Perspectivas sobre o Humanismo Digital
Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital
Parte IV Tecnologia da Informação e as Artes
[109]Nós somos mais Necessários do que Nunca: Herança Cultural, Bibliotecas e Arquivos
por Anita Eichinger e Katharina Prager
Resumo Bibliotecas e arquivos como instituições de herança cultural têm uma grande história de, e uma grande experiência em, coletar, proteger, manejar e contextualizar as massas de material e dados. No contexto do humanismo digital, essas instituições poderiam tornar-se essenciais como um modelo assim como um campo de experimentação. Questionando o papel deles como porteiros (gatekeepers) e curadores, a transformação digital oferece-lhes a chance de se abrirem – através tanto de iniciativas participativas quanto de coleção inclusiva. Contudo, ao mesmo tempo, isso é uma questão de preservar a biblioteca e o arquivo como um lugar de encontro e de diálogo pessoal em uma tradição humana e humanista.
A crise do Corona deu um impulo imenso em muitas áreas, as quais tinham de ser mais desenvolvidas de uma maneira estratégica e coprojetada – sem nos subordinar às tecnologias, mas dando forma a elas. A cidade de Viena atualmente encoraja e orquestra ideias inovativas, ação colaborativa e engajamento social em sua estrutura da iniciativa de “humanismo digital.” Com Anita Eichinger, a Biblioteca da Cidade de Viena esteve envolvida desde o começo e assumiu a mentoria do grupo de trabalho sobre artes e cultura.1
A Biblioteca da Cidade de Viena,2 frequentemente descrita como “memória da cidade,” tem se desenvolvido através dos últimos 170 anos de uma biblioteca municipal discreta (fundada em 1856) para uma biblioteca municipal representativa, uma insituição cultural municipal, e um dos mais importantes arquivos eruditos sobre Viena. Ela mantém aproximadamente 6.500.000 volumes de livros sobre Viena (Viennensia e Austriaca); 1600 heranças (bequests) de habitantes importantes da cidade (tais como Franz Grillparzer, Marie von Ebner-Eschenbach, Franz Schubert, Johann Strauss, Karl Kraus or Friederike Mayröcker), [110]alguns deles parte da Memória do Mundo (Memory of World) da UNESCO; e uma das maiores coleções de pôsteres do mundo. Além desses possessões (holdings) centrais, ela também coleta recortes de jornal, fotografias históricas sermões, folhetos (leaflets), relatos de viagem, livros de receita e muito mais. Ao londo da última década tem havido um forte foco em retrodigitalização – e, embora a acessibilidade digital aos materiais permanece uma prioridade, a biblioteca está concentrando-se em pesquisa, inovação e humanismo digital nos anos por vir.
Embora a Biblioteca de Viena por si mesma não seja uma instituição de arte e cultural, ela é uma interface importante no campo cultural, com perícia na salvaguarda e mediação de ativos culturais.
Na nossa situação global – onde nós estamos lidando como a monopolização da web, a difusão de atitudes extremistas, o antifatualismo, as bolhas de filtro e câmaras de eco, a perda da privacidade, e muitos outros problemas – a importância dos arquivos e bibliotecas não pode se exagerada. Mais recentemente, o historiador Jill Lepore assinalou essas conexões e a história da evidência, da prova e do conhecimento em seu podcast “The Last Archive.”3
Rastrear (keeping track), arquivar (filing) e catalogar são ferramentas importantes no controle bibliográfico. Contudo, também são essenciais para entender criatividade, imaginação, competência social e crítica, mudança de perspectiva, inclusão, diversidade, e muito mais como conteúdos centrias de atividade cultural e artística. O supracitado grupo de trabalho sobre arte e cultura tornou claro em seu artigo de posição que arte, cultura e as competências do criativo têm de ajudar a dar forma ao humanismo digital como fatores fundamentais – uma questão que já tem sido óbvia para monopólios de tecnologia por um longo tempo, por exemplo.
Também se pode argumentar que bibliotecas e arquivos têm alguma experiência em combinar criatividade com ordem ou caos com sistemática e adaptando suas práticas às lógicas da arte e produção de conhecimento humanos ao longo dos séculos.
A Biblioteca da Cidade de Viena mantém registros históricos de uma cidade mundialmente renomada como uma cidade de cultura – e nas últimas décadas – também como um centro de inovação social, científica e tecnológica. A esse respeito, isso também pode se referir à sua lendária história intelectual: antes e depois da Primeira Guerra Mundial, fin-de-siècle Vienna e Red Vienna alcançaram significância internacional na esfera cultura e social. Depois do fim da monárquia austríaca em 1918, os líderes da cidade, junto com seus intelectuais, ousadamente “imaginaram uma nova sociedade que seria economicamente justa, cientificamente rigorosa e radicalmente democrática. ‘Red Vienna’ empreendeu experimentos em habitação pública, bem-estar e educação, enquanto mantendo uma presença de relevância mundial em ciência, música, literatura, teatro e outros campos de produção cultural” (McFarland et al. 2020). As raízes das ideias que vieram à vida na primeira república austríaca frequentemente já tinham sido estabelecidas em fin-de-siècle Vienna. Elas foram principalmente uma reação às profundas mudanças sociais, tecnológicas e midiáticas. Os campos da medicina, economia, arte e filosofia reagiram a essa agitação e buscaram novas maneiras de viver – a psicanálise de Freud, os filósofos do Círculo de Viena, [111]ou as inovações históricas na música dirigidas por Schönberg e a Escola Austríaca ainda são conhecidas até hoje. Hoje em dia, nós estamos em uma situação similar de agitação. O humanismo digital tem como objetivo encorajar as pessoas a pensarem e a darem forma ao futuro digital de uma nova maneira. Isso é o bastante para o contexto mais amplo – mas e quanto à transformação digital e ao humanismo digital envolvidos no contexto da Biblioteca da Cidade de Viena, cujo dever é preservar a herança cultural da cidade – e também para bibliotecas e arquivos no geral?
O humanismo digital demanda uma “terceira via” de digitalização. Isso significa que deve haver um caminho alternativo ao Vale do Silício e à China, um caminho sem visar ao lucro ou ao autoritarismo, mas para o beneficio da humanidade. Em 2004, o projeto Google Books começou. O Google trabalhou junto com bibliotecas e editoras ao redor do mundo para preservar livros e tornar a informação globalmente acessível para pessoas. Bibliotecas universitárias proeminentes e imensas têm colaborado com o Google desde aquele momento. Jean-Noel Jeanneney, líder da Bibliothéque nationale de France entre 2002 e 2007, advertiu contra o Google e a “americanização” e argumentou em favor de uma biblioteca digital europeia (Jeanneney 2006). Embora Jeanneney fosse polêmico em seu livro, há uma conclusão importante a ser extraída: herança cultural é um bem público, portanto, ela deveria permanecer uma propriedade pública. Digitalizar livros e outras fontes em bibliotecas e torná-las disponíveis para o público e o mundo científico tem de ser uma responsabilidade de instituições públicas não comerciais. Paralelo aos arquivos do Google, bibliotecas e museus ao redor do mundo também deram início a programas massivos não apenas para digitalizarem as suas coleções, mas também para as contextualizar e, portanto, obterem valores adicionais e novas intuições (por exemplo, projetos de ciência cidadã, plataformas de história digital, projetos de humanidades digitais). As bibliotecas estão em um ponto de inflexão. Elas têm bons pré-requisitos e qualificações, mas têm de mudar sua perspectiva sobre o que elas têm feito por milhares de anos. A Biblioteca da Cidade de Viena aceita o humanismo digital como uma chance para reposicionar a si mesma. No que se seque, nós esboçamos quatro importantes novas tarefas como parte da sua estratégia para responder aos desafios da época digital.
1 Eu/Educação
Esse termo intencionou combinar dois aspectos, a saber, a missão de educar um público mais amplo assim como a si mesmo como parte de uma biblioteca. Primeiro, deveria ser uma tarefa central das bibliotecas sistematicamente agirem contra a exclusão digital (digital gap) e treinarem usuários críticos, responsáveis, assim como designers da nossa vida digital, juntos. Habitualmente e por séculos, arquivos e bibliotecas têm lidado com massas de dados, desordem, lacunas (gaps) e processos de pesquisa e seleção. O manuseio sistemático, preciso, de dados é uma das suas competências centrais, e eles deveriam aprender a transmitir esse conhecimento, o qual é tão frequentemente um desiderato em outros lugares, para uma audiência mais ampla. No espírito do humanismo digital, isso também deveria envolver cada vez mais grupos marginalizados e desfavorecidos, para quem o conhecimento culturalmente transmitido de uma comunidade frequentemente não tem estado facilmente acessível por várias razões (linguagem, antecedentes educacionais, etc). O papel dos bibliotecário e arquivistas está mudando de porteiros reclusos de tesouros [112]escondidos para guias que ajudam usuários a navegarem sistemas de dados contraditórios. Nesse contexto, é necessário para bibliotecários adquirirem habilidades do futuro e experimentarem novas técnicas culturais. Essas incluem, entre outras, lidar com ambiguidade e incerteza; imaginação e associação; intuição; pensamento em termos de alternativas; estabelecimento de contextos não convencionais; desafios ao status quo; mudança de perspectivas.
2 Virada Participativa
Para dar início a esse eu/educação e iniciar uma “virada participativa” em arquivos e bibliotecas, a Biblioteca da Cidade de Viena tem por objetivo o lançamento de um projeto piloto no reino do humanismo digital. Sob o título de trabalho de “WE make history,” o primeiro passo será entrar em cooperação com instituições equivalentes documentando a história da cidade e ligar e visualizar todos as fontes digitalizadas e digitalizáveis. Em um segundo passo essencial, será então uma questão de investigar quem permanece visível e porquê. Como um resultado, pretende-se tornar possível enriquecer, suplementar e recontar a história multiperspectiva da cidade, a fim de oferecer a grupos que historicamente têm sido excluídos da criação de herança cultural oportunidades para contribuírem com suas histórias e suas versões da história. Por exemplo, nos históricos livros de endereço entre 1859 e 1942, apenas os chefes de família eram listados, e eles eram principalmente homens. Combinando camadas de recursos e pesquisa, nós não apenas faremos todas as outras pessoas – especialmente a metade feminina – visíveis, mas também daremos um passo adicional, quando nós pedirmos ao público vienense para enriquecer essas camadas de datas com histórias de vida, fotografias, documentos ou outras fontes. Esse projeto modelo não apenas levará a um repensamento de como a herança cultural é transmitida – ele também ajudará a repensar outra área importante – a saber, a questão do que a biblioteca coleta e como.
3 Coleções Inclusivas
Coleções em arquivos, museus e bibliotecas – isso é frequentemente afirmado – dificilmente são armazéns neutros nem objetivos, mas refletem relações de poder. A Biblioteca de Viena não era exceção quando ela coletava o material escrito publicado em Viena ao longo dos últimos 170 anos, assim como artigos de autores, músicos e figuras culturais famosas – 76% deles do gênero masculino. A coleção digital frequentemente parece ser a solução para desafiar a tradição, abrindo e expandindo estruturas seculares, mas, experimentando com métodos de coleção digital no contexto do 11 de Setembro, do Furação Katrina e, mais recentemente, da COVID-19, revelou que isso coloca novas dificuldades e abre outros lacunas (Rivard 2014). O humanismo digital será um ponto de partida central para se refletir criticamente sobre a interação entre tecnologia e política de identidade e coleção de materiais de uma maneira correspondentemente diferente. É claro, coleções inclusivas estão intrinsecamente vinculadas a uma nova autoimagem de [113]bibliotecários e arquivistas – de “guardiões do passado” para atores que estão preocupados com o presente, o futuro e a construção de memória social (ver Eu/Educação). Segundo, reposicionamento radical necessita de suporte e participação de uma ampla comunidade (ver Virada Participativa). No todo, poderia ser útil lembrar que a Biblioteca da Cidade de Viena sempre toma liberdades curatoriais quando estabelecendo as suas coleções. É importante estar ciente de que mudanças levam tempo e apenas podem ser alcançadas um passo após o outro, projeto por projeto.
4 Permanecendo um Lugar para Encontros Pessoais
Enquanto navegando através desses tempos incertos de transformação digital no espírito do humanismo digital através de eu/educação, estimulando participação e re-enquadrando as nossas coleções, é útil manter os nossos pés no chão e permanecer fisicamente no lugar. O fechamento dos arquivos e das bibliotecas, devido às restrições do COVID-19, não apenas levou a debates sobre o valor da pesquisa arquival mas também causou anseio pela atmosfera especial desses lugares. Nesse contexto, a sala de leitura não é apenas um espaço de trabalho arbitrário – embora também esses foram nostalgicamente transfigurados durante o lockdowm – mas um lugar especial que não apenas estabelece a conexão entre o material e o pesquisador, mas também entre o arquivo e o pesquisador, entre os pesquisadores mesmos, e, em último caso, entre as questões coletivas atuais e a memória coletiva.
A questão fundamental é o que restará de arquivos e bibliotecas, uma vez que efetivamente tenha sido possível tornar a herança cultural acessível digitalmente e sem barreiras para todos. Eles serão dissolvidos como localizações ou eles podem obter nova significância como pontos de encontro para debate analógico e encontros humanos – se sim, como? Esse campo de tensão está abrindo-se através da digitalização, mas, pelo menos, o humanismo digital dá pistas de respostas quanto a porque os espaços de encontros humanos permanecerão essenciais – e a experiência da pandemia confirma isso.
5 Conclusões
Bibliotecas, arquivos e a nossa atitude geral em relação à herança cultural estão em um ponto de inflexão crucial em tempos de transformação digital.
Por um lado, quanto mais digitais as nossas vidas se tornam, mais nós necessitamos de lugares como bibliotecas para discutir, interagir e inventar novas soluções inovadoras juntos. Por outro lado, a profissão do bibliotecário frequentemente é percebida como em declínio e camparada com uma espécie em breve em extinção. O contrário é o caso. Sem bibliotecários, nós abriríamos mão da nossa herança cultural e, portanto, da nossa identidade cultural. A questão do quê coletar no futuro e como preservar e proteger a herança digital apenas pode ser discutida em uma troca participativa e cooperação com cientistas (cidadãos) e – por último mas não menos importante – cientistas da computação. [114]Nesse sentido, os bibliotecários necessitam de especialistas de TI para entender que espaços eles estão abrindo e fechando no reino digital, como eles podem posicionarem a si mesmos significativamente nas interfaces e onde os dados são assegurados. Mas a TI também precisa de bibliotecários mais do que nunca, para reconhecer que práticas-chave para lidar com herança cultural já estão em uso e que, em muitos casos, elas podem ser transformada no reino digital. A coisa mais crucial é compreender que todos os desafios a frente apenas podem ser enfrentados com troca multidisciplinar e entendimento mútuo.
Referências
Jeanneney, Jean-Noel (2006) Googles Herausforderung. Für eine europäische Bibliothek. Berlin: Wagenbach.
McFarland, R. Spitaler, G. e Zechner, I. (ed.) The Red Vienna Sourcebook. London: Camden House 2020.
Rivard, C. (2014) Archiving Disaster and National Identity in the Digital Realm: The September 11 Digital Archive and the Hurricane Digital Memory Bank, in: Rak, J. e Poletti, A. (ed.) Identity Technologies: Producing Online Selves. Wisconsin: University of Wisconsin Press, pp. 132 – 143.
ORIGINAL:
EICHINGER, A.; PRAGER, K. We Are Needed More Than Ever: Cultural Heritage, Libraries, and Archives. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.109-114. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 [109]Ele consiste em Gerald Bast, Daniel Löcker e Carmen Aberer (MA 7) e Irina Nalis, Elfriede Penz, Erich Prem, Eveline Wandl-Vogte Hannes Werthner assim como Anita Eichinger e Katharina Prager (MA 9) e formulou um artigo de posição sobre “Digital Humanism and Arts/Culture.”
2 Ver https://www.wienbibliothek.at/english e https://www.digital.wienbibliothek.at/.
3 [110]Ver https://www.thelastarchive.com/.
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