Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.
Por Thomas Hobbes
Parte I Do Homem
[3]Capítulo II Da Imaginação
Que, quando uma coisa permanece imóvel, a menos que alguma outra coisa a mova, ela permanecerá imóvel para sempre, é uma verdade da qual nenhum homem duvida. Mas, que quando uma coisa está em movimento, [4]ela permanecerá eternamente em movimento, a menos que alguma outra coisa a pare, embora a razão seja a mesma, a saber, que nada pode mudar a si mesmo, não é facilmente concordado. Pois os homens medem não apenas os outros homens, mas todas as outras coisas, por si mesmos; e, porque eles encontram a si mesmos sujeitos a dor e lassitude após o movimento, pensam que todas as coisas se cansam do movimento e buscam repouso por vontade própria; pouco considerando se não é algum outro movimento no qual aquele desejo de descanso que eles encontram em si mesmos consiste. A partir daí, a escola diz, é que os corpos caem para baixo, a partir do desejo de repouso e para conservar a natureza deles naquele lugar que é mais apropriado para eles; absurdamente atribuindo desejo e conhecimento do que é bom para a conservação deles, o que é mais do que o homem tem, a coisas inanimadas.
Uma vez que o corpo esteja em movimento, ele move-se eternamente, a menos que alguma outra coisa impeça-o; e seja o que for que o impeça, não pode, em um instante completamente o extinguir, mas no tempo e por graus; e como nós vemos na água, embora o vento cesse, as ondas não abandonam por um longo tempo depois ondulação: assim também acontece naquele movimento, o qual é produzido nas partes internas de um homem, nesse caso, quando ele vê, sonha, etc. Pois, após o objeto ser removido, ou o olho fechado, nós ainda retemos a imagem da coisa vista, embora mais obscura do que quando nós a vimos. E isso é o que os latinos chamam de imaginação, a partir da imagem formada ao ver: e aplicam o mesmo, embora impropriamente, a todos os outros sentidos. Mas os gregos chamam-no de fantasia (fancy); o que significa aparência, e é tão próprio para um sentido quanto para outro. Portanto, IMAGINAÇÃO não é nada mais que sentido enfraquecido; e é [5]encontrada nos homens, e em muitas outras criaturas vivas, tanto dormindo quanto acordados.
O enfraquecimento do sentido em homens despertos não é o enfraquecimento do movimento produzido no sentido; mas um obscurecimento dele, de uma maneira semelhante a como a luz do sol é obscurecida pela luz das estrelas; estrelas as quais não menos exercitam sua capacidade, pela qual elas são visíveis, no dia do que na noite. Mas porque em meio a muitos efeitos, os quais nossos olhos, ouvidos e outros órgãos recebem a partir de corpos externos, apenas o predominante é sensível; portanto, a luz do sol sendo predominante, nós não somos afetados pela ação das estrelas. E qualquer objeto sendo removido de nossos olhos, embora a impressão que ele produziu em nós permaneça, todavia, outros objetos mais presentes sucedendo e agindo sobre nós, a imaginação do passado é obscurecida, e tornada fraca, como é a voz de um homem no barulho do dia. De onde se segue que, quanto mais longo é o tempo após a visão ou sentido de qualquer objeto, mais fraca é a imaginação. Pois a mudança contínua do corpo do homem destrói, com o tempo, as partes que foram movidas no sentido: de maneira que a distância de tempo, e de lugar, tem um e o mesmo efeito em nós. Pois, como a uma grande distância de lugar, aquilo que nós vemos aparece sombrio e sem distinção das partes menores, e como a voz se torna enfraquecida e inarticulada; assim também, após uma grande distância de tempo, nossa imaginação do passado é fraca; e nós perdemos, por exemplo, das cidades que nós vimos, muitas ruas particulares, e das ações, muitas circunstâncias particulares. Esse sentido enfraquecido, quando nós desejamos expressar a coisa mesma, eu quero dizer a fantasia (fancy) mesma, nós chamamos de imaginação, como eu disse [6]antes: mas, quando nós desejamos expressar o enfraquecimento e significar que o sentido está desaparecendo, velho e passado, ele é chamado de memória. De maneira que imaginação e memória são apenas uma coisa, a qual, para considerações diversas, tem nomes diversos.
Muita memória, ou memória de muitas coisas, é chamada de experiência. Novamente, a imaginação sendo apenas daquelas coisas que anteriormente foram percebidas pelo sentido, quer tudo de uma vez, quer por partes em várias vezes; a primitiva, a qual é imaginação do objeto todo como ele foi apresentado ao sentido, é a imaginação simples, como quando alguém imagina um homem, ou cavalo, que viu antes. A outra é composta; como quando, a partir da visão de um homem, em uma ocasião, e de um cavalo, em outra ocasião, nós concebemos um Centauro em nossa mente. Assim, quando um homem compõe a imagem de sua própria pessoa com a imagem das ações de outro homem, como quando um homem se imagina um Hércules ou um Alexandre, o que acontece frequentemente para aqueles que são muito tomados pela leitura de romances, é uma imaginação composta e, corretamente, apenas uma ficção da mente. Também há outras imaginações que surgem nos homens, embora despertos, a partir de uma grande impressão produzida no sentido: como de encarar o sol, a impressão deixa uma imagem do sol diante de nossos olhos por um longo tempo depois; e, de ficar atento longa e veementemente às figuras geométricas, um homem deverá, no escuro, embora desperto, ter as imagens de linhas e ângulos diante de seus olhos; tipo de imaginação que não tem nome particular, sendo uma coisa que comumente não entra no discurso dos homens.
As imaginações daqueles que dormem são aquelas que nós chamamos de sonhos. E também esses, como todas as outras [7]imaginações, estiveram antes, quer totalmente ou em partes, no sentido. E porque no sentido, o cérebro e os nervos, que são os órgãos necessários do sentido, estão de tal maneira entorpecidos no sono, como a não facilmente serem movidos pela ação de objetos externos, que não pode ocorrer no sono nenhuma imaginação e, portanto, nenhum sonho, senão o que começa a partir da agitação das partes interiores do corpo do homem; partes interiores que, por causa da conexão que elas têm com o cérebro e outros órgãos, quando estão alteradas, mantém os mesmos em movimento; com o que a imaginação ali anteriormente formada aparece como se um homem estivesse desperto; salvo que os órgãos do sentido estando agora entorpecidos, assim como a não haver novo objeto, o qual poderia dominar e obscurecê-los com uma impressão mais vigorosa, um sonho deve necessariamente ser mais claro, nesse silêncio do sentido, do que em nossos pensamentos despertos. E consequentemente acontece que é uma questão difícil, e por muitos considerada impossível, distinguir exatamente entre sentido e sonho. De minha parte, quando considero que nos sonhos eu frequentemente não penso nem constantemente nas mesmas pessoas, lugares, objetos e ações, que eu penso quando desperto; nem me lembro de uma sequência tão longa de pensamentos coerentes, sonhando como em outras ocasiões; e porque desperto eu frequentemente observo a absurdidades dos sonhos, mas nunca sonho com as absurdidades de meus pensamentos despertos; eu estou bem satisfeito que, estando desperto, eu sei que não sonho, embora quando eu sonho considero a mim mesmo desperto.
E vendo que sonhos são causados pela inquietação de algumas partes interiores do corpo, diversas inquietações devem necessariamente causar sonhos diferentes. E consequentemente é que se deitar no frio gera sonhos de [8]medo e gera o pensamento e a imagem de algum objeto terrível, o movimento a partir do cérebro para as partes internas e das partes internas para o cérebro sendo recíproco: e que como ira causa calor em certas partes do corpo quando nós estamos despertos, assim, quando nós dormimos, o aquecimento excessivo das mesmas partes causa ira e cria no cérebro a imaginação de um inimigo. De maneira semelhante, como a bondade natural, quando nós estamos despertos, causa desejo, e desejo produz calor em certas outras partes do corpo; assim também, muito calor naquelas partes, enquanto nós dormimos, causa no cérebro uma imaginação de alguma bondade revelada. Em suma, nossos sonhos são o reverso de nossas imaginações despertas; o movimento, quando nós estamos despertos, começando em uma extremidade, e, quando nós sonhamos, na outra.
O discernimento mais difícil do sonho de um homem de seus pensamentos despertos ocorre, nesse caso, quando, por algum acidente, nós observamos que não estamos dormindo: o que é fácil de acontecer a um homem cheio de pensamentos terríveis e cuja a consciência está muito perturbada; e que dorme, sem consciência de ir para a cama ou tirar suas roupas, como alguém que se distraiu em uma cadeira. Pois aquele que se esforça e industriosamente se deita para dormir, no caso de que alguma ilusão estranha e exorbitante venha a ele, não pode facilmente a considerar outra coisa que um sonho. Nós lemos de Marcus Brutus (um dos que teve sua vida dada a ele por Julius César, e também era seu favorito e, não obstante, assassinou-o), como em Filipos, na noite antes que ele batalhasse contra César Augusto, ele viu uma aparição terrível, a qual é comumente relatada pelos historiadores como uma visão; mas, considerando as circunstâncias, alguém pode facilmente considerar ter [9]sido apenas um sonho breve. Pois, sentado em sua barraca, pensativo e perturbado com o horror de seu ato precipitado, não foi difícil para ele, cochilando no frio, sonhar com o que mais o assustava; medo que, como por graus o fez acordar, assim também precisa fazer a aparição por graus desaparecer; e não tendo garantia de que ele não dormiu, ele não podia ter causa para considerar isso um sonho, ou qualquer coisa senão uma visão. E isso não é um acidente muito raro; pois, mesmo quando aqueles que estão perfeitamente despertos, se eles estão temerosos e supersticiosos, possuídos por histórias terríveis, e sozinhos só escuro, ficam sujeitos a ilusões semelhantes, e acreditam que eles veem espíritos e fantasmas de mortos caminhando em cemitérios; considerando que isso é, ou sua ilusão apenas, ou senão, a velhacaria de tais pessoas para fazer uso de tal medo supersticioso, para passar disfarçado na noite, por lugares que eles não saberiam assombrar.
A partir dessa ignorância de como nós distinguimos os sonhos, e outras fantasias fortes, da visão e dos sentidos, surgiu uma grande parte da religião dos Gentios em épocas passadas, que adorava sátiros, faunos, ninfas e similares; e, nos das de hoje, a opinião que pessoas rudes têm de fadas, fantasmas, duendes e do poder de bruxas. Pois, quanto às bruxas, eu não considero que a bruxaria delas seja qualquer poder real; contudo, que elas são justamente punidas, pela falsa crença que elas têm de que elas podem fazer tão grande dano, junto com seu propósito para o fazer se elas pudessem; seu ofício estando mais perto de uma nova religião do que de uma arte ou ciência. E quanto às fadas e espírito caminhantes, a opinião sobre eles tem sido, eu penso, no propósito ou de ser ensinado ou não refutado, para manter em crédito o uso de exorcismo, [10]cruzes, água benta e semelhantes invenções de homens espirituais. Não obstante, não há dúvida, apenas Deus pode causar operações não naturais; mas que ele faça isso tão frequentemente, como os homens necessitam para temerem coisas semelhantes, mais do que eles temem a permanência ou mudança do curso da natureza, o qual ele também pode fazer permanecer ou mudar, não é ponto da fé cristã. Mas homens malignos, sob o pretexto de que Deus pode fazer qualquer coisa, são tão atrevidos como a dizer qualquer coisa quando isso serve a sua revolução, embora eles considerem-na falsa; é a parte de um homem sábio não mais acreditar neles, do que da razão correta fazer com que o que eles dizem pareça crível. Se esse medo supersticioso de espíritos fosse retirado, e com ele, presságios a partir de sonhos, falsas profecias, e muitas outras coisas disso dependentes, pelas quais astutas pessoas ambiciosas abusam de pessoas simples, os homens estariam muito mais adaptados para a obediência civil.
E esse devia ser o trabalho das escolas: mas antes elas alimentam semelhante doutrina. Pois, não conhecendo o que são a imaginação ou o sentido, o que elas recebem, eles ensinam: algumas dizendo que as imaginações se originam deles mesmos, e não têm causa; outras, que elas se originam mais comumente a partir da vontade; e que bons pensamentos são soprados (inspirados) em um homem por Deus, e pensamentos maus, pelo Diabo; ou que bons pensamentos são derramados (infundidos) obre um homem por Deus, e os maus, pelo Diabo. Alguns dizem que os sentidos recebem as espécies das coisas e entregam-nas ao sentido comum; e o sentido comum entregam-nas para a imaginação e a imaginação para a memória, e a memória para o julgamento, como passando as coisas de um para outro, com muitas palavras nada fazendo entendido.
[11]A imaginação que é criada no homem, ou em qualquer outra criatura imbuída da faculdade da imaginação, pelas palavras ou outros sinais voluntários, é aquela que nós geralmente chamamos de entendimento, e é comum ao homem e à fera. Pois um cão, por costume, estenderá o chamado, ou a reprimenda raivosa de seu mestre; e igualmente muitas outras feras. Aquele entendimento que é peculiar ao homem é o entendimento não apenas de sua vontade, de suas concepções e pensamentos, pela sequência e contexto dos nomes de coisas em afirmações, negações e outras forma de discurso; e desse tipo de entendimento eu deverei falar a seguir.
ORIGINAL:
HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. 3-11. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/3/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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