Leviatã, ou A Matéria, Forma e Poder de uma Comunidade Eclesiástica e Civil.
Por Thomas Hobbes
Parte I Do Homem
[1]Capítulo I Do Sentido
Concernente aos pensamentos do homem, eu primeiro os considerarei isoladamente e depois em sucessão ou em dependência um do outro. Isoladamente eles são cada um uma representação ou aparência de alguma qualidade, ou de outro acidente, de um corpo fora de nós, o qual é comumente chamado de um objeto. Objeto que opera sobre os olhos, ouvidos e outras partes do corpo de um homem; e, através da diversidade de operação, produz a diversidade de aparências.
A origem de todas elas é aquilo que nós chamamos de SENTIDO (SENSE), pois não há concepção na mente de um homem que primeiramente, totalmente ou em partes, não tenha sido gerada pelos órgãos do sentido. O resto é derivado a partir desse original.
Conhecer a causa natural do sentido não é um muito necessário para o assunto agora em mãos; e, em outro lugar, eu escrevi sobre o mesmo em geral. Mesmo assim, para preencher cada parte de meu método atual, eu brevemente transmitirei o mesmo neste lugar.
A causa do sentido é o corpo externo, ou objeto, [2]o qual pressiona o órgão apropriado a cada sentido, quer imediatamente, como no paladar (taste) e tato (touch); ou mediatamente, como na visão (seeing), audição (hearing) ou olfato (smelling); pressão a qual, pela mediação dos nervos e outras cordas e membranas do corpo, continua para dentro, para o cérebro e coração, causando ali uma resistência, ou contrapressão, ou esforço do coração para se livrar, esforço que, porque para fora, parece ser de alguma matéria de fora. E essa aparência (seeming), ou fantasia (fancy), é o que os homens chamam de sentido (sense); e consiste, quanto ao olho, em uma luz, ou cor figurada; para o ouvido, em um som; para a narina (nostril), em um odor; para a língua e paladar, em um sabor; e para o resto do corpo, em calor, frio, dureza, maciez, e outras qualidades semelhantes que nós discernimos pelo sentimento (feeling). Todas essas qualidades, chamadas de sensíveis, estão no objeto que as causa, apenas tantos movimentos diversos da matéria, pelos quais elas apresenta-se aos nossos órgãos diversamente. Nem em nós que somos pressionados, são eles qualquer outra coisa, apenas movimentos diversos; pois o movimento não produz nada senão movimento. Mas a aparência deles para nós é fantasia (fancy), a mesma desperta que sonhando. E, assim como pressionar, friccionar ou atingir o olho, faz-nos fantasiar uma luz; e pressionar o ouvido, produzir um ruído; assim os corpos que nós vemos ou ouvimos, também produzem o mesmo através de sua ação forte, embora não observada. Pois, se aquelas cores e sons estivessem nos corpos, ou objetos que os causam, eles não poderiam ser separados deles como, por lentes e em ecos por reflexão, [como] nós vemos que eles são; onde nós sabemos que a coisa que nós vemos está em um lugar e a aparência, em outro. E, embora, a certa distância, o objeto real e próprio pareça investido com a fantasia que ele produz em nós; contudo, ainda o objeto [3]é uma coisa, a imagem ou fantasia, outra. De maneira que o sentido, em todos os casos, não mais é do que apenas fantasia original, causada, como eu disse, pela pressão, a qual é, pelo movimento das coisas externas sobre nossos olhos, ouvidos e outros órgãos para isso ordenado.
Mas as escolas de filosofia, através de todas as universidades da Cristandade, fundamentadas sobre certos textos de Aristóteles, ensinam outra doutrina, e dizem, pela causa da visão (vision), que a coisa vista emite para todos os lados espécies visíveis, em Inglês, um a vestígio visível (visible show), aparição ou aspecto, ou um ser visto; o recipiente do qual, dentro do olho, é visão (seeing). E, pela causa da audição (hearing), que a coisa ouvida emite uma espécie audível, que é um aspecto audível, ou audível ser percebido; o qual, ao entrar no ouvido, produz a audição. Ou melhor, pela causa do entendimento, eles também dizem que a coisa entendida emite uma espécie inteligível, quer dizer, um inteligível ser entendido; o qual, entrando no entendimento, faz-nos entender. Eu não digo isso como desaprovação do uso das universidades; mas porque depois eu deverei falar da função delas em uma comunidade [política](commonwealth), e preciso deixar você ver que, em todas as ocasiões, a propósito, coisas seriam emendadas nelas; entre as quais, a frequência de linguagem sem sentido é uma.
ORIGINAL:
HOBBES, T. Leviathan, or the Matter, Form, and Power of a Commonwealth Ecclesastical and Civil. IN: ______. The English Works of Thomas Hobbes of Malmesbury. Volume III. London, Scientia Allen, 1962 (Reprint of the Edition 1839). p. 1-3. Disponível em: <https://archive.org/details/englishworksofth0003hobb/page/n20/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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