quinta-feira, 4 de junho de 2020

Um Diálogo Sobre Viajem no Tempo II

Dia anterior


[15]2. Terça-feira


São 9:00. Tad e Willie estão no laboratório conversando sobre copos de café quando a Dra. Rufus chega. É óbvio que nenhum do três dormiu bem.


Carlene: Bom dia, cavalheiros. Algum de vocês se importaria de encher-me um copo? Eu estive acordada durante toda a noite pensando em maneiras de testar nossa hipótese de viajem no tempo.

Tad [enchendo um copo para a Dra. Rufus]: Isso faz três de nós, mas talvez vocês tenham mas sorte do que eu tive. Eu, quanto a um, não pude superar a ideia de que nós estamos falando seriamente sobre viajem no tempo.

Carlene: Por favor, tente acostumar-se com isso e pensar sobre as maneiras de testar nossa hipótese. Onde está a impressão de ontem?


Tad entrega à Dra. Rufus o copo de café e a impressão do Teste 17.


Fig. 2.1 Um Psi-Lepton Viajante do Tempo1


[16]Tad: Deixe-me ser claro sobre o que a hipótese é exatamente. Você está afirmando que – a despeito das aparências – há somente uma partícula cuja trajetória é traçada aqui, e a partida para a viajem no tempo ocorre em t=5. Nós estamos considerando esta hipótese por que ela explica bastante; em particular, se verdadeira, explicaria igualmente a falta de perturbações no campo=B em t=5 e a origem do que nós pensamos que fosse uma segunda partícula anômala.

Carlene: Essa é uma consideração justa o suficiente.

Tad: Certo, mas eu tenho uma questão sobre a suposta explicação da origem e do decaimento da segunda partícula. Claro, de acordo com a hipótese, sua origem não é mais um mistério; nós criamo-la quando colidimos o urânio no hélio; é um psi-lepton. Mas nós ainda não temos uma explicação para o que está acontecendo com essa partícula em t=3. Isso é o que realmente está incomodando-nos, que foi tão inesperado e deixado sem explicação pela teoria. Assim, como você está sugerindo, e se aquela não fosse a origem da partícula em t=3? De acordo com a hipótese de viajem no tempo, é o decaimento temporal reverso da partícula. Claro, eu compreenderei isso, também. Mas eu não vejo que nós tenhamos uma explicação para o por que ela decai.

Carlene: Excelente, Tad. Isso é bem perceptivo.

Tad: Ontem nós pensamos que a hipótese de viajem no tempo explicaria a origem da partícula anômala. O que nós estamos dizendo é que ela não exatamente se origina, ao menos não em t=3. Isso é elegante, mas se nós estamos tomando essa ideia seriamente, ainda há algo que precisa ser explicado. Em sua versão, Professora, a partícula anômala não está vindo à existência em t=3, ela está decaindo. Mas por que ela devia fazer isso?

Carlene: Isso não me ocorreu até tarde da última noite, mas eu penso que a hipótese também prediz o decaimento. Veja a duração da vida da partícula no Teste 17. Ela origina-se em t=0, comporta-se normalmente até t=5 nanosegundos, e em seguida viaja para trás no tempo, por dois adicionais nanosegundos; sua vida [17]até que ela decaia – por quanto tempo ela existiu a partir da perspectiva dela – são sete nanosegundos.

Tad: E?

Carlene: E é claro, você sabe que uma duração de sete nanosegundos é precisamente o que nossa teoria prediz para o tempo de vida do psi-lepton. É também por quanto tempo nosso psi-lepton normal perdurou no Teste 16 e em alguns de nossos testes iniciais.

Tad: Hah, isso é esperto, mas eu ainda não sei.

Carlene: Nenhum de nós sabe muito de qualquer coisa neste ponto, eu estou assustada. Nós estamos fazendo pouco mais do que especular. O que nós necessitamos é de mais testes.

Willie: Talvez ajudaria pensar sobre como a viajem no tempo que nós estamos considerando difere da causação reversa que você propôs primeiro, Carlene; há uma grande diferença. Sim, o gatilho parece ter algum tipo de conexão causal reversa com a existência da partícula anômala em t=3. Seria maravilhoso se mesmo esse tanto nós pudéssemos confirmar. Mas, se a partícula anômala é o psi-lepton viajante do tempo, então as assim chamadas duas partículas que o detector está registrando são somente uma. Isso é crucial para a hipótese de viajem no tempo; é o que tira de jogo a origem misteriosa da partícula anômala. Também tem mais algumas consequências que soam fantásticas; por exemplo, implica que o psi-lepton esteja em dois lugares diferentes ao mesmo tempo.

Tad: Você é o filósofo; descubra você. Não parece como um grande negócio que haja apenas uma partícula; sua igualdade é fácil de engolir. Tudo o que eu sei é que não há diferença intrínseca, elas somente são partículas elementares, desse modo nós deveríamos esperar isso. E sim, elas estão em lugares diferentes ao mesmo tempo. Então o que? É o problema de algo no futuro causando coisas no passado que me incomoda. Que elas sejam a mesma partícula parece trivial em comparação.

[18]Carlene: Desçamos da metafísica por um momento e concentremo-nos no que nós realmente sabemos. O caminho na parte inferior da impressão de nosso segundo teste de ontem, Teste 17, é o caminho teoricamente predito do psi-lepton. Em todos os pontos relevantes na câmara, ele comporta-se como predito por meus cálculos, até que o inexplicado ocorre.

Tad: Você quer dizer a colisão?

Carlene: Eu não estou pronta para decidir se é uma colisão ou se é uma reversão no tempo, pelo menos não ainda. O ponto aqui é que, de acordo com os dados, nós temos um psi-lepton perfeitamente estável até o momento do gatilho. O caminho no topo é de onde a confusão está vindo; todos os dados indicam que é um psi-lepton.

Willie: Mesmo uma correspondência perfeita não estabeleceria a hipótese de viajem no tempo, mas eu não estou certo do que o faria.

Carlene: Isso é brainstorming suficiente para mim; nós não estamos aproximando-nos mais de tentar um novo experimento. O que nós necessitamos é de algumas maneiras de manipular nossa configuração experimental que possam dar-nos alguns dados mais úteis.


Willie levanta-se e enche outro copo de café para si mesmo.


Willie: Alguma ideia, Tad?

Tad: Bem, como eu disse antes, o que estava realmente mantendo-me acordado na última noite era a hipótese de que esse gatilho está causando a presença da partícula anômala. Mas do que a ideia mesma da partícula viajante no tempo, parece estranho que a causa do aparecimento da partícula aconteça após a aparência mesma.

Willie: Certo, esse é o grande problema. Você pode apostar que, se nós pudéssemos encontrar evidência experimental de causação reversa, isso enviaria uma onda de choque através do mundo filosófico.

Tad: Eu estou certo. A grande questão é como encontrar a evidência.

[19]Willie: Bem, talvez haja alguma maneira de lograr o experimento; talvez nós possamos parar o gatilho após o aparecimento da segunda partícula.

Tad: Isso pode ser difícil dado que há somente um par de nanossegundos entre o aparecimento da partícula e quando o gatilho começa.

Willie: Mas pode ser praticável. Requereria alguma programação complicada para otimizar os recursos do processador, e mesmo então seria por um triz, mas eu posso ser capaz.

Tad: O que isso nos mostraria se você pudesse?

Willie: Parece que mesmo se nós tivéssemos tempo para parar o gatilho, nós não seriamos capazes de fazê-lo, uma vez que o efeito do gatilho existe antes que o gatilho mesmo aconteça, ao menos de acordo com a hipótese de viajem no tempo. Se nós pudéssemos parar o gatilho, nós poderíamos excluir viajem no tempo e causação reversa como explicações possíveis para a segunda partícula.

Tad: E se nós não pudermos parar o gatilho, ao menos nós teremos muito sobre o que falar. Você provavelmente argumentaria que nós teríamos mesmo alguma evidência experimental de que causação reversa esteja acontecendo.

Carlene: Eu acho que seria uma grande maneira de proceder. Se nós pudéssemos impedir o gatilho de ocorrer após a segunda partícula aparecer, nós teríamos de considerar isso um golpe contra a hipótese de viajem no tempo.

Willie: Eu começarei com o programa. Nós veremos como sucede, mas eu devo ser capaz de tê-lo pronto para os testes de hoje.

Carlene: Excelente. Deixe-me saber quando você estiver pronto. Eu estarei em meu escritório.


A Dra. Rufus deixa Tad e Willie no laboratório.


Tad: Parece-me que nós nem mesmo necessitamos do experimento de hoje para refutar a possibilidade de causação reversa.

[20]Willie: [digitando no console]: Como assim?

Tad: Bem, nós já sabemos que podemos mudar se a segunda partícula aparece e se o gatilho ocorre pela inserção do novo código. Há a questão prática de otimização do uso dos recursos do computador para possibilitar-nos impedir o gatilho no tempo entre a aparência da segunda partícula e a aniquilação de ambas as partículas, mas esse é apenas um problema tecnológico, e você está prestes a superá-lo. Entretanto, mesmo se você não obtiver sucesso, nós sabemos que é possível inserir novo código algum tempo depois que a segunda partícula apareça. Assim, assumindo que causação reversa esteja em ação, nós podemos prevenir a causa do aparecimento da segunda partícula depois que ela já apareceu. Mas nós não deveríamos ser capazes de fazer isso, desse modo causação reversa não está em ação.

Willie: Assim, corrija-me se eu estiver errado, mas seu argumento procede algo como isto: se o gatilho em t=5 causa o aparecimento da segunda partícula num tempo anterior, t=3, então é possível prevenir o aparecimento da segunda partícula em t=3 mudando o novo código em, digamos, t=4.

Tad: Certo, isso é o que eu disse. Nós deveríamos ser capazes de prevenir os efeitos esperados ao impedir as causas esperadas. No Teste 16, o novo código estava em t=4 e a segunda partícula nunca apareceu em t=3. Parece que o novo código, ao estar instalado, impediu o gatilho, o qual aparentemente preveniu o aparecimento da partícula.

Willie: Mas há mais: colocando as preocupações tecnológicas de lado, certamente é possível mudar o novo código em t=4 depois que a partícula aparece em t=3.

Tad: Correto.

Willie: Então, se o gatilho em t=5 causa o aparecimento da segunda partícula em t=3, então é possível prevenir o aparecimento em t=3 usando o novo código em t=4 e também é possível mudar o novo código em t=4.

[21]Tad: Continua correto, e há o problema. De fato, é impossível impedir a partícula de aparecer em t=3, depois ela já apareceu em t=3. Preveni-lo implicaria que não aconteceu, mas já teria acontecido.

Willie: E uma vez que é impossível prevenir o aparecimento da segunda partícula depois que ela apareceu, também não é o caso que o gatilho cause a segunda partícula a aparecer.

Tad: Precisamente. É por isso que é lógico assumir que causação reversa não pode ser o caso e que o psi-lepton não está viajando no tempo. Assim, qual é o objetivo do experimento?

Willie: Bem, a viajem no tempo pode ser falsa, mas o seu argumento não mostra isso.

Tad: Por que não?

Willie: Seu raciocínio é inválido. Eu usarei outro exemplo para mostrar-te o que eu quero dizer. Apenas pense sobre isto: é possível para meu copo de café estar cheio exatamente agora, mas também é possível para ele estar vazio exatamente agora. Portanto, é possível para ele estar igualmente cheio e vazio exatamente agora? Isso não funciona.

Tad: Qual é?

Willie: O quê?

Tad: Seu copo de café.

Willie: Oh, sinceramente? Está vazio.

Tad: Muito para sua aversão de ontem à cafeína. Vou pegar um pouco mais para você.


Willie entrega seu copo a Tad, quem caminha através do laboratório para pegar mais algum café. Tad retorna, entregando um copo cheio a Willie.


Willie: Obrigado, Tad.

[22]Tad: Certo, sobre o seu exemplo do café: eu tenho de admitir que é impossível para o copo estar igualmente cheio e não cheio exatamente agora; isso realmente é ilógico. Mas, não está dizendo que é possível que ele esteja cheio e não cheio exatamente agora significa o mesmo que é possível que esteja cheio exatamente agora e possível que não esteja cheio exatamente agora?

Willie: Pode ser tentador interpretá-lo dessa maneira: é por isso que seu argumento pode ter parecido refutar a hipótese de causação reversa. Como você há pouco reconheceu, contudo, essa é uma maneira ruim de raciocinar. Obviamente é possível para o copo estar cheio exatamente agora e possível para ele estar vazio exatamente agora, mas é simplesmente tão óbvio que seja impossível para o copo estar igualmente cheio e vazio exatamente agora. Mais geralmente, eu estou dizendo que, a partir de possivelmente P e possivelmente Q, não se segue logicamente que possivelmente igualmente P e Q.

Tad: Apenas parece tão mais simples com relação ao café. Como tudo isso aplica-se à segunda partícula anômala?

Willie: Aplica-se exatamente da mesma maneira. Na suposição de que o gatilho em t=5 cause a partícula a aparecer em t=3, era possível prevenir o aparecimento da partícula em t=3 por meio da inserção de novo código, e também é possível inserir o novo código em t=4, mas não se segue que seja possível prevenir o aparecimento uma vez que a partícula apareça. Uma vez que ela apareça não pode ser prevenida.

Tad: Eu percebo. Então, você acha que nós necessitamos executar o experimento?

Willie: Absolutamente, nós necessitamos. Para iniciantes, A Dra. Rufus não deixará passar a chance para mais dados, especialmente não devido a um argumento filosófico – seu ou meu. Mais importante, nós realmente necessitamos ver se a partícula anômala alguma vez existiu sem o gatilho.


Os três completam suas tarefas individualmente. Depois do almoço, eles reúnem-se novamente para começar um teste com a revisão de Willie do programa.


[23]Carlene: Cavalheiros, nós parecemos estar prontos para o experimento de hoje. Willie, você está certo de ter configurado o programa do acelerador para remover o gatilho assim que ele detecte a presença da segunda partícula?

Willie: Sim, eu fui capaz de otimizar o uso do processador, de modo que a remoção do gatilho possa ser obtida em menos tempo do que o intervalo entre o aparecimento da segunda partícula e o evento de aniquilação.

Carlene: Excelente. Devemos continuar?

Tad: Eu estou iniciando o acelerador agora. (Ver a Figura 2.2)


Fig. 2.2 O Passo em Falso de Willie



[
24]A Dra. Rufus pega a impressão do último teste e examina-a. Uma onda de perplexidade passa sobre sua face.


Carlene: Isso é realmente intrigante. Esses dados parecem alguma coisa como os resultados quando nós removemos o gatilho completamente.

Willie: Isso é estranho; o log de diagnóstico mostra que o gatilho foi realmente removido em consequência da detecção de uma partícula na câmara.

Tad: Não era apenas isso que se pretendia fazer?

Willie: Sim, então por que nós não vemos evidência da segunda partícula?

Carlene: Espere, Willie; você disse que seu programa removeria o gatilho tão logo ele detectasse uma partícula, certo?

Willie: Está certo.

Carlene: Em que momento isso aconteceu?

Willie [checando o log de diagnóstico]: O programa removeu o gatilho em t=0.1 mais ou menos 0.05 nanosegundos.

Carlene: Hmm, exatamente momentos após os dados mostrando a criação do psi-lepton.

Willie [parecendo envergonhado]: Hum, eu acho que sei o que aconteceu. Quando eu reescrevi o programa, eu configurei-o para desligar o gatilho quando fosse detectada qualquer partícula na câmara, então quando o psi-lepton mostrou-se, o computador removeu o gatilho. Nós efetivamente repetimos nosso Teste 16 de ontem, sem gatilho em absoluto. Que estúpido de minha parte.

Carlene: Isso certamente explicaria esses resultados, mas não nos conduziria muito mais perto de estabelecer ou falsificar nossa hipótese de viajem no tempo.

Tad: Você acha que pode modificar o programa de modo que ele não remova o gatilho até depois que a partícula anômala apareça?

Willie: Sim, eu posso fazer isso, mas demorará um pouco; eu não quero bagunçar isso novamente. Eu necessitarei tornar o programa sensitivo [25]à energia total na câmara e estabelecer o limite alto o suficiente para prevenir a remoção prematura do gatilho.

Carlene: Aqui está o que nós podemos fazer: um de nossos patrocinadores está realizando uma conferência amanhã. Tad e eu estamos planejando comparecer, de modo que nós não realizaremos mais testes. Há também um almoço de conferência. Willie, você se importaria de juntar-se a nós? Dar-nos-ia uma chance de tocar a base e ficar prontos para o dia seguinte. eu posso providenciar um lugar para você.

Willie: Isso soa bom para mim.

Tad: Está bem para mim, também.

Carlene: Excelente. Tem sido um longo dia, então nós vamos encerrar tudo. Nós não realizaremos qualquer experimento até pelo menos do dia depois de amanhã.


Os três prosseguem para desligar o equipamento no laboratório. Não demora muito para Tad levantar uma questão.


Tad: Você sabe … Eu ainda estou tendo problemas com a ideia toda de viajem no tempo. A despeito da evidência e da filosofia, eu não posso ajudar sentindo que a coisa toda é tolice. Apenas não é possível; você não pode mudar o passado; você não pode viajar no tempo.

Carlene: Eu concordo que nós não podemos mudar o passado, mas eu não consigo ver como isso torna viajem no tempo impossível.

Tad: Parece óbvio para mim. Se você viaja no tempo, você muda o passado; mas uma vez que não é possível mudar o passado, você não pode viajar no tempo. Isso parece lógica simples para mim.

Carlene: E como poderia um viajante temporal mudar o passado?

Tad: Bem, de muitas maneiras. De fato, eu não vejo como alguém poderia simplesmente evitar de mudar a história ao viajar ao passado. E seu eu realmente não gostasse de meu avô? Eu gostaria de poder tê-lo matado, mas ele morreu antes que eu tivesse a chance, então decidi voltar no tempo para matá-lo antes mesmo que ele encontrasse minha avó. Agora, eu somente tenho uma [26]tentativa voltando no tempo; eu quero ter certeza de que eu posso matá-lo, então eu levo o armamento mais recente comigo.

Willie: Uh oh, isso está soando familiar. Continue, Tad.

Tad: Uma vez que eu tenha o melhor arsenal disponível, juntamente como meu conhecimento prévio do paradeiro de meu avô, parece óbvio que eu posso matá-lo.

Carlene: Bem, talvez você escorregue em uma casca de banana, ou alguma outra coisa aleatória como essa ocorra? Seria um pouco como acontecendo o passo em falso no programa de Willie.

Willie: Obrigado pelo lembrete.

Carlene: Desculpe, Willie.

Tad: Olhem, isso não teria nem de ser alguma coisa tão dramática quanto matar meu avô. Eu poderia pisar num besouro ou esmagar uma folha de grama. Mesmo minha presença poderia alterar levemente o fluxo de ar. Para mim parece impossível que eu pudesse viajar no tempo para o passado sem alterar o passado. Se por nada mais, minha minúscula massa perturbaria levemente aspectos do contínuo espaçotemporal, resultando em algum tipo de mudança no mundo. Uma vez que é impossível mudar o passado, parece que eu não posso possivelmente de viajar no tempo, e nem pode nosso psi-lepton.

Willie: Tad, você está dizendo que poderia matar seu avô porque você tem o que é necessário para fazê-lo, mas você não pode matá-lo porque ao fazê-lo muda o passado. E você afirma que essa aparente contradição exclui a possibilidade de viajem no tempo.

Tad: Sim, absolutamente.

Willie: Certo, mas tomemos outro exemplo. Digamos que eu estou carregando muitas mantimentos para casa, eu chego à porta, e digo, “Você se importaria de me ajudar? Eu não posso abrir a porta.” Por um lado, parece que eu disse alguma coisa verdadeira. Por outro lado, [27]parece que eu poderia muito bem abrir a porta porque eu abria-a centenas de vezes.

Tad: Como é que isso em absoluto equivale a meu exemplo?

Carlene: Eu acho que sei como eles são similares. Willie não pode atravessar a porta fechada enquanto carregando uma carga completa de mantimentos, mas ele pode atravessar a porta quando ele não está tão sobrecarregado. Ele também poderia, se ele tivesse braços mais longos, ou se ele tivesse superpoderes. Em nosso exemplo, Tad, nós poderíamos dizer que seria possível para você matar seu avô se nós não tivéssemos levado em conta o fato de que ele morreu de outra causa mais tarde, que ele tornou-se pai de seu pai, e tudo isso. Mas relativo a todas essas coisas que nós levamos em contra sobre o caso, não, você não pode.

Tad: Parece-me que vocês estão usando alguma estranha definição de ‘poder’. Eu somente quis dizer o velho e simples ‘poder’, como em ‘possível’.

Willie: A Dra. Rufus está certa. Quando você diz, “X não pode acontecer”, você normalmente não quer dizer que não há absolutamente nenhuma maneira logicamente possível para que X aconteça; há possibilidades iguais onde as leis da física sejam diferentes. Se ‘não pode’ fosse para excluir todas as possibilidades, nós quase nunca o usaríamos. Como ‘X não pode acontecer’ na realidade parece funcionar é para indicar que não há maneira possível de que X ocorra enquanto outros fatos pertinentes valerem. O que esses fatos são depende das características da conversa.

Tad: Certo, então se ‘não pode’ significa que não há possibilidade da ocorrência do evento enquanto certos outros fatores valerem? Se eu viajar ao passado, eu ainda igualmente posso e não posso matar meu avô.

Willie: Eu não penso assim. Ou você pode ou você não pode, mas qual depende dos fatos que são tomados como dados. Você pode matar seu avô somente dado o fato de que você está bem armado, mas não dados os fatos sobre como ele realmente morreu, digamos, de velhice. Você obviamente não pode matá-lo, dado o fato de que você não o matou. Realmente não importa que você – o neto dele – é o alguém [28]tentando matá-lo; o mesmo se aplica a qualquer um tentando matar seu avô num momento em que ele não foi morto. Seu cenário não origina uma contradição. Seria um problema somente se você igualmente o matasse e não o matasse dados os mesmos fatos, mas esse não é o caso.

Tad: Mas quando eu saio de minha máquina do tempo e curvo aquela folha de grama, eu mudei o passado!

Carlene: Eu discordo. Você causou a folha de grama a ficar curvada, mas isso não é mudar o passado, a menos que aquela folha de grama não fosse curvada naquele momento no passado.

Willie: E foi curvada, se sua história é para ser consistente. Não tente contar-nos que era tão reta quanto uma flecha naquele momento da primeira vez, mas foi curvada em torno da segunda vez. Isso realmente é uma história contraditória, mas não há razão para pensar que viajem no tempo é como isso. Se aquela folha de grama estava curvada daquela vez, então sempre esteve curvada daquela vez.

Tad: Bem, se nós não podemos mudar o passado, no que aqueles ciborgues estavam pensando em Terminatoro filme que você pensa que é consistentequando eles enviaram de volta um exterminador para matar Sarah Connor?

Willie: Essa é uma das coisas que eu não gosto sobre o filme. Não há contradição, mas os ciborgues raciocinaram pobremente ao pensar que eles poderiam prevenir alguma coisa que eles sabiam ter acontecido. Mas como eu disse ontem, o que você espera de ciborgues? É lamentável que isso forneça a premissa básica para o resto da história. É raro um filme de viajem no tempo que reconheça nossa inabilidade para mudar o passado, embora haja a joia da ficção científica, 12 Monkeys.

Tad: O que acontece?

Willie: Um homem, James Cole, viaja de volta no tempo. Ele é enviado de 2035 para determinar as origens de um vírus mortal que afligiu a humanidade em 1996, o que conduziu os sobreviventes para baixo da terra. Seu objetivo é levar uma amostra do vírus puro para o futuro, para estudar e, esperançosamente, descobrir uma vacina.

[29]Tad: Mas se a vacina é descoberta, então as mortes de 1996 poderiam ser prevenidas depois que elas ocorreram, o que leva a uma contradição.

Willie [interrompendo]: Espere, isso não é o que ele estava fazendo. Os cientistas sabiam que eles não poderiam salvar as vidas daqueles que já estavam mortos; eles apenas queriam fazer uma vacina para prevenir mais mortes e permitir às pessoas habitarem novamente a superfície da Terra.

Tad: Certo, isso faz sentido suficiente, mas está começando a soar como se eu tivesse de pisar naquela folha de grama enquanto eu saísse da máquina do tempo, o que é louco demais mesmo para considerar.

Willie: Por que é assim tão louco?

Tad: Presumivelmente não há nada para agarrar meu pé e puxá-lo para baixo sobre aquela folha de grama; nada estaria forçando-me a pisar sobre ela. Como pode ser verdadeiro que eu teria de pisar sobre aquela folha de grama? Se ela teria de ficar curvada, não é mesmo claro como eu poderia ter causado-a a ficar curvada. Soa como se tivesse de ficar curvada não importa o que eu fizesse.

Willie: A linguagem é complicada aqui. Quando nós dizemos, “Teria de ficar curvada” ou “Você teria de pisar nela”, nós estamos tomando como certo que você pisou nela. Nós estamos dizendo algo muito trivial, realmente: dado que você pisou sobre ela, você tem de pisar nela. Nós igualmente podemos dizer que, dado que a grama está curvada, a grama deve ser curvada. Essas são afirmações realmente triviais.

Tad: Mas eu não precisaria! Ninguém estaria forçando-me.

Willie: Esqueça a viajem no tempo por um segundo. Dado que você lavará seu copo de café depois, você terá de lavá-lo. Não há nada misterioso sobre isso. Não implica a existência de forças manipulativas; é apenas algo que você fará. E é o mesmo com o caso da viajem no tempo: dado que você pisou sobre a grama, você terá de pisar sobre ela.

[30]Tad: Mas eu poderia decidir saltar da máquina do tempo, em vez de descer, e deixar escapar a grama completamente.

Willie: Bem, talvez você pudesse.

Carlene: Espere um minuto, Willie. Agora soa como se você estivesse contradizendo a si mesmo. Qual é? Poderia ele saltar sobre a folha de grama ou não?

Willie: Como eu disse, é complicado. Não se esqueça de meu problema carregando mantimentos. Poderia eu ter aberto aquela porta ou não? É uma questão simples responder quando é claro o que está sendo tomado como certo. Eu claramente disse alguma coisa verdadeira quando eu disse, “eu não posso abrir a porta”, mas há outros contextos onde não é tomado como garantido que eu esteja carregando com uma carga pesada e desajeitada de mantimentos. Relativo a esses outros contextos, é verdadeiro dizer, “Willie pode abrir a porta”. Afinal, eu não necessitaria nada mais do que braços levemente mais longos, um pouco mais (a tad)perdoe o trocadilhode força na parte superior, ou ser capaz de baixar os mantimentos. Usar ‘poderia’ no lugar de ‘pode’ sugere educadamente que uma mudança de contexto é necessária, que nós deveríamos colocar em jogo algumas possibilidades mais remotas.

Tad: Eu apenas ignorarei solenemente seu trocadilho.

Willie: Veja, Carlene, você perguntou se Tad poderia ter saltado para fora da máquina. Certo, ele poderia ter, mas ele pode? Essa é uma questão difícil de responder quando não é claro o que está sendo tomado como garantido. Se você supõe que Tad pisou sobre a grama há alguns anos de qualquer maneira, que ele desceu da e não saltou da máquina do tempo, então ele obviamente deve ter descido. Quando confrontado com a saída da máquina do tempo, ele não pôde saltar para fora. Se nós não supomos que Tad pisou sobre a grama, contudo, se tudo que nós supomos é que Tad tem a parcela normal de capacidades humanas, que não há nada o coagindo a fazer coisa alguma, e que nós também não temos ideia como as coisas ocorreram, então ele pode sair da máquina do tempo de todos os tipos de maneiras. Ele pode mesmo decidir que o passado parece assustador e nunca deixar a máquina do tempo.

[31]Tad: Agora isso começa a soar como não fato do assunto sobre o qual eu sou capaz de fazer [algo].

Willie: Não é isso o que eu estou dizendo.

Tad [interrompendo]: Espere, Willie, não diga coisa alguma. Eu estou muito cansado para continuar com isso. Você não me convenceu, mas minha cabeça está começando a doer. Professora, nós terminamos aqui? Se sim, eu estou indo diretamente para casa.

Carlene: Isso soa como uma boa ideia. Eu verei vocês dois no almoço amanhã.


Dia seguinte


ORIGINAL:

Carroll, John W., et al., A Time Travel Dialogue. Cambridge, UK: Open Book Publishers, 2014. http://dx.doi.org/10.11647/OBP.0043 pp.15-31.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1Para ver uma animação de quaisquer das ilustrações online de Terça-feira visite www.openbookpublishers.com/isbn/9781783740376#resources

Nenhum comentário:

Postar um comentário