domingo, 26 de julho de 2020

Uma Introdução à Filosofia da Mente 1 Dualismo Substancial em Descartes

Por Paul Richard Blum


1.1 INTRODUÇÃO


René Descartes (1596-1650) foi um filósofo francês que é frequentemente estudado como o primeiro grande filósofo na época da “filosofia moderna”. Ele é o mais famoso proponente de uma visão chamada de “dualismo substancial”, a qual afirma que a mente e o corpo são duas substâncias diferentes. Enquanto o corpo é material (corpóreo), a mente é imaterial (incorpórea). Essa visão deixa espaço para almas humanas, as quais são usualmente entendidas como imateriais. Descartes argumentava, com base em visões cristãs, que as almas são imateriais e podem existir separadas do corpo, mas ele enfatizava que somente a mente é imaterial, ao passo que as outras funções tradicionais das almas podem ser explicadas por operações corpóreas. Sua visão e argumentos foram tão influentes que depois dele muitos filósofos referiram-se ao dualismo substancial sob o nome de Descartes como “dualismo cartesiano”. Em sua explicação da mente, da alma, e da habilidade dos humanos para entenderem o mundo ao redor deles através dos poderes de suas mentes, Descartes permanece uma das mais influentes figuras não apenas da filosofia moderna, mas ao longo da história da filosofia. Mesmo na era contemporânea, filósofos tais como Gilbert Ryle (1900-1976) encontraram valor escrevendo sobre e argumentando contra as visões de Descartes para estabelecerem suas próprias teorias. Ryle questionava se a mente e corpo são de fato distintos e argumentava que eles não se comunicariam um com o outro se eles fossem. Ryle declara:


Corpo e mente estão ordinariamente atrelados juntos … [As] coisas e eventos que pertencem ao mundo físico … são externas, enquanto que o funcionamento da própria mente de [uma pessoa] é interno … [Isso resulta na] representação parcialmente metafórica da bifurcação das duas vidas de uma pessoa”. (1945, 11-16)


Ryle afirmava que, se a teoria de Descartes fosse correta, a mente seria um mero “fantasma numa máquina”, inativa e incapaz de causar ações no corpo (a máquina). Ryle não chamou a teoria de Descartes de “dualismo substancial” mas de “mito de Descartes”. Os argumentos de Descartes para o dualismo substancial e a natureza imaterial da mente e alma são, portanto, primordiais para qualquer investigação de filosofia da mente, e ainda estão sendo debatidos em teorias contemporâneas. Por outro lado, com sua interpretação do que ele chama de paixões (a maioria das operações do corpo vivo), ele também fornece incentivos para um fisicalismo não dualista da mente.


1.2 O CONCEITO TRADICIONAL DE SUBSTÂNCIA


A filosofia cartesiana da mente foi uma resposta à erosão da tradicional concepção aristotélica de substância após a idade média. De acordo com a visão aristotélica, qualquer substância é composta de matéria que é determinada pela forma que é sua essência. Assim cada coisa viva é um corpo unido com sua alma (a saber, o que torna viva tal ou tal coisa). Em outras palavras, um animal é um corpo animado. A alma de um cão torna aquele monte de carne e ossos um cão. O caso peculiar dos seres humanos é que sua alma também é um intelecto: a mente racional. Nesse caso, então, a alma (e certamente a mente) é algo outro que o corpo; é não material (ou incorpórea) por que ela dá forma e anima o corpo material. Assim surge a questão: é a alma (ou ao menos a mente humana) alguma coisa que existe sozinha?

Na tradicional abordagem aristotélica, a forma de um barco (o que o faz parecer-se com um barco e faz o corpo do barco flutuar sobre a água) não é nada separado do navio, exceto que podemos ter um conceito dele se não houver barco por perto. E quanto à forma de uma planta ou um animal? A forma de plantas e animais é a alma deles. Quando eles são destruídos, a forma deles que os fazia viver (com crescimento, movimento e sentidos) está perdida. Com seres humanos, isso poderia ser diferente: a mente pode sobreviver à morte do corpo. Alguns pensadores antigos argumentaram que a mente ou a alma sobrevive à morte e entra em outro corpo, seja esse de uma pessoa ou uma fera: a transmigração das almas ou reencarnação. A teoria cristã dos humanos ensina que a alma de um indivíduo é criada ao mesmo tempo que a pessoa; contudo, ela vive após a morte da pessoa: o intelecto humano é imaterial e imortal. Essa é a razão porque alguns cristãos veneram santos e porque alguns ocultistas invocam pessoas mortas para conversar.

A essência das coisas (quer um artefato como um barco ou a alma das plantas, animais e humanos) era denominada da “forma substancial” da coisa. As formas constituem e expressam a substância das coisas. A forma substancial da coisa torna a coisa o que ela é, e torna possível concebê-la e conhecê-la.

Aqui é onde Descartes começa sua teoria das substâncias. Em uma carta a Henricus Regius (1598-1679), Descartes afirma que ele não rejeita as formas substanciais mas considerara-as “desnecessárias para estabelecer minhas explicações(AT III492, CSM III 205).1 Ele claramente as vê como uma mera ferramenta de explicação que pode ser substituída por outra melhor. Em vez disso, Descartes sugere que qualquer coisa material é somente um agregado de qualidades e propriedades. Ele argumenta, na mesma carta, contra o hábito de aplicar “forma substancial” quando definindo o ser humano. Ele adverte que falar de forma substancial igualmente para humanos e coisas materiais conduz ao risco de compreender mal a alma como alguma coisa corpórea e material. Em vez disso, ele sugere limitar o termo “forma substancial” à alma humana imaterial apenas, para enfatizar que a natureza da lama é “bem diferente” da essência das coisas que “emergem da potencialidade da matéria”. Ele diz que “Essa diferença de natureza abre a rota mais fácil para demonstrar a não materialidade e imortalidade [da alma]” (AT III 503, 505; CSM III 208). De modo a elevar a alma a um nível acima das coisas corpóreas, ele rebaixa as coisas não humanas a meros resultados da matéria. Essa carta mostra as preocupações primárias de Descartes estavam com o método mais do que com os fatos e que ele visa separar os campos materiais de conhecimento da alma.


1.3 A NATUREZA IMATERIAL DA ALMA


Descartes tenta reconciliar o ter uma alma imaterial no interior de uma estrutura amplamente científica (e fisicalista). Isso leva a algumas reviravoltas surpreendentes dentro de sua teoria, que é bem diferente das teorias anteriores sobre substâncias. Fundamentalmente, a visão de Descartes é dualista porque, embora ele torne todas as substâncias terrenas materiais (e inteligíveis pela ciência), uma coisa permanece que é uma verdadeira substância imaterial com uma essência: a alma humana. Animais e corpos humanos, porque eles são partes do mundo físico, estritamente não são substâncias com essências; eles são mais apropriadamente agregados. Ele argumenta a partir do que sabemos (epistemologia) em vez do que existe (metafísica), e esse método dirige suas visões sobre substâncias.

A partir do começo mesmo de sua pesquisa, Descartes visou à competência do pesamento para verificar conhecimento, e ao fazê-lo ele escreveu Rules for the Direction of the Mind em busca pela certeza na ciência. Posteriormente, essa visão seria chamada de “racionalismo” porque ela priorizava as funções do intelecto, imaginação, percepção sensorial e memória. O racionalismo influenciou uma longa linhagem de filósofos, do começo ao fim da era moderna até a época contemporânea em filosofia. Posteriormente, ele recomendaria uma redução do conhecimento humano a partir de simples conceitos e proposições. Esse método, como exposto na Regra XII, conta com a mente humana como um “poder”. Ele afirma:


Quanto aos objetos do conhecimento, é suficiente se examinarmos as três questões seguintes: O que se apresenta espontaneamente a nós? Como uma coisa pode ser conhecida com base em outra coisa? Que conclusões podem ser extraídas a partir de cada uma dessas questões?


Note a ênfase no entendimento do conhecimento objetivo. A questão não é “O que é?” mas “Como aparece para mim?” e “Como se conecta com o que conheço?” Investigar a natureza da mente é de importância primária. O conhecimento dos objetos mesmos ocupa o banco de trás em relação ao funcionamento interno da mente.

Descartes descreve o intelecto como “o poder através do qual conhecemos coisas em sentido estrito, [que] é puramente espiritual, e é … distinto do corpo inteiro”. Explicar esse poder é difícil; Descartes esclarece que “nada realmente como esse poder pode ser encontrado em coisas corpóreas”. É o intelecto que se aplica a ver, tocar e assim por diante; e somente ele pode “agir por conta própria, quer dizer, entender. Embora isso possa parecer ser uma bagatela, Descartes não faz nenhuma afirmação positiva aqui, apenas modera tudo com [um] “é dito” (dicitur): a mente “é dita” ver, tocar, imaginar ou entender. O que conta é que esse poder mental pode ser igualmente [o de] receber dados sensoriais e [o de] referir-se a temas que não têm nada de corpóreo em absoluto (AT X 410-417, CSM I 39-43).

Em seu último trabalho, The Passions of the Soul, Descartes foca-se naquelas atividades que não são pensamentos em sentido abstrato, mas “paixões”: “essas percepções, sensações ou emoções da alma às quais particularmente nos referimos” (AT XI 349, CSM I 338f., art. 27). O corpo tem um número de funções (movimento, por exemplo); e a alma tem duas funções básicas, a saber, volição e percepções. Volições são atividades, já que percepções são movimentos passivos que não se originam da alma mesma (AT XI 349, CSM I 338f., art. 17). Se uma pessoa deseja algo ou resolve fazer algo, isso é uma atividade da alma; se uma pessoa vê ou ouve algo, essa impressão não vem de dentro, mas de fora — a alma é afetada em vez de ativa. Essa alma não é um membro do corpo; portanto, tem a propriedade surpreendente de não ter nenhuma localização no corpo, mas estar “realmente junta ao corpo todo” precisamente por ser sem local, não extensa e imaterial. Por um lado, Descartes reitera o tradicional entendimento aristotélico de dotação de alma (ensoulment) (a alma como forma abreviada para a vida da coisa animada); por outro lado, ele está aplicando o conceito de corpo como um organismo inteiro: uma vez que a alma está unida ao corpo como um todo, corpo e alma juntos parecem ser um organismo. O organismo é um conjunto (“assemblage”) de função material (AT XI 351, CSM I 339, art. 30). Uma explicação estritamente fisicalista e não dualista das sensações e percepções está à espreita em segundo plano. Sob uma visão fisicalista (isto é, materialista), tudo (incluindo a mente) pode ser explicado fisicamente; não há necessidade para se referir a qualquer coisa fora da física. As apostas são altas para uma filosofia da mente, porque conceber o corpo como um organismo poderia levar a explicar todos os movimentos físicos como [o] mero funcionamento das partes do corpo. Descartes move-se corajosamente nessa direção.

As questões que ele responde em seu tratado, The Passions of the Soul, antes de classificar e explicar as seis paixões básicas, são: como essas paixões corporais são levadas à mente e como a mente impacta as funções corporais devido à emoção? Para responder essas questões, Descartes emprega o conceito estoico de espíritos animais. De acordo com a teoria estoica, um corpo tênue, localizado no cérebro, une a mente com as operações corporais. Essa visão estava en vogue no começo do século dezessete, por exemplo, em Tommaso Campanella (1568-1639)(1999). Os espíritos animais de Descartes são “um certo ar ou vento muito fino” que vem e vai entre o cérebro e as partes do corpo (AT XI 332, CSM I 330, art. 7; Sepper 2016, 26-28). Eles precisam ser como pequenos mensageiros que viajam entre as partes do corpo e a mente e parecem entender ambas as linguagens do corpo e da mente. Eles são chamados de “espíritos”, mas são expressamente descritos como copos muito finos vindos do sangue. De modo a tornar isso plausível, um exemplo de Descartes ajudará.


a admiração (wonder) é uma surpresa súbita da alma … ela tem duas causas: primeiro, uma impressão no cérebro, a qual representa o objeto como algo incomum e consequentemente digno de consideração especial; e segundo, um movimento dos espíritos, cuja impressão dispõe ambos a fluírem com grande força para o lugar no cérebro onde está localizado de modo a fortalecer e preservá-lo ali, e também entrar nos músculos que servem para manter os órgãos do sentido fixos na mesma orientação, de modo que eles continuarão a manter a impressão da maneira que eles formaram-na”.(AT XI 380f., CSM I 353, art. 70)


Mas como esses minúsculos espíritos funcionam para se comunicar com a mente? Descartes aponta para a glândula pineal, a qual era a única parte do cérebro que ele sabia não vir em pares. Essa glândula, contudo, não é onde Descarte clama que a alma reside; a alma mesma não tem localização em absoluto e está unida ao corpo como um todo. Em vez disso, os finos espíritos que enchem as cavidades do cérebro usam a glândula para unir as imagens e outras impressões sensíveis; e é aqui onde a mente “exerce sua função mais particularmente do que em outras partes do corpo” (AT XI 353f., CSM I 339f., art.30f). Os espíritos animais medeiam entre corpo e mente.

Somos deixados com uma explicação aparentemente estritamente fisicalista de uma grande parte da atividade mental em uma concepção fortemente dualista de mente.2 Pois a alma é uma substância de natureza totalmente diferente do corpo. Além disso, as assim denominadas de “faculdades inferiores” da alma (crescimento, movimento e sensações), as quais estão igualmente presentes em animais, são removidas da definição de alma humana e atribuídas ao corpo como um organismo. Tradicionalmente, o pensamento tem sido privilégio da parte intelectual da alma. Em Descartes, alma significa “mente racional”. Em seu trabalho das Passions, Descartes explicitamente se remete a anatomia e fisiologia da circulação do sangue de seu antigo Discourse on Method, onde ele também depende dos espíritos animais quando apresentando seu projeto de pesquisa em ciência natural (AT VI 54, CSM I 138, parte 5). Consequentemente, The Passions of the Soul, em princípio, não se desviam do programa do Discourse.

Na Parte 5 do Discourse, Descartes explicitamente separa as funções que comumente são atribuídas à mente para longe da alma própria. Mesmo a fala pode ser encontrada em animais, enquanto não seja nada senão um indicador de algumas paixões e, por isso, pode ser imitada por máquinas.3 Enquanto essas funções podem ser comparadas a um relógio, a alma não pode ser reduzida à matéria (AT VI 58f., CSM I 140f). Os corpos humano e animal são como robôs que desempenham atividades, incluindo percepção sensorial e comunicação. A mente vem em adição à máquina. Por isso a crítica de Gilbert Ryle de que a mente é um mero “fantasma na máquina”.

O que nós descobrimos no Discourse é o encontro do Descartes cientista com o Descartes filósofo do conhecimento. As antigas Rules investigaram a ordem do pensamento pelo bem de interpretações confiáveis da realidade; as posteriores Passions executaram isso de uma maneira paradigmática e mostraram até que ponto o pensamento metódico pode alcançar conhecimento científico de uma das áreas de investigação mais inseguras, as emoções humanas. O Discourse une ambos os esforços. Ele enfatiza o método.


1.4 A CAMINHO DO DUALISMO SUBSTANCIAL


Descartes cogitava uma noção de corpo, e de matéria no geral, que escapa à tradicional terminologia de substância. O famoso cogito ergo sum de Descartes, frequentemente traduzido como “eu penso, portanto eu sou”, identifica o pensamento como a essência de qualquer coisa que pensa. O que é importante para a noção de substância é que o conteúdo do que aquela coisa é permanece deliberadamente em aberto. Em uma carta, Descartes clama que nada material pode ser conhecido seguramente como existente, ao passo que “a alma é um ser ou substância que em absoluto não é corpórea, e cuja substância é exclusivamente pensar” (AT I 353, CSM III 55). Descartes hesita entre o uso de termos tais como “ser”, “substância” e “natureza” (estre, substance, nature), os quais indicam que ele não está comprometido com a terminologia e os conceitos tradicionais filosóficos de seu tempo. Há uma substância incorpórea que existe por meio da realização do pensamento, e isso é tudo o que a mente pode conhecer.

O método de Descartes aproxima-se de algo como dualismo da substância no desenvolvimento posterior de suas teorias. Nas Meditations on First Philosophy ele elabora o experimento mental de reduzir a mente ao mero pensamento. O principal propósito desse texto é provar que a alma é imaterial (se não imortal). A redução da alma à mente produz a certeza do “eu sou, eu existo” o qual é necessariamente verdadeiro, sempre que for mentalmente concebido (AT VII 25, CSM II 17; 2nd med.) Uma vez mais vemos a mente garantindo sua própria existência. Após contrastar essa existência com aquela de particulares e objetos corporais, Descartes declara que “eu sou, então, no sentido estrito, somente uma coisa que pensa” (AT VII 27, CSM II 18). Na sexta meditação, Descartes distingue objetos materiais da mente e salienta:


Eu tenho uma ideia clara e distinta de mim mesmo, na medida que eu sou simplesmente uma coisa que pensa, não extensa (res cogitans, non extensa); e por outro lado eu tenho uma ideia distinta do corpo, na medida que é simplesmente uma coisa extensa, não pensante (res extensa, non cogitans).” (AT VII 78, CSM II 54)


Essa conversa de coisa pensante versus coisa extensa (res cogitans vs. res extensa) sugere um claro dualismo de mente e corpo. Eles são substâncias mutuamente exclusivas que parecem compor o mundo. Nesse ponto, a quarta objeção às Meditations, levantada por Antoine Arnauld (1612-1694), deve ser levada em conta aqui. Arnauld supõe que ou Descartes está tomando o partido dos platônicos, que sustentavam que a alma é o componente único de um ser humano e que usa o corpo como uma ferramenta, ou ele está oferecendo uma abstração tradicional como os geômetras fazem, que abstraem figuras a partir da realidade complexa (AT VII 203f., CSM II 143). Platônicos tendem a negar a dignidade das coisas materiais e ver todas as coisas como resultados do espírito; geômetras lidam com meras abstrações (como qualquer um que tenta desenhar um círculo perfeito sabe). Em ambos os casos o dualismo seria dissolvido. Em resposta, Descartes admite que essa interpretação é possível mas insiste que a distinção real entre mente e corpo ó resultado de meditação atenta (AT VII 228f., CSM II 160f).


1.5 REMODELANDO O CONCEITO DE SUBSTÂNCIA


Como apontado repetidamente, Descartes está trabalhando com e ao redor da terminologia filosófica tradicional enquanto tenta escapar dela. Portanto, vale a pena ver como ele define “substância” em seus Principles of Philosophy. Uma interpretação é que substância significa “existência independente” e consequentemente se aplica somente a Deus, que é definido como perfeito e não dependente de nada. Contudo, no mundo material, nós aprendemos sobre substâncias através das propriedades que aparecem para nós. Nós não vemos um lago como uma substância; o que vemos é a superfície brilhante de água, circundada pela margem, a qual nos leva a perceber o lago. Os “principais atributos” do corpo e da mente são notavelmente extensão e pensamento, respectivamente (AT VIII 24f., CSM I 210f., seções 51-53). Descartes foi cuidadoso para não concluir apressadamente sobre a existência atual de substâncias materiais separadas de seus atributos. Consequentemente, ele usa a imprecisa palavra “coisa” quando se referindo a ele mesmo como uma coisa pensante. O termo latino é res. Como “coisa” em português moderno, res não tem nenhuma pretensão ontológica que seja, isto é, quando dizemos “coisa” evitamos explicar o que queremos dizer e se é real. É o “algo” para o qual a linguagem aponta sem dizer o que é.4

Podemos concluir que Descartes estava consciente da tentação de apresentar mente e corpo como substâncias em competição e cooperação e que tenteou escapar do dualismo, não somente porque qualquer dualismo necessita de alguma mediação, como prova o envolvimento dos espíritos animais, mas também e primeiramente por causa de suas deficiências explicativas. Por um lado, sua visão parece abraçar o dualismo que vem com linguagem herdada (por exemplo, do platonismo e aristotelismo). Por outro lado, se o problema filosófico da mente é o do entendimento do conhecimento humano, então o entendimento precisa ser acessível a seres materiais e não dentro do reino do imaterial. Portanto, Ryle estava certo que Descartes errou na tarefa de entender a mente.

Para resumir os principais pontos sobre o papel de Descartes na filosofia moderna da mente e especificamente no dualismo substancial: Descartes inicialmente visava provar que a alma humana é imaterial (como a doutrina cristã ensina); para esse propósito, ele enfatizava a certeza do pensamento racional, sua independência do corpo e de objetos materiais. Isso levou-o à questão (ainda debatida) de como a mente pode funcionar com o corpo no processo de percepções sensoriais, sentimentos, etc. Sua resposta comprometeu-se com a teoria dos “espíritos animais”, corpos tênues que vão e vem entre a mente e os órgãos. Como uma consequência, ele explicou uma grande quantidade de funções intelectuais (percepções emoções, etc.) em termos puramente físicos. Ao mesmo tempo, ele enfatizou a imaterialidade do pensamento. Em terminologia tradicional filosófica, isso significou a teoria de duas substâncias totalmente distintas: mente e corpo. Contudo, deve ser notado que Descartes enfraqueceu o conceito de substância e reduziu-o a algo deliberadamente vago. Portanto, filósofos que se agarram à noção de substância como uma realidade encontrarão o dualismo substancial em Descartes; outros, que se focam em suas tentativas de explicar operações mentais como percepções e sentimentos em termos corpóreos, descobrir-lhe-ão ser um proponente do fisicalismo.


REFERÊNCIAS


Adam, Charles and Paul Tannery, eds. 1964-1976. Oeuvres de Descartes. Paris: Vrin.

Campanella, Tommaso. 1999. Compendio di filosofia della natura, eds. Germana Ernst and Paolo Ponzio, sect. 61, 222. Santarcangelo di Romagna: Rusconi.

Cottingham, John G., Robert Stoothoff, Dugald Murdoch, and Anthony Kenny, trans. 1985-1991. The

Philosophical Writings of Descartes, 3 vols. Cambridge: Cambridge University Press.

Ryle, Gilbert. 1949. The Concept of Mind. London/New York: Hutchinson’s University Library: 11-16.

Sepper, Denis L. 2016. “Animal Spirits.” In The Cambridge Descartes Lexicon, ed. Lawrence Nolan, 26-28. New York: Cambridge University Press.


LEITURA ADICIONAL


Ariew, Roger. 2011. Descartes among the Scholastics. Leiden/Boston: Brill.

Cottingham, John. 1992. “Cartesian Dualism: Theology, Metaphysics, and Science.” In The Cambridge Companion to Descartes, ed. John Cottingham, 236-57. Cambridge: Cambridge University Press.

Hassing, Richard F. 2015. Cartesian Psychophysics and the Whole Nature of Man: On Descartes’s Passions of the Soul. Lanham: Lexington Books.

Markie, Peter. 1992. “The Cogito and Its Importance.” In The Cambridge Companion to Descartes, ed.

John Cottingham, 140-73. Cambridge: Cambridge University Press.

Ruler, Han van. 1999. “‘Something, I Know Not What’. The Concept of Substance in Early Modern Thought.” In Between Demonstration and Imagination: Essays in the History of Science and Philosophy Presented to John D. North, eds. Lodi Nauta and Arjo Vanderjagt, 365-93. Leiden: Brill.

Specht, Rainer. 1966. Commercium mentis et corporis. Über Kausalvorstellungen im Cartesianismus. Stuttgart-Bad Cannstatt: Frommann-Holzboog.

Voss, Stephen. 1993. “Simplicity and the Seat of the Soul.” In Essays on the Philosophy and Science of René Descartes, ed. Stephen Voss, 128-41. New York: Oxford University Press.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BLUM, P. R. 1. Substance Dualism in Descartes. In: SALAZAR, H. et all (Org.) Introduction to Philosophy: Philosophy of Mind. Rebus Community: 2019. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-of-mind/chapter/substance-dualism-in-descartes-2/>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 Os trabalhos de Descartes são citados a partir da edição francesa padrão C. Adam and P. Tannery (eds.), Oeuvres de Descartes. Paris: Vrin, 1964-1976, “AT” com volume e número de página; a tradução inlgesa padrão J. G. Cottingham, R. Stoothoff, D. Murdoch, and A. Kenny (trs.), The Philosophical Writings of Descartes, 3 vols. Cambridge: Cambridge University Press, 1985-1991, “CSM” com volume número de página.

2 Cf. as “Quintas Respostas” nas Meditations, AT VII 230, CSM II 161.

3 Isso soa como uma antecipação do “[argumento do] Quarto Chinês” de John Searle: a troca de signos não implica pensamento (ver capítulo 3).

4 É digno de nota, talvez, que a versão latina da famosa afirmação no Discourse “A partir disso eu sabia que eu era uma substância…” modificou “substância” adicionando “algum tipo de coisa ou substância”. Desse modo o autor assinalava seu afastamento do entendimento tradicional de substância para um genérico “algo” (AT VI 558: “rem quondam sive substantiam”).

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