ou sinais concomitantes26.
[340]146. Mas, embora haja algumas coisas que nos convencem [de que] agentes humanos estão relacionados com a produção delas, todavia, é evidente para qualquer um que aquelas coisas que são chamadas de Obras da Natureza, quer dizer, a parte muito maior das ideias ou sensações percebidas por nós, não são produzidas ou dependentes das vontades de homens. Portanto, há algum outro Espírito que as causa; uma vez que é repugnante27 que elas devam subsistir por si mesmas. Ver seção 29. Mas, se nós considerarmos atentamente a regularidade, ordem e concatenação constantes das coisas naturais, a magnificência, beleza e perfeição surpreendentes da maior e mais esquisita invenção das menores partes da criação, junto com a harmonia e correspondência exatas do todo, mas, acima de tudo, as nunca suficientemente admiradas leis da dor e do prazer, e os instintos ou inclinações, apetites e paixões naturais dos animais; - eu digo, se nós considerarmos todas essas coisas, e, ao mesmo tempo, observarmos o significado e importância dos atributos de Um, Eterno, Infinitamente Sábio, Bom e Perfeito, nós claramente devemos perceber que eles pertencem ao Espírito acima mencionado, ‘que opera tudo em tudo’ e ‘por quem todas as coisas subsistem.’
147. Consequentemente, é evidente que Deus é conhecido tão certa e imediatamente como qualquer outra mente ou espírito que seja, distinto de nós mesmos. Nós até podemos afirmar que a existência de Deus é muito mais evidentemente percebida do que a existência de homens; porque os efeitos da Natureza são infinitamente mais numerosos e consideráveis do que aqueles atribuídos a agentes humanos. Não há nenhuma marca que denote um homem, ou efeito produzido por ele, que não muito mais fortemente evidencie o ser daquele Espírito que é o Autor da Natureza28. Pois é evidente que, ao afetar outras pessoas, a vontade do homem não tem outro objeto que meramente o movimento dos membros de seu corpo; mas que um semelhante movimento deva ser acompanhado por, ou excitar [341]qualquer ideia na mente de outro, dependem inteiramente da vontade do Criador. É apenas Ele quem, ‘sustentando todas as coisas pela palavra de Seu poder,’ mantém aquele intercurso entre espíritos por meio do qual eles são capazes de perceber a existência um do outro29. E contudo, essa Luz pura e clara, a qual ilumina a todos, é ela mesma invisível [30para a maior parte da humanidade].
148. Parece ser uma pretensão geral da multidão não pensante que eles não podem ver Deus. Apenas pudéssemos nós vê-Lo, dizem eles, como nós vemos um homem, nós deveríamos acreditar que Ele existe, e, acreditando, obedecer aos Seus mandamentos. Mas, ai de mim, nós apenas necessitamos abrir nossos olhos para ver o Senhor Soberano de Todas as coisas, com uma visão mais completa e clara do que nós [temos] de qualquer uma de nossas criaturas companheiras. Não que eu imagine que nós vejamos Deus (como alguns compreenderiam) por uma visão direta e imediata; ou [como] vemos as coisas corporais, não por elas mesmas, mas ao ver isso que elas representam na essência de Deus; doutrina que é, eu devo confessar, incompreensível31 para mim. Mas eu deverei explicar meu propósito. Um espírito humano ou pessoa não é percebido pelo sentido, visto [ele] não é uma ideia. Portanto, quando nós vemos a cor, o tamanho, a figura e os movimento de um homem, nós percebemos apenas certas sensações ou ideias excitadas em nossas próprias mentes; e essas sendo exibidas para nossa visão em diversas coleções distintas, servem para distinguir para nós a existência dos espíritos finitos e criados como nós mesmos. Consequentemente, é evidente que nós não vemos um homem, se por homem é significado isso que vive, move-se, percebe e pensa como nós fazemos: mas apenas uma certa coleção de ideias, como a dirigir-nos para pensar que há um princípio distinto de pensamento e movimento, como para nós mesmos, acompanhando e representado por ele. E, segundo a mesma maneira, nós vemos [342]Deus: toda a diferença é que, considerando que uma reunião finita e limitada de ideias denota uma mente humana particular, para onde quer que nós dirijamos nossa visão, nós em todas as ocasiões e em todos os lugares percebemos símbolos manifestos da Divindade: tudo que nós vemos, ouvimos, sentimos ou de qualquer maneira percebemos pelo sentido, sendo um sinal ou efeito do poder de Deus; assim como é nossa percepção daqueles mesmos movimentos que são produzidos por homens32.
149. Portanto, é evidente que nada pode ser mais evidente para qualquer um que seja capaz da menor reflexão do que a existência de Deus, ou de um Espírito que está intimamente presente em nossas mentes, produzindo nelas toda variedade de ideias ou sensações que continuamente nos afetam, de quem nós temos uma dependência absoluta e inteira, em resumo ‘em quem nós vivemos, e movemo-nos, e temos nosso ser.’ Que a descoberta dessa grande verdade, a qual se situa tão perto da, e óbvia à, mente, deva ser acompanhada pela razão de tão poucos, é uma instância triste da estupidez e desatenção dos homens, quem, embora eles estejam cercados por manifestações tão claras da Divindade, contudo, são tão pouco afetadas por ela que eles parecem, por assim dizer, cegos pelo excesso de luz33.
150. Mas você dirá – não tem a Natureza nenhuma parte produtora das coisas naturais, e devem elas todas ser atribuídas à operação imediata e única de Deus? Eu respondo, se por Natureza apenas se quis dizer as séries visíveis de efeitos ou sensações impressas em nossas mentes de acordo com certas leis fixas e gerais, então é evidente que a Natureza, tomada nesse sentido, não pode produzir absolutamente nada34. Mas, se por Natureza se quis dizer algum ser distinto de Deus, assim como das leis da natureza e coisas percebidas pelo sentido, eu preciso confessar que a palavra é um som vazio para mim, sem qualquer sentido inteligível anexado a ela. Natureza, nessa acepção, é uma vã quimera, introduzida por aqueles pagãos que não tinham noções justas da onipresença [343]e perfeição infinta de Deus. Mas é mais inexplicável que ela deva ser recebida entre Cristãos, professando crença nas Sagradas Escrituras, os quais constantemente atribuem aqueles efeitos à mão imediata de Deus que os filósofos pagãos são acostumados a imputar à Natureza. ‘O senhor que causou os vapores a ascenderem; Ele faz relâmpagos com chuva; Ele cria o vento a partir de Seus tesouros.’ Jeremias, X, 13. ‘Ele torna a sombra da morte em manhã, e torna o dia escuro com a noite.’ Amos, V, 8. ‘Ele visita a terra, e torna-a suave com chuvaradas: Ele abençoa o ano com Sua bondade; de maneira que os pastos ficam cobertos com rebanhos, e os vales são cobertos com milho.’ Ver Salmo LXV. Mas, a despeito de que essa seja a linguagem constante da Escritura, contudo, nós temos não sei que aversão de acreditar que Deus preocupa-Se tão de perto com nossos assuntos. Satisfeitos, nós O suspeitaríamos a uma grande distância, e substituído por algum cego representante não pensante em Seu lugar; embora (se nós podemos acreditar em São Paulo) ‘Ele não está muito distante de nenhum de nós.’
151. Eu não duvido, será objetado que os métodos lentos, graduais e indiretos observados na produção das coisas naturais não parecem ter como sua causa a mão imediata de um Agente Todo-poderoso: além disso, monstros, nascimentos prematuros, frutos arruinados na floração, chuvas caindo em lugares desertos, misérias incidentes na vida humana e semelhantes são tantos argumentos de que a inteira estrutura da natureza não é imediatamente acionada e dirigida por um Espírito de sabedoria e bondade infinitas. Mas a resposta para essa objeção é, em uma grande medida, evidente a partir da seção 62; sendo visível que os métodos acima mencionados são absolutamente necessários a fim de funcionarem pelas regras mais simples e gerais; as quais provam tanto a sabedoria quanto a bondade de Deus35. [36Pois, consequentemente, segue-se que o dedo de Deus não é tão notável para ser resolvido e pecador descuidado; o que lhe concede uma oportunidade para endurecer em sua impiedade e amadurecer para vingança. (Ver seção 57.)] Tal é a invenção artificial dessa poderosa [344]máquina da Natureza, enquanto seus movimentos e vários fenômenos atingem nossos sentidos, a Mão que os aciona o todo é ela mesma imperceptível para homens de carne e sangue. ‘Verdadeiramente’ (diz o profeta) ‘tu és um Deus que escondes a ti mesmo.’ Isaías XLV, 15. Mas, embora o Senhor esconda a si mesmo dos olhos do sensual e preguiçoso, quem não estaria a menor expensa de pensamento37, contudo, para uma mente sem preconceitos e atenta, nada pode ser mais evidentemente legível do que a presença intima do Espírito Onisciente, quem forma, regula e sistema o inteiro sistema do Ser. Está claro, a partir do que foi observado em outros lugares, que a operação de acordo com leis gerais e estabelecidas é tão necessária para nossa orientação nos assuntos da vida, e deixar-nos entrar no segredo da natureza, que sem ela todo o alcance e compasso do pensamento, toda a sagacidade e desígnio humanos, não poderia servir a nenhuma maneira de propósito. Seria mesmo impossível que devesse existir quaisquer faculdades ou poderes semelhantes na mente. Ver seção 31. Uma consideração a qual abundantemente pesa mais do que quaisquer que sejam as inconveniências particulares que possam daí surgir38.
152. Nós deveríamos considerar adicionalmente que até as deformidades e defeitos da natureza não são sem uso, e que eles formam um tipo agradável de variedade, e aumentam a beleza do resto da criação, como sombras em uma pintura servem para realçar as partes mais brilhantes e iluminadas. Da mesma maneira, nós fazemos bem em examinar se nossa acusação do desperdício de sementes e embriões, e a destruição acidental de plantas ou animais antes que eles cheguem à maturidade completa, como uma imprudência no Autor da natureza, não é o efeito do prejuízo contraído por nossa familiaridade com mortais impotentes e salvadores. De fato, no homem um gerenciamento parcimonioso daquelas coisas que nós não podemos adquirir sem muitos esforços e indústria pode ser estimado como sabedoria. Mas nós não precisamos imaginar que a inexplicavelmente elegante máquina de um animal ou vegetal custa ao Criador mais esforços ou problema em sua produção do que um seixo custa; nada sendo mais evidentes do que um Espírito Onipotente pode [345]indiferentemente produzir tudo por um mero fiat ou ato de sua vontade. Consequentemente, é evidente que a profusão esplêndida de coisas naturais não deveria ser interpretada como fraqueza ou prodigalidade no Agente que as produz, mas antes ser examinada como um argumento das riquezas de Seu poder.
153. Quanto à mistura de dor ou inquietação que existe no mundo, nos termos das leis gerais da Natureza, e as ações de Espíritos finitos, imperfeitos, isso, no estado que nós estamos no presente, é indispensavelmente necessário para nosso bem-estar. Mas nossas perspectivas são muito estreitas. Por exemplo, nós tomamos a ideia de alguma dor particular em nossos pensamentos e consideramo-la má. Enquanto que, se nós alargarmos nossa visão, de modo a compreendermos os vários fins, conexões e dependências das coisas, sobre em que ocasiões e em que proporções nós somos afetados por dor e prazer, a natureza da liberdade humana e o desígnio com o qual nós fomos colocados no mundo; nós devemos ser forçados a reconhecer que aquelas coisas particulares que, consideradas em si mesmas, parecem ser más, têm a natureza do bem, quando consideradas como vinculadas com o inteiro sistema de seres39.
154. A partir do que tem sido dito, ficará manifesto para qualquer pessoa considerante que é meramente por desejo de atenção e abrangência da mente que há quaisquer favorecedores de Ateísmo ou da Heresia Maniqueia para serem encontrados. De fato, almas pequenas e irrefletidas podem ridicularizar as obras da Providência; a beleza e ordem da qual eles não têm capacidade, ou não se colocarão na dificuldade, de compreender40. Mas aqueles que são mestres de qualquer justiça e extensão de pensamento e, além disso, são acostumados a refletir, nunca podem admirar suficientemente os traços divinos [346]de Sabedoria e Bondade que brilham por toda parte da economia da Natureza. Mas que verdade há lá que deslumbra tão fortemente a mente que, por uma aversão ao pensamento, um voluntarioso fechamento dos olhos, nos não podemos escapar de ver? Portanto, é para ser perguntado, se a generalidade dos homens, quem sempre ambicionam negócio ou prazer, e estão pouco acostumados a fixar ou abrir os olhos de suas mentes, não deve ter toda a convicção e evidência do Ser de Deus, o que poderia ser esperado em criaturas razoáveis41?
155. Nós devemos antes ponderar que homens sejam descobertos tão estúpidos quanto a negligenciarem, do que negligenciar que eles não devam estar convencidos de uma verdade42 tão evidente e importante. E todavia deve ser temido que tantos dos talentos e tempo livre, de quem vivem em países cristãos, são, meramente através de uma negligência indolente e terrível, afundadas em uma tipo de Ateísmo. [43Eles não podem dizer que há um Deus, mas nem eles estão convencidos de que há. Pois o que mais pode ser, senão descrença à espreita, algumas dúvidas secretas na mente com respeito à existência e aos atributos de Deus, que permite pecadores crescerem e endurecerem em impiedade?] Uma vez que é francamente impossível que uma alma perfurada e iluminada por uma cuidadosa sensação da onipresença, santidade e justiça daquele Espírito Todo-poderoso deva persistir em uma violação sem remorso de Suas leis. Portanto, nós devemos sinceramente meditar e insistir nesses pontos específicos; para que assim nós possamos alcançar a convicção sem todo o escrúpulo de ‘que os olhos do Senhor estão em todo o lugar, observando o mal e o bem; que Ele está conosco e sustenta-nos em todos os lugares para onde nós vamos, e dá-nos pão para comer e vestimenta para vestir;’ que Ele está presente e [347]consciente de nossos pensamentos mais profundos; e que nós temos uma dependência mais absoluta e imediata Dele. Uma clara visão de grandes verdades, as quais não podem escolher senão encher nossos corações com uma circunspecção terrível e temor sagrado, o quais são os mais fortes incentivos à virtude, e a melhor guarda com o Vício.
156. Pois, depois de tudo, o que merece o primeiro lugar em nossos estudos é a consideração de Deus e do nosso Dever, o que promover, como se fosse o impulso e desígnio principais de nossos labores. Assim eu devo considerar completamente inútil e inefetivo se, pelo que foi dito, eu não puder inspirar meus leitores com o sentido pio da Presença de Deus; e, tendo revelado a falsidade ou vaidade daquelas especulações estéreis que formam o emprego principal dos homens instruídos, o [como] melhor lhes dispor à reverência e adoção das verdades salutares do Evangelho; o qual, conhecer e praticar é a mais elevada perfeição da natureza humana.
ORIGINAL:
BERKELEY, G. A Treatise concerning the Principles of Human Knowledge [Part I]. First published in 1710. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.332-347. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/332/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [333]‘absoluta,’ ou seja, existência abstrata, independente, sem relação – como alguma coisa da qual não pode haver percepção sensível ou concepção.
2 Matéria não realizada na percepção – não o mundo material que está realizado na experiência percipiente do sentido.
3 Nota do tradutor: esta nota relativa à concepção de matéria é a mesma que a anterior!
4 Nota do tradutor: esta nota relativa à concepção de matéria é a mesma que as anteriores!
5 Omitido na segunda edição.
6 [334]As seções 135-156 tratam das consequências dos Novos Princípios, em sua aplicação às ciências relacionados a nossas noções de Espírito ou Mente; enquanto distintas das ciências de ideias na Natureza externa e as suas relações matemáticas. A mente individual, para Berkeley, necessita de dados dos sentidos para sua realização em consciência; enquanto ela é dependente de Deus, em uma relação na qual ele não define distintamente.
7 Por exemplo, Locke sugere isso.
8 Essa analogia é aplicável?
9 [335]Omitido na segunda edição, visto que previamente ele aprendera a distinguir noção de ideia. Cf. seções 89, 142.
10 Nota do tradutor: esta nota relativa à distinção entre noção e ideia é a mesma que a anterior!
11 Ibid. Na passagem omitida será visto que ele torna ideia e noção sinônimos.
12 [336]É a realidade da mente tão dependente de ter ideias (de algum tipo) como as ideias são da mente; embora a mente seja mais profunda e verdadeiramente real do que suas ideias são?
13 Introduzido na segunda edição.
14 Nós conhecemos outras pessoas finitas através de fenômenos apresentados ao sentido, mas não como fenômenos elas mesmas. Cf. seção 145. É um conhecimento mediado que nós temos de outras pessoas. Na questão sobre a individualidade de egos finitos, como distintos de Deus, Berkeley não tocou.
15 Estas sentenças estão omitidas na segunda edição.
16 ‘a alma,’ ou seja, o Ego individual.
17 [337]Cf. seções 2; 25-27.
18 Essa é a aplicação por Berkeley de sua nova concepção da realidade da matéria à questão humana decisiva da existência autoconsciente do Ego individual após a morte física. Filósofos e teólogos, na época dele, estavam acostumados a fundamentarem seus argumentos para uma vida futura na suposição metafísica da indivisibilidade física de nosso espírito autoconsciente, e em nossa conexão contingente com o corpo. ‘Nossos corpos,’ diz o Bispo Butler, ‘não são mais nós mesmos, ou parte de nós mesmos do que qualquer outra matéria a nossa volta.’ Essa linha de raciocínio é estranha para nós nos dias de hoje, quando os homens de ciência lembram-nos de que a vida autoconsciente é encontrada apenas em correlação com organização corporal, qualquer que possa ser a possibilidade abstrata. A esperança de vida ininterrupta após a morte física parece depender de considerações éticas antes que de argumentos metafísicos, e do que é sugerido pela fé no resultado final da via pessoa em um universo divinamente constituído.
19 [338]Mentes e as ideias apresentadas aos sentidos estão nos polos opostos da existência. Mas ele não diz que, opostos dessa maneira, elas sejam independentes uma da outra.
20 O que segue foi introduzido na segunda edição, na qual noção é contrastada com ideia.
21 Aqui está o germe do kantismo. Mas Berkeley não analisou que atividade da mente que constitui a relação, nem desdobrou sistematicamente as relações envolvidas na constituição racional da experiência. Há mais disposição para isso em Siris.
22 Como com Locke, por exemplo.
23 [339]Note essa condenação da tendência a substanciar ‘poderes da mente.’
24 Omitido na segunda edição. Afinal, Berkeley estava relutante em ‘se afastar dos recebidos modos de falar,’ a despeito de suas associações frequentemente enganadoras.
25 Nota do tradutor: esta nota relativa à relutância de Berkeley quanto a abandonar o modo comum de falar é a mesma que a anterior!
26 Esta é uma das mais notáveis seções nos Princípios, enquanto ela sugere as razões (rationale) para a rejeição do Panegoísmo ou Solipsismo por Berkeley. É isso consistente com sua concepção da realidade do mundo material? É objetado (por exemplo, por Reid) que o realismo ideal dissolve nossa fé na existência de outras pessoas. A dificuldade é revelar como as aparências apresentadas a meus sentidos, que são sensuais e subjetivas, podem ser o meio de comunicação entre [340]pessoas. A questão leva-nos de volta à pressuposição teística envolvida na confiabilidade da experiência – a qual é adaptada para me enganar, se eu sou a única pessoa existente. Para Berkeley, uma função principal das ideias do sentido é significar outras pessoas para cada pessoa. Ver Alciphron, Dial. IV; New Theory of Vision Vindicated e Siris.
27 ‘repugnante’ – pois isso envolveria o pensamento em incoerência, por paralisia de sua indispensável pressuposição causal.
28 Não é Deus a pressuposição indispensável da experiência fidedigna, antes que uma empírica inferência?
29 [341]Isso segure uma explicação da realidade objetiva e da significância das ideias do sentido; através da qual elas tornam-se meios de intercurso social no universo fundamentalmente divino. Deus assim regula as ideias das quais os seres humanos são individualmente percipientes dadas pelo sentido, como se, embora numericamente diferentes, enquanto em cada mente, aquelas ideias fossem, no entanto, um meio suficiente para intercurso social, se o Poder universalmente em operação é moralmente digno de confiança. A menos que a experiência concedida por Deus seja enganadora, o Solipsismo não é um resultado necessário do fato de que ninguém senão eu mesmo pode ser percipiente de minha experiência sensorial.
30 Omitido na segunda edição.
31 Malebranche, como entendido por Berkeley. Ver Recherche, Liv. III. p.ii. ch.6, etc.
32 [342]Pois todas as pessoas finitas, de alguma forma, vivem, movem-se e têm seu ser ‘em Deus.’ A existência da eterna mente vivente, e a existente presente de outras mentes, são ambas inferências, apoiando-se sobre o mesmo fundamento, de acordo com Berkeley.
33 A confiança teística, na qual nossa experiência está enraizada, permanecendo latente ou sendo ininteligente.
34 Cf. seções 25-28, 51-53, 60-66. Sua concepção de causação Divina na Natureza, como a constante ação onipresente em toda lei natural, é a parte mais profunda de sua filosofia. Ela é procurada no De Motu.
35 [343]Não é a evolução natural, sem começo e sem fim, uma revelação articulada do Espírito Eterno ou Razão Ativa no coração do todo?
36 Omitido na segunda edição.
37 [344]Também Pascal nos Pensées.
38 A razão divina, sempre ativa na natureza, é o correlato necessário da razão no homem; visto que, de outra maneira, o universo mutável no qual nós vivemos seria impróprio para ser raciocinado ou agido sobre ele.
39 [345]A existência do mal moral, ou do que não deveria existir, é a dificuldade que assedia a fé na divindade ou bondade fundamentais do universo. Contudo, essa fé é pressuposta na interpretação da natureza, a qual prossegue para para postular a ordem universal; e isso implica a confiabilidade moral no mundo que nós começamos a perceber quando nós começamos a ser conscientes. Dessa maneira, que nós estamos vivendo e tendo nosso ser em bondade onipotente, não é uma inferência, mas a base implícita de todas as inferências. Eu desenvolvi isso em meu Philosophy of Theism. Nós não podemos provar Deus, pois nós devemos presumir Deus como base de toda prova. Mesmo fé na uniformidade da natureza é virtualmente fé em uma bondade onipotente imanente no universo.
40 Também Leibniz em sua Theodicée, a qual foi publicada no mesmo ano que os Princípios de Berkeley.
41 [346]A pressuposição divina, latente em todo o raciocínio e experiência humanos, está oculta do irrefletido, no qual a vida superior está dormente, e o ideal no universo está, por consequência, imperceptível. A menos que o universo seja assumido ser fisica e moralmente fidedigno, ou seja, a menos que Deus seja pressuposto, até a ciência natural não tem fundamento adequado.
42 Nosso conhecimento necessariamente incompleto do Universo no qual nos encontramos está inclinado para perturbar a fé fundamental, de que os fenômenos que são apresentados a nós são significantes de Deus. Contudo, nós assumimos tacitamente que eles são significantes dessa maneira quando nós interpretamos a experiência real, física ou moral.
43 Omitido na segunda edição.
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